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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Resenha nº 115 - Ragtime, de E. L. Doctorow

Resultado de imagem para livro ragtimeTítulo Original: Ragtime
Mantido o mesmo título para a edição em português
Autor: E. L. Doctorow
Tradutor: A. Weissenberg
Edição: TAG Livros/Record
Copyright: 1975
ISBN: 978-85-01-11079-4
Gênero Literário: Romance
Literatura Americana
Quantidade de páginas: 386
Bibliografia do autor: Romances –  Welcome to Hard Times, 1960 (adaptado para filme); Big as life, 1966; The book of Daniel, 1971 (adaptado para filme); Ragtime, 1975 (adaptado para filme); Loon Take, 1980; World’s Fair, 1985; Billy Bathgate, 1989 (adaptado para filme); The Waterworks, 1994; City of God, 2000; The March, 2005; Homer and Langley, 2009; Andrew’s Brain, 2014. Histórias curtas – Vidas dos Poetas: seis histórias e uma novela, 1984; Sweet Land Stories, 2004; Todo O Tempo No Mundo: histórias novas e selecionadas, 2011; Cuentos Completos (em Espanhol), 2015; Outros – Hino americano, ensaio fotográfico, 1982; Jack London, Hemingway e a Constituição (ensaios), 1993; Relatório do universo, 2003; Criacionistas (ensaios), 2006; Wakefield (história curta), 2008; Unexceptionalism: A Primer, 2012 .

Edgar Lawrence Doctorow, cujo primeiro nome lhe foi dado em homenagem a Edgar Allan Poe, nasceu no Bronx, bairro de Nova York, em 06/01/1931 e faleceu em 21/07/2015, aos 84 anos. Romancista, editor e professor americano, tornou-se mais conhecido mundialmente por suas obras literárias de ficção histórica. Sua trajetória literária se compõe de doze romances, três volumes de ficção curta e uma peça de teatro. Doctorow ganhou vários prêmios importantes e foi chamado pelo ex-presidente Barack Obama de “um dos maiores romancistas da América”. Tal afirmação não é exagero: Doctorow sempre foi reconhecido por sua versatilidade e originalidade.
O escritor criou narrativas utilizando-se de contextos históricos reconhecíveis, fazendo os personagens criados interagirem com personalidades históricas; desta forma, o efeito de verdade é bastante convincente. Seu estilo, pelo menos em Ragtime – obra que acabei de ler – é algo somente obtido por excelentes escritores, que dominam perfeitamente o fazer literário.
Ragtime se passa na América do pré-guerra, fornecendo-nos um amplo painel dos costumes, da estrutura social, da industrialização iniciante nos albores do Século XX. Servindo-se das ferramentas da ironia e do sarcasmo, E. L. Doctorow – como ficou conhecido – dispara sua metralhadora crítica para todo lado.
O título do livro, Ragtime, nomeia um ritmo muito em voga na época, sincopado, com marcações fortes no contratempo, escrito inicialmente em 2/4, depois evoluindo para 4/4. O que caracteriza o estilo não é propriamente a fórmula musical, mas o tipo de síncope. Difícil de entender, leitor? Lembre-se da música-tema The Enterteiner, do filme Golpe de Mestre, composta pelo expoente do estilo musical, Scott Joplin.
Doctorow, genialmente, utiliza uma escrita em que frases curtas (estilo coupé) se mistura a frases longas, recriando o ritmo sincopado do ragtime:
“Naquela noite, White compareceu à estreia de Mamzelle Champagne, no terraço do Madison Square. Estava-se em princípios de junho e no final do mês anterior uma forte onda de calor começara a matar bebês em todos os cortiços. As construções brilhavam como fornalhas e seus habitantes não dispunham de água para beber. O tanque no fundo da escadaria estava seco. Pais corriam as ruas em busca de gelo. Tammany Hall fora destruída pelos reformadores, mas os exploradores continuavam a monopolizar o gelo e a vender lascas a preços exorbitantes. Travesseiros eram colocados nas calçadas. Famílias dormiam em patamares e portas. Cavalos tombavam e morriam nas ruas. O Departamento Sanitário enviava carroças pela cidade para arrastar os animais que haviam morrido, mas o serviço não era eficiente. Cavalos explodiam devido ao calor. Os intestinos expostos fervilhavam de ratos. E nos becos dos bairros miseráveis, por sobre as roupas cinzentas que pendiam imóveis de cordas presas nos poços de ventilação, flutuava o cheiro de peixe frito.” (página 28)
Não à-toa, a expressão em inglês To be in rags significa “estar vestido em trapos, ser maltrapilho”.
O fio narrativo central é sobre uma família de classe média alta, vivendo em Nova York do início do século XX. Época da industrialização efervescente da América. Público sequioso por novidades e futilidades que o dinheiro dos nouveaux riches poderia proporcionar. Os nomes dos componentes desta família são designados, por um narrador crítico, como Papai, Mamãe, O Menino e O Irmão Mais Novo de Mamãe. Recurso que, parece, mais generaliza do que individualiza tais personagens, como se eles fossem representantes de uma categoria que se quer criticar.
Papai tem uma ascenção econômica vertiginosa por vender fogos de artifícios e artigos patrióticos, como bandeiras dos Estados Unidos. Festas e patriotismo exacerbado no país do american way of life. Não podia dar errado. Mas, sempre à procura de novidades, Papai se lança à exploração do Polo Norte junto a Robert Peary, suposto primeiro homem a atingir o Polo (hoje esta referência é questionada). Entretanto, é o Irmão Mais Novo de Mamãe que terá uma função das mais importantes no livro.
Um romance, do ponto de visto de técnica de composição literária, é uma obra no qual dois ou mais núcleos narrativos convivem lado a lado, para depois convergirem para o núcleo central. É assim que temos, ainda, o drama vivido por Evelyn Nesbit (famosa modelo e cantora), Henry Ford (criador do famoso automóvel Ford modelo T), J. P. Morgan, milionário excêntrico e fundador do Metropolitan Museum of Arts de Nova York. Juntam-se a estes seres históricos o famosíssimo mágico Harry Houdini e Emma Goldman, ativista do anarquismo. Todos estes homens e mulheres reais interagem com a família fictícia de Papai.
Do ponto de vista estrutural, a presença forte do Irmão Mais Novo de Mamãe terá um papel importante na condução da história, já que será sua presença condutora do fio narrativo, “costurando” os capítulos.
Além da descrição de tons fortemente incisivos transcrita acima, temos essa voz crítica, sarcástica, do narrador em outros trechos:
“A arte egípcia, seu estilo, era escolhido para a decoração de interiores. Desapareceu o Luís XIV e entraram em moda as cadeiras-trono com serpentes esculpidas nos braços. Em New Rochelle, Mamãe não ficou imune à tendência e, achando opressivamente enfadonho o papel de parede com motivos florais, substituiu-o por um elegante padrão de homens e mulheres egípcias, olhos grandes e negros, toucados altos e saias curtas. Coloridos de ocre, azul e castanho, desfilavam pelas paredes àquela estranha maneira frontal dos egípcios, com abutres nas palmas das mãos, bagos de trigo, lírios aquáticos e alaúdes, acompanhados de leões, escaravelhos, corujas, bois e pés decepados do corpo. Papai, sensível a qualquer mudança, perdeu o apetite. Parecia-lhe impróprio sepultar-se para jantar.” (páginas 164/165)
Numa outra linha narrativa, a obra vai nos contar da vida de certo Tateh (significa ‘Papai’), viúvo de Mameh (‘Mamãe’) e pai de uma garotinha, um judeu socialista que inventara, para si, o título nobiliárquico de Barão. O mais interessante a respeito deste Tateh, evitando-se o spoiler, é que ele era um artista, elaborava complexas silhuetas.
A respeito das tais silhuetas, nos informa a revista que acompanha o Ragtime da TAG,  
“Em termos artísticos, a técnica foi inventada durante o Iluminismo, como uma distração elegante da aristocracia  do século XVIII. A silhueta é uma imagem de contornos de uma figura, matizada em uma única cor, dando a impressão de uma sombra projetada pela figura em questão.”
No contexto do romance, a alusão à Arte da Silhueta – palavra aportuguesada a partir do nome do criador francês Etienne de Silhouette (1709 – 1767) é significativa pela aproximação que podemos fazer do passatempo da aristocracia francesa e os maneirismos da América. Ainda, sendo a silhueta uma figura que sugere sombra, a referência à sombra americana – a impessoalidade da sociedade fútil envolvida com inutilidades – torna-se uma outra ferramenta crítica.
A posição libertária de Emma Goldman transparece num diálogo entre ela e a superficial Evelyn Nesbit:
“Afinal, prosseguiu Goldman, você nada mais é do que uma prostituta inteligente. Aceitou as condições em que se viu e triunfou. Mas, que espécie de vitória é essa? A vitória da prostituta. E quais foram as consolações? As do cinismo, do desprezo, do desprezo pelo gênero masculino. Por que sentiria um elo tão estreito com essa mulher, pensei comigo? Afinal, jamais aceitei a escravidão. Tenho sido livre. Toda a vida combati para ser livre. E nunca levei para a cama um homem a quem não amasse, um homem a quem não aceitasse no amor como um ser humano livre, meu igual, dando e aceitando em iguais porções  amor e liberdade. É provável que tenha dormido com mais homens do que você. Aposto que ficaria escandalizada se soubesse como fui livre, com que liberdade vivi a minha vida. Porque, como todas as prostitutas, você dá valor à propriedade. É um produto do capitalismo, cuja ética é tão absolutamente corrupta e hipócrita que sua beleza não passa da beleza do ouro, isto é, falsa, fria e inútil.” (página 67)
O capítulo 20 é dos que mais gostei no livro. Não poderia comentá-lo sem spoilers desagradáveis. Posso, entretanto, transcrever um diálogo muito bom entre o milionário J. P. Morgan e Henry Ford, constante do citado capítulo:
“Muito bem, prosseguiu Ford. Encontrei por acaso um livrinho intitulado An Eastern Fakir’s Eternal Wisdom, publicado pela Franklin Novelty Company de Filadélfia, Pensilvânia. E nesse livro, que me custou apenas 25 centavos, achei tudo que precisava para me tranquilizar. A reencarnação é a minha única crença, Sr. Morgan. Explico assim o meu gênio: alguns viveram mais vidas que outros. Assim, o que o senhor gastou com eruditos e viajando ao redor do mundo eu já sabia. E vou lhe dizer algo em agradecimento pelo almoço: empresto-lhe o livro.” (páginas 162/163)
Nota: Neste diálogo, Ford procura justificar seu saber, seu pioneirismo intuitivo, em comparação ao saber construído de Morgan.
Na efervescência da sociedade nova-iorquina o misticismo é uma verdadeira praga. Fraudes, modismos, ânsia pelas novidades faz com que o ilusionista Harry Houdini se torne uma espécie de “caçador de mitos”:
“Olhos vendados, revelava a um auxiliar cada item erguido para a identificação por alguém do público. Que é isto, Sr. Houdini? Perguntava o auxiliar. E ele respondia. Era tudo feito por meio de código. Às vezes alegava falar com os mortos e dava a um pobre homem incrédulo, cujo nome e circunstância obtivera, uma mensagem do ente querido falecido. Sabia, portanto, o que era fraude espiritista. Percebia-a. Esse tipo de fraude grassava nos Estados Unidos desde 1848, quando duas irmãs, Margaretta e Kate Fox, convidaram os vizinhos a ouvir as misteriosas batidas em sua casa de Hydesville, Nova York.” (páginas 209/210)
A própria presença de Harry Houdini, segundo minha opinião, não é gratuita. Vejamos: Houdini é o ilusionista, o especialista em fugas, venerado e admirado por todos. É um outro símbolo, dentro da linha argumentativa que dá suporte ao livro; mais uma vez, a dita sociedade americana idolatrando a ilusão. Aliás, consta também do livro a nascente indústria cinematográfica, a consolidar-se, mais tarde, na poderosa Hollywood.
Não só o narrador de Ragtime é crítico: o próprio Edgar Lawrence Doctorow disse, certa vez, em alusão ao escritor famoso Edgar Allan Poe, que lhe emprestara o primeiro nome, que Poe era “um dos nossos melhores escritores ruins”, num sarcasmo evidente.
Livro extraordinário, autor genial – coisas indiscutíveis, pelo menos para mim. Aconselho fortemente a leitura deste livro, mas ressalto que o candidato a leitor deverá ter duas características para melhor fruição do trabalho: gosto por ficção histórica e atenção às minúcias de estilo.
Afinal, Ragtime é um clássico e não podemos ler um clássico de maneira descuidada...

Nota atribuída: 10,0

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Resenha nº 114 - O Físico, de Noah Gordon

Resultado de imagem para livro o físicoTítulo original: The Physician
Título em português: O Físico
Autor: Noah Gordon
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
Editora: Rocco
Edição: N/c
Copyright: 1986
ISBN: 85-325-0303-9
Gênero: Romance
Literatura americana
Bibliografia do autor: O Rabino, 1965; O Comitê da Morte, 1969; O Diamante de Jerusalém, 1979; O Físico, 1986; Xamã, 1992; A Escolha da Dra. Cole, 1996; O Último Judeu, 2000; Sam e Outros Contos de Animais, 2005; La Bodega, 2007 (no Brasil, todos os títulos publicados pela Editora Rocco).

Noah Gordon nasceu em Worcester, EUA, em 11/11/1926. Serviu no exército, durante Segunda Guerra Mundial; após esta conflagração, entrou para o curso de pré-medicina, por pressão dos pais. Cursou apenas por um semestre. Transferiu-se para o curso de jornalismo e se formou em 1950. Atuou como editor em algumas revistas, tendo publicado seu primeiro romance O Rabino em 1965. Seus trabalhos falam a respeito da história da medicina e ética médica; mais recentemente, passaram a focar a inquisição e a herança cultural judia.
Há muito tempo tenho, na minha estante, os três volumes que compõem esta saga da história da medicina: O Físico, Xamã e A Escolha da Dra. Cole. Por motivos completamente obscuros para mim, só agora li o primeiro volume, O Físico. Tenho muitos livros na fila, para ler – nada muito organizado – não se constituindo este, portanto, um bom motivo para que o volume ficasse me esperando.
Quinhentas e noventa páginas lidas em quatro dias e meio dão bem a imersão que foi esta leitura. E não consigo realizar uma tal imersão sem prazer estético. Leituras a que me obrigo são feitas com disciplina, mas levam tempo. O Físico é dessas obras que antes mesmo de as ler, já sabemos do que tratam, mesmo em linhas gerais. Pertencem já ao imaginário coletivo, ao mundo das referências literárias.
A história se passa na Europa do Séc. XI, mais precisamente começa na Inglaterra e avança à Pérsia (do grego transliterado Persís), país sucedido, nos dias de hoje, pelo Irã e retorna à Inglaterra, terminando nas terras distantes da Escócia. A Pérsia sempre fora nominada pelo seu próprio povo como Irã (Ērānšahr significa “País dos Arianos” ou “País dos Iranianos”); em 1934, Reza Palávi, por decreto, restituiu o nome Irã para seu país.
A palavra físico, do título, não tem nada a ver com o conceito de Física – um dos ramos da ciência moderna. Físico era o nome dado aos profissionais formados em medicina, na Idade Média. Entretanto, o livro não trata da história da medicina, embora luminares desta profissão sejam citados no livro. O Físico vai nos pegar pela mão e nos levar, entre aventuras, pelo tema da dificuldade que tais profissionais tiveram para implantar sua ciência num mundo obscurantista e cheio de crenças impostas pelas religiões.
Enredo: certo jovem, de nome Robert Jeremy Cole torna-se órfão primeiro da mãe, depois do pai. Tem irmãos, o bebê Roger, Jonathan Carte, de 18 meses, Samuel Edward, de sete anos, William Stewart, de seis e Anne Mary, quatro. A família se desfaz, pois Robert não pode cuidar de todos; são adotados por famílias. O próprio Robert segue como aprendiz de Henry Croft, autocognominado Barber, por exercer a profissão de barbeiro-cirurgião. São muitas aventuras colhidas ao lado de Barber e, um dia, o jovem descobre desejar, mais que tudo, ser médico. Como a melhor escola de medicina do século XI fica na cidade persa de Ispahan (também grafada Isfaran), onde Abū ‘Alī al-Husayn ibn ‘Abd Allāh ibn Sīnā – reduzido para Ibn Sīnā, ou mais conhecido pelo nome latinizado, Avicena – é o Príncipe dos Médicos, Rob Cole empreende uma viagem desgastante para o país dos xás. Seguem-se outras tantas aventuras.
As estradas da época são difíceis e perigosas; há assaltantes por toda parte e a única segurança dos viajantes é ajuntar-se em aglomerados maiores e assim continuarem seus caminhos. Num destes trajetos em grupo, Rob conhece uma escocesa, Mary Cullen, acompanhada do pai e por quem se apaixona, sendo correspondido. Entretanto, em sua persistente busca da formação em medicina, Rob terá de adiar a convivência com Mary, abrir mão da sua própria identidade britânica e de seu modo de vida.
Antes de prosseguir, algumas contextualizações necessárias. A Europa do Século XI era dominada por ideias às vezes, religiosas, às vezes ditadas pela tradição de crendices. Junte-se a isto uma enorme ignorância quanto à higiene, à infraestrutura sanitária e ao uso de remédios estranhos, como esterco de animais para curar feridas e teremos um quadro de arrepiar qualquer leitor moderno. Não foi por acaso que a peste negra assolou o velho continente e muito tempo se gastou até se descobrir de onde vinha aquela praga. Os ratos, que infestavam as aglomerações humanas, portavam pulgas – estas agentes da doença – logo espalhando a peste negra ou peste bubônica entre cada vez mais ratos e humanos.
Os barbeiros-cirurgiões eram um misto de saltimbancos, barbeiros  e cirurgiões de pequenas cirurgias; consertavam braços e pernas quebrados de modo bastante precário, vendiam loções revigorantes e remédios universais para quase todos os males. Viajavam em carroças, cuja identificação se fazia por um cilindro pintado de branco e vermelho, colocados nas laterais dos veículos. Realizavam shows de musicais, malabarismo e tudo o mais que pudesse atrair a atenção da população para seus cataplasmas, unguentos salva-vidas e intervenções. Barbeiros-cirurgiões tratavam da população pobre e de baixa renda; os médicos tratavam dos ricos, possuidores de bolsas mais abastadas para pagar o atendimento bem mais caro dispensado por eles. Como os médicos, os barbeiros-cirurgiões não eram bem vistos por boa parte da população, sobretudo, pelo fervor religioso.
O Físico põe em curso três grupamentos religiosos: os cristãos, os judeus e os muçulmanos. Têm extrema resistência em aceitar a medicina por motivos que vão desde a repulsa por dissecar cadáveres para estudo até o preconceito de que os médicos interfeririam na vontade divina.
Retomando a resenha, eis um trecho no qual Rob percebe possuir um dom especial:
“Era como segurar um par de pássaros trêmulos. Os dedos finos encostaram nos seus e enviaram a mensagem.
Barber viu o garoto ficar tenso.
— Vamos – disse impaciente. – Não podemos ficar aqui o dia todo.
Rob não parecia estar ouvindo.
Duas vezes sentira algo estranho e desagradável passar do corpo de outra pessoa para o seu. Agora, como nas outras duas ocasiões, foi dominado por um terror intenso, largou a mão do paciente e fugiu.
Praguejando, Barber procurou até encontrar seu aprendiz encolhido sob uma árvore.
— Quero saber o que isso significa. Agora!
— Ele... O velho vai morrer.
Barber olhou espantado para ele.
— Que conversa de merda é essa?
O aprendiz começou a chorar.
— Pare com isso – disse Barber. – Como você sabe?
Rob tentou falar mas não conseguiu. Barber o esbofeteou e ele deu um suspiro. Quando começou a falar, as palavras jorraram, pois estavam rolando em sua mente desde antes de deixar Londres.
Tinha sentido a morte iminente da mãe e aconteceu, explicou ele. Então, teve certeza de que o pai estava morrendo, e ele morreu.” (página 77)
O livro é divido em sete partes. O grande vulto que se destaca do fundo narrativo da quarta à sexta parte é Ibn Sīnā, o Avicena, o Príncipe dos Médicos. A universidade em que esta figura lecionava preparava seus candidatos a serem sobretudo polímatas, isto é, indivíduos que dominam vários saberes. Desta forma, todos são submetidos a uma terrível avaliação, na qual deveriam demonstrar domínio do saber médico, filosófico e do direito – este fortemente influenciado por conceitos e argumentos fundados em Maomé.
Avicena é, ele mesmo, um polímata. Homem atencioso com seus pacientes, vestindo-se sempre de maneira simples, tem uma cultura invejável, sobretudo do que o rodeia, incluindo aí a filosofia ocidental (Platão, Aristóteles), astronomia, política e, naturalmente, medicina. Ele é realmente o grande mestre de Rob Cole. Avicena é outro personagem apaixonante pela sua integridade, pela sua lúcida e tranquila sabedoria e pela sua bondade.
O Físico não é somente um livro de aventuras; críticas sociais recheiam o texto, a par de tantas informações históricas reveladoras de uma pesquisa bem conduzida:
“Fascinado agora, Rob Observou os três homens, cada um cercado por nobres bajuladores e embevecidos. O Xá com seu grupo habitual de beijadores de traseiro, Ibn Sina, grave e discreto, respondendo calmamente as perguntas dos homens com aparência de estudiosos. Karim, como sempre naqueles dias, praticamente escondido entre os admiradores que queriam falar com ele, tocar suas roupas, banhar-se na excitação e fulgor daquela presença tão disputada.
A Pérsia parecia perita em fazer de cada homem um corno.” (página 423)
Sem esforço, podemos ler a crítica social como se fosse do nosso tempo, não é mesmo, leitor?
Uma das coisas que me conquistou em O Físico é a postura neutra do narrador não nominado, no tocante às questões de religião:
“— Já pensou – perguntou Rob – como cada religião reivindica a posse do coração e dos ouvidos de Deus? Nós, vocês e o islã, cada um diz que sua religião é a verdadeira. Será que nós todos estamos errados?
— Talvez estejamos todos certos – respondeu Mirdin.
Rob sentiu uma intensa afeição pelo amigo. Logo Mirdin seria médico e voltaria para sua família em Masqat, e quando Rob chegasse a hakim[1], também voltaria para casa. Sem dúvida nunca mais se veriam.” (página 429)
Um exemplo de como Noah Gordon maneja eficientemente sua pesquisa histórica transparece no trecho transcrito abaixo:
“Para ela, Londres era um lodaçal negro onde já estavam afundados até os tornozelos. A comparação não era acidental, pois a cidade fedia mais do que os pântanos que tinham visto durante suas viagens. Os esgotos abertos e a sujeira não eram piores do que os esgotos abertos e a sujeira de Ispahan, mas em Londres vivia muito mais gente e em alguns bairros vivam amontoadas, de modo que o fedor das excreções humanas misturado ao do lixo era abominável.” (página 546)
Difícil não nos apaixonarmos pelo personagem principal, Robert Jeremy Cole. Ele não é um herói, no sentido do termo. Seus feitos são direcionados por uma firme vontade de atingir seu sonho. Este é, portanto, um personagem de superação; erra, acerta, é brilhante às vezes, é ingênuo outras tantas. Como disse Flaubert em Madame Bovary, “Madame Bovary sou eu”. Rob Cole somos nós. Ou, pelo menos, sua fidelidade aos seus propósitos, ao alto conceito dado à profissão abraçada deveria entusiasmar qualquer de nós:
“— Talvez o sistema funcione para as raças inferiores, mas os médicos ingleses têm espírito mais independente e devem ter liberdade para conduzir seus negócios.
— Sem dúvida a medicina é mais do que um negócio – observou Rob delicadamente.
— É menos que um negócio – retrucou Hunne –, com o preço das consultas e com os borra-botas inexperientes que estão sempre chegando a Londres. Por que acha que é mais do que um negócio?
— É uma vocação, Mestre Hunne, como o chamado divino para os homens da Igreja.” (página 558)
Recomendo a leitura desta obra com louvor, caro internauta que se dá o trabalho de me ler esta resenha. Bom enredo, história interessante, um ritmo apropriado, a respiração do texto acelera quando deve, acalma-se quando precisa.
Gostei da posição neutra do narrador, no tocante às religiões: não estaremos todos certos? Avicena, o Príncipe dos Médicos, figura comprovada pelos registros históricos – um gênio do seu tempo, embora, até certo ponto, ainda preso a concepções religiosas engessantes – também nos impressiona. A fibra demonstrada tanto por Rob Cole quanto por Mary Cullen são fortes referências para nossa vida.
O Físico é uma leitura bastante oportuna pela neutralidade já referida, num momento em que cresce no mundo a generalização perigosa de que todo muçulmano seja um terrorista, afirmação sem conhecimento de causa e baseada apenas nas loucuras perpetradas pelo Estado Islâmico em nome de Maomé ou Allah. Nós, os cristãos, também não fizemos guerras com armas “abençoadas” e benzidas por sacerdotes? Seríamos todos igualmente impiedosos?

Tocado pela experiência de ter lido o livro, imaginei-me sentimentalmente a bordo de um camelo, com seu passo cadenciado, mergulhado nas tinturas cambiantes do lusco-fusco, a caminho de Londres. Pela minha mente repassavam todas as experiências de vida, todos os sacrifícios pelos quais trafegou Rob Cole – a esta altura já sou íntimo do personagem – e tenho a meu lado a obstinada Mary. Seguimos o caminho seguro, do ponto de vista geográfico; não obstante, o caminho psicológico a minha frente é completamente imprevisível.

Enfim, é desnecessário continuar “babando” sobre o livro: numa palavra, amei-o. Atribuo-lhe uma justa nota 10.




[1] Médico aprovado pela Banca Examinadora.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Resenha Nº 113: A Verdade Sobre O Caso Harry Quebert, de Jöel Dicker

Título original: La verité sur l’affaire Harry Quebert
Título em português : A verdade sobre o caso Harry Quebert
Tradutor: André Telles
Edição: n/c
Copyright: 2012
ISBN: 978-85-8057-511-8
Gênero literário: Romance
Editora: Intrínseca
Quantidade de páginas: 576
Literatura suíça
Bibliografia do autor: Les derniers jours de nos Pères (Os Últimos Dias de Nossos Pais), 2012; La verité sur l’affaire Harry Quebert (A verdade sobre o caso Harry Quebert), 2012; Le livre des Balltimore (O livro dos Baltimore), 2015.

Jöel Dicker nasceu em 1985, em Genebra, Suíça. Aos 19 anos, segundo consta, frequentou o curso Florent, em Paris. Regressou à Suíça após um ano, para estudar na Faculdade de Direito de Genebra, onde tirou o mestrado, em 2010. Com a idade de 25 anos, Jöel ganhou o Prix des Écrivains Genevois (Prêmio dos Escritores genoveses),  atribuído a manuscritos não publicados, pelo original Les Derniers Jours de Nos Pères. Bernard de Fallois, um editor francês, adquiriu o direito desta obra e de La verité sur l’affaire Harry Quebert. Durante a feira do livro de Frankfurt, La verité... foi negociado por editores estrangeiros e o livro foi publicado em mais de 32 línguas. Posteriormente, ele ganhou o prêmio Goncourt, na França.

Em uma das livrarias de Belo Horizonte, dei de cara com este exemplar de A verdade sobre o caso Harry Quebert, numa gôndola de saldões, por R$ 19,00. Como sempre faço, folheei o volume, um tijolaço de 576 páginas; li o que estava escrito na quarta capa, mas o que mais me intrigou foram duas páginas iniciais cobertas de elogios fervorosos de vários jornais. Segundo o que lia ali, “A verdade sobre o caso Harry Quebert, do suíço Jöel Dicker, de apenas 28 anos, é o livro mais inteligente e intrigante que você vai ler este ano. O romance francês mais comentado da década, com uma trama de tirar o fôlego e uma história viciante.” Assinando, The Telegraph. “Mas, espera aí, pensei eu, como assim, ‘romance francês’? Não é suíço?
Bom, de qualquer jeito, tenho um livro aparentemente extraordinário em mãos. Resolvi comprá-lo, uma vez que viajaria de férias logo depois e esta poderia ser uma boa leitura.

Terminei de ler A verdade sobre o caso Harry Quebert em quatro dias, enquanto meus parentes e amigos iam para a praia e eu ficava em casa. As impressões sobre o que lia se alternaram muito durante a leitura do volume.
Jöel Dicker conseguiu, sem dúvida, uma proeza. São 576 páginas de um enredo complexo, cheio de reviravoltas como em filmes de ação; muitos personagens vão aparecendo, cada qual com seus segredos (às vezes, muito forçados, a bem da verdade)  a serem desvendados pelo detetive ocasional Marcus Goldman.
Enredo: Marcus Goldman é um escritor famoso por um livro recém-publicado. Ganha muito dinheiro, seu trabalho torna-se um best-seller e ele mergulha de cabeça nas delícias desta vida faustosa. Anda com atrizes hollywoodianas, dá festas estrondosas. Entretanto, seu editor e seu agente literário o alertam: é melhor começar a escrever a próxima obra, se quiser se manter no topo. Passado algum tempo, o público começa a esquecê-lo. Marcus tem de produzir outro livro. Sobre o quê? Ele enfrenta o terror dos escritores, o bloqueio criativo. Nenhuma ideia lhe ocorre. Nada. Decide, então, visitar seu mentor literário, o tal Harry Quebert do título, na cidadezinha de Aurora, em New Hampshire. A notícia de que o corpo da jovem Nora Kellergan, morta aos quinze anos em 1975, fora encontrado no jardim da casa de Quebert explode na mídia. Quebert confessa ter tido um caso com ela, trinta e três anos antes, mas declara-se inocente quanto ao assassinato dela. É aí que Marcus Goldman, travestido em detetive, resolve investigar o caso por sua própria conta, escarafunchando a vida de uma porção de pessoas de Aurora.
Quem teria matado Nora Kellergan? Em que condições? Qual seria o móvel do crime? Para responder tais questões, o narrador – Marcus Goldman – leva o leitor por intensas reviravoltas. Pistas falsas, deduções reformuladas, novos descobrimentos; a lista de suspeitos é imensa.
O romance se utiliza de depoimentos escritos, relatórios policiais, trechos do livro As origens do mal, a obra-prima que Harry havia escrito para Nola e cujo original fora encontrado dentro de uma bolsa, junto ao corpo enterrado da jovem; citação de outro livro, As gaivotas de Aurora, de um tal Luther Caleb; correspondências amorosas de Quebert para Nola. Tais recursos conferem ar de modernidade ao livro.
Em termos de estrutura, os capítulos são numerados em ordem decrescente, do trinta e um para o primeiro. Abrindo cada capítulo, conselhos do experiente Harry Quebert a Marcus Goldman; ainda, um retângulo vertical simboliza uma página incialmente branca e que vai sendo preenchida à medida em que os capítulos avançam.
O enredo é do tipo não linear, isto é, passado e presente se alternam, e o autor marca bem estes lapsos temporais de modo a facilitar a leitura para o leitor mediano.
A leitura é realmente viciante. O leitor nem respira diante de tantas reviravoltas. Entretanto, algumas coisas, a gente vai percebendo, não funcionam bem... e aí, retornei às páginas iniciais, aquelas que continham tantos elogios e pensei cá comigo mesmo: “ou os elogios estão errados ou o errado sou eu”.
O livro é cheio de personagens que não têm qualquer relevância na história, parece que o autor se centrou nas mirabolantes reviravoltas de enredo, dando a seus personagens diálogos ruins, alguns ridículos mesmo.
Os conselhos dados por Harry também são de doer:
“— Se os escritores são criaturas frágeis, Marcus, é porque são passíveis de conhecer dois tipos de sofrimentos sentimentais, ou seja, duas vezes mais que os seres humanos normais: as dores do amor e as dores literárias. Escrever um livro é como amar alguém: pode acabar sendo muito doloroso.” (página 115, capítulo 26)
Isto seria uma orientação para um amigo escritor com problemas de bloqueio criativo? Lembramo-nos daquelas frasezinhas-clichês-fofinhas-de-mal-gosto “amar é nunca ter de pedir perdão”.
Neste mesmo capítulo, o 26, um pouco adiante, o autor coloca o seguinte trecho:
“N-O-L-A. Quatro letras que haviam virado seu mundo de cabeça para baixo. Nola, pedacinho de mulher que o fazia virar a cabeça desde que a vira. N-O-L-A. Dois dias depois da praia, encontrara-a em frente à mercearia; haviam descido juntos pela rua principal até a marina.” (página120)
Não se trata de influência de Lolita, de Vladmir Nabokov; soa como uma cópia sem nenhuma criatividade. Se a personagem Lolita, no romance de mesmo nome, é complexa em sua estruturação psíquica, Nola é apresentada como psicótica, mas de construção bastante rasa.
Aliás, de um modo geral as personagens femininas (Nola, Jenny Quinn, Tamara Quinn, Louisa Kellergan, Deborah Cooper) são um tanto esquemáticas, sem profundidade e Nola Kellergan e Jenny Quinn esperam, indefectivelmente, por um casamento que as torne reconhecidas e felizes.
E quando, de acordo com informação dada pelo narrador Marcus Goldman, uma menina de quinze anos revisa o texto do romance do experiente Harry Quebert, o descrédito da obra se instala definitivamente em nossa avaliação.
Douglas Claren, o agente de Marcus, sugere a ele que passe a escrever seu próximo livro sobre suas investigações e descobertas do caso Harry Quebert. Desta forma, estabelece-se, dentro da história, um livro sendo escrito por Marcus-narrador dentro de outro livro, escrito por Jöel. É uma técnica interessante, mas não inovadora.
Joca Reiners Terron, em especial para a Folha de São Paulo, chega a classificar este A verdade sobre o caso Harry Quebert como “leitura de sanitário”. Não chego a tanto. O livro de Jöel Dicker desbancou nada mais, nada menos, que O Inferno, de Dan Brown, em vendagens e na disputa pelo prêmio Goncourt.
Não sei como foi a vendagem da versão brasileira, mas tê-lo encontrado na gôndola de saldos talvez revele a não aceitação pelo público. Se bem que, no mesmo local, encontrei o excelente A Camisa do Marido, livro de contos de Nélida Piñon, já resenhado aqui no blogue.
Mas este é outro caso: livros de contos não vendem bem no Brasil, nem são facilmente publicáveis pelas editoras. Coisas estranhas, no país de poucos leitores, como o nosso. Ademais, li A verdade sobre o caso Harry Quebert na praia e não achei ruim ter dedicado meu tempo a este calhamaço. A ambientação deu o tom certo para a obra: livro para se ler sem qualquer pretensão; passa sem marcar o leitor.

El periódico de Catalunya escreveu, nas páginas iniciais, que este é “um livro que será celebrado e estudado por futuros escritores. É um thriller exemplar.” Está aí uma coisa de que duvido. É tão-somente um livro que prende pela sequência vertiginosa dos turning points (reviravoltas de enredo) e nada mais. Livro para se ler e do qual se esquecer.
Nota atribuída: 6,5

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Feliz 2018, Caros Leitores!

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Olá, pessoal!

Muito bem, 2018 começou e já estamos no dia 19 de janeiro. Perspectivas vão sendo postas nas mesas e nos posicionamos diante delas com ansiedade. O que este ano nos vai trazer? Os corruptos irão todos, mesmo, para a cadeia? A tímida melhora da economia se transformará em algo consistente, que anime as pessoas? Vou ter tempo para ler mais?
É preciso que entendamos uma coisa: as coisas só mudam se contribuirmos de alguma forma, em algum nível, para que isso aconteça. Como vivemos em sociedade, as mudanças também nos afetarão, em um processo de retroalimentação. Creio – a esta altura da vida, com firmeza – é uma cultura favorável à corrupção que faz com que tal fato lamentável se torne tão presente. Em outras palavras polêmicas, temos a corrupção que merecemos. E não é só neste caso; os fatos sociais são produzidos por pessoas.
A situação político-econômica dos EUA, no século XIX e início do XX era uma corrupção só. Conta-se que Al Capone, um traficante, só foi preso porque deu um calote no Imposto de Renda. A lei seca que “vigorava” no território americano não era uma realidade, na prática.
Na verdade, todos os países possuem seus podres históricos. Somos uma civilização oriunda de uma base guerreira e por isso ainda não consolidamos, de fato, certos valores como a cooperação, a ajuda ao próximo. Sei que tais ideias podem ser tachadas de utópicas.
Sou, sim, um otimista de carteirinha. Penso que o pessimismo não constrói nada; a negar tudo, dizer mal de tudo, profetizar o arraso, eu prefiro pensar que, à medida que formos tendo experiências – infelizmente necessárias – com o fracasso, o descontrole, a corrupção, o ódio, iremos descobrindo ferramentas para a construção de uma sociedade melhor, com cada vez mais tolerância, maior respeito às diferenças e menos ódio.
Foi assim com as ditas nações de primeiro mundo, por que a história seria diferente com o nosso Brasil?
Se traçarmos uma linha evolutiva dos valores da humanidade, veremos que houve melhoras. Não no ritmo que eu e vocês gostaríamos; afinal, as mudanças sociais são lentas e difíceis de se implementarem. Somente quando a maioria de mentes e vontades sobem a um novo patamar de comportamento é que temos a consolidação destas mesmas mudanças.
Portanto, desejo a todos os que leem este blogue um ano de 2018 cheio de esperanças e determinações. Acredito, também, que a Arte e, sobretudo, a Literatura têm seu papel a cumprir nesta transformação.
Porque a Arte eleva
Porque a Arte incomoda e propõe alterações
Porque a Arte traz a possibilidade de reflexões e análises.
Como dizem, “livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas é que mudam o mundo”.

Tenhamos todos um ano de 2018 de lutas, de mais acertos do que de erros.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Resenha: Os Sete Enforcados, de Leonid Andreiev

Resultado de imagem para livro os sete enforcadosTítulo original: Rasskag O Semi Poveshnnikh
Título em português: Os Sete Enforcados
Autor: Leonid Andreiev
Tradutor: Eliana Sabino
Editora: Rocco
Edição: n/c
Copyright: 1987
ISBN: 978-85-7980-069-6
Coleção Novelas Imortais (org. Fernando Sabino)
Gênero literário: Novela
Literatura Russa
Bibliografia do autor: Abismo, O (Abyss); Amor ao próximo, O (Love to Neighbor); Bargamot e Garaska (Bargamot and Garaska); Ben-Tovit (Ben-Tovit); Conversão do diabo, A (Satan’s Conversion); Cristãos (Christians); Diário de Satanás, O (Satan’s Diary); Dois mundos (Two Worlds); Era uma vez (Once Upon a Time); Espectros, Os (Spectra); Estrangeiro, Um (A Foreigner); Flor pisada, A / Flor espezinhada, Uma (The Crushed Flower); Gigante, O (The Giant); Governador, O (The Governor); Grande slam, O / Grand “cheleme”, O (The Grand Slam) ; Homem original, Um (An Unique Man); Ideia, A / Loucura? / Médico louco, O / Pensamento; O – novela (Thought - novel); Judas Iscariotes (Judas Iscariot); Juventude (Youth); Lázaro / História de Lázaro (Lazarus); "Marselhesa", A (The “Marseillaise”) Máscara, A (The Mask) ; Mentira - memórias de um louco, A (The Lie – memoirs of a mad man); Mistério, O (Mistery); Muro, O (The Wall); Nada, O / Repouso, O (Nothing); Pensamento, O (peça) (Thought - play); Perante o tribunal (In the Court); Por trás da janela (Behind the Window);
Retorno, O (The Return); Riso, O (Laugh); Riso vermelho, O / Gargalhada vermelha, A (Red Laugh); Sete enforcados, Os / História dos Sete Enforcados (The Seven Who Were Hanged); Silêncio (Silence); Sobremortal (Super-mortal); Vadio (Bummer); Valia (Valia). 

Leonid Nicolaevitch Andreiev nasceu em Oriol, Império Russo, em 09/08/1871 e faleceu em Kaokkala, Finlândia, em 12/09/1919. Andreiev é considerado o mais sombrio dos novelistas russos. Até os trinta anos, teve uma vida bem humilde e difícil, chegando a passar fome e tentou o suicídio, só não levado a termo por ter sido socorrido a tempo. Conforme consta, ainda em convalescencia, no hospital, arrependeu-se do ato e passou a refletir sobre a incapacidade de o homem sobrepor-se ao seu próprio destino.
Tais fatos não poderiam passar batidos e sua literatura se ressente da visão pessimista, trabalhando sempre com a tragédia a que se submetem seus personagens. Andreiev adquire prestígio a partir do século XX, mas o escritor não é muito difundido no Brasil.
Os Sete Enforcados é uma releitura. Li-a há muito anos atrás, mas me lembrava de muitos pontos da novela, prova de que realmente o livro me marcara. Era uma péssima edição de bolso, em papel de baixa qualidade e amarelecido. Esta edição que tenho em mãos é parte de uma coleção de Novelas Imortais, organizada e prefaciada pelo escritor mineiro Fernando Sabino. Os títulos da seleção: Margot, de Alfred de Musset; O Monge Negro, de Anton Tchekhov; O Homem de Areia, de E. T. A. Hoffman; Sílvia, de Gérard de Nerval; Um Coração Singelo, de Gustave Flaubert; A Fera na Selva, de Henry James; Bartleby, O Escriturário, de Herman Melville; Os Sete Enforcados, de Leonid Andreiev; A Espanhola Inglesa, de Miguel de Cervantes Saavedra e O Clube dos Suicidas, de Robert Louis Stevenson.
Cinco terroristas vão atentar contra a vida de um ministro. São descobertos e presos, levados a julgamento e condenados à morte por enforcamento. São eles: Sergey Golovin, filho de um coronel reformado; Musya, jovem e idealista; Vasily Kashirin, segundo seu passaporte, contava com vinte e três anos; Tanya Kovalchuck, na casa de quem foram encontradas bombas e dinamite; Werner, de quem não se sabia muito.
A estes irão se juntar, também para serem enforcados, Ivan Yanson, que assassinara seu patrão e, finalmente, Mikhail Golubetz, apelidado Tsiganok (Cigano), cujos crimes mais recentes eram assalto à mão armada e assassinato de três pessoas.
Os Sete Enforcados é um texto enxuto, conciso, como convém a uma novela. Estes sete condenados, cada um a seu turno, lidam com a ideia da morte de uma determinada maneira, mas, pela boca do Ministro, a tese advogada no livro é
“E aqueles imbecis me informaram a hora precisa, achando que eu ficaria muito feliz em saber. Mas em vez disso a Morte postou-se a um canto sem poder ir embora. Não podia porque estava dentro da minha cabeça. Não é a morte que é horrível, mas o conhecimento dela: ninguém conseguiria viver sabendo definitivamente o dia e a hora exatos de sua morte. E os imbecis me avisam: ‘À uma hora, Excelência!” (página 24/25, grifos nossos)
Será o personagem Yanson quem dará corporeidade à tese também defendida pelo Ministro, como fica claro no seguinte trecho:
“Pediu, implorou que o sol brilhasse, mas a noite estendeu sem remorso suas horas longas e escuras por sobre a terra, e não havia poder que apressasse o seu curso. E essa impossibilidade, que pela primeira vez apresentava-se ao fraco entendimento de Yanson, enchia-o de terror. Ainda sem ousar entende-la claramente, ele já sentia a inevitabilidade da morte próxima; os pés dormentes pareciam pisar o patíbulo” (página 54)
Outro trecho profundamente subversivo vai saltar das páginas do livro, a certa altura:
“Isto é que é importante: que eles fossem milhares. Quando milhares matam um só, isso significa que foi esse um quem venceu. É verdade, Werner, meu querido...”(palavras de Musya a Werner, na página 96).
Os Sete Enforcados configura-se como um libelo contra a truculência do estado-assassino, contra a pena de morte. A personagem principal? Não, não está entre os terroristas; também não é Yanson, nem Tsiganok; o protagonista é a morte. É ela que todos buscam entender, é ela quem paira sobre o destino de todos os outros personagens, sem que eles possam, de algum modo, alterar seus pobres destinos.
Leonid Andreiev é sombrio, pessimista, desesperançado. Seu texto reflete este estado de alma, mas não deixa de ser filosófico, às vezes, e até mesmo lírico, como vimos pelos trechos transcritos acima. “Ele quer me amedrontar, mas eu não tenho medo”, teria dito ninguém menos que Tolstoi. Não seria demais, creio, anotar aqui algo da morbidez de Edgar Allan Poe.
Os Sete Enforcados é um livro pequeno, são cento e sessenta e sete páginas nesta edição da Rocco.  Feita como porta de motivação para jovens conhecerem obras significativas de vários autores, o texto flui maravilhosamente bem. Todos os volumes desta coleção são de textos curtos e fáceis de ler – do ponto de vista do vocabulário empregado. Mas, sinceramente, não sei se serão muitos os jovens a suportar um texto tão denso de significados. É preciso ter estômago para ler o livro.
Independente disto, é uma obra-prima da narrativa mundial. Breve e certeiro. Um livro, como diria o blogueiro-livreiro Luiz Guilherme de Beaurepaire, em seu blogue Bons Livros Para Ler,“um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.”
Creio valer a pena encerrar esta resenha com o depoimento do próprio Leonid Andreiev à edição americana, que consta deste opúsculo:
“Os massacres dos judeus e a fome; um Parlamento e execuções, saques e o maior heroísmo; A Centena Negra e Léon Tolstoi – que mistura de figuras e conceitos, que fonte fecunda de todo tipo de equívocos! A verdade da vida silencia, consternada, e a falsidade atrevida grita bem alto perguntas urgentes e dolorosas: “Com quem serei solidário? Em quem confiarei? A quem amarei?”

Na história de Os Sete Enforcados tentei dar uma resposta sincera e sem preconceitos a algumas dessas perguntas.” (página 12, sem numeração)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Resenha: Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva

Resultado de imagem para livro ainda estou aquiTítulo original: Ainda Estou Aqui
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Alfaguara
Edição: n/c – 3ª reimpressão
Copyright: 2015
ISBN: 978-85-7962-416-2
Gênero: Memórias
Literatura Brasileira
Bibliografia – Romances: Feliz Ano Velho, 1981; Blecaute, 1986; Ua brari, 1990; Bala na Agulha, 1994; As Fêmeas, 1994; Não És Tu, Brasil, 1996; Malu de Bicicleta, 2002; O Homem que Conhecia As Mulheres, 2006; A Segunda Vez que Te Conheci, 2008; E Aí, Comeu?, 2012; As Verdades Que Ela Não Diz, 2012; 1 Drible, 2 Dribles, 3 Dribles: Manual do Pequeno Craque Cidadão, 2014; Ainda Estou Aqui, 2015; Meninos em Fúria, 2016; Peças de Teatro: Es525 Linhas, 1989; E Aí, Comeu? (Da Boca pra Fora), 1998; Mais-que-Imperfeito, 2001; Closet Show, 2003; As Mentiras que Os Homens Contam, 2003; No Retrovisor, 2003; Amo-te, 2006; A Noite Mais Fria do Ano, 2011; O Predador Entra na Sala, 2012; C’est La Vie, 2014; Amores Urbanos, 2016; Roteiros de Cinema:  Fiel, 2012; E Aí, Comeu? 2012; Malu de Bicicleta, 2013; Depois de Tudo, 2015; O Homem Mais Forte do Mundo, 2016.

Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo, em 01/05/1959; é escritor, dramaturgo e jornalista brasileiro. Com seis anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro, depois que seu pai, o ex-deputado federal socialista Rubens Beyrodt Paiva foi cassado e exilado pelo Golpe de Estado de 1964. Em 1971 – Marcelo tinha, então onze anos – ele sofreu o primeiro trauma: o desaparecimento do pai; depois de preso e torturado, ele nunca mais foi visto por ninguém. A família foi obrigada a se mudar do Rio de Janeiro.
São Paulo foi o novo destino. Lá, Marcelo completou seus estudos; escrevia para o jornal da escola, fazia letras de música e foi finalista de um dos Festivais de Música da TV Cultura, em 1979.
Aos vinte anos de idade, sofreu o segundo trauma: ao pular num lago, bateu com a cabeça numa pedra e fraturou a quinta vértebra do pescoço, tornando-se tetraplégico. Sessões intensivas de fisioterapia devolveram-lhe os movimentos das mãos e braços. Entrou para a Escola de Comunicações e Artes, da USP, em 1982. Escreveu seu primeiro livro, Feliz Ano Velho, que rapidamente se tornou o livro mais vendido da década de 1980.
Àquela época, eu li o Feliz Ano Velho. Lembro-me de que gostei muito da leitura, um estilo diferente do que eu estava habituado. Mas, confesso, este Ainda Estou Aqui é apenas a segunda obra do autor lida por mim. Comecei não gostando muito dela e, por isso, tive de usar a minha disciplina. Ao passar das páginas, entretanto, fui me entusiasmando e lamentei o término da leitura. Marcelo tem o grande mérito de não reduzir suas memórias a um diário de família, puro e simples. Relata coisas familiares, sentimentos pelos quais todos passaram, mas ele expande este drama particular. Contextualiza-o. Generosamente, torna-o parte de um todo complexo, um drama entre tantos dramas acontecidos com outras tantas famílias, outras tantas pessoas.
Ainda Estou Aqui não é um romance. É uma obra memorialista. Foca a trajetória de Eunice Paiva, mãe de Marcelo – realmente, uma mulher admirável:
“Minha mãe estava noutra.
Não há grandes tiradas freudianas nesse raciocínio. Na real, nenhum de nós tinha ciúmes dela. Na real, preferíamos até que ela se casasse e se desse bem na vida. Estávamos crescidinhos, apesar de adolescentes. Duas irmãs moravam com estudantes-namorados. Com nossos bicos, nos virávamos. Não precisaríamos dividir a rotina de outra família, com seu novo marido, com novos irmãos. Estávamos noutra também. O futuro tinha urgência. Prioridade.
Eu já falei, suas melhores amigas não eram mais as esposas dos melhores amigos do meu pai, as que sobravam na mesa de pôquer. Passou a se relacionar com outras mulheres, outras viúvas, separadas e excluídas como ela: uma editora lésbica, que por um tempo namorou uma mulher chamada Eunice, o que virou a maior gozação lá em casa; uma artista plástica solteirona, que dava aulas na faculdade de arquitetura e urbanismo da USP e tinha fama de pegar alunos décadas mais jovens; uma escritora também viúva; uma psicanalista desquitada, linda de morrer; uma arquiteta também recém-desquitada, também linda de morrer, que andava pela cidade num MP vermelho conversível, provocante e moderna.” (página 202)
Embora Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui formem, de certo modo, uma sequência, são bastante diferentes. A obra atual tem o mesmo tom leve e bem-humorado. Ambos são livros memorialistas; ambos tratam os fatos de maneira bastante objetiva. Mas Ainda Estou Aqui é obra de um escritor maduro, o texto é muito mais equilibrado. No primeiro, o foco é o próprio Marcelo, sua luta para se recuperar, seu amadurecimento como pessoa, já que suas adequações não seriam apenas físicas, mas provocaria – como provocou – mudanças psíquicas. Aceitação da sua condição e a construção de uma outra proposta para sua própria vida. Neste último, o foco é sua mãe, Eunice Paiva, sua condição de portadora de Alzheimer. Na verdade, Marcelo deixa bem claro: seu livro é sobre a memória:
“A memória é uma mágica não desvendada. Um truque da vida. Uma memória não se acumula sobre outra, mas ao lado. A memória recente não é resgatada antes da milésima. Elas se embaralham. Minha mãe, com Alzheimer, não se lembra do que comeu no café da manhã. Minha mãe, com Alzheimer, vê meu filho de um ano, que é a minha cara, e o reconhece. Não acha que sou eu, mas o chama de filhinho, de meu filhinho. E sempre diz:
— É a coisa mais linda.
E às vezes se confunde e diz:
— Ela é a coisinha mais linda.” (página 19)
Eunice Paiva é a figura lutadora, sofredora em silêncio, “a família Paiva não chora em público”. Torna-se advogada de gente famosa e importante, depois que o marido “desaparece”; torna-se defensora dos índios, sempre espoliados em suas próprias terras. Viaja muito, mantém contato com instituições estrangeiras de defesa dos nativos, luta sempre com muito denodo.
Um dia, enfim, consegue que as autoridades deem seu marido como oficialmente morto; emitida a Certidão de Óbito, ela poderá entrar na posse da conta bancária de Rubens Paiva, conseguirá receber a pensão a que tem direito. Mas isto não será feito sem luta, mais uma vez.
No episódio em que relata a ação do DOI-CODI, invadindo sua casa e sequestrando seu pai diante de todos, Marcelo volta a nos falar a respeito da memória:
“Ele [o pai] colocou um relógio de pulso, umas cadernetas no bolso. Foi com dois agentes dirigindo o Opel da minha mãe. Quatro sujeitos ficaram em casa. Um deles disse se chamar dr. Stockler, especialista em parapsicologia. Minha irmã Eliana chegou da praia. Estranhou a casa toda fechada, cortinas e janelas fechadas. Ao entrar, minha mãe logo lhe informou o que acontecia.
Acordei depois de tudo isso. Fui sonolento ao banheiro. Escovando os dentes, percebi um intruso no corredor, que vigiava pela janela do segundo andar o movimento da rua. Cumprimentei-o com a cabeça. Ele era quieto, sempre ficava no segundo andar.
A cada seis horas, esses homens eram substituídos por outros quatro. Para mim, eram sempre os mesmos.
A memória não é apenas uma pedra com hieróglifos entalhados, uma história contada. Memória lembra dunas de areia, grãos que se movem, transferem-se de uma parte a outra, ganham formas diferentes, levados pelo vento. Um fato hoje pode ser relido de outra forma amanhã. Memória é viva. Um detalhe de algo vivido pode ser lembrado anos depois, ganhar uma relevância que antes não tinha e deixar em segundo plano aquilo que era então mais representativo. Pensamos hoje com a ajuda de uma parcela pequena do nosso passado.” (página 117)
Ainda Estou Aqui é um livro muito oportuno, escrito – como diz Marcelo a certa altura – no momento em que, pelas mídias sociais, pessoas descontentes com a situação atual do Brasil pedem a volta da Ditadura Militar. É oportuno porque nos traz à memória os horrores perpetrados por tal Ditadura.
Não há possibilidades de atalhos, digo eu. Hoje me parece claro, e ainda mais depois de ter lido este importante e lancinante livro, a corrupção só pode acontecer de maneira tão absurda e tão generalizada numa cultura que acolhe tal estado.  Em outras claras palavras, qualquer classe – incluída aí a classe política – é apenas uma amostragem da sociedade. Não caiamos na simplificação imbecil de acreditar que só eles, os políticos, sejam corruptos.
Há políticos honestos. Há pessoas honestas por este Brasil afora. Mas, é verdade, “os bons são tímidos”. É preciso um choque ético. Temos de mudar nossos valores; não há espaço para a Lei de Gerson, de levar vantagem em tudo. E Democracia – com D maiúsculo – é isso mesmo: não há salvadores, nós é que teremos de nos reformar e assim reformar o destino que queremos.
Daí, leitor, a importância de livros como Ainda Estou Aqui. Leia-o, se puder. Pegue emprestado, alugue, compre (como estão caros os livros no Brasil, não?). Longe desta babaquice autoproclamada de “formadores de opinião”, o depoimento de Marcelo Rubens Paiva é contundente e bem-humorado. Se a memória lembra dunas de areia, como ele disse poeticamente, cada um de nós é um formador de opinião.


Todos nós interagimos uns com os outros e isto me anima: podemos nos melhorar. Outros países conseguiram. Por que conosco seria diferente?

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Resenha: A Camisa do Marido, de Nélida Piñon

Resultado de imagem para livro a camisa do maridoTítulo original: A Camisa do Marido
Autora: Nélida Piñon
Editora: Record
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-01-06633-6
Literatura Brasileira
Gênero: Contos
Páginas: 162
Bibliografia da autora: Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, 1961; Madeira feita de cruz, 1963; Fundador, 1969; A Casa da Paixão, 1977; Tebas do meu coração, 1974; A foça do destino, 1977; A república dos sonhos, 1984; A doce canção de Caetana, 1987;  Coração andarilho, 2009; O livro das horas, 2012;  Tempo das frutas, 1966; Sala das armas, 1973; O cortejo do divino e outros contos escolhidos, 2001; O calor das coisas, 1980; O pão de cada dia: fragmentos, 1994; A camisa do marido, 2014; Até amanhã, outra vez, 1999. A roda do vento, 1996; O presumível coração das América, 2002; Aprendiz de Homero, 2008; O ritual da arte (inédito).

Nélida Piñon é de ascendência galega, mas nasceu no Rio de Janeiro, em 03/05/1937. A curiosidade é que o nome Nélida é um anagrama do nome do avô, Daniel. Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e foi editora ou membro de conselho editorial de várias revistas brasileiras e estrangeiras. Estreou na literatura com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961. Nélida é acadêmica correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e também participante da Real Academia Galega.
Nélida possui muitos prêmios ao longo de sua carreira literária, que já tem mais de 35 anos. O último prêmio recebido foi o Príncipe das Astúrias das Letras, em 2005, conferido na cidade espanhola de Olviedo. Foi eleita em 27/07/1989 para ocupar vaga na Academia Brasileira de Letras e tomou posse em 03/05/1990. Foi a primeira mulher a se tornar presidente daquela prestigiosa instituição.
Soberbo livro de contos, este A Camisa do Marido, que terminei hoje de ler e já o estou postando aqui no blogue. A temática de Nélida Piñon foi evitada por muitos escritores, considerada de menor importância: as relações familiares. Realmente, com alta probabilidade de produzir lugares-comuns, pelas mãos seguras desta escritora tal tema não tem nada de lugar-comum.
É que, em literatura, não é bem o tema abordado o que realmente importa, mas o tratamento que o autor dá a ele. Na verdade, a quantidade de temas é limitada, embora grande. E Nélida sabe o que faz. Possui uma escrita elegante e objetiva ao mesmo tempo, isto é, não se perde em floreios desnecessários.
Compõem o livro exatamente nove contos: A camisa do marido, O trem, Dulcinéia, A mulher do pai, Para sempre, A sombra de Carlos, Em busca de Eugênia, A quimera da mãe, A desdita da lira. O tom que perpassa a maioria dos contos tem algo de erótico, sem ser vulgar. Outros, são surpreendentes pela ousadia das abordagens.
Adotarei aqui o mesmo critério ao resenhar o livro de contos História da sua vida, de Ted Chiang, já postado aqui neste blogue, ou seja, vou transcrever alguns trechos selecionados de cada conto e acrescentarei alguns comentários. Vamos lá, então.
A Camisa do Marido
“Após a morte do marido, Elisa emudeceu por alguns dias. De luto, o traje negro ficava-lhe bem. Exagerava em seu ascetismo. Parecia sujeita a uma prescrição religiosa. Cancelou qualquer visita, exceto a dos filhos, que vinham no final da tarde e cujo ruído contrastava com a paz imposta à casa. Ela própria providenciara as iguarias que eram do agrado do marido, com a condição de os filhos exortarem o pai durante as refeições. Ao morto deviam a fartura. E, com gesto vago, fazia-lhes ver que a fortuna feita pelos dois ficaria sob sua guarda.” (página 12)
A autora realiza admiravelmente a estratégia de dar voz a vários narradores, e obtemos, assim, análises parciais dos filhos e da viúva sobre as relações que os envolvem. E digo admirável, porque fazer isto no reduzido espaço de um conto não é tarefa para qualquer um. Há que ser um escritor experimentado e de muito talento.
O Trem
“O pai amava os trens. Nascido no sul de Minas, em vilarejo acanhado, vira, desde a infância, o trem cortando a paisagem em direção a São Lourenço, sem se deter na estação local, havia muito abandonada. Após o último vagão serpentear pelos trilhos e desaparecer na curva, atrás da montanha, acenava como se despedisse da sorte que o abandonara aos menos daquele dia. Até a tarde seguinte, quando aguardava esperançoso que a passagem do trem lhe deixasse de novo como lembrança certa imagem fugidia e a fumaça impregnada de carvão.” (página 36)
Este foi um dos contos de que mais gostei. O homem leva a família para dentro do esqueleto de um vagão, já em ruínas e depredado, para fazerem uma viagem imaginária pelo mundo. Nesta viagem, a geografia é subvertida em favor do prazer de imaginar-se viajando e conhecendo o mundo. Reconhecidamente, um excelente conto.
Dulcineia
“O súbito silêncio de Maritornes incomodou o escudeiro, ainda que se ressentisse com a ausência de um interlocutor que acatasse suas respostas. Ansioso, pois, de também dialogar consigo mesmo, acionou a memória, que lhe trouxe a cena de quando ambos entraram na taberna naquela tarde, dom Quixote agindo como se algum castelão o acolhesse, cedendo-lhe o castelo para repousar da caminhada. Uma cortesia habitual entre homens de boa vontade e que lisonjeava o exausto cavalheiro. Estimulado assim pelo espírito onírico que brotava do seu ser, ele acomodou-se à mesa até surpreender-se com a presença de Dulcineia, de Toboso, a servir-lhe o vinho como se fora uma taberneira.” (página 54)
O conto tem um narrador em terceira pessoa, jungido a Sancho Pança, isto é, o narrador nos faz perceber os fatos e interpretá-los sob a ótica do escudeiro; Sancho sabe, portanto, que ali não há castelo algum, não existe qualquer castelão, nem confunde a figura de Maritornes com a de Dulcineia. Somente dom Quixote vê as coisas pela ótica distorcida de sua loucura.
A Mulher do Pai
“Penso que a minha redenção seria matar o pai. Cumprir o ritual parricida que procede das cavernas. Há que suceder ao pai e ocupar seu lugar no leito. A lei é severa, mas também é justa. Pois, se tarda ele em morrer, alguém deve lhe chamar a atenção. Buscar uma justificativa. Com que direito ele vive a plenitude de seu corpo, esbravejando na cama com Ana, enquanto eu vivo de sobras, como um castrado? Foi ele quem me esmagou os testículos para perder o direito à herança.” (página 79)
Este conto é outro de que gostei muito. Drama tipicamente edípico, o desejo do filho de matar o pai para relacionar-se com a madrasta desejada. É uma variante, pois no conflito de Édipo – cumprindo a profecia inexorável – ele mata o próprio pai e termina por casar-se com Jocasta, sua própria mãe.
Para Sempre
“Ao passar dos anos, seguia recordando o homem, que guardava no corpo e na memória. Envelhecia gradualmente, a despeito de ser ainda jovem. Contudo, não conquistara serenidade. O ritual da morte do amante, que se fundira com os funerais do pai, a desorientava. Ao recordá-los, os dois homens se confundiam, as perdas se misturavam.” (página 89)
Aqui, em um caso de traição feminina, a mulher perde o amante, morto durante uma relação sexual com ela e, posteriormente, a morte do pai e tem de conviver com a dupla perda. Aquele amante era marido da tia e o passamento do pai a libera para chorar, intimamente, a perda do amor proibido.
A Sombra de Carlos
“Há muito capitulei. Desarmado, cedo quem sou a quem me reclame. Como parte da maldita caravana de carros e de camelôs, entrincheiro-me na paz fria do banheiro azulejado. Não sofro, contudo, o mesmo desespero que abateu Carlos V, César do mundo e da fé. A ele coube cruzar seus reinos em incessante cavalgada, premido pela suspeita de jamais regressar a casa, onde Isabel o aguardava. Não tinha, como eu, este apartamento, a toca da modéstia. E isso porque, vendo-o no quadro pintado por Tiziano, parecia dono do mundo, a despeito do queixo prognata, marca dos Habsburgo.” (páginas 96/97)
Neste conto, um sobrinho enterra a tia. Mas o problema é que ele sentia forte atração por ela. A narrativa é perpassada por motivos eróticos, carregados de desejo.
Em Busca de Eugênia
“E você, Eugênia, quantos filhos teve? Se me contou, esqueci-me agora. Estranho destino, o nosso. Ao parir, mugimos como vacas, balimos como ovelhas. Tanto estardalhaço para que os filhos nos paguem mais tarde com vistas apressadas. Absortos com o mundo, mal chegam, de olho no relógio, querem logo partir. Como se a sina do homem fosse fugir do estábulo onde afinal foi parido.” (página 113)
Aqui, a narradora é uma mulher viúva e já envelhecida, que clama contra a solidão e o afastamento do filho. Dirige-se a Eugênia, em estilo missivista, comentando sua situação e a relação com o filho que a visita apressadamente. Gostei muito deste conto também.
A Quimera da Mãe
“A mãe, contudo, nunca dera nome ao suposto lugar de sua quimera. Sequer admitira que existisse. Vai ver era sua Shangri-Lá. Vira em algum filme monges do Tibete que asseguravam existir a felicidade humana. Eu não sabia como defender a memória da mãe, para nada se lhe perder. Como lhe fazer a vontade no futuro? Eu a examinava. Era um ávido investigador de gestos, apto a lhe descobrir os segredos. Até surpreender, certa tarde, em um papel de pão, escrito em letra miúda, como que nascida de um desabafo, a palavra Porto.” (página 134)
Um filho faz um esforço enorme para recuperar a trajetória sentimental da mãe, mas tem dificuldades, pois ela lhe declarara, certa vez, “que tinha o coração repartido em muitos pedaços. Embora vivesse no Brasil, aspirava seguir para longe, instalar-se em algum rincão da Europa...”
A Desdita da Lira
“Na velhice, nada espero. Às vezes, encurralado na água-furtada do meu quarto, contíguo à sala onde o escravo dorme, assalta-me a esperança de tomar da pena e declarar que jamais estive na Índia. Ou que, havendo estado ali, pronto a abandonei, movida pela extrema pobreza. Talvez pudesse promover mudanças no meu Os Lusíadas, dando, por exemplo, relevância ao trecho em que menciono o Brasil entregue a Martim Afonso de Souza, que, sob as benesses dos trópicos, em obediência ao rei, dividiu aquele território em capitanias e ali plantou o que fizesse falta ao reino. Tal esperança solapa-me a alma. Mas, como exaltar o Brasil se à época me faltou inspiração? E se jamais pus os pés naquela terra? Destilo raiva por conta dos meus desacertos. Embora fosse aceitável o que disse do Brasil, onde, segundo consta, mal se balbucia a língua lusa, não seria o mesmo como discorrer sobre Portugal.” (página 145)
Claro está, o narrador aqui é o sujeito histórico Luís Vaz de Camões. Ele reflete sobre sua vida, sua obra, sua velhice desamparada (vive numa água-furtada); arrepende-se de umas tantas coisas. Este é outro conto extraordinário.
Concluindo, este A Camisa do Marido é quase a minha primeira incursão na obra desta excelente Nélida Piñon. Já lera alguns textos dela, nem todos de teor literário, já a conhecia por entrevistas, homenagens. Creio que seus livros são pouco divulgados junto ao grande público, justamente por se ter dela uma imagem de escritora difícil, laureada pela Academia Brasileira de Letras.
Realmente, estes contos A Camisa do Marido não são livro para estar nas mãos de jovens iniciantes ao mundo da leitura. Seus temas também não são os da moda; sua escrita apurada, cheia de referências cultas provavelmente incomodará o leitor mediano. Mas Nélida Piñon, sem dúvida, é uma escritora de primeiro time, não bastasse pertencer à Academia.