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terça-feira, 18 de julho de 2017

Je Ne Parle Pas Français, de Katherine Mansfield

Resultado de imagem para livro je ne parle pas françaisTítulo Original: Je Ne Parle Pas Français
Autora: Katherine Mansfield
Tradutora: Juliana Cupertino
Editora: Revan
Edição: 2ª edição, 1ª reimpressão
Copyright: 1974
ISBN: 9788571060685
Gênero Literário: Contos
Origem: Literatura Inglesa
Bibliografia da autora: In a german pension (Numa pensão alemã), 1911; The garden party and other stories (A festa e outros contos), 1922; The dove’s nest and other stories Ninho de pomba e outros contos), 1923; Bliss and other stories (Felicidade e outros contos), 1923; Poems, 1923; Something childish, 1924; The journal of Katherine Mansfield, 1927; The letters of Katherine Mansfield (dois volumes), 1928/1929; The Aloe, 1930; Novels and novelists, 1930; The short stories of Katherine Mansfield, 1937; The scrapbook of Katherine Mansfield, 1939; The collected stories of Katherine Mansfield, 1945; Letters to John Middleton Murry, 1913-1922; The urewera  notebook, 1978; The critical writings of Katherine Mansfield, 1987; The collected letters of Katherine Mansfield, (4 volumes), 1984-1996.

Katherine Mansfield nasceu Kathleen Mansfield Beauchamp, em 14/10/1888, em Wellington, Nova Zelândia Britânica – hoje Nova Zelândia. Nascida em família colonial, era filha de um banqueiro e prima da autora Condessa Elizabeth von Armim. Em criança teve uma infância solitária e alienada. Seus primeiros escritos apareceram no High School Journal e na revista do Colégio para Garotas de Wellington, em 1898 e 1899. No ano de 1902, Katherine mudou-se para Londres, frequentando o Queen’s College. O curioso é que ela não mostrava interesse, inicialmente, pela literatura; era violoncelista de talento. Somente a partir de sua volta para a Nova Zelândia, em 1906, que se interessou pela arte de escrever contos. Enfastiada pela vida naquele lugar, Mansfield retorna a Londres em 1908. Aí participa do famoso Grupo de Bloomsbury – um grupo formado por vários artistas com uma proposta nitidamente antivitoriana, conhecida por ter valores sociais muito rígidos e formais. Entrega-se, como era muito usual ao grupo contestatório, a relações bissexuais e à vida boêmia.
Em um período de apenas três semanas, conheceu seu primeiro marido, George Bowden, casou-se e separou-se dele. A escritora ficou grávida de uma relação com o violonista profissional e seu amigo, Garnet Trowell. Katherine perde o bebê em 1909. Ao retornar à Inglaterra, publica seu primeiro trabalho, In a german pension (Numa pensão alemã), sob o nome modificado de Katherine Mansfield. Neste período, ela acaba por contrair gonorreia, o que a faz sofrer de uma artrite pelo resto de sua curta vida, além de ela passar a se considerar “uma mulher suja”. Katherine Mansfield morre a 09/01/1923, aos 34 anos de idade (com provavelmente tuberculose).
Demorei-me um pouco mais na biografia dessa autora exatamente por ela ser pouco conhecida no Brasil. Eu mesmo já tinha ouvido falar de Katherine Mansfield, em uma ou outra obra crítica, mas nunca havia lido nada dela antes. Na verdade, meu contato com nossa autora se deu quando resenhei, para este blogue o livro de Virginia Woolf, Mrs. Dalloway.  É que Mansfield e Woolf foram amigas, participantes do mesmo Grupo de Bloomsbury. Aliás, segundo consta, Virginia disse sentir inveja da qualidade da escrita da amiga.
É impressionante o silêncio em torno desta autora neozelandesa, no Brasil. Katherine Mansfield é uma contista – algo em torno de 88 contos formam sua bibliografia; talvez esteja aí o motivo pelo qual seja pouco conhecida entre nós: contos não fazem muito sucesso por terras brasileiras.
Je ne parle pas français e outros contos é o meu livro de entrada na literatura de Katherine. Compõem o volume: Na praia, A casa de bonecas, Cenas, Je ne parle pas français, O homem indiferente e A mosca. É impressionante a capacidade desta contista em, partindo de histórias com situações tão pequenas, do dia-a-dia, conseguir montar trabalhos tão bons. Utiliza algumas técnicas narrativas que serão, mais tarde, exploradas pela literatura modernista. Assim, temos o fluxo de consciência:
“De Lottie”, murmurou com brandura. “Pobre querida... tanto transtorno... pé esquerdo... Ela pensou... neurite... Doutor Blyth... pé chato... massagem... tantos pintarroxos este ano... criada muitíssimo satisfatória... coronel indiano... cada grão de arroz separado... tempestade de neve muito forte.” E seus grandes olhos iluminados ergueram-se da carta. “Neve, Robert! Imagine!” Ela tocou as violetinhas escuras e presas ao peito e voltou à carta.” (conto O homem indiferente, página 112)
Um bom exemplo de como Mansfield consegue extrair de uma situação corriqueira uma incrível carga dramática está no conto A mosca. Neste texto, um homem observa uma pequena mosca que caiu dentro do tinteiro que ele tem sobre a mesa. Resgata-a e a depõe sobre o mata-borrão e a observa:
“Ela é um demoniozinho corajoso, pensou o chefe. Sentia uma real admiração pela bravura da mosca. Aquele era o modo de atacar as coisas; aquele era o espírito correto. Jamais entregar os pontos; era tudo uma questão de... Mas a mosca havia novamente terminado sua laboriosa tarefa...” (conto A mosca, página 130)
Possivelmente, você, leitor pensou ao ler este trecho transcrito: peraí, já li alguma coisa neste mesmo tom... e, puxando pela memória, você terá um insight: já sei: Clarice Lispector! Brilhante argúcia, a sua, caro leitor! Clarice deixou seu depoimento por escrito:
“Com o primeiro dinheiro que ganhei, entrei, muito altiva, numa livraria para comprar um livro. Aí mexi em todos, e nenhum me dizia nada. De repente eu disse: ‘Ei, isso aí sou eu!’ Eu não sabia que Katherine Mansfield era famosa, descobri sozinha. Era o livro Felicidade.” (na apresentação Sofisticada Simplicidade, página 7)
A abertura do conto At the Bay (Na Praia) pode nos dar uma ideia do poder detalhista desta neozelandesa:
“De manhã bem cedo. O sol ainda não surgira, e Crescent Bay ocultava-se em meio à branca neblina que vinha do mar. As grandes colinas cobertas de arbustos, ao fundo, permaneciam enevoadas, e não se podia ver onde elas terminavam nem onde começavam as pastagens o os bangalôs. A estrada de areia desaparecera, assim como tudo o mais por trás dela, os pastos, as chácaras; mais além, não havia dunas brancas, cobertas de vegetação rasteira avermelhada. Nada que distinguisse o que era praia do que era mar. Um pesado orvalho havia caído. A grama estava azul. Grandes gotas a ponto de despencar pendiam dos ramos; o toi-toi prateado e peludo oscilava molemente em sua longa haste e, nos jardins das casas, a umidade curvava para o chão todos os malmequeres e cravos.” (conto Na Praia, página 13)
Habilmente, por meio da inserção de detalhes precisos e preciosos, Mansfield cria a tensão narrativa, seus personagens passam por verdadeiras epifanias (ou revelações), e conduz o interesse pela leitura até o desfecho. Nossa escritora tem vários dos seus contos incluídos entre as verdadeiras pérolas da literatura de todos os tempos. E como é difícil, leitor, escrever contos! Eles têm de ser uma narrativa equilibrada; nada de personagens demais, nada de underplots (sub-enredos que convergem para o plot). É quase sempre, pelo menos entre os mestres do assunto, um texto enxuto, com uma respiração própria que se acelera rapidamente para de novo relaxar-se ao final.
No Brasil, a editora Revan mantém cinco coletâneas de contos de Mansfield em constante disponibilidade: A Festa e Outros Contos, Aula de Canto e Outros Contos, Je Ne Parle Pas Français e Outros Contos, Numa Pensão Alemã e Outros Contos e Felicidade e Outros Contos. Além deles, em catálogo também o volume de Diário e Cartas da autora.
Existe também uma antologia de contos desta escritora, que saiu pela L&PM pocket, intitulada Os melhores contos de Katherine Mansfield e outra, lançada pela editora Record, 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield.

Kahterine Mansfield é uma contista de absurdo talento. Ter tido contato com este Je ne parle pas français foi uma experiência sensorial e intelectual muito prazerosa. Tanto assim que já adquiri o Aula de Canto e Outros Contos.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mil Rosas Roubadas, de Silviano Santiago

Resultado de imagem para livro mil rosas roubadasTítulo original: Mil Rosas Roubadas
Autor: Silviano Santiago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª edição
Copyright: 2014
Gênero Literário: Romance
ISBN: 978-85-359-2454-1
Origem: Brasil
Bibliografia do autor: Os Velhos, 1955; 4 Poetas, 1960; Duas Faces, 1961; Brasil: prosa e poesia (Antologia publicada em Nova York), 1969; Salto, 1970; O Olhar, 1974; Ariano Suassuna (Antologia comentada), 1975; Carlos Drummond de Andrade (ensaios), 1976; Crescendo durante a guerra numa província ultramarina, Uma literatura nos trópicos (ensaios), 1978; Em liberdade (romance), 1981; Vale quanto pesa (ensaios), 1982; Stella Manhattan, 1985; Brasilianische Literatur der Zeit der Militärherrschaft, 1988; Nas malhas da letra (ensaios), 1989; Uma história de família, Viagem ao México, 1993; Cheiro forte, 1995; Keith Jarret no Blue Note (contos), 1996; De cócoras, 1999; Intérpretes do Brasil, 2000; Heranças, 2008; Mil Rosas Roubadas, 2015; Machado (romance), 2016; Genealogia da ferocidade (análise da obra Grande Sertão: veredas).

Mil Rosas Roubadas. Silviano Santiago. O que dizer da obra e do autor? Leitura lenta, reflexiva, mas não sem prazer. Autor, primeiro contato um tanto tardio, já devia tê-lo conhecido antes. Mas nunca é tarde para conhecer um pouco da obra e autor.
Mineiro da cidade de Formiga, nascido em 29/09/1936. Passou por Belo Horizonte aos dez anos de idade; em 1959, laureou-se em Letras Neolatinas. Depois, foi-se embora para o Rio de Janeiro, especializou-se lá em literatura francesa, caminho que o levou ao doutorado pela Universidade de Paris (Sorbonne), com uma tese sobre a importante obra de André Gide, Os moedeiros falsos.
Professor universitário extremamente atuante, lecionou em várias instituições no estrangeiro, participante da conferência em Toronto, Canadá, sobre o projeto de História da Literatura Latino-americana.
Em 2013, recebeu o prêmio Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras e em 2015 o Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa.
Mil Rosas Roubadas não é um livro para leitor iniciante. Digo isto não com o intuito de desanimar ninguém, mas é uma obra madura de um escritor sofisticado, erudito mesmo. A obra não faz concessões à leitura instantânea, sem profundidade. Estruturada em dois níveis – um, macrocósmico, pulsante, das modificações culturais e sociais por que passa o Brasil destes últimos sessenta anos e outro, microcóspico, em que as experiências de certo Zeca e o narrador conduzem o enredo.
Livro de proposta complexa, de difícil classificação de gênero literário: misto de romance, memórias e ensaio. Um tom irônico, muitas vezes sarcástico perpassa estas recordações-ensaios-ficção, deitando ao passado um olhar de análise madura dos fatos e dos sentimentos.
Início:
“Perco meu biógrafo. Ninguém me conheceu melhor que ele.
Nascemos um para o outro aos dezesseis anos de idade, em Belo Horizonte, nos idos de 1952. Ele me distinguiu então com a transparência que fiz também minha e continuei a fazer minha em 2010, quando o vi pela última vez em vida. Estava deitado no leito do Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro. Deitado de costas e com os olhos fechados.
Tomado pelos muito e longos anos de vida e pelo recente tumor cerebral, apelidado carinhosamente por ele de Toninho, e pelas sequelas decorrentes no sistema nervoso, o corpo respira por recurso artificial. Está sendo martirizado pela parafernália de aparelhos computadorizados e luminosos, de onde saem mangueiras sifonadas cinza e azuis e sondas transparentes, energizadas por fios de eletricidade negros.” (página 7)
O doente é o Zeca, “um esfuziante e ferino jornalista cultural, crítico e letrista de música popular”. O narrador, um professor universitário já aposentado que decide escrever sua biografia, como um meio de resgate da profunda amizade entre os dois. Este o plano micro do livro.
Várias passagens de metaliteratura (a literatura usada para falar dela própria ou dos processos de escrita), como se segue:
“Volto atrás e me corrijo. Só assim me absolvo do deslize cometido e espero ganhar o perdão do leitor.
Apoio a mão direita no botão esquerdo do mouse e levo o cursor a caminhar de volta a páginas anteriores do texto. Ao mesmo tempo, procuro refrescar a memória obscurecida pelo correr dos muitos anos.” (páginas 69/70)
O plano macroscópico traça um panorama rico das mudanças socioculturais por que passa o Brasil e por que passa Belo Horizonte:
“Desde abril de 1946, quando o presidente general Dutra proíbe o jogo em território nacional, até aquela data, o majestoso prédio do Cassino estava entregue aos ratos e mendigos. Quando nascíamos e crescíamos para a vida cultural, convivemos todos com o cadáver – envenenado pelos caramujos que transmitem esquistossomose – do lago da Pampulha e com os edifícios às margens, corroídos pelo tempo e ainda belos. Com dia salvava-se apenas o Iate Clube. O cassino mofava, como a excomungada igreja São Francisco de Assis. Desenhada, como os demais prédios do lago, por Oscar Niemayer, a igreja abriga os murais e pinturas de Portinari e os baixos-relevos de Alfredo Ceschiatti. Tinham desparecido os jardins desenhados por Burle Marx.” (página 138)
O caráter ensaístico pode ser localizado, por exemplo, quando Silviano Santiago teoriza sobre as artes cênicas:
“Tenho por mim – e aplico a teoria a ele – que cada aspirante a ator traz consigo um espelho que, embora fique guardado lá dentro e seja demasiadamente humano, mostra imagem objetiva e intrigante da qualidade do seu desempenho como ator. Por trazer reflexo objetivo e intrigante da atuação em cena, o espelho é mais sentimental que cerebral. O forte do espelho interno e sentimental é a escaramuça que arma para o ator que, já em cena aberta e diante da plateia, quer se enxergar a si nele. Será que estou levando bem o trabalho de interpretação do papel? (...) Se em determinado momento da representação a moldura da cena teatral enquadrar a imagem de que o ator não gosta, ele tem de operar no centro do palco o milagre da transmutação. Procura transformar – água em vinho – a imagem de que não gosta em imagem de que gosta, e é só assim que consegue força para dar o máximo de si e atrair a atenção e o aplauso do público. Solto em cena, tem apenas um recurso.” (páginas 116/117)
As citações e confirmações vão permeando a obra. Por exemplo, são várias as referências aos Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes (não é demais lembrar aqui que Silviano traduziu um livro de Alain Robbe-Grillet, Por que amo Barthes.
Uma juventude inconsequente, hedonista, machista e sensual salta das páginas de Mil Rosas Roubadas, na década de 70, em Belo Horizonte:
“A vida íntima da mulher belo-horizontina era matéria de conversa segregada entre machos profissionais e maduros, e não ia além da descrição pormenorizada e capciosa dos dons de caridade sexual oferecidos em total submissão pela fêmea. Ela se entregava em decúbito dorsal ou montada que nem amazona em alazão fogoso. Coitada daquela que, mesmo se branca e pequeno-burguesa, se atrevesse a expor em público a deslealdade masculina, ou luta pela liberdade feminina junto à justiça civil. Algumas levavam tiros, e só seriam julgadas mártires nos distantes e libertários anos 1980.
Nos blues que escutávamos se falava de um cotidiano marcado pela prisão do culpado e pelo julgamento, pela presença decisiva do juiz e do escrivão, falava-se de modo de vida dominado pela vadiagem, pela bebida e pelas drogas assassinas.” (página 204)
Há, bem sei, quem desprestigie a literatura brasileira, relegando-a um produto cultural de segunda categoria. Poucos dias atrás, li o depoimento de um jovem dizendo que a literatura brasileira só fala de pobres, tem um longo caminho de realização pela frente. Algumas coisas aqui se impõem. Primeiro, de que literatura brasileira se está falando? Ela é tão vária, trata de tantos temas diferentes. Fico me perguntando a que obras este jovem teve acesso, para tal julgamento disparatado. Eu poderia dizer que não gosto de literatura africana sob a alegação de que ela só fala de guerras civis?
É óbvio que não. Pode ser este um assunto recorrente em vários autores, pois que tal assunto é importante para eles e, longe de limitar a literatura, concede-lhe um caráter de depoimento. Haverá outros assuntos, porém. Até lugar para prosas poéticas, como as de um Mia Couto, de quem gosto muito.
Mil Rosas Roubadas, pelo seu caráter de narrativa ousada, que não se deixa apreender em uma leitura superficial, é muito importante para a literatura nacional. Compõe a galeria das grandes obras referenciais, dignas de constantes leituras. Eu poderia ser levado a criticar os Best-sellers, mas considero esta atitude também um crasso equívoco. Os arrasa-quarteirões literários têm seu público certo e é importante que este público leia, pois é assim mesmo que a gente começa a gostar de ler: lendo o que se gosta de ler. Depois, se gostarmos de desafios mais amplos, livros mais maduros.
Foi dito que Mil Rosas Roubadas pisca um olho para Encontro Marcado, de Fernando Sabino; é que Silviano Santiago conseguiu imprimir em seu romance-ensaio-memória um tom de romance de geração – o mesmo da mais conhecida obra de Sabino.
Fiquei realmente com vontade de reler Encontro Marcado; vão-se anos e anos da minha única leitura da obra.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Resenha: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Virginia Woolf (Vol. 10)Título original: Mrs. Dalloway
Título da edição em português: Mrs. Dalloway
Autora: Adeline Virginia Woolf
Tradução: Gabriela Maloucaze
Editora: Folha de São Paulo
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-7949-279-2

Bibliografia da autora (incompleta) – romances: A Viagem, 1915; Noite e Dia, 1919; O Quarto de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Ao farol (Rumo ao Farol), 1920; Orlando, 1931; As Ondas, 1931; Os Anos, 1937; Entre os Atos, 1941. Contos: Kew Gardens, 1919; Monday or Tuesday, 1921; A Casa Assombrada, 1944; Mrs. Dalloway’s Party, 1973; The Complete Shorter Fiction, 1985; A Casa de Carlyle e Outros Esboços, 2003. Biografias: Flush: Uma Biografia, 19336; Roger Fry: A Biogrphy, 1940. Ensaios: Modern Fiction, 1919; O Leitor Comum, 1925; Um Teto Todo Seu, 1929; On Being III, 1930; The London Scene, 1931; The Common Reader: Second Series, 1932; Três Guinéus, 1938; The Death of The Moth and Other Essays, 1950; Granite and Writing, 1958; Books and Portraits, 1978; Women and Writing, 1979; Collected Essays (em quatro volumes). Teatro: Freshwater: A Comedy, 1976.

Adeline Virginia Woolf nasceu em Kensington, Middlesex, em 25/01/1882. Foi ensaísta, escritora, editora – uma das mais importantes figuras do modernismo britânico. Era membro do Grupo de Bloomsbury, claramente de oposição aos valores da Era Vitoriana. Virginia (nascida com o sobrenome Stephen, substituindo-o por Woolf ao se casar com Leonard Woolf, em 1912), tinha três irmãos: Vanessa, Thoby e Adrian Stephen, além de uma meio-irmã, filha do primeiro casamento de seu pai, Laura Makepeace Stephen, além de mais três meio-irmãos, filhos do primeiro casamento de sua mãe com Herbert Duckworth, a saber: George, Stella e Gerald Duckworth.
Virginia não frequentou a escola formal, tendo recebido uma educação esmerada do pai, Leslie Stephen. Em sua casa, ele mantinha uma biblioteca muito boa, o que criou o ambiente eletivo ao surgimento da escritora. Joseph Conrad, Jane Austen, o filósofo Montaigne, Joyce, Defoe, Sterne e os russos Dostoiévski e Tólstoi eram escritores lidos por ela. Junto com o marido, Leonard Woolf, fundou a editora Hogarth Press, tendo sido responsável pela publicação de autores como Katherine Mansfield e T. S. Eliot.
Cedo Virginia Woolf apresentou problemas psicológicos, com surtos de depressão e, mais tarde, sofrendo do que hoje seria diagnosticado como “transtorno bipolar”. Há suspeita de que, na infância, ela teria sofrido abusos sexuais incestuosos. Infelizmente, numa dessas crises de bipolaridade suicidou-se em Lewes, Sussex, em 28/03/1941, deixando, como se vê em sua bibliografia acima, uma obra literária consolidada e bastante produtiva.
Mrs. Dalloway é minha primeira incursão na obra da escritora inglesa. Seu primeiro trabalho, entretanto, é o romance A Viagem, de 1915 (Mrs. Dalloway fora publicado em 1925). É um livro extraordinário, escrito a partir de um enredo extremamente simples: numa quarta-feira de junho, Clarissa Dalloway dará uma festa à noite e passa o dia ocupada com o evento; pela manhã, visita várias lojas do centro de Londres, à procura de objetos, utensílios para a sua festa. Enquanto isso, fatos do passado e uma série de ilações psicológicas têm lugar enquanto ela prepara a recepção.
Sempre me impressionam estes enredos minimalistas; O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway é outro exemplo. Prova de que não é necessário ter um enredo cheio de voltas e reviravoltas para se obter uma obra-prima. É o como o autor/autora trabalha o material que tem em mãos.
Mas, retornando, o romance Mrs. Dalloway se inicia da seguinte forma:
“Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores. Sim, pois Lucy tinha trabalho o suficiente. As portas seriam tiradas das dobradiças, os homens de Rumpelmayer estavam vindo. E então, pensou Clarissa Dalloway: Que manhã! Fresca como se fosse presente para crianças na praia.” (página 5)
Virginia Woolf se notabilizou por ser uma escritora de vários recursos estilísticos; é constantemente apontada como uma das criadoras do chamado fluxo de consciência, isto é, a representação escrita da complexidade do pensamento humano, no qual o raciocínio lógico é entremeado por divagações momentâneas, exibindo um processo de associação de ideias:
“O saguão da casa estava frio como uma cripta. A Mrs. Dalloway levou a mão aos olhos e, quando a empregada fechou a porta, e ela ouviu silvo das saias de Lucy, sentiu-se como uma freira que deixou o mundo e sente dobrarem-se ao seu redor os véus familiares e a resposta a velhas devoções. A cozinheira assobiou na cozinha. Ela ouviu o teclar da máquina de escrever. Era sua vida, e curvando a cabeça sobre a mesa, ela se dobrou sob aquela influência, sentiu-se abençoada e purificada, dizendo a si mesma, ao pegar o bloco com o recado telefônico nele, como momentos como esse são brotos na árvore da vida, são flores da escuridão, ela pensou (como se alguma rosa adorável tivesse florescido somente para ela); nem por um momento ela acreditou em Deus. Mas mais ainda, ela pensou, pegando o bloco; deve-se retribuir na vida diária aos criados, sim, aos cachorros e canários, acima de tudo a Richard, seu marido, que era a base disso – dos sons alegres, das luzes verdes, da cozinheira assobiando, pois a Mrs. Walker era irlandesa e assobiava o dia inteiro –, deve-se retribuir esse depósito secreto de momentos sublimes, ela pensou, levantando o bloco, enquanto Lucy ficava ao seu lado, tentando explicar como “O Mr. Dalloway, madame” – Clarissa leu no bloco de recados, “Lady Bruton deseja saber se o Mr. Dalloway almoçará com ela hoje.” (página 30)
Aliás, é impressionante como nossa autora passa do discurso direto (diálogo, em que cada personagem fala a seu turno) para o diálogo indireto (alguém nos conta o que outros personagens falaram) e para o diálogo indireto livre (como no diálogo indireto simples, mas sem as indicações verbais como ‘disse ele’, ‘afirmou ela’).
São dois eixos narrativos. De um lado, temos Mrs. Dalloway com suas recordações do passado e suas percepções psicológicas do presente; de outro, o personagem Septimus Warren Smith, que vive mergulhado em dolorosas recordações da guerra, na qual perdera seu amigo Evans. E – mais um aditivo – surge Peter Walsh, que volta da Índia e que é apaixonado por Mrs. Dalloway.
O casamento da protagonista com Richard Dalloway é um casamento de conveniência, isto é, ela não o ama, mas ele pode lhe dar a segurança e a projeção social desejada por ela. Ao contrário, Peter Walsh jamais poderia lhe dar tais coisas. Mrs. Dalloway tem uma filha de dezessete anos, Elizabeth, que vive às turras com a empregada, Doris Kilman. Elizabeth sonha com a possibilidade de fazer escolhas pessoais, como ser médica, fazendeira, enfim, poderá escolher o que quiser. É a nova geração que chega, modificando aquela moral e costumes herdados da rígida Era Vitoriana.
O romance se constitui numa crítica ácida à sociedade da época, vista pela narradora como decadente (lembrem-se, estamos no período entre guerras, cheio de modificações e crises):
“Talvez fosse uma oferenda pela própria oferenda. De qualquer forma, era seu dom. ela não tinha mais nada da menor importância; não podia pensar, escrever, nem mesmo tocar piano. Ela confundia armênios e turcos; amava o êxito; detestava o desconforto; precisa que gostassem dela; falava oceanos de bobagens: e até hoje, se lhe perguntasse o que era o Equador, ela não saberia. De qualquer forma, um dia vinha depois do outro; ver o céu, andar no parque; encontrar Hugh Whitbread; e então de repente entrava Peter; então aquelas rosas; era suficiente. Depois disso, como era inacreditável a morte! – que tudo tivesse que terminar; e ninguém no mundo inteiro conseguiria saber como ela adora tudo; como a cada instante...” (página 118)
Este período entre guerras teve um fato importante: a quebra da bolsa de Nova York, a qual afetou o mundo todo. E nesta sociedade frívola, de mulheres fúteis, mas também de muita repressão, sobretudo a repressão sexual, surgem relações homoafetivas; não chegam a termo, é bem verdade, mas elas estão presentes no livro, trazendo infelicidade ao ponto de um dos personagens, em crise psíquica por este motivo,  consideravelmente aumentada por uma neurose de guerra, terminar por se suicidar.
Somente uma personagem parece gozar de maior liberdade, neste mar de fortes convenções e essa é exatamente Sally Seton, amiga de infância de Clarissa Dalloway:
“— Voltarei – ela disse, olhando seus velhos amigos, Sally e Peter, que estavam dando as mãos, e Sally, sem dúvida lembrando o passado, estava rindo. Mas de sua voz tinha sido tirada a velha riqueza arrebatadora; seus olhos não brilhavam como costumavam quando ela fumava os charutos, quando ela passava pelo corredor para buscar sua esponja sem sequer uma peça de roupa e Ellen Atkins perguntara: Mas e se os cavalheiros a vissem? Mas todos a perdoavam. Ela tinha roubado um frango da despensa porque estava com fome à noite; fumava charutos no quarto; tinha largado um livro inestimável no bote. Mas todos a adoravam (a não ser talvez o Papai). Era seu entusiasmo; sua vitalidade – ela pintava, escrevia.” (página 175)
Por todo o exposto, Virginia Woolf é, sem dúvida, uma grande escritora, atenta às condições de seu tempo. E Mrs. Dalloway é destas obras inesquecíveis, merecedoras de várias leituras. Com você viu, nossa escritora tem uma capacidade admirável de nos fornecer detalhes minuciosos, de modo a caracterizar bem a sociedade da época, que ela se propõe combater.
Há quem veja influência do irlandês James Joyce na escrita de Virginia Woolf – frequentemente, tal comparação tem sentido pejorativo. O motivo, penso eu, é débil: baseia-se na semelhança de utilização do tempo e no uso da técnica do fluxo de consciência. Ambos os romances, Ulisses e Mrs. Dalloway fazem transcorrer suas narrativas no espaço comprimido de um dia e privilegiam a representação do pensamento descontínuo. Não obstante, Virginia não gostava do trabalho de Joyce, tendo se manifestado em seu Diário que  “cada vez gosto menos de Ulisses – isto é, cada vez o acho menos importante; e nem sequer me preocupei conscientemente em lhe perceber os sentidos. Graças a Deus que não tenho que escrever sobre o livro.”

Por último, para quem deseje um aprofundamento biográfico da autora, há bons livros, como A Medida da Vida, de Herbert Mader. Parece que a obra biográfica de referência é Virginia Woolf, de Hermione Lee, sem tradução em português.

sábado, 27 de maio de 2017

Resenha: Romancista Como Vocação, de Haruki Murakami

Resultado de imagem para livro romancista como vocaçãoTítulo original: Hokugyo Toshite No Shosetsuka
Título em português: Romancista Como Vocação
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Edição: s/n
Copyright: 2015
ISBN: 978-85-5652-038-8
Bibliografia (incompleta): Ouça a canção do vento, 1979; Pinball 1973, 1980; Caçando carneiros, 1982; Norwegian Wood, 1987; Kafka à beira-mar, 2002; Dance dance dance, 1988; O incolor Tsukuro Tazaki, 2013; 1Q84 (três volumes), 2009; Após o anoitecer, 2004; De que eu falo quando falo de corrida, 2008 ; Minha querida Sputnik, 1999. 

Tinha acabado de assistir à produção hispano-argentina “O Cidadão Ilustre”; ainda sob a impressão positiva do filme – um filme ótimo que cutuca o expectador o tempo todo sobre a grande questão de a que serve a literatura. Outro subtema pinçado, a questão do limite entre o que é realidade e ficção na obra de um autor. Entrei na livraria localizada no saguão do cinema, sem a mínima premeditação de comprar qualquer coisa. Mas lá estava, entre outros tantos livros, este “Romancista como vocação”, de Haruki Murakami, escritor japonês. Já tivera algumas referências dele na internet e desejava mesmo, algum dia, ler por exemplo, “Norwegian Wood”. Tomei o volume nas mãos, folheei-o, verifiquei o índice, li as orelhas e a quarta capa e o comprei. Vai funcionar como uma espécie de complementação do filme. Ali mesmo na cafeteria, perto da bilheteria e em frente à livraria, servindo-me de uma xícara de espresso e um bom pão-de-queijo, iniciei a leitura do volume. Hoje, terminada a leitura, passo a resenhá-la. Gostaria de dar um abraço caloroso no autor.

Haruki Murakami nasceu na cidade de Kyoto, em janeiro de 1949. Vive atualmente nas proximidades de Tóquio. Antes de se tornar escritor, em 1974, Haruki abriu um bar de jazz (ano em que ele terminara a faculdade de estudos teatrais). Aos vinte e nove anos, escreveu seu primeiro livro, tendo como escritório a cozinha – mais precisamente a mesa da cozinha –, utilizando-se de caderno e lápis. Nascia, assim, Ouça a canção do vento. O livro ganhou o prêmio de uma importante revista literária e foi publicado. Entretanto, a obra que o tornou conhecido efetivamente foi Norwegian Wood, cujo nome faz referência à canção dos Beatles de mesmo nome. Murakami já ganhou vários prêmios, como Norma Literary Prize (1982), Tanizaki (1985), Yomiuri Prize for Literature: Fiction (1995), Prêmio Franz Kafka (2006), só para citar alguns. Ele também é ardoroso praticante de esportes de resistência, como maratonas e triatlos. Conseguiu terminar sua primeira ultramaratona de cem quilômetros, ao redor do lago Saroma, Hokkaido, Japão.
Este Romancista como vocação tem um texto muito agradável de se ler. Se você, leitor deste blogue, é daqueles que adoram saber algo do autor, gostam de saber como ele pensa, a forma como trabalha e concebe suas obras, certamente vai gostar deste livro. Não é um manual técnico sobre a arte de escrever romances, mas é uma espécie de viagem intelectual do escritor. Os onze capítulos do livros são: I. O romancista é generoso?; II. Início da carreira de romancista; III. Sobre prêmios literários; IV. Sobre originalidade; V. E agora, o que devo escrever?; VI. Ter o tempo como aliado ao escrever romances; VII. Um ato infinitamente individual e físico; VIII. Sobre escolas; IX. Que tipo de personagens vou criar?; X. Para quem escrever?; XI. Ir para o exterior. Novas fronteiras.
Pelos títulos dos capítulos, você já percebeu que o volume não poderia mesmo ser concebido como um manual; não existe, por exemplo, ‘A construção do enredo’, ou ‘O uso do discurso indireto’.
Eis como Murakami inicia seu relato:
“Se eu começar falando sobre romances, vou me estender muito logo de início. Então, por ora, vou falar apenas sobre os romancistas. Acho que esse tema é mais concreto, tem mais visibilidade e é relativamente fácil de ser desenvolvido.
Para ser bem sincero, não podemos considerar os romancistas – pelo menos não todos – sempre íntegros e imparciais. A meu ver, muitos possuem algumas particularidades não muito louváveis, além de hábitos e comportamentos esquisitos (mas não posso dizer isso em voz alta). Porém, independentemente de falar isso ou não, a maioria dos romancistas (cerca de 92%, suponho), inclusive eu, pensa: “O que eu faço e escrevo está certo. Todos os outros escritores estão errados, em maior ou menor grau, exceto alguns casos especiais.” (página 7)
Discorrendo sobre originalidade, o autor nos dá três requisitos básicos:
  •    Possuir um estilo próprio que seja visivelmente diferente do de outros criadores (pode ser som, estilo de escrever, forma ou cor). Só de vê-lo (ouvi-lo) um pouco, deve ser reconhecido (quase que) instantaneamente que se trata de uma expressão sua.
  •     Conseguir renovar o seu estilo por conta própria. O estilo precisa se desenvolver com o tempo. Não pode se manter no mesmo lugar para sempre. E deve possuir uma força de reinvenção espontânea.
  •    Com o tempo esse estilo próprio precisa se tornar um padrão a ser absorvido pela mente das pessoas e deve ser incorporado como parte do critério de avaliação de valores. Ou precisa se tornar uma rica fonte de citação para os futuros artistas. (páginas 52/53)

Às páginas 77/78, Murakami faz uma comparação entre o romancista e o contista (ele também escreve contos):
“Faço mais o tipo corredor de longa distância e, para que várias coisas possam ganhar forma de modo abrangente, necessito de consideráveis quantidades de tempo e espaço.”
E:
“O conto é um veículo ágil e bastante manobrável que pode abarcar os detalhes que não conseguem ser tratados adequadamente nos romances. [...] escrever contos é um treinamento, um passo importante e necessário antes de escrever romances. Talvez eu seja um corredor  de longa distância que, apesar de obter resultados relativamente satisfatórios em corridas de cinco ou dez quilômetros, segue tendo a maratona como objetivo principal.”
Uma proposta de visão de mundo aparece na página 120:
“Se observarmos as coisas apenas do nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.”
Murakami emite um parecer a respeito da criação de personagens que já conhecia de outros autores, como o nosso Erico Verissimo:
“Naturalmente, quem cria os personagens é o autor, mas personagens com vida, no sentido literal da palavra, são aqueles que agem de forma autônoma a partir de determinado momento, tornando-se independentes do seu criador. Não sou o único a dizer isso; com frequência muitos escritores de ficção reconhecem isso. Se esse tipo de fenômeno não ocorresse, escrever ficção seria uma tarefa amarga, árdua e sofrida. Quando o romance começa a deslanchar, os personagens começam a se mover por conta própria, o enredo se desenvolve sozinho e, como resultado, tem início uma situação bastante feliz em que o autor simplesmente escreve o que está se passando na sua frente, diante dos seus olhos. E, em alguns casos, os personagens pegam na mão do autor e o guiam pra um lugar completamente inesperado, nunca imaginado antes.”
A minha paixão pela leitura é evidente, ou não teria criado este blogue para falar exclusivamente dos livros lidos por mim. Desejo realizar uma conspiração leitora e esta mídia é um dos bons caminhos disponíveis para mim. Não deixo, também, de comentar sobre livros com todas as pessoas que tenham um mínimo de sensibilidade aberta ao assunto.
Minha outra paixão é escrever. E posso dizer, portanto, ao criar meus contos, em várias ocasiões posso concordar com Murakami: meus personagens tomam de assalto minhas narrativas e conduzem o enredo a seu bel-prazer.
Haruki Murakami toca a questão abordada por Umberto Eco sobre o leitor-modelo, em sua famosíssima obra Lector in Fabula:
“Falei antes que eu escrevia tendo em mente o leitor imaginário, e acho que ele é sinônimo de leitores em geral. Quando penso no número geral, a imagem fica muito grande e tenho a impressão de que não cabe na minha cabeça; por isso a condenso em um leitor imaginário, no singular.” (página 146)
Todavia, enquanto Haruki pensa o leitor-modelo de modo generalista, Eco é mais pontual, pois seu conceito de leitor-modelo, vigente na cabeça de qualquer escritor, é aquele ser meio abstrato, mas dotado de alguma especificidade. Traduzido, se escrevo um romance de suspense erudito, que se passa na Idade Média, como O Nome da Rosa (ainda faço uma releitura dele e o resenho aqui neste blogue!), pressuponho um leitor com algum conhecimento da Idade Média, que goste de teorias de conspiração e seja fã de romances policiais/de suspense.
Foi muito gratificante ler Romancista como vocação. Recomendo-o fortemente, amigo leitor, mas aviso-o pela segunda vez: é obra para quem goste de contextualização ao redor de um autor.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Resenha: O fio das missangas, de Mia Couto

Resultado de imagem para livro o fio das missangasTítulo original: O fio das missangas
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª ed., 12ª reimpressão
Copyright: 2004
ISBN: 978-85-359-1381-1
Gênero Literário: Contos
Origem: Moçambique
Número de páginas: 154
Bibliografia do autor: Contos – Vozes Anoitecidas, 1986; Cada Homem É Uma Raça, 1990; Estórias Abensonhadas, 1994; Contos do Nascer da Terra, 1997; Na Berma de Nenhuma Estrada, 2001; O Fio das Missangas, 2004. Romances – Terra Sonâmbula, 1992; A Varanda do Frangipani, 1996; Mar Me Quer, 2000; Vinte e Cinco, 1999; O Último Voo do Flamingo, 2000; O Gato e O Escuro, 2001 (literatura infantil); Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, 2002; A Chuva Pasmada, 2004; O Outro Pé da Sereia, 2006; O Beijo da Palavrinha, 2006; Venenos de Deus, Remédios do Diabo, 2008; Antes de Nascer O Mundo, 2009; Pensageiro Frequente, 2010; A Confissão da Leoa, 2012; Mulheres de Cinza (primeiro volume da trilogia As Areias do Imperador), 2015; A Espada e A Azagaia (segundo volume da trilogia As Areias do Imperador), 2016. Crônicas – Cronicando, 1988; O País do Queixa Andar, 2003; Pensatempos- Textos e Opinião, 2205; E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções, 2009. Prêmios – Prémio Nacional de Ficção, 1995; Prémio Virgílio Ferreira, 1999; Prémio Mário António, 2001 (pelo livro O Último Voo do Flamingo); Prémio União Latina de Literaturas Românicas, 2007; Prémio Passo Fundo Zaffarini e Bourbon, 2007; Prémio Eduardo Lourenço, 2012; Prémio Camões, 2013; Neustadt International Prize for Literature, 2014.

António Emílio Leite Couto – o nosso Mia Couto – nasceu na cidade moçambicana de Beira, em 05/07/1955, onde também se escolarizou. Seu pseudônimo tem origem curiosa: ele gosta de gatos e aproveitou como o irmão pequeno pronunciava seu nome; ficou-lhe, então, Mia Couto. Iniciou a ser publicado já aos 14 anos de idade e três anos depois, mudou-se para a capital de Moçambique – à época Lourenço Marques –, hoje Maputo. Ele começou a cursar Medicina na faculdade, mas não terminou, indo até o terceiro ano. É considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique e seu romance, Terra Sonâmbula, é reconhecido como um dos dez melhores livros da literatura africana do século XX.
O fio das missangas contém 29 breves contos de alta carga poética, como se pode conferir no trecho abaixo, transcrito do conto Meia culpa, meia própria culpa:
“Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.” (página 39)
Esta mesma passagem de cima vai servir-nos para comentar outras coisas. Perceberam alguma semelhança de estilo com algum escritor brasileiro, leitores deste blogue? A influência de Guimarães Rosa é bastante nítida e confessada por Mia Couto. Mas não é simples cópia, apropriação indébita, plágio. O escritor moçambicano serve-se do português e o mistura com várias influências de dialetos e línguas nativas de Moçambique. Outro ponto de se notar no mesmo excerto é que o autor instaura uma voz eminentemente feminina a narrar suas histórias (ou estórias).
Couto justifica a escolha do título no introito do livro:
“A missanga, todos a vêem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo.”
Acompanhemos a poesia constante com que Mia Couto exerce sua escrita:
“Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai.  Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.” (página 53, A Despedideira)
Há nesses contos surpreendentes inversões de perspectivas, nas quais fatos corriqueiros são abordados de modo completamente inusitado, devidamente embrulhados com sarcasmo, como no seguinte destaque:
“Sou um qualquer da vulgar raça humana, sem comprovado pedigree, se tiver cabimento em jornal, será nas páginas de anúncios desclassificados. Já o meu cão, ao contrário, é de apurada raça, classe comprovada em certificado de nascença. O bicho é bastante congênito, cheio de hereditariedade. Retriever, filho de retriever, neto de bisneto. Na pura linha dos ancestrais, como os reis em descendência genealógica. Mais caricato é o nome, de tão humano, quase me humilha: Bonifácio. Nome de bicho? Vou ali e não venho.” (página 103, O dono do cão do homem)
Um dos processos de formação de palavras de que dispõe nossa língua portuguesa é o da aglutinação, como no caso, por exemplo, da palavra aguardente (água+ardente, com perda de um dos ‘aa’). Mia Couto utiliza este processo intensamente, criando novos termos como ‘saia almarrotada’ (alma+amarrotada), mulher eferográvida (esférica+grávida), etc. Também o nosso Guimarães Rosa se vale deste recurso, criando imagens complexas.
Em outras vezes, aparecem os jogos de palavras:
“As outras moças esperavam pelo domingo para florescer. Eu me guardava bordando, dobrando as costas para que meus seios não desabrochassem. Cresci assim, querendo que o meu peito mirrasse na sombra. As outras moças queriam viver muito diariamente. Eu envelhecendo, a ruga em briga com a gordura. As meninas saltavam idades e destinavam as ancas para as danças. O meu rabo nunca foi louvado por olhar de macho. Minhas nádegas enviuvavam de assento em assento, em acento circunflexo.” (destaque meu, página 31, A saia almarrotada)
Obviamente, não serão todos os leitores que vão se sentir motivados para a leitura deste O fio das missangas. Não por ser difícil, os textos não contam com palavras rebuscadas, o leitor médio não teria muito o trabalho de ir ao dicionário e desvendá-las. Entretanto, deverá estar disposto a apreender significados novos causados por deslocamentos de sentidos, o que torna a leitura invariavelmente mais reflexiva. Devo deixar claro aqui, não vai nenhuma crítica àqueles que prefiram narrativas de ação, de suspense, ou aquelas nas quais o enredo se destaca como o item mais importante a ser observado. Vejam, por exemplo, os romances policiais; ali, o enredo é tudo.
Inegavelmente, porém, o leitor de Mia Couto – como o de Guimarães Rosa – deverá investir tempo e percepção diante de novos modos de olhar fatos comuns do dia a dia. Por mim, não é todo dia que tenho disposição para literatura deste tipo; há de ser naqueles em que minha sensibilidade esteja receptiva, alinhada com tal proposta e eu esteja disponível para uma leitura mais acurada, mais minuciosa.
Por tudo isto, recomendo o livro. É uma obra extraordinária, de alto valor literário; a prosa poética é, na verdade, uma gênero literário híbrido: não se organiza em estrofes, mas em parágrafos; dos poemas, pode ter as rimas, a métrica, uma voz lírica, figuras de estilo e de pensamento.

Pretendo voltar a ler este O fio das missangas com o mesmo cuidado e aplicação com que o li agora.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Resenha: Perdido Em Marte, de Andy Weir

Resultado de imagem para livro perdido em marteTítulo original: The Martian
Título em Português: Perdido Em Marte
Autor: Andy Weir
Tradutor: Marcello Lino
Editora: Arqueiro
Edição: s/n
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-8041-335-9
Gênero literário: Romance (ficção científica)
Origem: EUA
Bibliografia: Conto – O Ovo (com tradução para o português e The Martian, 2011 – seu primeiro e até agora, único romance.

Andy Weir nasceu em 16/06/1972, na Califórnia, Estados Unidos. Seus poucos dados biográficos na internet dizem que este escritor sempre se interessou por ficção científica. Estudou ciência da computação na Universidade da Califórnia, em San Diego, não tendo, entretanto, se formado naquele curso. Aos 15 anos de idade iniciou-se no mundo do trabalho num laboratório e, desde então, atua como engenheiro de softwares.
Em 2011, autopublicou seu romance The Martian em formato digital pela gigante da área de livros, a Amazon Books (eles têm um programa de autopublicação digital, pela plataforma kindle). Os exemplares foram vendidos a 0,99 cents e logo bateram a casa dos 35 milhões vendidos. Direitos comprados pela Crown Publishing Group, o livro saiu no formato tradicional, em papel. Tornou-se um sucesso de vendas. Consta que, embalado pela enorme aceitação do seu trabalho pelo público, Andy está trabalhando no seu segundo romance.
Li as 335 páginas que compõem o texto deste Perdido em Marte em dois dias e meio, enquanto uma chuvinha persistentemente irritante caía lá fora, numa praia do Espírito Santo. Praia com chuva não dá, todo mundo sabe disso, e isso explica minha dedicação ao livro.
Mark Watney é um dos astronautas da missão Ares 3 que pretende colonizar o nosso vizinho planeta Marte. É um projeto para vários voos tripulados, rigorosamente planejado, com o envio primeiro de aparelhos que garantirão a sobrevivência do homem ali, com tanta segurança quanto possível. Não obstante, logo de cara acontece o primeiro grande problema: uma terrível tempestade de areia, que comumente varre a superfície do planeta, causa danos ao sistema de comunicação do acampamento e obriga o abortamento da missão. Mark sofre um acidente, seu traje é perfurado por uma vareta de metal, inutilizando a transmissão dos dados biológicos do seu traje espacial. Ainda de quebra, causa-lhe um ferimento no flanco. O grupo, sem contato com Mark, andando quase às cegas em meio a toda aquela areia suspensa no ar, acaba por dá-lo como morto e o deixa para trás, iniciando seu retorno à Terra.
Entretanto, Mark não morrera. O sangue que escorria da ferida em seu corpo coagula-se ao redor da vareta e veda a perda de oxigênio. O nosso astronauta, então, recupera pouco a pouco a consciência; examina o computador do seu traje, aquele que trasmite seus dados biológicos aos companheiros de jornada: está irremediavelmente quebrado. Experiente, sabe que sua única chance de sobrevivência imediata é retornar ao acampamento. Em segurança, dentro do alojamento, ele se aplica uma anestesia local, retira a vareta e dá os pontos necessários para a cicatrização. O tratamento incluirá repouso, alimentação e a ingestão de antibióticos.
A partir deste desastre inicial, o livro passa a narrar a história do ponto de vista de três núcleos: primeiro, o de Mark Watney e sua luta para sobreviver num planeta que “insiste em matá-lo”; segundo, o da nave Hermes, com o restante da tripulação de retorno à Terra; terceiro, a equipe da Nasa, que tudo monitora pelo sistema de comunicação e pelos satélites geoestacionários na órbita de Marte.
Perdido em Marte é dividido como um diário, com o tempo marcado não em anos (a duração do ano em Marte não é a mesma da Terra), mas em sóis; inicia-se em Sol 6:
“Estou ferrado.
Essa é a minha opinião abalizada.
Ferrado.
Seis dias após o início daqueles que deveriam ser os dois meses mais importantes da minha vida, tudo se tornou um pesadelo.
Nem sei quem vai ler isto. Acho que alguém vai acabar encontrando. Talvez daqui a cem anos.
Que fique registrado: não morri em Sol 6. O restante da tripulação certamente achou que eu tivesse morrido, e não posso culpá-los. Talvez decretem um dia de luto nacional em minha homenagem e minha página na Wikipédia vá dizer: “Mark Watney foi o único ser humano que morreu em Marte. ”
E, provavelmente, isso estará correto. Porque, sem dúvida, vou morrer aqui. Só que não em Sol 6, como todo mundo está achando. ” (página 9, capítulo 1)
São vários elogios rasgados a esse Perdido em Marte. Vários blogues, vários leitores, algumas análises em revistas como a Veja.
Lá fora a chuvinha chata e fina continuava. A leitura já estava bem adiantada, lá pelas páginas 80.
“Meu Deus, pensei com meus botões (expressão antiga essa, não? Hoje em dia usamos t-shirts que não têm botões), o que será que está acontecendo? ” Pouco a pouco, ia ficando convencido de que o livro em minhas mãos teria de ser lido à base de disciplina e do desejo ferrenho de ir até o fim. Queria, de fato, resenhá-lo, tinha assumido este prévio compromisso comigo mesmo. Além do mais, o livro é emprestado, já estou com ele há muito tempo e tenho o dever moral de devolvê-lo.
Já havia assistido ao filme do mesmo nome, com a direção de Ridley Scott. Dormi boa parte da sessão. Mas, é aquela história: filme é diferente de livro. Duas realizações culturais que requerem linguagens diferentes. Nem sempre um bom filme veio de um bom livro, ou vice-versa, etc., etc., etc.
Preferências livrescas não são mais que opiniões, e opiniões, cada um tem a sua. Não estava gostando do livro. E isso não tinha nada a ver com o gênero ficção científica. Aqui mesmo, resenhados no blogue, adorei o Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller, Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick...
Mark Watney é uma versão espacial, perdida em Marte, de McGyver. Isto equivale dizer que, do inverossímil, nosso herói consegue tirar soluções aparentemente tecnológicas (estão mais para “mágicas”), em sacadas geniais, impossíveis para os mortais comuns. E – é claro – os elementos a partir dos quais a mente privilegiada de Watney-McGyver enxerga a possibilidade de solução estão ali mesmo, na cena, convenientemente dispostos. Alguém lá em cima deve gostar muito, mas muito mesmo, de Mark Watney-McGyver.
Para sobreviver, nosso herói opta por plantar batatas. Elas são abundantes na ração dos astronautas, Mark é botânico. Resolve fácil o problema: pega um pouco de terra do planeta Terra (não tenho culpa se o nome do planeta é o mesmo do elemento que o compõe), mistura com a terra de Marte, adiciona escatologicamente bastante cocô. O próximo problema, o da irrigação do plantio, é uma das sacadas à McGyver:
"Cada molécula de hidrazina [o combustível dos motores] tem quatro átomos de hidrogênio. Portanto, cada litro de hidrazina contém hidrogênio suficiente para dois litros de água." (página 31)
Como se vê, a solução será conseguir a eletrólise de um combustível altamente explosivo como a hidrazina por meio de... uma descarga elétrica que poderá explodir tudo. Obviamente, Watney-McGyver tem pleno êxito na empreitada e consegue, afinal, a água necessária à irrigação dos tubérculos. 
“Preciso racionar as minhas AEVs [passeios lá fora, com o traje espacial], assim como estou fazendo com a comida. Não é possível limpar os filtros de CO². Uma vez saturados, não servem mais. A missão calculou uma AEV de quatro horas por tripulante por dia. Por sorte, os filtros de CO² são leves e pequenos, então a Nasa se deu ao luxo de mandar mais do que necessário. No total, tenho filtros de CO² para 1.500 horas de uso. Depois disso, qualquer AEV que eu fizer terá de ser administrada através da redução drástica do ar.” (página 18)
O livro tem inúmeros trechos assim, como o transcrito acima, altamente didáticos, mas eu não quero um livro didático no momento em que estou lendo Perdido em Marte. Descrição de reações químicas enxameiam o livro; tudo bem explicadinho. Eu posso entender a função de tais explicações: a necessidade de parecer sério, verdadeiro. Mas... isto produz um ritmo frouxo na narrativa. Ao texto falta uma respiração mais constante, mais adrenalínica. Esta inabilidade no controle da respiração do texto vai se tornar crítica na pressa com que o autor compõe as cenas finais do livro. Tudo acontece abruptamente agora, como se o autor quisesse se livrar logo da história.
Como disse, a narrativa é conduzida alternadamente pelos três núcleos dramáticos, o da Hermes, o de Watney em Marte e o da Nasa, na Terra. Todos personagens planos, sem conflitos internos. A maioria dos autores sabe dosar tais conflitos, normalmente reservando ao protagonista e ao antagonista uma maior intensidade psíquica. Portanto, me incomodou que todos – absolutamente todos – os personagens do livro sejam tão absolutamente planos. É intrigante que Mark Watney, após passar o diabo no adverso planeta Marte, psiquicamente seja o mesmo durante toda a história. Nada o modificou?! Nada lhe acrescentou nada?! Diante da morte certa, nenhum desespero?! Ascético demais para o meu gosto!
Andy Weir tenta tornar leve sua saga marciana com sarcasmo:
“Sim!” Eles disseram “sim”!
Não fico tão empolgado com um “sim” desde o baile de formatura!
Tudo bem, calma.
Tenho uma quantidade ilimitada de papel à disposição. Esses cartões eram para etiquetar lotes de amostras. Tenho cerca de cinquenta cartões. Posso usar os dois lados e, se necessário, posso reutilizá-los raspando a pergunta antiga.
A caneta vai durar muito mais que os cartões, portanto tinta não é um problema. Mas tenho que escrever sempre no Hab. Não sei de que porcaria alucinógena é feita essa tinta, mas tenho quase certeza de que evaporaria na atmosfera de Marte.” (página 112)
O problema é: levar esse sarcasmo a enésimo grau é terrivelmente estafante. Perde-se o efeito de imprevisto, que responde por boa parte da graça de um sarcasmo. Andy peca pelo excesso.
Estou em Sol 3, já não chove mais lá fora, mas o dia está nublado. Terminei de ler o livro por volta das duas horas da tarde. Pode ser, a minha intensa carga de leitura tenha tornado previsível o final previsível. Sem surpresas.
Perdido em Marte não é um livro horrível. Nem mesmo sofrível. Padece das mesmas coisas presentes em muitos Best-sellers. Muitas vezes, acontece o descuido do próprio autor, sabedor de que está produzindo para um público não desejoso de ater-se a detalhes de construção de enredo, de caracterização de personagens. É um livro bom se você ficar na complacente categorização de “entretenimento”.
Receio que o errado aqui seja eu. Não sou um profundo estudioso de literatura (atenção, estou assumindo que coisas como ficção científica, romance policial não sejam subgêneros, mas gêneros literários válidos), mas indiscutivelmente, minhas expectativas, meu gosto no tocante às leituras são fortemente influenciados pela experiência de vida, alguns conhecimentos mais técnicos, e uma forte carga de leitura.
Por fim, não resisto a um bom jeu de mot (jogo de palavra):  Mark Watney, “ao vencedor, as batatas! ”

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Resenha: Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Resultado de imagem para livro quarto de despejoTítulo original: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática
Edição: 10ª edição
Copyright: 1992
ISBN: 978-85-08-17127-9
Gênero: Diário
Bibliografia: Quarto de Despejo (1960), Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963), Provérbios (1963); publicações póstumas: Diário de Bitita (1982), Meu Estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde Estaes Felicidade (2014).

Carolina Maria de Jesus, filha de pais negros e analfabetos, nasceu na cidade mineira de Sacramento, em 14 de março de 1914. Ela era filha ilegítima de um homem casado e foi maltratada durante toda a sua infância. Quando, aos sete anos de idade, a esposa de um rico fazendeiro ofereceu-se para lhe pagar os estudos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola. Ela parou de ir à instituição, mas tendo completado o segundo ano, sabia ler e escrever. Católica, apesar de ter sido expulsa da igreja junto com sua mãe (eram uma família ilegítima), tal opção religiosa vai aparecer no seu diário. Em 1937, após a morte de sua mãe, Carolina foi para São Paulo e passou a morar na favela; construiu sua própria casa, com papelão, lata, madeira e qualquer material de que pudesse se servir.
Em 1947, aos 33 anos, Carolina estava grávida e residindo na favela do Canindé, perto do Rio Tietê. Esta favela não existe mais, tendo dado lugar às obras da cidade. Sempre guerreira, ela era catadora de papel e com essa parca renda, sustentou seus filhos. Quando encontrava revistas e cadernos antigos em meio aos papéis que catava para vender, ela os guardava e depois escrevia em suas páginas. Esta constante atividade – a da escrita – angariou-lhe antipatia, pois não gostavam dela por ser alfabetizada em meio a analfabetos e pior ainda, ela escrevia sobre a vida na favela e sobre os favelados.
Carolina conseguiu emprego na casa do médico brasileiro precursor da cirurgia de coração, Dr. Euclydes de Jesus Zerbini. Ocupação providencial, pois além de lhe dar melhor suporte econômico, possibilitou-lhe o acesso aos livros da biblioteca do médico, em suas horas de folga. Carolina faleceu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos de idade.
Lida a obra, o que dizer dela? O que se pode dizer de Carolina Maria de Jesus e este seu desconcertante Quarto de Despejo, diante de sua biografia tão sofrida? Há quem não classifique este livro de literatura... O que seria ele, então?
Foi um autêntico sucesso quando de seu lançamento. Traduzido para 13 línguas, circulou o mundo encantando e chocando quem o lesse. Encantando, diante do talento dessa negra favelada, mãe solteira e mulher de uma fibra incrível; chocando, diante das misérias desta vida em favela, ou como o disse a própria Carolina, o quarto de despejo da cidade:
"3 de agosto... Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha. Eu estou com tanto sono que não posso parar de pé. E graças a Deus não estamos com fome. Hoje Deus está ajudando-me. Estou indecisa sem saber o que fazer. Estou andando de um lado para outro, porque não suporto permanecer no barracão limpo como está. Casa que tem lume no fogo fica tão triste! As panela fervendo no fogo também serve de adorno. Enfeita um lar.
Fui na dona Nenê. Ela estava na cosinha. Que espetaculo maravilhoso! Ela estava fazendo frango, carne e macarronada. Ia ralar meio queijo para por na macarronada!
Ela deu-me polenta com frango. E já faz uns 10 anos que eu não sei o que é isto.
... Na casa de dona Nenê o cheiro de comida era tão agradavel que as lagrimas emanava-se dos meus olhos, que eu fiquei com dó dos meus filhos. Eles haviam de gostar daqueles quitutes.” (páginas 105/106)
O jornalista Audálio Dantas, iniciante na época, fora destacado para fazer uma reportagem sobre a favela do Canindé, em São Paulo. Ele conheceu Carolina Maria de Jesus, sua história e ficou sabendo que ela escrevia. São vinte cadernos repletos de anotações. Audálio desistiu da sua reportagem. A história daquela mulher falava por si mesma. Resolveu dar às anotações o formato de um livro e o fez publicar.
O drama da vida da autora e da vida na favela são sua matéria-prima, como se pode ler:
“...Uma menina por nome Amalia diz a mãe que o espirito lhe pega. Saiu correndo para se jogar no rio. Varias mulheres lhe impedio o gesto. Passei o resto da tarde escrevendo. As quatro e meia o senhor Heitor ligou a luz. Dei banho nas crianças e preparei para sair. Fui catar papel, mas estava indisposta. Vim embora porque o frio era demais. Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.” (página 24)
Consciente, Carolina tem uma opinião firme sobre os políticos da época:
“Como é horrivel ver um filho comer e perguntar: ‘Tem mais? Esta palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cerebro  de uma mãe que olha as panela e não tem mais.
... Quando um politico diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na politica para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere nossa sensibilidade.” (página 38)
Para quem insiste em que Quarto de Despejo não seja literatura, eis um trecho em que ficam evidentes recursos literários, como no caso dessas prosopopeias (ou personificações):
“Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e o feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá.” (página 43)
A crítica social permeia o Quarto de Despejo todo, e em alguns trechos recebe um tratamento mais pontual:
“... A favela hoje está quente. Durante o dia a Leila e o seu companheiro Arnaldo brigaram. O Arnaldo é preto. Quando veio para a favela era menino. Mas que menino! Era bom, iducado, meigo, obidiente. Era o orgulho do pai e de quem lhe conhecia.
— Este vai ser um negro, sim senhor!
É que na Africa os negros são classificados assim:
— Negro .
— Negro turututú.
— É negro sim senhor!
Negro tú é o negro mais ou menos. Negro turututú é o que não vale nada. E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade. Mas o Arnaldo transformou-se em negro turututú depois que cresceu. Ficou estupido, pornografico, obceno e alcoolatra. Não sei como é que uma pessoa pode desfazer-se assim. Ele é compadre da Dona Domingas.” (página 51)
Impressionou-me um trecho em que a autora executa um jogo de percepções entre a visão onírica e a realidade cruel da favela:
“... Eu durmi. E tive um sonho  maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vestido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrels na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetaculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes pra minh’alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos.” (página 120)
Nota-se na transcrição acima a fé católica, a confiança em Deus, a não revolta pela sua condição de extrema pobreza. Ressalta dela uma idealização ingênua, mas não menos bonita.
Carolina não gosta dos políticos, como o Adhemar de Barros e o Juscelino Kubitschek, e onde está implícita uma crítica feroz à carestia de vida, que torna a vida dos favelados ainda pior:
“Tenho nojo, tenho pavor
 Do dinheiro de alumínio
 O dinheiro sem valor
 Dinheiro do Juscelino” (página 127)
Vale lembrar uns versos da música Como nossos pais, imortalizada na voz de Elis Regina:
Minha dor é perceber/Que apesar de termos/ Feito tudo o que fizemos/Nós ainda somos os mesmos/E vivemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos/Como os nossos pais”.
Quarto de Despejo hoje é uma obra quase esquecida do grande público. Circula nos meios acadêmicos. Parece que, passado todo aquele momento do pitoresco, do inusitado, os leitores viraram as costas para a obra. E, no entanto, o livro continua cruelmente atual, as coisas que Carolina Maria de Jesus nos disse naquela época são as mesmas coisas que ela continua nos dizendo. Sinal incontestável de que nada – ou pouco coisa – mudou. Por isso, vale a pena ler este contundente e necessário Quarto de Despejo.