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domingo, 3 de dezembro de 2017

As Três Marias, de Rachel de Queiroz

Resultado de imagem para livro as tres mariasTítulo original: As Três Marias
Autora: Rachel de Queiroz
Editora: TAG Livros/José Olympio
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-03-01337-6
Literatura brasileira – Categoria Romance

Bibliografia: Romance – O Quinze (1930); João Miguel (1932); Caminho de Pedras (1937); As Três Marias (1939); O galo de ouro (1950); Memorial de Maria Moura (1992). Crônicas – A Donzela e a Moura Torta (1948); 100 crônicas escolhidas (1958); O brasileiro perplexo (1964); O caçador de tatu (1967); A menininha e outras crônicas (1976).  Teatro – Lampião (1953); A Beata Maria do Egito (1958). Infanto-juvenil – O Menino Mágico (1969); O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980); Cafute e Pena-de-Prata (1986). Obras Reunidas de Ficção – Três Romances (1948); Quatro Romances (1960); Seleta, seleção de Paulo Rónai; notas e estudos de Renato Cordeiro Gomes (1973).



Rachel de Queiroz, escritora brasileira nascida em Fortaleza, Ceará, em 17/11/1910 e falecida em 04/11/2003, no Leblon, Rio de Janeiro, aos 92 anos de idade. Romancista, contista, cronista, tradutora, jornalista. Rachel publicou seu primeiro romance, O Quinze, aos 19 anos de idade, demonstrando habilidade na análise psicológica dos seus personagens, vivendo a saga do nordestino que luta contra a seca e a miséria. O Quinze é considerado, até hoje, um dos romances mais importantes da literatura brasileira. Rachel de Queiroz foi membro da Academia Brasileira de Letras, sendo recebida por Adonias Filho. Mais tarde, ela se filiou à corrente literária denominada modernismo, e foi admiradora de Manuel Bandeira.
“Na parede caiada se desenhava, enorme, o emblema azul da Virgem Maria. Ao centro do pátio ficava o caramanchão cheiroso do jasmineiro e dentro dele, no fresco e no sombrio do verde, a imagem de uma moça de vestido branco e pés nus – uma Nossa Senhora bonita e triste.
Em redor do pátio as classes vazias, mudas, fechadas. O ruído de passos crescia, ressoava pelos corredores, o terço da cintura da Irmã tilintava, cheio de medalhas.
Eu tinha medo. A Irmã mais velha, de olhar morto, fala incolor e surda. Parecia feita de papel pálido, ou de linho engomado semelhante à corneta que trazia à cabeça e que se agitava a cada movimento seu, como uma ave. Parecia uma boneca de cera, uma figura, uma santa, só não parecia gente. Também não parecia gente a porteira seca, toda osso e nervo, nem a outra Irmã que passou silenciosa e de cabeça baixa, sem um interesse, sem um olhar. Moça, jovem, só a Virgem Maria adolescente do caramanchão; e, sendo de louça, tinha mais ar de vida e humanidade que aquelas outras mulheres de carne, junto de mim.” (página 11)
Maria José, Maria da Glória e Maria Augusta (Guta) são as três personagens centrais, sobre as quais se constituirá este romance. São as tais três Marias do título. Elas estudam num internato de uma ordem religiosa. É pela voz de Guta que tomamos conhecimento dos fatos acontecidos.
As Três Marias tem boa parte da história passada entre os muros do internato; é nesse microcosmo, circunscrito aos muros que o isolam quase completamente da cidade lá fora que Rachel vai exercer seu poder de análise. Aliás, este é uma estratégia muito usada pelos autores, literatura afora. Uma ilha, uma cidadezinha de interior, um educandário, um internato, enfim, servem como amostragem de uma sociedade que se quer analisar ou caracterizar, como se pode ver no trecho abaixo transcrito.
“De um lado vivíamos nós, as pensionistas, ruidosas, senhoras da casa, estudando com doutores de fora, tocando piano, vestindo uniforme de seda e flanela branca.
Ao centro, era o “lado das irmãs”, grandes salas claras e mudas onde não entrávamos nunca. E além, rodeando outros pátios, abrigando outras vidas antípodas, lá estavam as casas do Orfanato, onde meninas silenciosas, vestidas de xadrez humilde, aprendiam a trabalhar, a coser, a tecer as rendas dos enxovais de noiva que nós vestiríamos mais tarde, a bordar camisinhas dos filhos que nós teríamos, porque elas eram as pobres do mundo e aprendiam justamente a viver e a penar como pobres.” (página 22)
A literatura lida pelas internas é constituída por histórias água-com-açúcar, como convinha às “virtuosas jovens” internas. Isto não impede a entrada, vez por outra, de outro tipo livro, mais realista, como por exemplo, Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque. Apesar de cunho fortemente pacifista, o livro aborda os horrores das guerras, a desumana condição dos soldados nas trincheiras. Desfazia a imagem glamorosa que faziam as internas de homens sempre portando fardas limpas, bem passadas, cheirosos e imponentes; no livro circulava o carrossel de horrores e podridões.
No excelente Carta Aberta A Rachel de Queiroz, de Heloisa Buarque de Hollanda, que acompanha esta edição, há a caracterização de cada uma das três Marias: Maria da Glória, após sair do internato, casa-se e se torna mãe e esposa notável. “E, no livro, se congela na imagem do protótipo de felicidade”, nos diz Heloisa.
Maria José vai viver com a mãe sofrida, arranja um emprego de professora e se constitui em arrimo de família. Esta Maria se apoia na religião e, no dizer de Heloisa, “sua imagem se congela na grandeza e na virtude da mulher sofredora”.
Guta volta para a casa da família, no Cariri, mas não consegue se adaptar à rotina e regras francamente mantenedoras do poder dos pais. Vai para Fortaleza e arranja um emprego de datilógrafa, mediante concurso. Das três, será a mais livre, mas também a mais desnorteada, sem a comodidade da segurança do protótipo de felicidade, atribuída a Maria da Glória, e também sem a segurança fornecida pela religião. Por isso mesmo, Maria Augusta é a personagem mais rica, mais vívida do romance. Ela vai para o Rio de Janeiro, vive, aprende, sofre – tem seus amores.
O judeu Isaac e Guta têm, durante a estada dela no Rio, um relacionamento bastante complicado:
“Isaac me queria, era evidente, mas nunca me falara de amor. Não fazia projetos, não pedia promessas, não hipotecava o futuro. Nos instantes de ternura mais íntima, ou em outros momentos sem importância, suas palavras sempre feriam apenas o sentimento presente, a sensação do momento.
E eu, que sonhava e fazia projetos sozinha, não ousava pedir nada, imitava o descuido dele; via próximo o dia de ir embora e continuava calada, com medo de quebrar o encanto, com medo de o decepcionar, de o levar a me supor capaz de qualquer cálculo e negociar com o coração. Tirava justamente o meu orgulho do gesto de me dar sem pedir nada, ou pelo menos sem mostrar que o esperava.” (página 187)
Manoel Bandeira, num outro texto de apreciação sobre este As Três Marias, ressalta que há no livro quase uma sina, as mulheres de Rachel de Queiroz morrem, de um modo geral, de parto:
“O aspecto mais curioso talvez dessa feminilidade está na aparente “falta de imaginação” com que a escritora mata mulheres no romance. Várias delas morrem de parto, pelo menos três. O parto parece estar para a escritora em íntima conivência com a morte. Aliás, para Maria Augusta, que é quem conta a história, essa ligação do parto com a morte é impressionantemente legítima, pois que ela perde o filhinho nascituro. Não morre ela, mas o filho. E, assim perturbada com violência em seus instintos maternos, Maria Augusta como que se sacrifica, matando no parto as outras mães do livro. Não tem ânimo para lhes matar os filhos (que é a imagem que a persegue), antes se salva neles prolongando nos filhos das outras a sua maternidade frustrada.” (página 219)
Interpretação esta focada na psicanálise de Freud. E talvez assim seja, tendo em vista que a própria escritora, Rachel de Queiroz, teve um filho morto precocemente. Guta, portanto, seria uma espécie de alter ego da autora.
Os que escrevem ficção sabem desta verdade: pomos nos nossos personagens feitos de palavras algo de nós mesmos; os bons escritores ampliam esta base, ressignificando-a e dando corporeidade aos seus construtos. Os maus, provavelmente, não conseguem mais do que repetir-se a si mesmos, caindo na armadilha de criarem meros zumbis.

Há muito tempo não lia nada desta escritora. Para ser honesto, eu a conhecia somente de textos postos em antologias, o que não é o mais adequado para mergulhos de profundidade. E que bom que o meu primeiro contato com uma obra de Rachel tenha se dado com As Três Marias. Porque, como ressalta Manoel Bandeira, ela filia-se à corrente de Machado de Assis, com o seu texto fluente, reflexivo e sobretudo elegante. Com frases apuradas, tem-se a mesma impressão de quando lemos o Bruxo de Cosme Velho: não há palavras excessivas, não há uma vírgula a mais do que deveria. Um estilo seco, quase sem adjetivos. Um livraço. E numa edição muito bonita, esta da TAG Livros.

sábado, 25 de novembro de 2017

Resenha: Antes que os pássaros acordem, de Josué Montello

Título original: Antes que os pássaros acordem
Autor: Josué Montello
Editora: Nova Fronteira
Edição: não consta. 3ª Reimpressão
Copyright: 1987
Gênero literário: Romance
Número de páginas: 200
ISBN: 85-209-1325-3
Literatura Brasileira
Bibliografia do autor - Romances: Janelas Fechadas 1941; Luz da Estrela Morta, 1948; Labirinto de Espelhos, 1952; A Décima Noite, 1959; Os Degraus do Paraíso, 1965; Cais da Sagração, 1971; Os Tambores de São Luís, 1975; Noite Sobre Alcântara, 1978; A Coroa de Areia, 1979; O Silêncio da Confissão; 1980; Largo do Desterro, 1981; Aleluia, 1982; Pedra Viva, 1983; Uma Varanda sobre o Silêncio, 1984; Perto da Meia-Noite, 1985; Antes que os Pássaros Acordem, 1987; A Última Convidada, 1989; A vida eterna do major Taborda, 1989; Um Beiral para os Bem-te-vis, 1989; O Camarote Vazio, 1990; O Baile da Despedida, 1992; A Viagem sem Regresso, 1993; Uma Sombra na Parede; 1995; A Mulher Proibida, 1996; Enquanto o Tempo não Passa, 1996; Sempre Serás Lembrada, 2000. Novelas: O Fio da Meada, 1955; Duas Vezes Perdida, 1966; Numa Véspera de Natal, 1967; Uma Tarde, Outra Tarde, 1968; Um Rosto de Menina, 1983; A Indesejada Aposentadoria, 1972; Glorinha, 1977; O Melhor do Conto Brasileiro, 1979; Pelo Telefone, 1981. Teatro: Precisa-se de um Anjo, 1943; Escola da Saudade, 1946; O Verdugo, 1954; A Miragem, (1959; Através do Olho Mágico, 1959; O Anel que Tu Me Deste, 1960; A Baronesa, 1960; Alegoria das Três Capitais, 1960; Um Apartamento no Céu, 1995; O Baile da Despedida, 1997. Ensaios: Gonçalves Dias; 1942; O Hamlet de Antonio Nobre, 1949; Fontes Tradicionais de Antonio Nobre, 1953; Artur Azevedo e a Arte do Conto, 1956; O Oratório Atual do Brasil, 1959; Caminho da Fonte, 1959; O Presidente Machado de Assis,1961; Uma Palavra Depois de Outra, 1969; Um Maître Oublié de Stendhal, 1970; Estante Giratória, 1971; A Cultura Brasileira, 1977; Brazilian Culture, 1983; Viagem ao Mundo de Dom Quixote, 1983; Os Caminhos, 1984; Lanterna Vermelha, 1985; Janela de Mirante, 1993; Fachada de Azulejo, 1996; Condição Literária, 1996; Memórias Póstumas de Machado de Assis, 1997; Baú da Juventude, 1997; O Juscelino Kubitschek de Minhas Recordações, 1999. Contos: Um rosto de menina, 1980. Outros: Pequeno Anedotário da Academia Brasileira, 1961.

Josué de Sousa Montello (Josué Montello), nascido em 21/08/1917, em São Luís, Maranhão e falecido em 15/03/2006, aos 88 anos. Com apenas 15 anos de idade, Josué Montello começou a integrar a Sociedade Literária Cenáculo Graça Aranha, da qual faziam parte jovens talentos ligados ao movimento do modernismo. Após uma passagem significativa pela cidade de Belém (Pará), seguiu para o Rio de Janeiro, onde se integrou também ao semanário literário Dom Casmurro. Janelas Fechadas foi seu romance de estreia, em 1941. Em novembro de 1954, foi eleito para ocupar a Cadeira de número 29 da Academia Brasileira de Letras. Dono de uma invejável produção espalhada por vários gêneros de expressão escrita, como se pode ver em sua bibliografia acima, Josué Montello possui uma prosa refinada, elegante, que nos passa aquela falsa sensação de que haver sido projetada com simplicidade.
Antes que os pássaros acordem, romance de 1987, me chamou a atenção pela capa, pelo nome do autor (eu já possuía uma edição, do mesmo autor, A vida eterna do Major Taborda, pelo extinto Círculo do Livro). Uma bela capa, mostrando a famosa Torre Eiffel de Paris ao fundo, em meio a um alvorecer. Este é o único livro de Montello ambientado fora do Brasil, mais precisamente, em Paris, na França. A temática também é francesa, envolvendo várias questões da invasão e permanência das tropas alemãs em solo parisiense, quando da Segunda Guerra Mundial.
Dividido em cinco partes, o romance se inicia:
“A cena foi rápida. Só o tempo necessário para abrir e fechar a alta porta do edifício, quase sem ruído, e atirar para dentro do vestíbulo o adolescente que se encolhia junto à ombreira de pedra, protegido pelas lâmpadas apagadas.
Depois, tanto Gérard quanto o desconhecido permaneceram de respiração suspensa, a olhar na direção da porta, ouvindo passos da patrulha na calçada da rua, ambos imóveis e com medo.” (página 11)
Início no meio da ação, ou como é tecnicamente conhecido, in medio res. O adolescente é Daniel Cohen, ficamos sabendo pouco depois; é um idealista lutando como pode contra a ocupação alemã. A Gestapo o procura por toda a cidade. Gérard o esconde em seu apartamento, onde vive com Isabelle. O protagonista da história tem seus próprios problemas. Chega a fugir de Paris, mas retorna à cidade, para o que der e vier. Além do mais, ele tem um problema sério: embora desejem – tanto ele quanto Isabelle – um filho, Gérard é estéril.
Trabalha numa agência publicitária como desenhista de talento. É amigo do seu chefe, Augustin. a trama que conduz o romance passa pelo fato de um desenho de Gérard representando o Arco do Triunfo ter sido utilizado pela agência, numa fusão com outro desenho dele, representando a águia alemã. A agência realizara uma fusão entre os desenhos, de modo que a águia sobrepaira o Arco do Triunfo, numa clara propaganda pró-nazista.
A relação de Gérard com Isabelle não é tranquila, assombrada pela impossibilidade de gerarem um filho. Este será o outro gatilho que move a história. O texto é muito bem escrito, dosando as informações num crescendo, até que, lá pelas páginas 40, me vi completamente conquistado pelo livro.
Mesmo a ambientação sendo parisiense, envolvendo fatos parisienses e fazendo, o tempo todo, referências à cidade-luz, Josué toca em algumas questões universais. Uma delas, por exemplo, é a grande questão sobre o que legitima atos violentos, como abaixo:
“Antoine, puxado por Isabelle, ia saindo de costas, na direção da orla da praça, enquanto Gérard dava por si defronte do guarda, interpelando-o:
— Que é que fez a menina? E, por que não pode brincar?
A resposta veio rápida, em tom ríspido, com o guarda a levantar ainda mais a cabeça autoritária:
— É judia, senhor. Sei que é. E os judeus estão proibidos de brincar nas praças públicas.
E para a senhora, que tinha a menina junto a si, protegendo-a com os braços por cima de seus ombros assustados:
— Onde está sua estrela amarela? E a estrela da menina? A senhora não sabe que tem de usar a sua em cima do peito, bem à vista? E que as crianças também têm de usá-la, depois dos seis anos, aqui no peito, como a senhora?
E a judia, já com ar acossado:
— As duas estrelas estão na bolsa, senhor. Me esqueci de pegá-las. Desculpe.
E o guarda, mais enérgico:
— Eu vou levar a senhora, com a sua neta, para o Comissário de Polícia. Tenho ordens severas para agir contra os judeus.” (página 115/116
E este outro trecho, desta vez, com a violência deflagrada pelos franceses:
“Ela, primeiro, enxugou os olhos. E atenuando a exaltação, como se houvesse conseguido superar a cólera:
— Eu estava sozinha na Agência, abrindo a correspondência atrasada, no momento em que dois homens e uma mulher apareceram na porta, um deles perguntando pelo Pierre. Depois, por ti. Com um gesto, mostrei-lhes as salas vazias, e logo fiquei gelada, vendo que o outro trazia na mão direita um revólver. Enquanto os dois passavam para a sala do Pierre, e ali revolviam gavetas e armários, a mulher me ordenou, já de tesoura em punho: — Baixa a cabeça. — Intimidada, obedeci. Senti que meus cabelos iam sendo arrancados a tesouradas. E quando eu pensava que já estava livre, começou o pior, com a navalha me raspando o crânio.” (página 149)
Dominando perfeitamente os truques narrativos, perto do desfecho Montello introduz um “personagem-alívio”, isto é, um personagem criado para dar ao leitor uma respirada antes do clímax e que tem, ao final das contas, a função de “esticar” o suspense, adiando-o. Até certo ponto, tal personagem – um visconde real ou suposto – me remeteu à figura tresloucada de Dom Quixote, quer pela descrição física, quer pela loucura evidente, quer pela função histriônica ou, talvez mais completo, por todas estas coisas juntas:
“Conquanto houvesse chegado ali pela manhã, o senhor alto e magro, de unhas bem tratadas...
— O cavalheiro não se importa se eu fizer uma pequenina alteração na sua cama? Obrigado. Ponho a minha do outro lado. Faço isso pelo senhor. Dizem-me que ronco um pouco nos meus sonos mais profundos. Quanto mais longe eu estiver, melhor será, tanto para mim, que não serei acordado pelo carteiro, quanto para o senhor, que não terá de me acorda para poder dormir.” (página 179)
É do tal visconde a estapafúrdia Teoria do Pavio, sobre a qual ele discorre, didaticamente:
“— A teoria é simples. Simplérrima. O senhor, como artista, não precisará recorrer a raciocínios metafísicos para entendê-la. Imagine uma vela. Há velas grandes. Há velas pequenas. Refiro-me às velas de cera que pomos nos altares. Cada vela tem seu pavio. Uns maiores. Outros menores. Conforme o tamanho da vela. Cada um de nós, para Deus, é uma vela. Maior. Menor. Sem que o tamanho da vela corresponda ao tamanho da pessoa. Se correspondesse, eu estaria, aqui, em posição melhor do que o senhor. Por quê? Já vai me entender. O tamanho de nossas vidas depende de nosso pavio. Tanto eu quanto o senhor podemos ter pavio longo ou pavio curto. Ou seja: eu posso ter pavio longo; p senhor pode ter pavio curto. Ou vice-versa. O curto é o meu, e o seu é longo. Por quê? Mistério. O importante é que há um pavio para cada um. Quando nascemos, esse pavio é aceso, lá em cima. E enquanto vivemos, ele vai queimando. Na hora em que tem de apagar, apaga mesmo, no finzinho da vela. Tudo quanto se fizer, aqui embaixo, para manter o pavio aceso, não adianta coisa alguma. Acabou, acabou.” (página 181)

Delicioso o livro, meu caro leitor. E quase passou despercebido, quando o comprei, naquela baciada de saldos. Também ficou um tempão sem que eu o lesse, até que, ao mexer na minha estante, dei de cara com ele. E me decidi a lê-lo, para o meu prazer literário.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Resenha: O Estrangeiro, de Albert Camus

Resultado de imagem para livro o estrangeiroTítulo original: L’Etranger
Título em português: O Estrangeiro
Autor: Albert Camus
Tradutora: Valerie Rumjanek
Editora: Record
Copyright: 1957
Edição: 40ª
Origem: Literatura Francesa
ISBN: 978-85-01-01486-3
Bibliografia do autor: Révolte dans les Asturies (Revolta nas Astúrias), 1936; L'Envers et l'Endroit (O Avesso e o Direito), 1937; Noces (Núpcias), 1939; Réflexions sur la Guillotine (Reflexões sobre a Guilhotina), 1947; L'Étranger (O estrangeiro), 1942; Le Mythe de Sisyphe (O mito de Sísifo), 1942; Les justes (Os justos), 2008; Malentendu (O malentendido), 1944; Lettres à un ami allemand (Cartas a um amigo alemão),1941; La peste (A peste), 1972; L'État de siège (Estado de sítio), 1948; L'Artiste en prison (O Artista na prisão), 1952; Actuelles (Atuais) I, Crônicas, 1944-1948", 1950; "Actuelles (Atuais) II, Crônicas, 1948-1953; L’homme révolté (O homem revoltado); L'Été (O Verão), 1954; Requiem pour une nonne (Réquiem para uma freira); La chute (A queda),  1972; L'Exil et le Royaume (O exílio e o reino), 1957; La Femme adultere (A mulher adúltera), Le Renégat (O Renegado), Les Muets (Os Mudos), L'Hôte (O Hóspede), Jonas. La Pierre qui pousse (A Pedra que brota, Os discursos da Suécia (publicado juntamente com O avesso e o direito); Carnets I (Cadernetas I), 1962; Carnets II (Cadernetas II), janeiro 1942-março 1951, 1964; Carnets III (Cadernetas III), março 1951-dezembro, 1959; La Postérité du soleil, photographies de Henriette Grindat. Itinéraire par René Char (A posteridade do Sol, fotografias de Henriette Grindat. Itinerário por René Char, 1965;  Les possédés (Os possessos),  adaptação ao teatro do romance de Fiódor Dostoiévski, 1959; Résistance, Rebellion, and Death (Resistência, Rebelião e Morte); Le Premier Homme (O primeiro homem), 1994; La mort heureuse (A morte feliz); Albert Camus, Maria Casarès. Correspondance inédite (1944-1959). Avant-propos de Catherine Camus, Gallimard, Collection Blanche, 2017.

Albert Camus é um escritor argelino de nacionalidade francesa. Nasceu em 07/11/1913, em Mondovi, Argélia, e faleceu em 04/01/1960, em Villeblevin, França. Um homem de vários talentos: romancista, ensaísta, jornalista, dramaturgo e filósofo. Na sua terra natal, viveu sob o guante da fome, da guerra, da miséria e do sol. Tais referências vão aparecer em toda a sua obra.
Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de 1957, pelo conjunto da obra. Ele era tuberculoso e esta condição, à época uma ameaça real de morte, lhe traz a dimensão da falibilidade do ser humano. Como filósofo, Albert integra a corrente existencialista; como escritor, vincula-se ao que se convencionou chamar “estética do absurdo”. Como precedentes, dentro da mesma proposta estética, temos Dostoiévski e Franz Kafka; como filiados posteriores, Samuel Beckett e Eugène Ionesco.
Vale transcrever a abertura de O Estrangeiro:

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Vou tomar o ônibus às duas horas e chego ainda à tarde. Assim posso velar o corpo e estar de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de licença a meu patrão e, com uma desculpa destas, ele não podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: “A culpa não é minha.” Não respondeu. Pensei, então, que não devia ter-lhe dito isto. A verdade é que eu nada tinha por que me desculpar. Cabia a ele dar-me os pêsames. Com certeza, irá fazê-lo depois de amanhã, quando me vir de luto. Por ora é um pouco como se mamãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso encerrado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.” (página 13)

Uma das mais perfeitas páginas de abertura que já li. E o parágrafo introdutório é simplesmente irretocável. Perfeito. Várias informações importantes são adiantadas já neste introito. Vejamos.
  • A mãe do protagonista morreu em um asilo para velhos, na localidade de Marengo;
  • A relação do protagonista com o patrão não é das mais afetivas;
  • O narrador é em primeira pessoa, narrando do ponto de vista do protagonista e se constitui, pelo tom já demonstrado, numa voz neutra, distante de qualquer envolvimento emocional com os fatos;
  • O estilo desenvolvido pelo autor é seco, direto, quase sem adjetivos;
  • ·Por fim, o protagonista é um homem sem grande importância social;
  • Não é demais perceber-se, de saída, o tom de pessimismo assumido.

Mersault leva uma vida banal, completamente convencional. A tudo que lhe é proposto, reage com um “tanto faz”, que nos lembra muito, a nós, leitores do século XXI, a extraordinária novela de Herman Melville, Bartleby, o escrivão. Também ele reage de forma parecida, quando lhe propõem alguma tarefa: “melhor não”. Mersault não tem quase desejos, ambições; a vida o leva.
Coloca-se, desde cedo, a grande questão da liberdade. Mersault, não tendo opções a fazer, não tendo ambições, não sendo vinculado a sentimentos, nem a correntes filosóficas, religiosas ou ideológicas e mesmo não sendo filiado a nenhuma corrente teórica científica, configura-se como um homem completamente livre. É um homem que realmente pode escolher o caminho que desejar, pois tem todas as cartas à sua disposição. O que acontece, entretanto, é que ele não escolhe. É livre para escolher, mas tudo lhe parece tão banal, tão sem propósito, que não há o que escolher.
O narrador-protagonista nos narra os fatos no tempo do presente, às vezes fazendo incursões ao passado. Estas incursões, não obstante, não são portadoras de afetividade ou saudosismo. São apenas referências que desembocam no presente.
Penso ser de muita utilidade a transcrição de outro trecho, desta vez de autoria de Manuel da Costa Pinto, jornalista que assina o prefácio:

“Estamos diante de uma consciência esvaziada, estranha (ou “estrangeira”) a tudo, que vive no tempo presente e na recusa de estabelecer nexos entre a gratuidade dos fatos. Esse novo tipo de herói – ou, no caso, de anti-herói, pelo caráter banal de sua existência nua – antecipa em duas décadas o nouveau roman de Alain Robbe-Grillet e Claude Simon, com seus enredos confinados na descrição fenomenológica das coisas e em ações que rejeitam determinações sociais ou explicações de ordem psicológica.” (páginas 5 e 6)

Somos obrigados a fazer relação direta ao livro anteriormente resenhado neste blogue, ainda dentro do mês de novembro, O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati. Aqui como lá, o tom de desencanto; aqui como lá, a percepção de que a vida não é significativa, de que existe apenas o esvaziamento dos sentidos atribuíveis à vida.
Mesmo no caso das relações amorosas, especificamente entre Mersault e Marie, há um esvaziamento, por parte dele:

“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.
— Nesse caso, por que se casar comigo? – perguntou ela.
Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, nós poderíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu me contentava em dizer que sim. Observou, então, que o casamento era uma coisa séria.
— Não – respondi.
Ela se calou durante alguns instantes, olhando-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, partindo de outra mulher com a qual tivesse o mesmo relacionamento, eu teria aceitado a mesma proposta.
— Naturalmente – respondi.” (página 49)

De vez em quando, Mersault a desejava, mas era apenas uma necessidade fisiológica, um impulso natural e automático.
A falta de religião do protagonista vai levar, a certa altura da narrativa, um padre à exasperação. Ele havia tentado obter de Mersault uma declaração de pertencer a esta ou àquela religião:

“Ia dizer-lhe que estava errado em obstinar-se: este último ponto não tinha tanta importância assim. Mas ele me interrompeu e exortou-me uma última vez, do alto de sua posição, perguntando-me se acreditava em Deus. Respondi que não. Sentou-se, indignado. Disse-me que era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que lhe viravam o rosto. Essa era a sua convicção, e se algum dia viesse a duvidar dela, a sua vida deixaria de ter sentido.
— O senhor quer – exclamou – que a minha vida não tenha sentido?Na minha opinião, eu não tinha nada com isso, e foi o que lhe disse. Mas do outro lado da mesa ele já brandia o Cristo sob os meus olhos e gritava de maneira irracional:— Eu sou cristão. Peço perdão pelos seus pecados a esse aqui. Como pode não acreditar que ele sofreu por você?” (página 73)

Não tive, leitor, o planejamento de ler duas obras tão densas, enquadradas na “estética do absurdo” – obras tão desesperançadas – uma após a outra. O deserto dos tártaros, sim, foi opção; queria ler essa obra há muito tempo. Mas não este O estrangeiro. Ele me foi indicado pelo instrutor de um curso que estou fazendo. Ademais, Albert Camus era uma lacuna imperdoável na minha vida de leitor – lacuna que reparo agora.
Se você gosta de leituras densas, é uma boa indicação. Aliás, é mais do que a questão posta. Na verdade, se você gosta desta linha pessimista, ou se você consegue lê-la, mesmo não se identificando com o tom tão pessimista (sou desses, otimista de carteirinha, mas que consegue mesmo assim gostar de algo tão contrário à minha disposição), leia-o. É um dos clássicos da literatura ocidental.

domingo, 19 de novembro de 2017

Resenha: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

Resultado de imagem para livro o deserto dos tártarosTítulo original: Il deserto dei Tartari
Título em português: O deserto dos tártaros
Autor: Dino Buzzati
Editora: Editora Nova Fronteira
Tradução: Aurora Fornoni Bernaradini/Homero Freitas de Andrade
Origem: Literatura Italiana
ISBN: 9788520923849
Bibliografia do autor: Bàrnabo delle montagne, 1933; Il segreto del bosco vecchio (O segredo do bosque velho), 1935; Il deserto dei Tartari, 1940; I sette mesaggieri, 1942; La famosa invasione degli orsi in Sicilia, 1945; Il libro delle pipe, 1945; Paura ala Scala, 1949; In quel preciso momento, 1950; Il crollo della Baliverna, 1957; Sessanta racconti, 1958; Le storie dipinte, 1958; Esperimento di magia, 1958; Il grande ritratto, 1960; Egregio signore, siamo spiacenti di..., 1975; Un amore, 1963; Il capitano Pic e altre poesie, 1965; Scusi da che parte per Piazza Duomo?, 1965; Tre colpi alla porta, 1965; Il colombre, 1966; Presentazione a L'opera di Bosch, 1966; Due poemetti, 1967; Prefazione a R.James, 1967; Prefazione a W:Disney, Vita e dollari di Paperon de' Paperoni, 1968; La boutique del mistero, 1968; Poema a fumetti, 1969; Le notti difficili, 1971; I miracoli di Val Morel, 1971; Prefazione a Tarzan delle scimmie, 1971; Cronache terrestri, servizi giornalistici, a cura di Domenico Porzio, 1972; Congedo a ciglio asciutto di Buzzati, 1974; Romanzi e racconti, 1975; I misteri d'Italia, 1978; Teatro, 1980; Dino Buzzati al Giro d'Italia, 1981; Le poesie, 1982; 180 racconti, 1984; Il reggimento parte all'alba, 1985; Lettere a Brambilla, 1985; Il meglio dei racconti, 1990; Le montagne di vetro, 1990; Lo strano Natale di Mr. Scrooge e altre storie, 1990; Bestiario, 1991; Il buttafuoco, 1992; La mia Belluno, 1992; Il borghese stregato ed altri racconti, 1994. Teatro: Piccola passeggiata, 1942; La rivolta contro i poveri, 1946; Un caso clinico, 1953; Drammatica fine di un musicista, 1955; Sola in casa, 1958; Una ragazza arrivò, 1958; Le finestre, 1959; L'orologio, 1959; Un verme al ministero, 1960; I suggeritori, 1960; Il mantello, 1960; L'uomo che andrà in America, 1962; L'aumento, 1962; La colonna infame, 1962; Spogliarello, 1962; La telefonista, 1964; La famosa invasione degli orsi in Sicilia (representado em Milão em 1965); La fine del borghese, 1968.

Dino Buzzati Traverso nasceu San Pellegrino (Itália), em 16/11/1906 e faleceu em Milão, em 28/01/1972. Foi jornalista, escritor italiano de romances, teatro. Em 1924, ingressou na Universidade de Milão, onde curso Direito. Quando terminava seu curso, iniciou suas atividades jornalísticas no Corriere della Siera, ficando neste emprego durante toda a sua vida. É bastante difundida a tese de que sua carreira jornalística tenha influenciado diretamente sua atividade literária, dando-lhe um estilo objetivo e próximo da realidade, mesmo nos escritos nos quais se aproxima do absurdo. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na África como jornalista da Marinha Italiana. Logo após, publicou sua obra O deserto dos tártaros, obtendo fama mundial.
Este O deserto dos tártaros é um clássico, indubitavelmente. Filiado à corrente literária que propõe uma narrativa cujos elementos constitutivos pertencem ao mundo do absurdo, a leitura da obra é angustiante. Ela me deixou ansioso em vários trechos. Apesar de ter fatos absurdos, desconcertantes, Dino Buzzati os descreve com riqueza de detalhes, como se estivesse tratando de coisas aceitáveis, corriqueiras.
Em muitos livros, realiza-se a catarse grega, isto é, uma espécie de depuração; seguimos o drama do personagem e depois nos advém o alívio. Não precisamos experimentar o drama em nossa vida, observamos tais acontecimentos na vida do personagem e, ao fim, o sentimento de empatia nos eleva. Não, entretanto, neste O deserto dos tártaros. Não há catarse. Ao término da leitura, fica-se com a amargura do personagem, sem remissão.
Certo Giovanni Drogo é designado para servir no Forte Bastiani, uma fortaleza de fronteira. Ela guarda a segurança das terras contra a invasão dos tártaros, que devem atravessar um deserto. Daí o nome da obra. Não obstante, a história não é sobre militarismo ou guerra.
O Forte Bastiani não é considerado importante, por um pequeno detalhe: ninguém acredita ser possível um ataque dos tártaros, tendo de atravessar um deserto inóspito. Ela se configura, então, como uma fortaleza protocolar, uma afirmação da autoridade. Tão desimportante é a construção que nem mesmo o comum dos habitantes de uma cidade próxima se lembram da existência dela:
“Da sombra acumulada aos pés da muralha surgiu então um homem, uma espécie de vagabundo e mendigo, com uma barba grisalha e um pequeno saco na mão. Na penumbra, contudo, não se distinguia bem, somente o branco de seus olhos emitia reflexos. Drogo fitou-o, reconhecido.
— O que está procurando o senhor? – perguntou.
— Procuro o forte. É este?
— Não existe mais forte aqui – disse o desconhecido, com voz afável. – Está tudo fechado, já faz uns dez anos que não há ninguém.
— E onde fica o forte, então? – perguntou Drogo, repentinamente irritado com aquele homem.
— Que forte? Aquele, talvez? – E o desconhecido estendia um braço para indicar alguma coisa.” (página 10)
Giovanni Drogo é um homem simples e acompanhamos sua trajetória; é um tenente e se apresenta, então, ao comando militar. Conhece a rotina do forte e, pouco a pouco, se integra a ela. E vai percebendo duas coisas: primeira, as pessoas que servem no forte vão se acomodando a ele e não desejam mais ir embora; segunda, ciclicamente, alguém diz ter identificado ao longe, no deserto, alguma movimentação do inimigo, o que poria em estado de atenção o destacamento do forte. Entretanto, tais avistamentos não se concretizam.
Os acontecimentos cíclicos marcam o romance. O ciclo das estações, que vão se sucedendo, o ciclo dos avistamentos, o ciclo da água que goteja na cisterna, inicialmente se tornando uma tortura para Drogo, no silêncio da noite. O madeirame do forte range quando se dilata sob o calor do verão ou quando se retrai, sob os rigores do inverno.
A certa altura, Giovanni Drogo vai passar um tempo com a família. Acentua-se a sensação do absurdo que é a vida no forte e é um ponto a mais para termos a percepção de que o forte significa muito mais do que uma mera construção militar:
“Não pense mais nisso, Giovanni Drogo, não se vier para trás, agora que chegou à borda do planalto e a estrada está para mergulhar no vale. Seria uma tola fraqueza. Você conhece, pedra por pedra, o forte Bastiani, certamente não corre o risco de esquecê-lo. O cavalo trota alegremente, o dia está bom, o ar, morno e leve, a vida à frente é longa, como que ainda por começar, que necessidade haveria de dar uma última olhada nas muralhas, nas casamatas, nas sentinelas de turno na borda dos redutos? Assim uma página lentamente é virada, passada para o outro lado, acrescenta-se a outras já findas, por hora é apenas uma leve camada; as que falta ler são, em comparação, um monte inesgotável. Mas é sempre uma outra página gasta, senhor tenente, uma porção de vida que se foi.” (página 110/111)
Drogo retorna, entretanto. A sua vida de antes da apresentação ao forte não tem mais significado; a sua própria casa se torna estranha a ele. O forte exerce uma estranha atração sobre Giovanni. Não lhe importa o absurdo de servir a uma fortaleza decrépita, quase inoperante porque antiga, defasada, contra um inimigo que não comparece.
E, num dos belos trechos desta obra, entre tantos outros, lemos o seguinte:
“Aos poucos a fé se enfraquecia. É difícil acreditar numa coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que, se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que, se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso o que causa a solidão da vida.” (páginas 144/145)
O trecho acima é fundamental para o entendimento do livro. Estamos lendo uma obra literária sobre o grande tema da solidão do Homem, mesmo em meio aos seus semelhantes. O forte nos dá uma amostragem da sociedade em que vivemos; ali, os soldados e oficiais, desejam ardentemente a tal invasão dos tártaros, cujo combate lhes trará glória, os tornará importantes. Dão os melhores anos de sua vida para este gran finale, que, afinal de contas, provavelmente não vai acontecer.
O famoso mal de siècle, o mal-estar da humanidade. A sociedade que começa a emergir do período de guerras mundiais, que nos promete o paraíso se todos participarmos da sua sustentação. Entretanto, a premiação é pífia e difusa, num mundo líquido (Bauman, obrigado), em que nada é aquilo que parece ser, tudo muda o tempo todo. Agimos com um cão correndo atrás de um naco de carne amarrado, numa extremidade, a uma vara e a vara, na outra extremidade, na própria coleira do cão. Nunca a alcançará.
Perturbador, sim, mas leitura obrigatória, pelo menos para aqueles que gostam ou sentem necessidade de reflexão. Na minha opinião, este é um livro que trafega no mesmo caminho de A fera na selva, de Henry James, Bartleby, O escriturário, de Herman Melville, Esperando Godot, de Samuel Beckett, A metamorfose, de Franz Kafka. Cada uma deles tem suas peculiaridades, os temas não são exatamente os mesmos, mas trabalham a percepção de um mundo absurdo. Em sentido amplo, são obras distópicas, embora se tenha convencionado a aplicação desta palavra – distópico – a obras de ficção científica que mostram uma visão pessimista de uma sociedade futura.
Para degustação final, outro belo trecho deste O deserto dos tártaros:
“À soleira estava sentada uma mulher, ocupada em tricotar uma meia, e a seus pés dormia, num rústico berço, uma criança. Drogo fitou espantado aquele sono maravilhoso, tão diferente do dos homens grandes, tão delicado e profundo. Não haviam nascido ainda naquele ser os sonhos turvos, a pequena alma vagava despreocupada, sem desejos ou remorsos, por um ar puro e calmo. Drogo permaneceu parado, admirando a criança adormecida, e uma aguda tristeza penetrava em seu coração. Tentou imaginar a si mesmo mergulhado no sono, um Drogo estranho que ele nunca pudera conhecer.” (página 167)
Curiosa aqui a presença de uma mulher tricotando uma meia, provavelmente para a criança. Uma construção possível é a da mulher que, ao pôr o filho no mundo, já começa a construir para ele os passos que fatalmente o levarão ao sofrimento de ser sozinho.
Pessimista, caro leitor, mas belo. Este O deserto dos tártaros é um livro que certamente revisitarei. Esquecê-lo, provavelmente, nunca mais.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Resenha: A Metamorfose, de Franz Kafka

A Metamorfose Título original: Die Verwandlung
Título em português: A Metamorfose
Autor: Franz Kafka
Tradutor: Marcelo Backes
Editora: Folha de São Paulo (em parceria com a LP&M)
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-7949-282-2
Bibliografia: Romances – O Desaparecido, 1912; O Processo, 1914; O Castelo, 1922. Contos – Na Colônia Penal, 1914; Um Médico Rural, 1919; Um Artista da Fome, 1922; A Grande Muralha da China, 1918. Novela – A Metamorfose, 1912.

Franz Kafka nasceu em 03/07/1883, em Praga, na República Tcheca e morreu em 03/06/1924, na Áustria. Pertencia a uma família judia de classe média, morando em Praga, à época pertencente ao famoso Império Austro-Húngaro. Os habitantes daquela capital falavam, em sua maioria, o idioma tcheco e a outra parte dela, o alemão. Cada um destes grupos idiomáticos tentava a supremacia, pois trabalhavam para fortalecer a identidade nacional.
Kafka cursou Direito e logo conseguiu emprego numa companhia de seguros. No seu tempo livre, escrevia contos e por toda a sua vida reclamou muito do pouco tempo para cumprir o que ele chamou de seu “chamado”. A ocupação com o seu ganha-pão não lhe deixava tempo suficiente para se dedicar à sua obra. Escreveu centenas de cartas para seus familiares e amigos mais próximos, como seu pai, sua noiva Felice Bauer e sua irmã mais nova, Ottla Kafka.
A relação turbulenta com o pai, a condição de ser judeu são condições normalmente apontadas como influência sobre as características de suas histórias, onde prevalece a estranheza, o absurdo, o labiríntico, surreal. O adjetivo kafkiano, para dizer destas características foi criado.
A Metamorfose, livro que acabei de ler, tem um dos inícios mais impressionantes e sensacionais de quantos eu tenha lido:
“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobe suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco sua cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.” (página 5).
O texto segue, num tom de completo absurdo. Kafka, ao invés de focar na condição estranha de Gregor, em nenhum momento nos dá qualquer explicação sobre o que teria motivado tal transformação. Ao contrário, ele vai tratar a metamorfose abjeta do seu personagem como algo comum, possível de acontecer a qualquer um de nós. O próprio Gregor, logo depois de verificar sua nova figura, procura se adaptar a ela, tentando dominar suas pernas e seu abdômen em forma de couraça.
Ele trabalhara num pequeno negócio, como caixeiro-viajante; nunca se atrasara ou faltara ao serviço. Não adoecia. E assim, quando sua família percebe que Gregor ainda não se aprontou para ir trabalhar, começa a se preocupar. Até seu gerente comparece, pois, naquele horário, ele deveria ter viajado e estar muito distante dali. A única pessoa que vai cuidar dele, limpar o quarto, alimentá-lo é sua irmã mais nova, Grete.
O processo de mudança de homem em animal continua. Logo Samsa não se alimenta mais como um ser humano, mas começa a demonstrar preferência por alimentos estragados, não frescos, chegando até mesmo a consumir dejetos, lixo. Adquire nova habilidade e aprende a subir pelas paredes e andar pelo teto:
“Gostava em particular de ficar pendurado no teto; era bem diferente do que ficar deitado sobre o piso; conseguia-se respirar com mais facilidade; uma leve vibração percorria o corpo; e na distração quase feliz em que Gregor se encontrava lá em cima às vezes acontecia que, para sua própria surpresa, ele se deixava cair estalando no chão. Mas agora, naturalmente, ele já tinha domínio de seu corpo, bem diferente de antes, e não se danificava mesmo numa queda tão grande.” (página 39)
A família Samsa é caracterizada como irremediavelmente burguesa; Samsa a carrega nas costas com seu trabalho aviltante, como fica explícito no trecho:
“Mas em volta estava tudo tão silencioso, ainda que, com certeza, a casa não estivesse vazia. “Que vida sossegada que a família não levava”, disse Gregor a si mesmo e sentiu, enquanto fixava os olhos à frente de si na escuridão, um grande orgulho pelo fato de ter conseguido dar a seus pais e sua irmã uma vida dessas numa casa tão bonita.” (página 28)
Em uma outra passagem, fica bastante evidente o conflito edipiano de Gregor Samsa em relação a seus pais:
“Com o último olhar ainda viu a porta de seu quarto ser escancarada e a mãe correndo à frente da irmã, gritando em desespero, em roupas de baixo, uma vez que a irmã tivera de despi-la a fim de que ela respirasse com mais liberdade enquanto estava desmaiada; viu também como a mãe correu em direção ao pai a seguir, enquanto as saias despertadas caíam uma a uma no caminho, e como ela, tropeçando sobre as saias, caiu sobre o pai, abraçando-o, em completa união com ele –, mas nesse momento a vista de Gregor já falhava – implorando  com as mãos sobre a nuca do pai, para que ele poupasse a vida de Gregor.” (página 48)
O conflito de Édipo se traduz da peça Édipo Rei, do grego Sófocles, em que o filho cumpre seu destino de matar o pai para se casar com Jocasta, sua própria mãe. E a referência mitológica se faz porque Samsa observa a mãe quase nua, caindo sobre o pai e abraçando-o “em completa união com ele”. Neste momento, a vista de Gregor começa a falhar – ele não pode ver o ato de união entre o pai e a mãe - na peça do grego, Édipo vaza seus próprios olhos.
A Metamorfose é uma novela pequena, a edição que tenho, da Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura, tem apenas 71 páginas, texto integral. Mas é uma história rica em referências de toda sorte. Escrita com um cuidado artesanal na composição dos elementos sintáticos/semânticos, é uma leitura para reflexão. Kafka não é um autor fácil.
A transformação de Samsa em inseto asqueroso é uma grande metáfora para a incomunicabilidade entre os seres – principalmente, na história, entre os familiares –, a absurda subserviência do ser ao sistema dominante (mesmo transformado Gregor continua a se preocupar com seu emprego), uma crítica aos valores burgueses e alienantes.
A edição traz várias notas de pé de página, esclarecedoras, que nos enriquecem a leitura consideravelmente. Apontam, às vezes, concomitâncias com outras grandes obras, como O Duplo, do russo Dostoiévski. É que certos temas, certas relações são recorrentes em literatura, como de resto, na arte.
Marc Chagall, por exemplo, foi um pintor que se serviu muito, para compor parte de sua obra, dos temas, situações e personagens de outro grande russo, Nikolai Gógol, de sua obra Almas Mortas.
Absolutamente imperdível a leitura atenta deste A Metamorfose, do genial Franz Kafka. Se você, leitor, sente-se disposto a enfrentar uma leitura que, provavelmente, irá marcá-lo pela originalidade, pela competência com que os temas são tratados, leia este livro. Se já o leu alguma vez, disponha-se a enfrentá-lo outra vez.

Afinal, nunca lemos o mesmo livro duas vezes. A Metamorfose é um destes clássicos do século XX, tão citados que, ao compulsá-lo, temos a impressão de já conhecermos sua história; nada mais enganoso. O subtexto, as entrelinhas, o sugerido, torna a leitura desta obra um inesgotável prazer estético.

domingo, 29 de outubro de 2017

Resenha: As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

Resultado de imagem para livro as alegrias da maternidade buchi emechetaTítulo original: The Joys of Motherhood
Título em português: As Alegrias da Maternidade
Autoria: Buchi Emecheta
Edição: TAG Livros/Dublinense (especial)
Copyright: 1979
ISBN: 9788583180968
Gênero literário: Romance
Literatura africana: Nigéria
Número de páginas: 311
Bibliografia: In the ditch, 1972; Second-class citizen, 1974; The bride price, 1976; The slave girl, 1977; The joys of motherhood, 1979; The moonlight bride, 1981; Our own freedom, 1981; Destination Biafra, 1982; Naira Power, 1982; Adah’s story, 1983; The rape of shavi, 1983; Double Yoki, 1982; A kind of marriage, 1986; Gwendolen, 1989; Kehinde, 1994; The new tribe, 2000.

Florence Onyebuchi Emecheta, mais conhecida como Buchi Emecheta, é uma escritora nigeriana nascida em 21/07/1944, em Lagos, antiga capital da Nigéria, e falecida em Londres, em 25/01/2017. Como se pode depreender de sua bibliografia acima, foi uma autora bastante prolífica. Passou boa parte da sua infância na cidade de Ibuza, terra dos pais. Eles faziam questão de cultivar em Buchi e seu irmão mais velho as raízes da cultura igbo. Entre outras coisas, isto significava que o irmão poderia estudar, por ser menino, e Buchi, por ser menina, não. As mulheres não se pertencem, elas simplesmente passam das mãos masculinas do pai para as do marido e, mais tarde, para as mãos masculinas dos filhos.
Ela adorava escutar histórias contadas pelos mais velhos. E tanto insistiu com os pais, que eles acabaram concordando: Buchi Emecheta passou a frequentar uma escola para meninas, onde aprendeu as línguas nativas e o inglês — idioma escolhido por ela mais tarde, para a produção de seus trabalhos.
Buchi casou-se muito cedo; aos onze anos, já estava noiva do estudante Sylvester Onwordi e aos dezesseis, já estavam casados. Nasceram-lhes dois filhos e a família se mudou para Londres, onde Sylvester entrou para a faculdade. Não foi um relacionamento tranquilo; muito pelo contrário, Onwordi revelou-se um homem machista e violento. A futura autora esboçava seu trabalho de estreia e sofreu o desgosto de ver os originais que compunha completamente queimados.
Aos vinte e dois anos, ela conseguiu o divórcio, pois Sylvester não podia tolerar os sonhos da mulher, de estudar também numa faculdade e tornar-se uma autora. O ex-marido não reconheceu a paternidade sobre os filhos e Emecheta viu-se num país estranho, com cinco filhos para criar e sozinha. Foi à luta, criou os filhos, arranjou trabalho e em 1974 estava formada em sociologia.
Acabei de ler este As Alegrias da Maternidade hoje, domingo, 29/10/2017. Leitura deliciosa, Buchi Emecheta — até então desconhecida para mim, aliás, desconhecida da absoluta maioria dos brasileiros — criou um texto em que o efeito da simplicidade está patente. Os personagens principais, de nomes estranhos, ainda estão circulando na minha cabeça. Nwokocha Agbadi, Ona, Nnu Ego, Nnaife Owulum, Adaku, Adankwo, Okpo, Dumbi, Ngozi, Oshiaju, Adimabua, Taiwo, Kehinde, Nmadio, Obiageli, Malachi...
Esta é uma edição de parceria entre a editora Dublinense, de Porto Alegre, e a TAG Experiências Literárias. Uma edição especial para os associados, mas que, depois de algum tempo, terá uma edição nas livrarias. Não compreendo como um livro desta qualidade pode estar fora do mercado editorial brasileiro há tanto tempo.
Emecheta assumiu o compromisso de “questionar os estereótipos da mulher nigeriana e africana, expondo sua realidade diária e a sua opressão das normas sociais. Sua obra critica, entre outros temas, o tipo de educação destinado à mulher, a valorização da maternidade como única preocupação possível, a violência degradante do colonialismo e a cultura que deslegitima sua autonomia”, de acordo com o exposto na página 11 da revista que acompanha o kit da TAG de outubro.
Nossa autora faz mais do que isto, neste As Alegrias da Maternidade. Nnu Ego, a protagonista desta história, está longe de ser uma personagem plana. Filha do importante chefe Nwokocha Agbadi e a altiva Ona, Nnu casa-se primeiramente com Amatokwu. Não consegue engravidar dele, o que, para uma mulher, dentro desta cultura, é uma autêntica desgraça. É relegada a segundo plano e ela vê o marido contrair novo casamento, desta vez com uma mulher que lhe dá filhos.
O relacionamento é desfeito, pois o chefe Agbadi vê o sofrimento da filha e a compra de volta. Uma mulher não pode ficar sozinha e assim, mesmo com a compreensão paterna, Nnu se vê em outro relacionamento não desejado, desta vez com um homem da cidade de Lagos. O novo marido não é do seu agrado; barrigudo, trabalhando na casa dos ingleses colonizadores como lavador e passador de roupas, tudo o que ele obtém de Nnu é desprezo. Aquilo não é trabalho de homem. Homem é caçador, agricultor.
Nnu se constrói, então, como uma personagem rica, aparentemente incoerente, oscilando sem consciência da transformação entre a força da tradição e os novos tempos. Quem tem muita consciência sobre o processo de mudança imposta é Adamkwo, a esposa mais velha do irmão morto de Nnaife, quando esta dá sua opinião à Nnu, sobre o filho dela, Nnu:
“O que você acha que eu devo fazer com Oshia? Ele se adaptou tão bem à vida na lavoura quanto à do estudante. Adora estar aqui.”
“Isso é verdade”, respondeu Adamkwo, pensativa. “Mas há algo novo chegando à nossa terra, você percebeu? Nós, como família, não precisamos viver e ser criados no mesmo lugar. Deixe que ele estude em Lagos, onde nasceu. Depois, poderá vir para cá trazendo aquela cultura para enriquecer a nossa.” (página 223)
O romance analisa a questão da tradição que vai se perdendo, sufocada pelos novos costumes impostos pelo branco colonizador. Desta forma, o costume de um homem poder ter tantas esposas quantas consiga sustentar, tantos filhos quantos nasçam, ora é defendido por Nnu (dentro de sua cultura isto é normal), ora é combatido por ela.  E mais, quando o irmão de Nnaife morre, as esposas dele passam para a posse do seu marido, por herança.
Nnaife é um homem acomodado, com uma visão limitada. Ele quer apenas viver a vida sem grandes pretensões, ser amparado pelos filhos na velhice, ter muitos filhos com as esposas porque isto faz com que seja respeitado como homem. As filhas são vistas, não só por ele, como por todos, como investimentos (carreiam dotes para a economia da família).
Nnu Ego herdou a altivez da mãe Ona. Não exatamente como Ona, de gênio mais impositivo, mas a rebeldia a certos preceitos é a mesma. Isto não a impede, entretanto, de viver uma vida de ausências: ausência de dinheiro, mínimo para educar direito os filhos, para ter uma condição razoavelmente digna de vida; ausência prolongada do marido, transformado em combatente na Segunda Guerra Mundial. Não há grandes empregos em Lagos, para os nigerianos. Eles vivem à margem dos ingleses, contratados com baixos salários.
A Segunda Guerra Mundial estoura, mas o conflito é tratado no romance como algo distante, desconfigurado. Só se sabe que, de repente, os ingleses começam a abandonar suas casas na Nigéria e voltarem para a Inglaterra. A empregabilidade dos nigerianos da capital cai sensivelmente. Não há mais quem lhes dê serviço.
Entretanto, as coisas tomam matizes terríveis quando os próprios nigerianos são convocados — sequestrados seria a palavra mais correta — para uma guerra que não é deles, que eles não entendem.
Vemos uma Lagos em transformação. Um conflito potencialmente modificador dos hábitos locais, apesar de distante; o cristianismo modificando os costumes e condenando o sistema familial; a industrialização promovida pelos colonizadores, ainda que incipiente. O contraponto é Ibuza, onde a vida segue dentro dos eixos da tradição, pacata e sem fortes contradições internas, pois vigoram as leis da ancestralidade — vale dizer, leis advindas da tradição.
As Alegrias da Maternidade é, sem dúvida, uma grande obra. Buchi Emecheta é, sem dúvida, uma grande escritora. Não à-toa, a famosa Chimamanda Ngozi Adichie, curadora da TAG para o mês de outubro, tem nela uma de suas inspiradoras. O título, que poderia ser interpretado como um elogio à maternidade, constitui-se como uma rasgada ironia, como se pode verificar neste trecho, transcrito da página 308:
“Nunca fizera muitos amigos, de tão ocupada que vivera acumulando as alegrias de ser mãe.”
Uma das coisas que valoriza muito o romance é que Emecheta fala de dentro da cultura igbo, localizando ali grande parte dos conflitos de suas personagens:
“Meses depois, quando caiu naquele sono cansado que muitas vezes aprece no início da gravidez, Nnu Ego sonhou que estava vendo um menininho de cerca de três meses de idade abandonado junto a um riacho. Ficara pensando por qual razão a criança estaria abandonada daquele jeito. Metade do corpo do bebê estava coberto de lama, a outra metade de muco que escorria de seu nariz e de sua boca. Ela estremeceu quando se aproximou para recolhê-lo. era muito escuro, tinha a cor de azeviche de seu pai, mas era gorducho e estava extremamente sujo. Ela não pensou duas vezes: pegou o bebê e resolveu lavá-lo no regato para depois esperar a chegada da mãe dele. A mãe não chegava e Nnu Ego sonhou que o dependurava nas costas, já que o menino estava sonolento. Depois, em seu torpor, viu a escrava, sua chi, do outro lado do riacho, dizendo: ‘Isso, pegue os bebês sujos e gorduchos.” (página 111)
Chi, o deus ou deusa particular, reencarnação, predestinação... valores de uma cultura. Estes mesmos valores que são questionados, cada vez mais, na cidade de Lagos são aqueles mesmos inquestionados em lugares mais distantes, nos quais a influência do branco ainda não chegou.
É o que está presente na página 215, quando morre o grande chefe Agbadi:
“Semanas mais tarde, Nnu Ego entrou em trabalho de parto. O menino que ela teve chegou ao mundo exatamente na mesma hora da madrugada em que seu pai morrera. Ela queria dar a ele o nome do pai, mas não sabia como dizer isso à gente de Nnaife, temendo que a considerassem uma mulher ultracivilizada, dessas que escolhem sozinhas os nomes dos filhos. Só porque o marido estava lutando na guerra. Era uma preocupação desnecessária. Bastou um olhar para a criança de corpo alongado e pele seca deitada sobre a folha de bananeira para que Adamkwo, a esposa Owulum mais velha, que auxiliara no parto, exclamasse:”
“É Agbadi! Ele está de volta!.”
 O filho Oshia representa a nova mentalidade que se impõe aos mais velhos, não sem sofrimento e conflito:
“Não estou entendendo, pai. Você está me dizendo que eu deveria alimentar meus irmãos, você e minha mãe também, mas vocês estão vivos e fortes, ainda trabalham...”.
“Cale a boca! Cale a boca antes que eu jogue você no chão e lhe mostre eu você não ficou assim tão crescido que eu não possa lhe dar uma lição. Por acaso não ouviu meus amigos dizerem, no outro dia, que estava na hora de eu descansar, depois de todo o trabalho que tive ao longo dos anos? Que você devia assumir os gastos?”.
“Não posso assumir os gastos, pai. Vou para os Estados Unidos. Ganhei uma bolsa de estudos, embora tenha que pagar pelo alojamento.” (Página 278)          
Para finalizar, um lamento profundo comparece nas páginas finais do capítulo O pai soldado:

“Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?” (desabafo de Nnu Ego, página 257)