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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Resenha: Os Sete Enforcados, de Leonid Andreiev

Resultado de imagem para livro os sete enforcadosTítulo original: Rasskag O Semi Poveshnnikh
Título em português: Os Sete Enforcados
Autor: Leonid Andreiev
Tradutor: Eliana Sabino
Editora: Rocco
Edição: n/c
Copyright: 1987
ISBN: 978-85-7980-069-6
Coleção Novelas Imortais (org. Fernando Sabino)
Gênero literário: Novela
Literatura Russa
Bibliografia do autor: Abismo, O (Abyss); Amor ao próximo, O (Love to Neighbor); Bargamot e Garaska (Bargamot and Garaska); Ben-Tovit (Ben-Tovit); Conversão do diabo, A (Satan’s Conversion); Cristãos (Christians); Diário de Satanás, O (Satan’s Diary); Dois mundos (Two Worlds); Era uma vez (Once Upon a Time); Espectros, Os (Spectra); Estrangeiro, Um (A Foreigner); Flor pisada, A / Flor espezinhada, Uma (The Crushed Flower); Gigante, O (The Giant); Governador, O (The Governor); Grande slam, O / Grand “cheleme”, O (The Grand Slam) ; Homem original, Um (An Unique Man); Ideia, A / Loucura? / Médico louco, O / Pensamento; O – novela (Thought - novel); Judas Iscariotes (Judas Iscariot); Juventude (Youth); Lázaro / História de Lázaro (Lazarus); "Marselhesa", A (The “Marseillaise”) Máscara, A (The Mask) ; Mentira - memórias de um louco, A (The Lie – memoirs of a mad man); Mistério, O (Mistery); Muro, O (The Wall); Nada, O / Repouso, O (Nothing); Pensamento, O (peça) (Thought - play); Perante o tribunal (In the Court); Por trás da janela (Behind the Window);
Retorno, O (The Return); Riso, O (Laugh); Riso vermelho, O / Gargalhada vermelha, A (Red Laugh); Sete enforcados, Os / História dos Sete Enforcados (The Seven Who Were Hanged); Silêncio (Silence); Sobremortal (Super-mortal); Vadio (Bummer); Valia (Valia). 

Leonid Nicolaevitch Andreiev nasceu em Oriol, Império Russo, em 09/08/1871 e faleceu em Kaokkala, Finlândia, em 12/09/1919. Andreiev é considerado o mais sombrio dos novelistas russos. Até os trinta anos, teve uma vida bem humilde e difícil, chegando a passar fome e tentou o suicídio, só não levado a termo por ter sido socorrido a tempo. Conforme consta, ainda em convalescencia, no hospital, arrependeu-se do ato e passou a refletir sobre a incapacidade de o homem sobrepor-se ao seu próprio destino.
Tais fatos não poderiam passar batidos e sua literatura se ressente da visão pessimista, trabalhando sempre com a tragédia a que se submetem seus personagens. Andreiev adquire prestígio a partir do século XX, mas o escritor não é muito difundido no Brasil.
Os Sete Enforcados é uma releitura. Li-a há muito anos atrás, mas me lembrava de muitos pontos da novela, prova de que realmente o livro me marcara. Era uma péssima edição de bolso, em papel de baixa qualidade e amarelecido. Esta edição que tenho em mãos é parte de uma coleção de Novelas Imortais, organizada e prefaciada pelo escritor mineiro Fernando Sabino. Os títulos da seleção: Margot, de Alfred de Musset; O Monge Negro, de Anton Tchekhov; O Homem de Areia, de E. T. A. Hoffman; Sílvia, de Gérard de Nerval; Um Coração Singelo, de Gustave Flaubert; A Fera na Selva, de Henry James; Bartleby, O Escriturário, de Herman Melville; Os Sete Enforcados, de Leonid Andreiev; A Espanhola Inglesa, de Miguel de Cervantes Saavedra e O Clube dos Suicidas, de Robert Louis Stevenson.
Cinco terroristas vão atentar contra a vida de um ministro. São descobertos e presos, levados a julgamento e condenados à morte por enforcamento. São eles: Sergey Golovin, filho de um coronel reformado; Musya, jovem e idealista; Vasily Kashirin, segundo seu passaporte, contava com vinte e três anos; Tanya Kovalchuck, na casa de quem foram encontradas bombas e dinamite; Werner, de quem não se sabia muito.
A estes irão se juntar, também para serem enforcados, Ivan Yanson, que assassinara seu patrão e, finalmente, Mikhail Golubetz, apelidado Tsiganok (Cigano), cujos crimes mais recentes eram assalto à mão armada e assassinato de três pessoas.
Os Sete Enforcados é um texto enxuto, conciso, como convém a uma novela. Estes sete condenados, cada um a seu turno, lidam com a ideia da morte de uma determinada maneira, mas, pela boca do Ministro, a tese advogada no livro é
“E aqueles imbecis me informaram a hora precisa, achando que eu ficaria muito feliz em saber. Mas em vez disso a Morte postou-se a um canto sem poder ir embora. Não podia porque estava dentro da minha cabeça. Não é a morte que é horrível, mas o conhecimento dela: ninguém conseguiria viver sabendo definitivamente o dia e a hora exatos de sua morte. E os imbecis me avisam: ‘À uma hora, Excelência!” (página 24/25, grifos nossos)
Será o personagem Yanson quem dará corporeidade à tese também defendida pelo Ministro, como fica claro no seguinte trecho:
“Pediu, implorou que o sol brilhasse, mas a noite estendeu sem remorso suas horas longas e escuras por sobre a terra, e não havia poder que apressasse o seu curso. E essa impossibilidade, que pela primeira vez apresentava-se ao fraco entendimento de Yanson, enchia-o de terror. Ainda sem ousar entende-la claramente, ele já sentia a inevitabilidade da morte próxima; os pés dormentes pareciam pisar o patíbulo” (página 54)
Outro trecho profundamente subversivo vai saltar das páginas do livro, a certa altura:
“Isto é que é importante: que eles fossem milhares. Quando milhares matam um só, isso significa que foi esse um quem venceu. É verdade, Werner, meu querido...”(palavras de Musya a Werner, na página 96).
Os Sete Enforcados configura-se como um libelo contra a truculência do estado-assassino, contra a pena de morte. A personagem principal? Não, não está entre os terroristas; também não é Yanson, nem Tsiganok; o protagonista é a morte. É ela que todos buscam entender, é ela quem paira sobre o destino de todos os outros personagens, sem que eles possam, de algum modo, alterar seus pobres destinos.
Leonid Andreiev é sombrio, pessimista, desesperançado. Seu texto reflete este estado de alma, mas não deixa de ser filosófico, às vezes, e até mesmo lírico, como vimos pelos trechos transcritos acima. “Ele quer me amedrontar, mas eu não tenho medo”, teria dito ninguém menos que Tolstoi. Não seria demais, creio, anotar aqui algo da morbidez de Edgar Allan Poe.
Os Sete Enforcados é um livro pequeno, são cento e sessenta e sete páginas nesta edição da Rocco.  Feita como porta de motivação para jovens conhecerem obras significativas de vários autores, o texto flui maravilhosamente bem. Todos os volumes desta coleção são de textos curtos e fáceis de ler – do ponto de vista do vocabulário empregado. Mas, sinceramente, não sei se serão muitos os jovens a suportar um texto tão denso de significados. É preciso ter estômago para ler o livro.
Independente disto, é uma obra-prima da narrativa mundial. Breve e certeiro. Um livro, como diria o blogueiro-livreiro Luiz Guilherme de Beaurepaire, em seu blogue Bons Livros Para Ler,“um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.”
Creio valer a pena encerrar esta resenha com o depoimento do próprio Leonid Andreiev à edição americana, que consta deste opúsculo:
“Os massacres dos judeus e a fome; um Parlamento e execuções, saques e o maior heroísmo; A Centena Negra e Léon Tolstoi – que mistura de figuras e conceitos, que fonte fecunda de todo tipo de equívocos! A verdade da vida silencia, consternada, e a falsidade atrevida grita bem alto perguntas urgentes e dolorosas: “Com quem serei solidário? Em quem confiarei? A quem amarei?”

Na história de Os Sete Enforcados tentei dar uma resposta sincera e sem preconceitos a algumas dessas perguntas.” (página 12, sem numeração)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Resenha: Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva

Resultado de imagem para livro ainda estou aquiTítulo original: Ainda Estou Aqui
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Alfaguara
Edição: n/c – 3ª reimpressão
Copyright: 2015
ISBN: 978-85-7962-416-2
Gênero: Memórias
Literatura Brasileira
Bibliografia – Romances: Feliz Ano Velho, 1981; Blecaute, 1986; Ua brari, 1990; Bala na Agulha, 1994; As Fêmeas, 1994; Não És Tu, Brasil, 1996; Malu de Bicicleta, 2002; O Homem que Conhecia As Mulheres, 2006; A Segunda Vez que Te Conheci, 2008; E Aí, Comeu?, 2012; As Verdades Que Ela Não Diz, 2012; 1 Drible, 2 Dribles, 3 Dribles: Manual do Pequeno Craque Cidadão, 2014; Ainda Estou Aqui, 2015; Meninos em Fúria, 2016; Peças de Teatro: Es525 Linhas, 1989; E Aí, Comeu? (Da Boca pra Fora), 1998; Mais-que-Imperfeito, 2001; Closet Show, 2003; As Mentiras que Os Homens Contam, 2003; No Retrovisor, 2003; Amo-te, 2006; A Noite Mais Fria do Ano, 2011; O Predador Entra na Sala, 2012; C’est La Vie, 2014; Amores Urbanos, 2016; Roteiros de Cinema:  Fiel, 2012; E Aí, Comeu? 2012; Malu de Bicicleta, 2013; Depois de Tudo, 2015; O Homem Mais Forte do Mundo, 2016.

Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo, em 01/05/1959; é escritor, dramaturgo e jornalista brasileiro. Com seis anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro, depois que seu pai, o ex-deputado federal socialista Rubens Beyrodt Paiva foi cassado e exilado pelo Golpe de Estado de 1964. Em 1971 – Marcelo tinha, então onze anos – ele sofreu o primeiro trauma: o desaparecimento do pai; depois de preso e torturado, ele nunca mais foi visto por ninguém. A família foi obrigada a se mudar do Rio de Janeiro.
São Paulo foi o novo destino. Lá, Marcelo completou seus estudos; escrevia para o jornal da escola, fazia letras de música e foi finalista de um dos Festivais de Música da TV Cultura, em 1979.
Aos vinte anos de idade, sofreu o segundo trauma: ao pular num lago, bateu com a cabeça numa pedra e fraturou a quinta vértebra do pescoço, tornando-se tetraplégico. Sessões intensivas de fisioterapia devolveram-lhe os movimentos das mãos e braços. Entrou para a Escola de Comunicações e Artes, da USP, em 1982. Escreveu seu primeiro livro, Feliz Ano Velho, que rapidamente se tornou o livro mais vendido da década de 1980.
Àquela época, eu li o Feliz Ano Velho. Lembro-me de que gostei muito da leitura, um estilo diferente do que eu estava habituado. Mas, confesso, este Ainda Estou Aqui é apenas a segunda obra do autor lida por mim. Comecei não gostando muito dela e, por isso, tive de usar a minha disciplina. Ao passar das páginas, entretanto, fui me entusiasmando e lamentei o término da leitura. Marcelo tem o grande mérito de não reduzir suas memórias a um diário de família, puro e simples. Relata coisas familiares, sentimentos pelos quais todos passaram, mas ele expande este drama particular. Contextualiza-o. Generosamente, torna-o parte de um todo complexo, um drama entre tantos dramas acontecidos com outras tantas famílias, outras tantas pessoas.
Ainda Estou Aqui não é um romance. É uma obra memorialista. Foca a trajetória de Eunice Paiva, mãe de Marcelo – realmente, uma mulher admirável:
“Minha mãe estava noutra.
Não há grandes tiradas freudianas nesse raciocínio. Na real, nenhum de nós tinha ciúmes dela. Na real, preferíamos até que ela se casasse e se desse bem na vida. Estávamos crescidinhos, apesar de adolescentes. Duas irmãs moravam com estudantes-namorados. Com nossos bicos, nos virávamos. Não precisaríamos dividir a rotina de outra família, com seu novo marido, com novos irmãos. Estávamos noutra também. O futuro tinha urgência. Prioridade.
Eu já falei, suas melhores amigas não eram mais as esposas dos melhores amigos do meu pai, as que sobravam na mesa de pôquer. Passou a se relacionar com outras mulheres, outras viúvas, separadas e excluídas como ela: uma editora lésbica, que por um tempo namorou uma mulher chamada Eunice, o que virou a maior gozação lá em casa; uma artista plástica solteirona, que dava aulas na faculdade de arquitetura e urbanismo da USP e tinha fama de pegar alunos décadas mais jovens; uma escritora também viúva; uma psicanalista desquitada, linda de morrer; uma arquiteta também recém-desquitada, também linda de morrer, que andava pela cidade num MP vermelho conversível, provocante e moderna.” (página 202)
Embora Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui formem, de certo modo, uma sequência, são bastante diferentes. A obra atual tem o mesmo tom leve e bem-humorado. Ambos são livros memorialistas; ambos tratam os fatos de maneira bastante objetiva. Mas Ainda Estou Aqui é obra de um escritor maduro, o texto é muito mais equilibrado. No primeiro, o foco é o próprio Marcelo, sua luta para se recuperar, seu amadurecimento como pessoa, já que suas adequações não seriam apenas físicas, mas provocaria – como provocou – mudanças psíquicas. Aceitação da sua condição e a construção de uma outra proposta para sua própria vida. Neste último, o foco é sua mãe, Eunice Paiva, sua condição de portadora de Alzheimer. Na verdade, Marcelo deixa bem claro: seu livro é sobre a memória:
“A memória é uma mágica não desvendada. Um truque da vida. Uma memória não se acumula sobre outra, mas ao lado. A memória recente não é resgatada antes da milésima. Elas se embaralham. Minha mãe, com Alzheimer, não se lembra do que comeu no café da manhã. Minha mãe, com Alzheimer, vê meu filho de um ano, que é a minha cara, e o reconhece. Não acha que sou eu, mas o chama de filhinho, de meu filhinho. E sempre diz:
— É a coisa mais linda.
E às vezes se confunde e diz:
— Ela é a coisinha mais linda.” (página 19)
Eunice Paiva é a figura lutadora, sofredora em silêncio, “a família Paiva não chora em público”. Torna-se advogada de gente famosa e importante, depois que o marido “desaparece”; torna-se defensora dos índios, sempre espoliados em suas próprias terras. Viaja muito, mantém contato com instituições estrangeiras de defesa dos nativos, luta sempre com muito denodo.
Um dia, enfim, consegue que as autoridades deem seu marido como oficialmente morto; emitida a Certidão de Óbito, ela poderá entrar na posse da conta bancária de Rubens Paiva, conseguirá receber a pensão a que tem direito. Mas isto não será feito sem luta, mais uma vez.
No episódio em que relata a ação do DOI-CODI, invadindo sua casa e sequestrando seu pai diante de todos, Marcelo volta a nos falar a respeito da memória:
“Ele [o pai] colocou um relógio de pulso, umas cadernetas no bolso. Foi com dois agentes dirigindo o Opel da minha mãe. Quatro sujeitos ficaram em casa. Um deles disse se chamar dr. Stockler, especialista em parapsicologia. Minha irmã Eliana chegou da praia. Estranhou a casa toda fechada, cortinas e janelas fechadas. Ao entrar, minha mãe logo lhe informou o que acontecia.
Acordei depois de tudo isso. Fui sonolento ao banheiro. Escovando os dentes, percebi um intruso no corredor, que vigiava pela janela do segundo andar o movimento da rua. Cumprimentei-o com a cabeça. Ele era quieto, sempre ficava no segundo andar.
A cada seis horas, esses homens eram substituídos por outros quatro. Para mim, eram sempre os mesmos.
A memória não é apenas uma pedra com hieróglifos entalhados, uma história contada. Memória lembra dunas de areia, grãos que se movem, transferem-se de uma parte a outra, ganham formas diferentes, levados pelo vento. Um fato hoje pode ser relido de outra forma amanhã. Memória é viva. Um detalhe de algo vivido pode ser lembrado anos depois, ganhar uma relevância que antes não tinha e deixar em segundo plano aquilo que era então mais representativo. Pensamos hoje com a ajuda de uma parcela pequena do nosso passado.” (página 117)
Ainda Estou Aqui é um livro muito oportuno, escrito – como diz Marcelo a certa altura – no momento em que, pelas mídias sociais, pessoas descontentes com a situação atual do Brasil pedem a volta da Ditadura Militar. É oportuno porque nos traz à memória os horrores perpetrados por tal Ditadura.
Não há possibilidades de atalhos, digo eu. Hoje me parece claro, e ainda mais depois de ter lido este importante e lancinante livro, a corrupção só pode acontecer de maneira tão absurda e tão generalizada numa cultura que acolhe tal estado.  Em outras claras palavras, qualquer classe – incluída aí a classe política – é apenas uma amostragem da sociedade. Não caiamos na simplificação imbecil de acreditar que só eles, os políticos, sejam corruptos.
Há políticos honestos. Há pessoas honestas por este Brasil afora. Mas, é verdade, “os bons são tímidos”. É preciso um choque ético. Temos de mudar nossos valores; não há espaço para a Lei de Gerson, de levar vantagem em tudo. E Democracia – com D maiúsculo – é isso mesmo: não há salvadores, nós é que teremos de nos reformar e assim reformar o destino que queremos.
Daí, leitor, a importância de livros como Ainda Estou Aqui. Leia-o, se puder. Pegue emprestado, alugue, compre (como estão caros os livros no Brasil, não?). Longe desta babaquice autoproclamada de “formadores de opinião”, o depoimento de Marcelo Rubens Paiva é contundente e bem-humorado. Se a memória lembra dunas de areia, como ele disse poeticamente, cada um de nós é um formador de opinião.


Todos nós interagimos uns com os outros e isto me anima: podemos nos melhorar. Outros países conseguiram. Por que conosco seria diferente?

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Resenha: A Camisa do Marido, de Nélida Piñon

Resultado de imagem para livro a camisa do maridoTítulo original: A Camisa do Marido
Autora: Nélida Piñon
Editora: Record
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-01-06633-6
Literatura Brasileira
Gênero: Contos
Páginas: 162
Bibliografia da autora: Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, 1961; Madeira feita de cruz, 1963; Fundador, 1969; A Casa da Paixão, 1977; Tebas do meu coração, 1974; A foça do destino, 1977; A república dos sonhos, 1984; A doce canção de Caetana, 1987;  Coração andarilho, 2009; O livro das horas, 2012;  Tempo das frutas, 1966; Sala das armas, 1973; O cortejo do divino e outros contos escolhidos, 2001; O calor das coisas, 1980; O pão de cada dia: fragmentos, 1994; A camisa do marido, 2014; Até amanhã, outra vez, 1999. A roda do vento, 1996; O presumível coração das América, 2002; Aprendiz de Homero, 2008; O ritual da arte (inédito).

Nélida Piñon é de ascendência galega, mas nasceu no Rio de Janeiro, em 03/05/1937. A curiosidade é que o nome Nélida é um anagrama do nome do avô, Daniel. Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e foi editora ou membro de conselho editorial de várias revistas brasileiras e estrangeiras. Estreou na literatura com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961. Nélida é acadêmica correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e também participante da Real Academia Galega.
Nélida possui muitos prêmios ao longo de sua carreira literária, que já tem mais de 35 anos. O último prêmio recebido foi o Príncipe das Astúrias das Letras, em 2005, conferido na cidade espanhola de Olviedo. Foi eleita em 27/07/1989 para ocupar vaga na Academia Brasileira de Letras e tomou posse em 03/05/1990. Foi a primeira mulher a se tornar presidente daquela prestigiosa instituição.
Soberbo livro de contos, este A Camisa do Marido, que terminei hoje de ler e já o estou postando aqui no blogue. A temática de Nélida Piñon foi evitada por muitos escritores, considerada de menor importância: as relações familiares. Realmente, com alta probabilidade de produzir lugares-comuns, pelas mãos seguras desta escritora tal tema não tem nada de lugar-comum.
É que, em literatura, não é bem o tema abordado o que realmente importa, mas o tratamento que o autor dá a ele. Na verdade, a quantidade de temas é limitada, embora grande. E Nélida sabe o que faz. Possui uma escrita elegante e objetiva ao mesmo tempo, isto é, não se perde em floreios desnecessários.
Compõem o livro exatamente nove contos: A camisa do marido, O trem, Dulcinéia, A mulher do pai, Para sempre, A sombra de Carlos, Em busca de Eugênia, A quimera da mãe, A desdita da lira. O tom que perpassa a maioria dos contos tem algo de erótico, sem ser vulgar. Outros, são surpreendentes pela ousadia das abordagens.
Adotarei aqui o mesmo critério ao resenhar o livro de contos História da sua vida, de Ted Chiang, já postado aqui neste blogue, ou seja, vou transcrever alguns trechos selecionados de cada conto e acrescentarei alguns comentários. Vamos lá, então.
A Camisa do Marido
“Após a morte do marido, Elisa emudeceu por alguns dias. De luto, o traje negro ficava-lhe bem. Exagerava em seu ascetismo. Parecia sujeita a uma prescrição religiosa. Cancelou qualquer visita, exceto a dos filhos, que vinham no final da tarde e cujo ruído contrastava com a paz imposta à casa. Ela própria providenciara as iguarias que eram do agrado do marido, com a condição de os filhos exortarem o pai durante as refeições. Ao morto deviam a fartura. E, com gesto vago, fazia-lhes ver que a fortuna feita pelos dois ficaria sob sua guarda.” (página 12)
A autora realiza admiravelmente a estratégia de dar voz a vários narradores, e obtemos, assim, análises parciais dos filhos e da viúva sobre as relações que os envolvem. E digo admirável, porque fazer isto no reduzido espaço de um conto não é tarefa para qualquer um. Há que ser um escritor experimentado e de muito talento.
O Trem
“O pai amava os trens. Nascido no sul de Minas, em vilarejo acanhado, vira, desde a infância, o trem cortando a paisagem em direção a São Lourenço, sem se deter na estação local, havia muito abandonada. Após o último vagão serpentear pelos trilhos e desaparecer na curva, atrás da montanha, acenava como se despedisse da sorte que o abandonara aos menos daquele dia. Até a tarde seguinte, quando aguardava esperançoso que a passagem do trem lhe deixasse de novo como lembrança certa imagem fugidia e a fumaça impregnada de carvão.” (página 36)
Este foi um dos contos de que mais gostei. O homem leva a família para dentro do esqueleto de um vagão, já em ruínas e depredado, para fazerem uma viagem imaginária pelo mundo. Nesta viagem, a geografia é subvertida em favor do prazer de imaginar-se viajando e conhecendo o mundo. Reconhecidamente, um excelente conto.
Dulcineia
“O súbito silêncio de Maritornes incomodou o escudeiro, ainda que se ressentisse com a ausência de um interlocutor que acatasse suas respostas. Ansioso, pois, de também dialogar consigo mesmo, acionou a memória, que lhe trouxe a cena de quando ambos entraram na taberna naquela tarde, dom Quixote agindo como se algum castelão o acolhesse, cedendo-lhe o castelo para repousar da caminhada. Uma cortesia habitual entre homens de boa vontade e que lisonjeava o exausto cavalheiro. Estimulado assim pelo espírito onírico que brotava do seu ser, ele acomodou-se à mesa até surpreender-se com a presença de Dulcineia, de Toboso, a servir-lhe o vinho como se fora uma taberneira.” (página 54)
O conto tem um narrador em terceira pessoa, jungido a Sancho Pança, isto é, o narrador nos faz perceber os fatos e interpretá-los sob a ótica do escudeiro; Sancho sabe, portanto, que ali não há castelo algum, não existe qualquer castelão, nem confunde a figura de Maritornes com a de Dulcineia. Somente dom Quixote vê as coisas pela ótica distorcida de sua loucura.
A Mulher do Pai
“Penso que a minha redenção seria matar o pai. Cumprir o ritual parricida que procede das cavernas. Há que suceder ao pai e ocupar seu lugar no leito. A lei é severa, mas também é justa. Pois, se tarda ele em morrer, alguém deve lhe chamar a atenção. Buscar uma justificativa. Com que direito ele vive a plenitude de seu corpo, esbravejando na cama com Ana, enquanto eu vivo de sobras, como um castrado? Foi ele quem me esmagou os testículos para perder o direito à herança.” (página 79)
Este conto é outro de que gostei muito. Drama tipicamente edípico, o desejo do filho de matar o pai para relacionar-se com a madrasta desejada. É uma variante, pois no conflito de Édipo – cumprindo a profecia inexorável – ele mata o próprio pai e termina por casar-se com Jocasta, sua própria mãe.
Para Sempre
“Ao passar dos anos, seguia recordando o homem, que guardava no corpo e na memória. Envelhecia gradualmente, a despeito de ser ainda jovem. Contudo, não conquistara serenidade. O ritual da morte do amante, que se fundira com os funerais do pai, a desorientava. Ao recordá-los, os dois homens se confundiam, as perdas se misturavam.” (página 89)
Aqui, em um caso de traição feminina, a mulher perde o amante, morto durante uma relação sexual com ela e, posteriormente, a morte do pai e tem de conviver com a dupla perda. Aquele amante era marido da tia e o passamento do pai a libera para chorar, intimamente, a perda do amor proibido.
A Sombra de Carlos
“Há muito capitulei. Desarmado, cedo quem sou a quem me reclame. Como parte da maldita caravana de carros e de camelôs, entrincheiro-me na paz fria do banheiro azulejado. Não sofro, contudo, o mesmo desespero que abateu Carlos V, César do mundo e da fé. A ele coube cruzar seus reinos em incessante cavalgada, premido pela suspeita de jamais regressar a casa, onde Isabel o aguardava. Não tinha, como eu, este apartamento, a toca da modéstia. E isso porque, vendo-o no quadro pintado por Tiziano, parecia dono do mundo, a despeito do queixo prognata, marca dos Habsburgo.” (páginas 96/97)
Neste conto, um sobrinho enterra a tia. Mas o problema é que ele sentia forte atração por ela. A narrativa é perpassada por motivos eróticos, carregados de desejo.
Em Busca de Eugênia
“E você, Eugênia, quantos filhos teve? Se me contou, esqueci-me agora. Estranho destino, o nosso. Ao parir, mugimos como vacas, balimos como ovelhas. Tanto estardalhaço para que os filhos nos paguem mais tarde com vistas apressadas. Absortos com o mundo, mal chegam, de olho no relógio, querem logo partir. Como se a sina do homem fosse fugir do estábulo onde afinal foi parido.” (página 113)
Aqui, a narradora é uma mulher viúva e já envelhecida, que clama contra a solidão e o afastamento do filho. Dirige-se a Eugênia, em estilo missivista, comentando sua situação e a relação com o filho que a visita apressadamente. Gostei muito deste conto também.
A Quimera da Mãe
“A mãe, contudo, nunca dera nome ao suposto lugar de sua quimera. Sequer admitira que existisse. Vai ver era sua Shangri-Lá. Vira em algum filme monges do Tibete que asseguravam existir a felicidade humana. Eu não sabia como defender a memória da mãe, para nada se lhe perder. Como lhe fazer a vontade no futuro? Eu a examinava. Era um ávido investigador de gestos, apto a lhe descobrir os segredos. Até surpreender, certa tarde, em um papel de pão, escrito em letra miúda, como que nascida de um desabafo, a palavra Porto.” (página 134)
Um filho faz um esforço enorme para recuperar a trajetória sentimental da mãe, mas tem dificuldades, pois ela lhe declarara, certa vez, “que tinha o coração repartido em muitos pedaços. Embora vivesse no Brasil, aspirava seguir para longe, instalar-se em algum rincão da Europa...”
A Desdita da Lira
“Na velhice, nada espero. Às vezes, encurralado na água-furtada do meu quarto, contíguo à sala onde o escravo dorme, assalta-me a esperança de tomar da pena e declarar que jamais estive na Índia. Ou que, havendo estado ali, pronto a abandonei, movida pela extrema pobreza. Talvez pudesse promover mudanças no meu Os Lusíadas, dando, por exemplo, relevância ao trecho em que menciono o Brasil entregue a Martim Afonso de Souza, que, sob as benesses dos trópicos, em obediência ao rei, dividiu aquele território em capitanias e ali plantou o que fizesse falta ao reino. Tal esperança solapa-me a alma. Mas, como exaltar o Brasil se à época me faltou inspiração? E se jamais pus os pés naquela terra? Destilo raiva por conta dos meus desacertos. Embora fosse aceitável o que disse do Brasil, onde, segundo consta, mal se balbucia a língua lusa, não seria o mesmo como discorrer sobre Portugal.” (página 145)
Claro está, o narrador aqui é o sujeito histórico Luís Vaz de Camões. Ele reflete sobre sua vida, sua obra, sua velhice desamparada (vive numa água-furtada); arrepende-se de umas tantas coisas. Este é outro conto extraordinário.
Concluindo, este A Camisa do Marido é quase a minha primeira incursão na obra desta excelente Nélida Piñon. Já lera alguns textos dela, nem todos de teor literário, já a conhecia por entrevistas, homenagens. Creio que seus livros são pouco divulgados junto ao grande público, justamente por se ter dela uma imagem de escritora difícil, laureada pela Academia Brasileira de Letras.
Realmente, estes contos A Camisa do Marido não são livro para estar nas mãos de jovens iniciantes ao mundo da leitura. Seus temas também não são os da moda; sua escrita apurada, cheia de referências cultas provavelmente incomodará o leitor mediano. Mas Nélida Piñon, sem dúvida, é uma escritora de primeiro time, não bastasse pertencer à Academia.


sábado, 16 de dezembro de 2017

Resenha: Uns e Outros - Contos Espelhados, vários autores

Resultado de imagem para livro uns e outrosTítulo: Uns e Outros – Contos Espelhados
Autor: Vários
Editora: Dublinense/TAG Livros
Edição especial
Organizadores: Helena Terra e Luiz Ruffato
ISBN: 978-85-8318-092-0
Gênero: Coletânea de Contos
Literatura Brasileira

A TAG Livros (em parceria com a editora Dublinense, de Porto Alegre) brindou a seus assinantes, entre os quais me incluo, em julho de 2017, com uma edição especial. Trata-se de uma coletânea de contos com uma particularidade muito interessante, que rendeu bons trabalhos.
Foram selecionados oito autores e dez contos; escritores convidados deveriam escrever suas versões destes trabalhos. Assim, constam da obra: Ernest Hemingway, com Fim de algo; James Joyce, Eveline; Clarice Lispector, Os desastres de Sofia; Monteiro Lobato, Negrinha; Katherine Mansfield, Marriage à la mode; Guy de Maupassant, O colar; Liev Tolstoi, Depois do baile e, finalmente, Machado de Assis, com três contos selecionados, A teoria do medalhão, Pai contra mãe e Um homem célebre.
Os escritores convidados produziram suas releituras dos trabalhos originais. Seguindo a mesma ordem de autores originais acima: Luiz Antônio de Assis Brasil, Início de alguma coisa (imitando Hemingway); Beatriz Bracher, A morte da mãe; Eliane Brum, Simplício; Ana Maria Gonçalves, Negrinha! Negrinha! Negrinha!; Ivana Arruda Leite, A rainha das fadas; Maria Valéria Resende, Um simples engano; Cristovão Tezza, O herói da sombra e, ao final e ao cabo, Milton Hatoun, O futuro político (primeiro ato); Paulo Lins, Pipa Sande; José Luís Peixoto, Um homem célebre.
Experiência muito enriquecedora para os leitores e, acredito, também para os escritores que produziram novos contos a partir dos originais, este Uns e Outros – Contos Espelhados mostram um pouco, ou talvez de maneira concentrada, aquilo com que escritores sempre trabalharam: a intertextualidade.
A palavra foi cunhada por Julia Kristeva, linguista estruturalista belga – também realizando trabalhos na linha da Teoria Literária, Semiótica, psicanálise, biografia e autobiografia. Por ela, entende-se toda e qualquer criação de um novo texto a partir de outro, pré-existente. Podemos dar um exemplo de intertextualidade que ficou famoso: os famosos Sherlock Holmes e Dr. Watson, personagens de Sir Arthur Conan Doyle, nas histórias de detetive Holmes foram utilizados para criar Guilherme de Baskerville e Adso de Melk, em O nome da rosa, de Umberto Eco.
Aliás, talvez os personagens mais copiados de todos os tempos, verdadeiros ícones de nossa cultura literária ocidental sejam o fidalgo Dom Quixote, montado em seu pangaré Rocinante, seguido do fiel escudeiro, Sancho Pança, por sua vez, cavalgando um burrico. Seres histriônicos por excelência, serão retomados por muitas e muitas vezes.
A turma que compõe Uns e Outros é, como se pode ver, de peso. Tanto os dos originais, quanto os contemporâneos. É mais que uma leitura prazerosa (pelo menos o foi para mim), é ilustradora do que pode fazer o talento de nossos escritores brasileiros – e até de um autor português, o José Luís Peixoto.
De acordo com o prefácio do livro, os autores contemporâneos foram
“Investidos de total liberdade para a escolha do escritor e do conto clássico com quem queriam dialogar, à sua maneira, dentro de seus respectivos estilos, com suas particulares vozes e visões de mundo, os dez formaram pares com Machado de Assis, Ernest Hemingway, James Joyce, Clarice Lispector, Monteiro Lobato, Katherine Mansfield, Guy de Maupassant e Liev Tolstoi.” (páginas 12/13)
Não se trata, obviamente, de exercício de cópia; os contemporâneos leram os contos originais e a partir destes produziram novos contos, seguindo a mesma temática, mas impondo suas marcas autorais, seu enredo, seus personagens.

Uma última palavra a Uns e Outros – Contos Espelhados: a edição está muito bem cuidada e é muito bonita. Feita com capricho. Espero que dentro de algum tempo, ela esteja em edição aberta ao público em geral.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Resenha: A Personagem, de Beth Brait

Resultado de imagem para livro a personagem beth braitTítulo: A Personagem
Autora: Beth Brait
Editora: Contexto
Edição: 9ª
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-520-000-6
Gênero literário: Ensaios
Bibliografia: Bakhtin – Dialogismo e Polifonia, 1997; Bakhtin e O Círculo; Literatura e Outras Linguagens; Bakhtin – conceitos-chave, 2005; Bakhtin – Outros Conceitos-chave; Ironia em Perspectiva Polifônica; Bakhtin – Dialogismo e Construção de Sentido; Língua e Linguagem; Texto ou Discurso? (em parceria com Maria Cecília Souza-e-Silva; Dialogismo – Teoria e(m) Prática.

“Beth Brait é crítica, ensaísta, professora-associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de São Paulo. Fez doutorado e livre-docência em Linguística na USP. É pesquisadora nível 1 do CNPq, assessora da Capes, CNPq, Fapesp e foi membro do Comitê Assessor da Área de Letras e Linguística do CNPq. É coautora, autora e organizadora de várias obras, dentre elas Língua e literatura, Bakhtin: conceitos-chave; Bakhtin: outros conceitos-chave; Bakhtin e o Círculo; Bakhtin: dialogismo e polifonia; Literatura e outras linguagens, Comunicação e análise do discurso, Dicionário de Comunicação e A Personagem todas publicadas pela Editora Contexto.” (orelha do livro A Personagem)
Este volume A Personagem é interessantíssimo estudo sobre nossos queridos seres de papel. Escrito com a clara intenção de não ser hermético, ele pode estar tanto na mão de quem gosta de escrever quanto na de quem gosta de ler, sendo este um leitor mais sofisticado.
Sem deixar de lado o background teórico necessário – Beth Brait é especialista em Bakhtin, entre nós –, a autora assume explicitamente os riscos de produzir texto acadêmico para o público leigo. Riscos bastante sérios, quais sejam: imprecisão de uma linguagem destituída de termos técnicos mais precisos, abordagem expressa em termos menos “duros” e simplificação conceitual, para se fazer entendido por um público não acostumado a este tipo de saber.
A Personagem já havia saído pela Editora Ática, em formato pequeno, sob a coleção Fundamentos. Esta edição que tenho (aliás, tenho as duas), foi ampliada, completada e mantém a mesma importância pedagógica. Bakhtin não é um teórico fácil, como aliás, não é fácil falar-se de Teoria da Literatura para um público não acadêmico. Enfim, é sempre a dificuldade que enfrenta qualquer obra de divulgação científica, filosófica, intelectual.
Um pequeno capítulo, “As personagens” serve como introdução à obra; em “O faz de conta das personagens”, Beth apresenta algumas características destes seres; procura situá-los entre outras representações humanas; em “A personagem e a tradição crítica” Beth traça um histórico de Aristóteles aos modernos teóricos sobre as personagens de ficção. “A construção da personagem” busca esmiuçar a gênese destes seres: construção, tipos diferentes, como podem atuar sobre a história que ajudam a contar e de que fazem parte intrínseca.
Um longo e delicioso capítulo, “De onde vêm esses seres?” tem a pergunta-título respondida por nada menos que 26 escritores que atenderam simpaticamente ao convite de falarem de como criam suas personagens. Desfilam: Antônio Torres, Autran Dourado, Beatriz Bracher, Cristovão Tezza, Doc Comparato, Domingos Pellegrini, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, José J. Veiga, Julían Fucks, Luiz Ruffato, Lya Luft, Marcelo Maluf, Marcos Rey, Maria Valéria Rezende, Marilene Felinto, Milton Hatoum, Moacyr J. Scliar, Oswaldo de Camargo, Paloma Vidal, Patrícia Melo, Rafael Gallo, Renato Pompeu, Rogério Pereira e Silvana Tavano.
Cada um deles vai falar sobre seu processo de criação dos seres que povoam suas mentes e suas narrativas; o que se pode depreender do que dizem, entretanto, é que em todos os depoimentos há forte carga subjetiva. Cada escritor tem o seu jeito, ou melhor, a sua concepção sobre o assunto, como não poderia deixar de ser.
Enquanto para uns, é necessária uma pormenorização rigorosa, em que suas criaturas vão sendo lapidadas, compostas como em camadas, para outros elas vêm com facilidade, chegam sem aviso prévio; surgem pela necessidade da própria narrativa mesmo. De modo geral, permanece o mistério, sem que os próprios criadores consigam uma explicação objetiva: de onde vêm esses seres?
Tenho minhas preferências, evidentemente:
“O personagem não existe anteriormente a si mesmo, ele só existe depois de criado, vale dizer – de narrado em palavras. O personagem nasce com a escrita, vive depois de escrito. Quando o autor consegue precisar e estabelecer a sua imagem em palavras e apresentá-la objetivamente (quanto mais preciso, mais verdadeiro); quando, se me permitem a comparação, o que se quer significar se transforma em significante através da ação ( o Verbo se fez carne e a carne em ação – verbo – se faz persona, a tal ponto que criador e leitor a tem por gente); só então se pode dizer que há um personagem.” (Autran Dourado, página 97)
Ou:
“Personagens literárias, feitas de palavras emendadas, são seres naturalmente incompletos: ou são bem visíveis, descritos no capricho, do chapéu ao sapato, passando pela voz, e faltam-lhe as almas; ou são pura alma, ideias, sentimentos, mas sem ocupar imagem no espaço – nada concreto se descreve deles. Quase sempre estão no meio, um pouco alma, um pouco físico. Em qualquer caso, o leitor irá completar as lacunas, pondo-lhes gordura ou magreza, imaginando a testa larga, o tom ríspido, a graça ou a desgraça do gesto, que vamos tomando emprestado de quem realmente conhecemos, até sentir alguém novo criado pelo autor.” (Cristovão Tezza, página 104)
Ainda:
“Acredito no que se chama “inconsciente coletivo”, e dele vem boa parte da matéria de minhas personagens. Muito delas me foi dado por vivência pessoal: cosias que vi, ouvi, li, sonhei, percebi de passagem na rua, no supermercado. Coisas que imaginei vagamente.
Tudo isso se deposita no fundo de nossa mente como uma espécie de sedimento de fundo de rio. No tempo em que nos dispomos a escrever, na asa do que se chama “inspiração”, e que nunca brota por acaso, do nada, presente do céu, acontece que por alguma razão remexe-se nessa lama, nessa areia de fundo. Emergem, então, inteiras ou fragmentadas, em geral bem fragmentadas, essas lembranças de experiências, minhas ou alheias: nariz de um, orelha de outro, sofrimento de um terceiro, alegria de um quarto. Tudo em caquinhos, pedacinhos. O ficcionista vai então formando um painel de mosaico, com sesse pedacinhos de gente, de humanidade.” (Lya Luft, página 124)
Escrevinho sempre. E, em minhas escrevinhações, também elaboro estes personagens e tenho minha percepção sobre como os crio; é uma mistura do que dizem estes três escritores.
Concordo com Autran Dourado, principalmente com sua ideia de que seres de palavras só existem depois de escritos e são construtos mantidos vivos na interação entre escritor e leitor; de Tezza, aproprio-me da ideia de que a maioria dos personagens são criados no meio, um pouco alma, um pouco físico. Mas, indiscutivelmente, é de Lya Luft que me vem a concepção mais aguda: criamos seres ficcionais do inconsciente coletivo (obrigado, Jung); criamo-los da areia de fundo de rio.
Ademais, que bela imagem esta, criamos nossos personagens com a areia de fundo de rio. Poético, sem deixar de ser verdadeiro. Emulamos Deus, que segundo a narrativa simbólica da Bíblia, nos criou do barro.

Se você é daqueles que desejam muito se apropriarem de ferramentas teóricas para entender melhor a literatura e seus processos criativos, ou se você tem a vontade incontrolável de se tornar um escritor, recomendo o livro. A Personagem é uma deliciosa introdução a este mundo obscuro da criação.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Resenha: As Três Marias, de Rachel de Queiroz

Resultado de imagem para livro as tres mariasTítulo original: As Três Marias
Autora: Rachel de Queiroz
Editora: TAG Livros/José Olympio
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-03-01337-6
Literatura brasileira – Categoria Romance

Bibliografia: Romance – O Quinze (1930); João Miguel (1932); Caminho de Pedras (1937); As Três Marias (1939); O galo de ouro (1950); Memorial de Maria Moura (1992). Crônicas – A Donzela e a Moura Torta (1948); 100 crônicas escolhidas (1958); O brasileiro perplexo (1964); O caçador de tatu (1967); A menininha e outras crônicas (1976).  Teatro – Lampião (1953); A Beata Maria do Egito (1958). Infanto-juvenil – O Menino Mágico (1969); O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980); Cafute e Pena-de-Prata (1986). Obras Reunidas de Ficção – Três Romances (1948); Quatro Romances (1960); Seleta, seleção de Paulo Rónai; notas e estudos de Renato Cordeiro Gomes (1973).



Rachel de Queiroz, escritora brasileira nascida em Fortaleza, Ceará, em 17/11/1910 e falecida em 04/11/2003, no Leblon, Rio de Janeiro, aos 92 anos de idade. Romancista, contista, cronista, tradutora, jornalista. Rachel publicou seu primeiro romance, O Quinze, aos 19 anos de idade, demonstrando habilidade na análise psicológica dos seus personagens, vivendo a saga do nordestino que luta contra a seca e a miséria. O Quinze é considerado, até hoje, um dos romances mais importantes da literatura brasileira. Rachel de Queiroz foi membro da Academia Brasileira de Letras, sendo recebida por Adonias Filho. Mais tarde, ela se filiou à corrente literária denominada modernismo, e foi admiradora de Manuel Bandeira.
“Na parede caiada se desenhava, enorme, o emblema azul da Virgem Maria. Ao centro do pátio ficava o caramanchão cheiroso do jasmineiro e dentro dele, no fresco e no sombrio do verde, a imagem de uma moça de vestido branco e pés nus – uma Nossa Senhora bonita e triste.
Em redor do pátio as classes vazias, mudas, fechadas. O ruído de passos crescia, ressoava pelos corredores, o terço da cintura da Irmã tilintava, cheio de medalhas.
Eu tinha medo. A Irmã mais velha, de olhar morto, fala incolor e surda. Parecia feita de papel pálido, ou de linho engomado semelhante à corneta que trazia à cabeça e que se agitava a cada movimento seu, como uma ave. Parecia uma boneca de cera, uma figura, uma santa, só não parecia gente. Também não parecia gente a porteira seca, toda osso e nervo, nem a outra Irmã que passou silenciosa e de cabeça baixa, sem um interesse, sem um olhar. Moça, jovem, só a Virgem Maria adolescente do caramanchão; e, sendo de louça, tinha mais ar de vida e humanidade que aquelas outras mulheres de carne, junto de mim.” (página 11)
Maria José, Maria da Glória e Maria Augusta (Guta) são as três personagens centrais, sobre as quais se constituirá este romance. São as tais três Marias do título. Elas estudam num internato de uma ordem religiosa. É pela voz de Guta que tomamos conhecimento dos fatos acontecidos.
As Três Marias tem boa parte da história passada entre os muros do internato; é nesse microcosmo, circunscrito aos muros que o isolam quase completamente da cidade lá fora que Rachel vai exercer seu poder de análise. Aliás, este é uma estratégia muito usada pelos autores, literatura afora. Uma ilha, uma cidadezinha de interior, um educandário, um internato, enfim, servem como amostragem de uma sociedade que se quer analisar ou caracterizar, como se pode ver no trecho abaixo transcrito.
“De um lado vivíamos nós, as pensionistas, ruidosas, senhoras da casa, estudando com doutores de fora, tocando piano, vestindo uniforme de seda e flanela branca.
Ao centro, era o “lado das irmãs”, grandes salas claras e mudas onde não entrávamos nunca. E além, rodeando outros pátios, abrigando outras vidas antípodas, lá estavam as casas do Orfanato, onde meninas silenciosas, vestidas de xadrez humilde, aprendiam a trabalhar, a coser, a tecer as rendas dos enxovais de noiva que nós vestiríamos mais tarde, a bordar camisinhas dos filhos que nós teríamos, porque elas eram as pobres do mundo e aprendiam justamente a viver e a penar como pobres.” (página 22)
A literatura lida pelas internas é constituída por histórias água-com-açúcar, como convinha às “virtuosas jovens” internas. Isto não impede a entrada, vez por outra, de outro tipo livro, mais realista, como por exemplo, Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque. Apesar de cunho fortemente pacifista, o livro aborda os horrores das guerras, a desumana condição dos soldados nas trincheiras. Desfazia a imagem glamorosa que faziam as internas de homens sempre portando fardas limpas, bem passadas, cheirosos e imponentes; no livro circulava o carrossel de horrores e podridões.
No excelente Carta Aberta A Rachel de Queiroz, de Heloisa Buarque de Hollanda, que acompanha esta edição, há a caracterização de cada uma das três Marias: Maria da Glória, após sair do internato, casa-se e se torna mãe e esposa notável. “E, no livro, se congela na imagem do protótipo de felicidade”, nos diz Heloisa.
Maria José vai viver com a mãe sofrida, arranja um emprego de professora e se constitui em arrimo de família. Esta Maria se apoia na religião e, no dizer de Heloisa, “sua imagem se congela na grandeza e na virtude da mulher sofredora”.
Guta volta para a casa da família, no Cariri, mas não consegue se adaptar à rotina e regras francamente mantenedoras do poder dos pais. Vai para Fortaleza e arranja um emprego de datilógrafa, mediante concurso. Das três, será a mais livre, mas também a mais desnorteada, sem a comodidade da segurança do protótipo de felicidade, atribuída a Maria da Glória, e também sem a segurança fornecida pela religião. Por isso mesmo, Maria Augusta é a personagem mais rica, mais vívida do romance. Ela vai para o Rio de Janeiro, vive, aprende, sofre – tem seus amores.
O judeu Isaac e Guta têm, durante a estada dela no Rio, um relacionamento bastante complicado:
“Isaac me queria, era evidente, mas nunca me falara de amor. Não fazia projetos, não pedia promessas, não hipotecava o futuro. Nos instantes de ternura mais íntima, ou em outros momentos sem importância, suas palavras sempre feriam apenas o sentimento presente, a sensação do momento.
E eu, que sonhava e fazia projetos sozinha, não ousava pedir nada, imitava o descuido dele; via próximo o dia de ir embora e continuava calada, com medo de quebrar o encanto, com medo de o decepcionar, de o levar a me supor capaz de qualquer cálculo e negociar com o coração. Tirava justamente o meu orgulho do gesto de me dar sem pedir nada, ou pelo menos sem mostrar que o esperava.” (página 187)
Manoel Bandeira, num outro texto de apreciação sobre este As Três Marias, ressalta que há no livro quase uma sina, as mulheres de Rachel de Queiroz morrem, de um modo geral, de parto:
“O aspecto mais curioso talvez dessa feminilidade está na aparente “falta de imaginação” com que a escritora mata mulheres no romance. Várias delas morrem de parto, pelo menos três. O parto parece estar para a escritora em íntima conivência com a morte. Aliás, para Maria Augusta, que é quem conta a história, essa ligação do parto com a morte é impressionantemente legítima, pois que ela perde o filhinho nascituro. Não morre ela, mas o filho. E, assim perturbada com violência em seus instintos maternos, Maria Augusta como que se sacrifica, matando no parto as outras mães do livro. Não tem ânimo para lhes matar os filhos (que é a imagem que a persegue), antes se salva neles prolongando nos filhos das outras a sua maternidade frustrada.” (página 219)
Interpretação esta focada na psicanálise de Freud. E talvez assim seja, tendo em vista que a própria escritora, Rachel de Queiroz, teve um filho morto precocemente. Guta, portanto, seria uma espécie de alter ego da autora.
Os que escrevem ficção sabem desta verdade: pomos nos nossos personagens feitos de palavras algo de nós mesmos; os bons escritores ampliam esta base, ressignificando-a e dando corporeidade aos seus construtos. Os maus, provavelmente, não conseguem mais do que repetir-se a si mesmos, caindo na armadilha de criarem meros zumbis.

Há muito tempo não lia nada desta escritora. Para ser honesto, eu a conhecia somente de textos postos em antologias, o que não é o mais adequado para mergulhos de profundidade. E que bom que o meu primeiro contato com uma obra de Rachel tenha se dado com As Três Marias. Porque, como ressalta Manoel Bandeira, ela filia-se à corrente de Machado de Assis, com o seu texto fluente, reflexivo e sobretudo elegante. Com frases apuradas, tem-se a mesma impressão de quando lemos o Bruxo de Cosme Velho: não há palavras excessivas, não há uma vírgula a mais do que deveria. Um estilo seco, quase sem adjetivos. Um livraço. E numa edição muito bonita, esta da TAG Livros.

sábado, 25 de novembro de 2017

Resenha: Antes que os pássaros acordem, de Josué Montello

Título original: Antes que os pássaros acordem
Autor: Josué Montello
Editora: Nova Fronteira
Edição: não consta. 3ª Reimpressão
Copyright: 1987
Gênero literário: Romance
Número de páginas: 200
ISBN: 85-209-1325-3
Literatura Brasileira
Bibliografia do autor - Romances: Janelas Fechadas 1941; Luz da Estrela Morta, 1948; Labirinto de Espelhos, 1952; A Décima Noite, 1959; Os Degraus do Paraíso, 1965; Cais da Sagração, 1971; Os Tambores de São Luís, 1975; Noite Sobre Alcântara, 1978; A Coroa de Areia, 1979; O Silêncio da Confissão; 1980; Largo do Desterro, 1981; Aleluia, 1982; Pedra Viva, 1983; Uma Varanda sobre o Silêncio, 1984; Perto da Meia-Noite, 1985; Antes que os Pássaros Acordem, 1987; A Última Convidada, 1989; A vida eterna do major Taborda, 1989; Um Beiral para os Bem-te-vis, 1989; O Camarote Vazio, 1990; O Baile da Despedida, 1992; A Viagem sem Regresso, 1993; Uma Sombra na Parede; 1995; A Mulher Proibida, 1996; Enquanto o Tempo não Passa, 1996; Sempre Serás Lembrada, 2000. Novelas: O Fio da Meada, 1955; Duas Vezes Perdida, 1966; Numa Véspera de Natal, 1967; Uma Tarde, Outra Tarde, 1968; Um Rosto de Menina, 1983; A Indesejada Aposentadoria, 1972; Glorinha, 1977; O Melhor do Conto Brasileiro, 1979; Pelo Telefone, 1981. Teatro: Precisa-se de um Anjo, 1943; Escola da Saudade, 1946; O Verdugo, 1954; A Miragem, (1959; Através do Olho Mágico, 1959; O Anel que Tu Me Deste, 1960; A Baronesa, 1960; Alegoria das Três Capitais, 1960; Um Apartamento no Céu, 1995; O Baile da Despedida, 1997. Ensaios: Gonçalves Dias; 1942; O Hamlet de Antonio Nobre, 1949; Fontes Tradicionais de Antonio Nobre, 1953; Artur Azevedo e a Arte do Conto, 1956; O Oratório Atual do Brasil, 1959; Caminho da Fonte, 1959; O Presidente Machado de Assis,1961; Uma Palavra Depois de Outra, 1969; Um Maître Oublié de Stendhal, 1970; Estante Giratória, 1971; A Cultura Brasileira, 1977; Brazilian Culture, 1983; Viagem ao Mundo de Dom Quixote, 1983; Os Caminhos, 1984; Lanterna Vermelha, 1985; Janela de Mirante, 1993; Fachada de Azulejo, 1996; Condição Literária, 1996; Memórias Póstumas de Machado de Assis, 1997; Baú da Juventude, 1997; O Juscelino Kubitschek de Minhas Recordações, 1999. Contos: Um rosto de menina, 1980. Outros: Pequeno Anedotário da Academia Brasileira, 1961.

Josué de Sousa Montello (Josué Montello), nascido em 21/08/1917, em São Luís, Maranhão e falecido em 15/03/2006, aos 88 anos. Com apenas 15 anos de idade, Josué Montello começou a integrar a Sociedade Literária Cenáculo Graça Aranha, da qual faziam parte jovens talentos ligados ao movimento do modernismo. Após uma passagem significativa pela cidade de Belém (Pará), seguiu para o Rio de Janeiro, onde se integrou também ao semanário literário Dom Casmurro. Janelas Fechadas foi seu romance de estreia, em 1941. Em novembro de 1954, foi eleito para ocupar a Cadeira de número 29 da Academia Brasileira de Letras. Dono de uma invejável produção espalhada por vários gêneros de expressão escrita, como se pode ver em sua bibliografia acima, Josué Montello possui uma prosa refinada, elegante, que nos passa aquela falsa sensação de que haver sido projetada com simplicidade.
Antes que os pássaros acordem, romance de 1987, me chamou a atenção pela capa, pelo nome do autor (eu já possuía uma edição, do mesmo autor, A vida eterna do Major Taborda, pelo extinto Círculo do Livro). Uma bela capa, mostrando a famosa Torre Eiffel de Paris ao fundo, em meio a um alvorecer. Este é o único livro de Montello ambientado fora do Brasil, mais precisamente, em Paris, na França. A temática também é francesa, envolvendo várias questões da invasão e permanência das tropas alemãs em solo parisiense, quando da Segunda Guerra Mundial.
Dividido em cinco partes, o romance se inicia:
“A cena foi rápida. Só o tempo necessário para abrir e fechar a alta porta do edifício, quase sem ruído, e atirar para dentro do vestíbulo o adolescente que se encolhia junto à ombreira de pedra, protegido pelas lâmpadas apagadas.
Depois, tanto Gérard quanto o desconhecido permaneceram de respiração suspensa, a olhar na direção da porta, ouvindo passos da patrulha na calçada da rua, ambos imóveis e com medo.” (página 11)
Início no meio da ação, ou como é tecnicamente conhecido, in medio res. O adolescente é Daniel Cohen, ficamos sabendo pouco depois; é um idealista lutando como pode contra a ocupação alemã. A Gestapo o procura por toda a cidade. Gérard o esconde em seu apartamento, onde vive com Isabelle. O protagonista da história tem seus próprios problemas. Chega a fugir de Paris, mas retorna à cidade, para o que der e vier. Além do mais, ele tem um problema sério: embora desejem – tanto ele quanto Isabelle – um filho, Gérard é estéril.
Trabalha numa agência publicitária como desenhista de talento. É amigo do seu chefe, Augustin. a trama que conduz o romance passa pelo fato de um desenho de Gérard representando o Arco do Triunfo ter sido utilizado pela agência, numa fusão com outro desenho dele, representando a águia alemã. A agência realizara uma fusão entre os desenhos, de modo que a águia sobrepaira o Arco do Triunfo, numa clara propaganda pró-nazista.
A relação de Gérard com Isabelle não é tranquila, assombrada pela impossibilidade de gerarem um filho. Este será o outro gatilho que move a história. O texto é muito bem escrito, dosando as informações num crescendo, até que, lá pelas páginas 40, me vi completamente conquistado pelo livro.
Mesmo a ambientação sendo parisiense, envolvendo fatos parisienses e fazendo, o tempo todo, referências à cidade-luz, Josué toca em algumas questões universais. Uma delas, por exemplo, é a grande questão sobre o que legitima atos violentos, como abaixo:
“Antoine, puxado por Isabelle, ia saindo de costas, na direção da orla da praça, enquanto Gérard dava por si defronte do guarda, interpelando-o:
— Que é que fez a menina? E, por que não pode brincar?
A resposta veio rápida, em tom ríspido, com o guarda a levantar ainda mais a cabeça autoritária:
— É judia, senhor. Sei que é. E os judeus estão proibidos de brincar nas praças públicas.
E para a senhora, que tinha a menina junto a si, protegendo-a com os braços por cima de seus ombros assustados:
— Onde está sua estrela amarela? E a estrela da menina? A senhora não sabe que tem de usar a sua em cima do peito, bem à vista? E que as crianças também têm de usá-la, depois dos seis anos, aqui no peito, como a senhora?
E a judia, já com ar acossado:
— As duas estrelas estão na bolsa, senhor. Me esqueci de pegá-las. Desculpe.
E o guarda, mais enérgico:
— Eu vou levar a senhora, com a sua neta, para o Comissário de Polícia. Tenho ordens severas para agir contra os judeus.” (página 115/116
E este outro trecho, desta vez, com a violência deflagrada pelos franceses:
“Ela, primeiro, enxugou os olhos. E atenuando a exaltação, como se houvesse conseguido superar a cólera:
— Eu estava sozinha na Agência, abrindo a correspondência atrasada, no momento em que dois homens e uma mulher apareceram na porta, um deles perguntando pelo Pierre. Depois, por ti. Com um gesto, mostrei-lhes as salas vazias, e logo fiquei gelada, vendo que o outro trazia na mão direita um revólver. Enquanto os dois passavam para a sala do Pierre, e ali revolviam gavetas e armários, a mulher me ordenou, já de tesoura em punho: — Baixa a cabeça. — Intimidada, obedeci. Senti que meus cabelos iam sendo arrancados a tesouradas. E quando eu pensava que já estava livre, começou o pior, com a navalha me raspando o crânio.” (página 149)
Dominando perfeitamente os truques narrativos, perto do desfecho Montello introduz um “personagem-alívio”, isto é, um personagem criado para dar ao leitor uma respirada antes do clímax e que tem, ao final das contas, a função de “esticar” o suspense, adiando-o. Até certo ponto, tal personagem – um visconde real ou suposto – me remeteu à figura tresloucada de Dom Quixote, quer pela descrição física, quer pela loucura evidente, quer pela função histriônica ou, talvez mais completo, por todas estas coisas juntas:
“Conquanto houvesse chegado ali pela manhã, o senhor alto e magro, de unhas bem tratadas...
— O cavalheiro não se importa se eu fizer uma pequenina alteração na sua cama? Obrigado. Ponho a minha do outro lado. Faço isso pelo senhor. Dizem-me que ronco um pouco nos meus sonos mais profundos. Quanto mais longe eu estiver, melhor será, tanto para mim, que não serei acordado pelo carteiro, quanto para o senhor, que não terá de me acorda para poder dormir.” (página 179)
É do tal visconde a estapafúrdia Teoria do Pavio, sobre a qual ele discorre, didaticamente:
“— A teoria é simples. Simplérrima. O senhor, como artista, não precisará recorrer a raciocínios metafísicos para entendê-la. Imagine uma vela. Há velas grandes. Há velas pequenas. Refiro-me às velas de cera que pomos nos altares. Cada vela tem seu pavio. Uns maiores. Outros menores. Conforme o tamanho da vela. Cada um de nós, para Deus, é uma vela. Maior. Menor. Sem que o tamanho da vela corresponda ao tamanho da pessoa. Se correspondesse, eu estaria, aqui, em posição melhor do que o senhor. Por quê? Já vai me entender. O tamanho de nossas vidas depende de nosso pavio. Tanto eu quanto o senhor podemos ter pavio longo ou pavio curto. Ou seja: eu posso ter pavio longo; p senhor pode ter pavio curto. Ou vice-versa. O curto é o meu, e o seu é longo. Por quê? Mistério. O importante é que há um pavio para cada um. Quando nascemos, esse pavio é aceso, lá em cima. E enquanto vivemos, ele vai queimando. Na hora em que tem de apagar, apaga mesmo, no finzinho da vela. Tudo quanto se fizer, aqui embaixo, para manter o pavio aceso, não adianta coisa alguma. Acabou, acabou.” (página 181)

Delicioso o livro, meu caro leitor. E quase passou despercebido, quando o comprei, naquela baciada de saldos. Também ficou um tempão sem que eu o lesse, até que, ao mexer na minha estante, dei de cara com ele. E me decidi a lê-lo, para o meu prazer literário.