Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

As Realidades Adaptadas da Ficção Científica

A Ficção Científica é ainda tratada, por muitos críticos, como uma espécie de “lixo literário”, ou subgênero, no sentido pejorativo. Esta ideia se construiu, no passado, por uma quantidade muito grande de péssimas histórias em publicações baratas. Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador de Tarzan, incomodado com a baixa qualidade do que era feito na época, criou suas histórias envolvendo o planeta Marte. Idealizou o heroi John Carter, um americano abduzido pelos marcianos. Tais textos deram uma reviravolta de qualidade à chamada Ficção Científica.

De lá para cá, o gênero, aos poucos, foi se firmando. Em grande parte, devido ao trabalho de nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Anthony Burguess, Frank Herbert, Philip K. Dick e outros.

Isaac Asimov, russo naturalizado americano, nos deu a trilogia Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação e as histórias sobre robôs, como Os robôs do amanhecer. Ficou famoso pela grande ideia de criar um código que gerenciasse as atitudes destas máquinas. Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhes sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Estes autores deram sua contribuição imaginativa e qualitativa. Entretanto, nenhum obteve o mesmo resultado, no campo das adaptações para o cinema, como Philip K. Dick. Realidades Adaptadas é um livro de contos que deu origem a roteiros cinematográficos de qualidade. São sete, ao todo: Lembramos para você a preço de atacado (O Vingador do Futuro), Segunda Variedade (Screamers – Assassinos Cibernéticos), Impostor (Impostor), O relatório minoritário (Minority Report – A Nova Lei), O pagamento (O Pagamento), O homem dourado (O Vidente), Equipe de ajuste (Os Agentes do Destino).

As histórias de Philip K. Dick são construídas em torno de um olhar desconfiado sobre o mote a realidade não é exatamente aquilo que nos parece ser. Os contos de Realidades Adaptadas são perpassados por este olhar inquieto e inquisitivo; seus personagens humanos são surpreendidos pela realidade mutante. O futuro imediato nos é mostrado como uma miragem num deserto, adquirindo outros aspectos ou transformando-se mesmo em algo não observado antes à medida que caminhávamos para mais perto dele.

Histórias como Guerra nas Estrelas, em que personagens costumam ser princesas e príncipes, duques, barões, condes, são para mim, adaptações de contos de fadas a um tempo de naves espaciais e convivências (normalmente conflituosas) com seres alienígenas. Esta linha gerou boas narrativas e bons filmes, em que doses de magia são generosamente distribuídas.

Outra linha é proposta por séries como Jornada nas Estrelas, nas quais os acontecimentos se tornam possíveis se tivernos a tecnologia adequada. Os teletransportes da Jornada já foram motivo de zombaria nos meios científicos; atualmente, já se conseguiu o feito com algo minúsculo, como um fóton (o menor componente da luz). Parece ser apenas uma questão de desenvolver a tecnologia.

K. Dick filia-se a esta segunda linha, a da Ficção Científica hard core. Realidades Adaptadas é um livro de excelentes contos, com enredos altamente trabalhados, personagens convincentes. É para ser lido com cuidado: não confie naquilo que lhe parece confiável!

Ótimo livro. Aconselho… sem desconfianças!

Philip K. Dick. Realidades Adaptadas. Editora Aleph. São Paulo, SP: 2012.302 páginas

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Morre o escritor Autran Dourado

No dia 30/09/2012 morreu o escritor mineiro Waldomiro de Freitas Autran Dourado, mais conhecido por somente Autran Dourado, aos 86 anos de idade, de hemorragia estomacal. Ele já havia sido internado por quatro meses antes, para tratar de problemas respiratórios.

Autor de uma obra coerentemente construída, não foi exatamente um sucesso de público; entretanto, alguns de seus livros foram mais conhecidos, como Uma vida em segredo, Ópera dos mortos, O Risco do bordado, Os Sinos da Agonia. No total, foram 20 obras.

Ainda, era um escritor preocupado com a divulgação do seu fazer literário, o que o motivou a publicar Uma poética de romance (1973), Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976), Um artista aprendiz (2000) e Breve Manual de Estilo e Romance (2003).

O primeiro livro de sua autoria, lido por mim, foi exatamente o Sinos da Agonia. É de 1967 e o meu contato com o texto se deu por causa do vestibular. O que deveria ser apenas uma questão de atualização tornou-se um prazer. O livro é muito bom e cabe releitura; o tempo e o volume de leituras posteriores me fez perder detalhes. Li, também, o Uma vida em segredo, texto enxuto e aparentemente simples, contando-nos a história da personagem Biela .

Outros trabalhos: A Barca dos Homens, Solidão, Solitude, Novelas de Aprendizado, Novelário de Donga Novais, Um cavalheiro de Antigamente, A Serviço del-Rei, Confissões de Narciso, Ópera dos Fantoches, Monte da Alegria (seu último romance publicado), Armas & Corações, Lucas Procópio, Violetas e Caracóis, As Imaginações Pecaminosas. Em 2006, publicou um volume de histórias curtas, O Senhor das Horas.

Dourado foi secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek, experiência esta relatada no livro Gaiola Aberta, publicado em 2000. Nosso escritor ganhou vários prêmios, como o Goethe 1981), Jabuti (1982), Camões (2000), e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (2008).

Seus personagens são angustiados, o que fez a crítica identificar Lúcio Cardoso (outro fantástico e esquecido escritor) como uma de suas influências; outros, entretanto, apontam Graciliano Ramos, com seus personagens atormentados, como influência decisiva.

É na cidade fictícia de Duas Pontes que grande parte de suas criaturas se move e, em muitos livros, é sempre o mesmo narrador, João da Fonseca Ribeiro. Pode-se dizer que Autran Dourado era um escritor com um projeto literário definido, do qual nunca se afastou. Para ele, seus romances “tinham que ser cruéis, bater no centro da alma humana.”

Sua obra alcançou reconhecimento no exterior, sendo traduzida para vários idiomas. Essa universalidade, repetindo o caminho de vários escritores, vem do tratamento dado aos dramas localizados em Minas Gerais, mas concedendo amplitude ao que, na verdade, é o drama de todos nós, é o drama do viver. Dostoiévski fez isso ao retratar o homem médio russo, Guimarães Rosa trilhou por esta vereda ao tornar universal o drama do sertanejo. Lições não esquecidas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Acidente em Matacavallos

Uma lavadeira portuguesa, Maria Couceiro, morre atropelada, na Rua Matacavallos, por um bonde da Rio de Janeiro Electric Street Railway Company, companhia inglesa que operava no Rio. Tal fato era classificado, normalmente, na seção dos jornais chamada faits divers (fatos diversos, em francês). Assim era denominada a parte dos jornais a receber acontecimentos mais corriqueiros.

Mas o jornal mambembe de Diógenes Braga, a Folha da Capital, não pensava da mesma maneira e deu um lugar de destaque à notícia, iniciando uma verdadeira campanha contra a Electric. Mr. Gross, gerente da empresa no Brasil, manobrou para comprar o silêncio do jornal: Mr. Gross, em pessoa, avalizou o empréstimo bancário junto ao South American & Caribbean Bank (banco do mesmo grupo da Railway Company) para o financiamento de impressoras modernas e até de uma lynotipe para a Folha da Capital.

Yuli Woloshin, um judeu ucraniano emigrou para o Brasil, sendo recebido no Rio por seu irmão Mark. Em sua terra, tinha trabalhado como tipógrafo; em terras brasileiras, entretanto, iria ajudar seu irmão como “clienteltchik”, vendedor ambulante. Yuli ganhou o apelido de Juca e o que mais o caracterizava era uma disposição ímpar para aprender qualquer coisa. Aprendeu o português e seu sistema de escrita.

O Rio de Janeiro, então Distrito Federal, capital do país, ostentava maneirismos à francesa e uma política renhida e autoritária. Era o fim do governo de Epitácio Pessoa e o início do de Artur Bernardes. Decisões, conchavos, extorsões eram realizados nas casas de prostituição que pululavam no cenário carioca. Uma delas, a mais famosa, pertencente a Mme. Charlotte, tornou-se o palco de alguns acontecimentos. Frequentavam-na Diógenes Braga e o Ministro Palhares; era também onde trabalhava a cocote (prostituta) Ninon, por quem se apaixonou o Ministro.

O Ministro Palhares montou casa para a sua teúda e manteúda Ninon e  Braga ficou sabendo disso. A notícia foi parar no jornal e o Ministro caiu em desgraça. Toda a família Palhares sofreu os efeitos: Dona Herminia, a matriarca, Luisinho, filho mais velho, Silvio, o mais novo dos homens, uma outra filha e Felícia. E o Banco Couto & Irmão tinha suas finanças  e sua idoneidade abaladas, ao serem reveladas as constantes e altas retiradas do Ministro Palhares, para presentear e manter Ninon.

Conduzido com maestria por Mateus Kacowicz, o enredo deste romance prende a atenção do leitor. Uma excelente pesquisa sobre o Rio de Janeiro do início do século XX (por volta de 1922), seus costumes e usos foi realizada com esmero.

Saborosamente, há trechos escritos em português da época:

“Quasi dávamos á estampa a presente edição quando fomos informados de que mais uma familia foi enluctada por um bonde n’esta cidade. D’esta feita o infausto se deu a Matacavallos. A portugueza Maria Couceiro, lavadeira, cuja edade nos é desconhecida, foi colhida pelo carro-motor Nº 8, conduzido pelo nacional Clemente Euphrasio. O collectivo ia no trajecto que damanda de Paula Mattos ao Passeio e não reduziu sua furiosa marcha na descida da ladeira, vindo a colher a desditosa e provocar o infortunio.” (página 5)

Mateus Kacowicz é carioca, jornalista, e este Acidente em Matacavallos é seu primeiro romance. A ironia perpassa a obra:

“Intervenção notável foi a do Senador situacionista Ludgero Cordeiro da Purificação, conhecido por enlevar-se ao ouvir a própria voz e que, neste episódio, proferiu notável peça oratória a favor do cumprimento da lei, contra a utilização de subterfúgios e recursos subalternos, cuja única finalidade seria a tentativa de Diógenes Braga de elidir-se da citação policial.” (página 207)

Neste cenário político, em que prevaleciam os favores, os toma-lá-dá-cá, os tapinhas nas costas (como tudo isto nos soa atual, não?), Diógenes Braga era apenas um corrupto a mais, com a diferença de que ele era peixe pequeno entre os grandes:

“- Doutor Diógenes Braga, eu soube de uma seçãozinha(sic) de cinema que o doutor promoveu quase que especialmente para meu dileto amigo e compadre – frisou o compadre –, o Desembargador F. Sei que o doutor deixou o Desembargador – um crianção, de tão inocente – bem defronte ao doutor. Sei de tudo. O doutor fique avisado: se o doutor estiver arrumando alguma patranha para cima do meu amigo e compadre o Desembargador F, alguma treta, algum engenho, vou ser obrigado a mandar dar cabo do  doutor. E dependendo da maldade que o doutor tiver pensado não vou abrir mão deste prazer para ninguém, dou-lhe eu o tiro na cara.” (página 238)

A recomendação do livro é evidente: já o havia lido no início do ano passado; reli-o com o mesmo prazer, apesar de, desta feita, com a intenção principal de resenhá-lo.

Mateus Kacowicz. Acidente em Matacavallos e outros faits divers. Rio de Janeiro, RJ. Editora Record, 2010, 317 páginas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Última Semana

Há algum tempo venho tomando conhecimento de João Paulo Cuenca, um jovem escritor. Cuenca iniciou sua carreira literária por meio de seu blog, sendo que, ao mesmo tempo, começou a escrever seu primeiro romance, Corpo Presente. Tem participação em várias feiras e festivais, tendo sido convidado como palestrante na FLIP de Paraty, em 2003. Publicou várias crônicas de 2003 a 2010. A editora LeYa reuniu parte desses textos no livro A Última Madrugada, cuja leitura terminei ontem.

J. P. nos relata sua formação de leitor como sendo anárquica. Leu de tudo, e muito novo, viu filmes europeus. Ingmar Bergman foi citado num programa no qual Jô Soares entrevista nosso autor. Assistiu, também a filmes americanos, leu revistas em quadrinhos. “Isso me deu um colchão”, nos diz ele. Tornou-se leitor voraz por influência da mãe.

O autor viajou muito pelo mundo, conheceu vários países e isso se reflete, saborosamente, em seus textos. Neste livro, por exemplo, ele nos fala de sua experiência de uma noite no Hotel Cápsula, em Tóquio. Para quem não sabe, esse hotel não tem quartos, mas pequenas cápsulas, com o espaço suficiente para alguém se deitar e dormir. É quase a conta da cama, uma pequena televisão presa a um suporte de parede:

“Antes de dormir, exploro os corredores lúgubres e estranhamente iluminados do hotel cápsula. Uma cápsula é uma gaveta de fibra de vidro. Você dorme na gaveta, enquanto outros dormem na gaveta de baixo ou acima. Cada corredor tem umas trinta gavetas por parede, três fileiras de dez, uma sobre a outra. Aqui devem ter umas quinhentas pessoas.” (página 198, O encapsulado)

Alguns pontos de vista originais dão um sabor único aos textos:

“Um trem noturno é uma máquina de abandono. Pelas janelas, as paisagens transformam-se em alta velocidade: montanhas e pequenas cidades ficam para trás, como peças de roupa jogadas no chão. A cada zunir de postes, a cada dormente dos trilhos, o passado dos viajantes se desprende um pouco mais dos seus corpos – como casca de ferida.” (página 209, Um trem noturno)

Há lugar para o lirismo, como na página 215, da crônica O Olhar da dançarina:

“Abaixo das órbitas incendiárias daqueles olhos, alguém poderia dizer que sua saia é uma onda brava do mar de Alborán. Que seus pés são armas de repetição. Que suas mãos são plumas brancas soltas no ar. Que seus dedos de pianista são cápsulas de orquídeas desconhecidas pela biologia moderna… Pouco disso importa quando uma súbita explosão interrompe os passos suaves da bailarina e, com eles, toda poesia barata.

É que, num movimento ágil, ela pula sobre si mesma, batendo os dois pés no piso de madeira. O choque sobe pelas pernas da dançarina, há um estremecimento doce em cada ponto desse corpo. Num movimento ágil, ela gira o tronco com violência e bate as palmas das mãos. O choque vibra pelos braços da dançarina até chegar aos seus ombros que se contraem com breve ternura.”

Mas, o grande personagem é a cidade. Na verdade, as cidades. O cronista as observa com olhos sagazes, anotando seus humores, suas transformações, seus indícios de modernidade e de passado.

João Paulo Cuenca usa referências como Amy Winehouse, em Londres; um quadro de Hopper em Madri; o cantor e compositor João Gilberto, no Brasil; os concertos do Radiohead. Referências históricas também têm seu lugar. Cuenca tem um olhar sobre o moderno, o contemporâneo, sem deixar, entretanto, de levar em conta o passado, a história.

Um ótimo livro para se ler de uma sentada, em 233 páginas de textos fluentes e curtos, com um lirismo contido e observações agudas.

João Paulo Cuenca. A Última Madrugada, editora LeYa,São Paulo: SP, 2012, 233 páginas.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Vencendo o desafio de escrever um romance

Rompendo o critério adotado, de não resenhar manuais ou livros técnicos que vou lendo, eis aqui algumas anotações sobre Vencendo o desafio de escrever um romance, do escritor best-seller brasileiro, Ryoki Inoue. Nome completo, José Carlos Ryoki de Alpoin Inoue. O homem é simplesmente o maior escritor de livros do mundo (este manual é sua 1.074ª obra). Publicou mais de 1.000 títulos entre novelas e romances e por essa façanha, está no Guiness Book.

Vencendo o desafio de escrever um romance é, portanto, manual de quem sabe o que recomenda. Traz orientações extremamente práticas para aqueles escritores em potencial. Tanta gente tem vontade de publicar algo e desanima diante da tarefa tão complexa de fazer chegar ao público os produtos de sua lavra.

Inoue aborda questões facilitadoras ao se elaborar o texto em si, lidando com núcleo dramático principal (plots) e os sub-núcleos dramáticos, se podemos dizer assim (underplots). Ensina a elaborar o texto por ordem gradativa de complexidade, aproximando-se pouco a pouco do texto acabado.

Fundamental para ele é ter um projeto completo da história. E esse projeto vai se desdobrando, vai se enriquecendo com storyline,  sinopse, determinação do argumento e do público-alvo, temporalidade,  ambientação,  configuração dos personagens.

Percebe-se claramente, o livro é orientação de alguém perfeccionista, desejoso de dominar com precisão cada etapa do processo criativo. Conta-se que, certa vez, Ryoki Inoue foi desafiado a produzir um novo romance em apenas seis horas. Montou-se vigiliância cerrada sobre todo o processo criativo, para se evitar qualquer possibilidade de fraude. Nosso escritor venceu a prova: novo romance em apenas 6 horas de trabalho!

Ele assume que o processo de trabalho recomendado funciona para aqueles escritores de best-sellers. “Se você é um gênio, não deveria estar lendo esse livro”, afirma Ryoki a certa altura do seu manual prático.

Finalmente, por que quebrei a orientação deste blog e resolvi comentar o manual ? Muito simples. Nunca escrevi um romance, mas tenho algo em torno de 170 crônicas e vários contos no meu computador. José Carlos Alpoim tem me auxiliado muito com o seu livro de aconselhamento. Encurtei meus caminhos, aglutinei experiência e melhorei meus textos, mesmo sendo de contos e crônicas.

Ademais, há muito deixei a ideia de best-sellers serem livros sem qualidades, que vendem horrores, direcionados ao grande público.

Quem escreve deverá, certamente, fazer escolhas de como vai produzir seu texto. Se ele será mais direcionado para o público acadêmico ou se para o grande público. E aí entra em cena a velha discussão, nem sempre de proveito, sobre os “contadores de história” e os “artesãos das palavras”. No grupo dos primeiros, estaria, por exemplo, José de Alencar, Érico Verissimo, Jorge Amado; do outro lado, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, James Joyce.

Mas, como dizia o Rosa, do alto da sua autoridade de autor de um dos clássicos da Literatura Brasileira, o Grande Sertão: Veredas, “pão, pães, questão de opiniães”.

Ryoki Inoue. Vencendo o desafio de escrever um romance. Summus Editorial,São Paulo: SP, 2007. 174 páginas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Um copo de cólera

Raduan Nassar nos dá um magnífico texto nesse Um copo de cólera. O livro foi escrito em 1970 e publicado em 1978, ainda sobre a terrível pressão da ditatura militar, ocorrida no Brasil, de 1964 a 1985. Entretanto, a obra não é uma militância contra os Anos de Chumbo. É antes o olhar crítico às relações humanas desestruturadas, agoniadas.

O personagem principal não tem nome, assim como a mulher com quem vive uma relação amorosa. O erotismo permeia o texto de 64 páginas, dividido em pequenos capítulos. O casal se acaricia, faz amor, troca ideias. Dela, o que sabemos é que é jornalista; a ação se desenrola numa fazenda ou sítio, em que dois caseiros, dona Mariana e seu Tonho, cuidam das coisas.

A paixão dos dois é um tanto conflituosa:

“…assim que ela deixou o quarto e foi por instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria de gritar “é esse canalha que eu amo,”… (página 10)

Um fato corriqueiro é o bastante para o homem derramar toda a sua raiva:

“… deixei as duas para trás e desabalei feito louco, e assim que cheguei perto não aguentei “malditas saúvas filhas da puta” e pondo mais força tornei a gritar “filhas da puta, filhas da puta”, vendo uns bons palmos de cerca drasticamente rapelados, vendo uns bons palmos de chão forrados de pequenas folhas”… (página 26)

Na verdade, a raiva foi menos pela devastação das saúvas na cerca viva do que por “essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda que deixava as pragas de lado e consumia o ligustro  da cerca viva”… O fel interior, detonado pela aparente ocorrência de menor valor, faz com o homem admoeste os empregados, desproporcionalmente, e quando sua parceira tenta intervir, seu ódio se volta contra ela e os dois discutem acidamente.

A linguagem do livro oscila entre o chulo e confessional, apontando para os extremos ideológicos do casal. Afloram, então, as pressões criadas pela condição política vivida no Brasil. Não se podia expressar livremente naqueles tempos. Também as polarizações entre os apoiadores do regime ditatorial e os contra ele eram muito comuns.

O homem apresenta-se, no fundo, como um ser confuso e dependente:

“…fiquei aguardando até que ela me jogou uma ampla toalha sobre a cabeça, cuidando logo de me enxugar os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória,”… (página 18)

“…não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria a seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto.” (página 64)

Além dessa novela, Um copo de cólera, Raduan Nassar ainda publicou Lavoura arcaica, livro esse que o fez ser reconhecido como um dos excelentes autores da literatura brasileira.

Um copo de cólera não é leitura fácil. O texto, apesar de pequeno, é extremamente denso. O enredo é muito simples, como se pode ver por essa resenha, mas a capacidade de síntese do autor não facilita as coisas para um leitor neófito. Não há propriamente, parágrafos; cada capítulo é um único, imenso parágrafo, em que o pensamento do personagem, suas impressões têm um ritmo alucinante. Não chega a ser um fluxo de consciência, um pensamento errático. Há certas frases que se servem de uma distribuição rítmica e rímica, características dos poemas.

Se você gosta de narrativas de fundo psicológico, não hesite. Um copo de cólera é um texto riquíssimo, e por todas as suas características, algumas das quais abordadas aqui, constitui-se em literatura de primeira.

Raduan Nassar. Um copo de cólera. Folha de São Paulo, coleção Literatura Ibero-americana, volume 11, 2012.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Retorno, de Victoria Hislop

O Retorno, de Victoria Hislop, é o segundo romance publicado da autora. O primeiro foi A Ilha. A autora graduou-se em Letras no St. Hilda’s College, na Universidade de Oxford. Produz textos sobre turismo e viagens para o Sunday Telegraph, o Mail on Sunday e para a revista Woman & Home. Ela mora em Kent, na Inglaterra, com o marido e os dois filhos.

Uma coisa que sobressaiu, na leitura do livro, é a capacidade de descrição de Victoria. O leitor quase enxerga as cenas construídas pelas palavras:

“Segundos antes, as mulheres tinham ocupado seus lugares, as últimas pessoas da plateia a entrarem antes que o gitano carrancudo passasse os ferrolhos na porta com um gesto decidido.

Arrastando atrás de si as saias volumosas, cinco moças de cabelos negros como azeviche entraram em cena. Os vestidos justos enroscavam-se no corpo delas em tons vermelho e alaranjado flamejantes, verde ácido e amarelo-ocre. Essas cores vívidas, um coquetel de perfumes fortes, a rapidez da chegada das mulheres e seu andar arrogante eram de uma dramaticidade impactante, estudada. Atrás delas vinham três homens, vestidos em tom escuro como se fossem para um enterro, todos de negro, do cabelo untado com óleo até sapatos de couro feitos à mão.” (página13, capítulo 1)

O Retorno nos conta, com competência, sobre a visita de duas amigas, Maggie e Sonia, à Espanha. É aniversário de Maggie e as duas vão à cidade de Granada para aprender a dançar. Lá, Sonia descobre o prazer da dança e aprende um pouco de flamenco. É uma dança sensual, ao mesmo tempo contida e explosiva, em que a bailarina, ou bailaora, tem de pôr alma e atitude, isto é, uma dança que, para ser verdadeira, deve ter um duende.

Ao sair sozinha, entretanto, certo dia, encontra um café, o El Barril, onde fica conhecendo Miguel, o dono do estabelecimento. Uma imediata amizade se estabelece entre o velho Miguel e Sonia. Ela recebe dele a informação de o café ter pertencido à família Ramirez. Os dias se passam, entre as aulas na escola de dança, as execuções do que aprende numa boate, com Maggie, e as visitas, sozinha, ao café.

Cartazes espalhados pelas paredes do estabelecimento contam um pouco do passado daquela família e as constantes referências de Miguel à Guerra Espanhola do General Franco atiçam sua curiosidade. Mas, a estada das duas em Granada se encerra e as duas amigas têm de voltar para sua vida. Maggie é solteira e Sonia vive um casamento em crise com James. As diferenças entre o casal se tornam cada vez mais fortes; James não gosta da “mania” de Sonia de dançar.

Algum tempo depois, Maggie vende tudo o que tem e se muda de vez para Granada, pois está envolvida com Paco, “um homem maravilhoso”. Sonia volta à Granada e hospeda-se na casa da amiga, já envolvida com outro “homem maravilhoso”. Entretanto, o que impele Sonia em sua segunda estada na cidade é a história da família Ramirez.

Aos poucos, os Ramirez vão revivendo nas narrativas do velho Miguel: Señor Pablo, señora Conchita, os filhos do casal, Mercedes, Antonio, Ignácio e Emílio. E ressurgem também os horrores da guerra que divide a Espanha entre nacionalistas e republicanos; tornam à vida o poeta García Lorca e o generalíssimo Franco.

Mercedes se torna bailarina de flamenco e se apaixona pelo violonista (ou tocaor) Javier Montero. O amor entre os dois é sincero e profundo, não obstante Mercedes ser uma menina de apenas 16 anos. E tais sentimentos acontecem em meio à guerra. Javier está em Málaga e ela resolve viajar para encontrá-lo. E a viagem é terrível, pois a realidade cruenta dos ataques e bombordeios está em toda parte:

“Embora muitos continuassem a caminhar à noite, a exaustão e a fome forçavam alguns a pararem por uma hora e pouco, e havia sempre pequenas aglomerações à margem da estrada. Famílias amontoadas, um cobertor puxado em cima de todos para aquecer e proteger, usando o colchão que tinha arrastado de casa para criar uma pequena barraca particular, uma miniatura do lar.(…)

A vanguarda dessa procissão compunha-se sobretudo de mulheres, crianças e mais velhos, e era com eles que Mercedes andava. Tinham sido os primeiros a deixar Málaga, desperados para fugir dos captores da cidade. Mais para o fim da marcha vinham andando penosamente os homens viventes e os milicianos derrotados, esgotados, que tinham permanecido na cidade para uma exibição final de resistência. Ainda que caminhassem dias e noites, a viagem a Almería poderia levar até cinco dias. Para os velhos, doentes e feridos, poderia se prolongar ainda mais.” (página 238, capítulo 22)

As cidades, os homens, as mulheres e crianças são inexoravelmente metralhados e bombardeados pelos nacionalistas de Franco. Matam sem piedade. Em meio a uma guerra assim, homens são reduzidos à condição de animais desesperados, para quem só importa salvar suas pobres vidas. Mas, também, surgem gestos tocantes de solidariedade. A família Ramirez não escapa ilesa desses horrores, há mortos e presos. Os republicanos respondem à luta igualmente com assassinatos, emboscadas e, de repente, não se sabe qual facção é mais feroz e brutal.

Pessoas são encaminhadas para países próximos, que os recebem a contragosto, aumentando a humilhação e as necessidades por que já passavam os refugiados.

É surpreendente como Victoria Hislop consegue, em apenas duas obras, tornar-se a escritora que é. O Retorno é uma história de amor intenso, colocada num cenário de guerra, falando-nos das dificuldades extremas por que passaram todos, sem em nenhum momento se tornar piegas ou exagerada em suas cores. Quem escreve sabe como é difícil atingir-se a excelência narrativa com tão poucas obras.

Duas revelações agitam o enredo, quase ao seu final. Um leitor atento perceberá as poucas pistas deixadas de propósito no desenrolar do romance; todavia, somente quando se atingem os últimos capítulos é que o quebra-cabeça, montado com talento pela autora, aparece com clareza.

Victoria Hislop. O Retorno. Editora Intrínseca, Rio de Janeiro: RJ, 2010,403 páginas.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A experiência pelos livros

Pelo mundo todo, livros vendem, chegando às mãos das mais diversas pessoas. Afinal, por que lemos? O que nos motiva a passar horas à frente de páginas manchadas por textos, mesmo nessa sociedade de tons tão fortemente visuais, em que vivemos?

A revista Metáfora número 9 nos traz um artigo intitulado Como a leitura muda a vida. Nele, leitores famosos nos dão seus motivos de tal encantamento. Citam, às vezes, o livro que consideram tenha mudado sua vida, causado a mais viva impressão, a ponto de não mais conseguirem esquecê-lo.

Rogério Pereira, editor de jornal e diretor da Biblioteca Pública do Paraná, cita a leitura como proteção e afirma todos os livros lidos como importantes em sua vida: “os livros têm a capacidade de me fazer um tipo de companhia que jamais encontrei. E isso não tem nada a ver com alienação. Os livros são um espaço em que existo, duvido e me perco.” Para Neide Duarte, repórter da TV Globo, os livros a fazem compreender a largueza do mundo e ela nomeia Poesias Completas, de Fernando Pessoa e o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, comos os mais importantes.

Para Jonathan Frazen, uma das referências da FLIP, de Paraty, “todo livro é uma conexão” e  nos revela em depoimento a 1000 Books to change your life (1000 livros para mudar sua vida), ter sido O Processo, de Franz Kafka e Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe seus livros-referência. Eliane Catanhêde, colunista da Folha de São Paulo, nos dá seu preferido O Estrangeiro, de Camus, asseverando ter decidido ser jornalista pelas palavras de O jovem Swann, de Marcel Proust, que dizia conhecer o mundo pela pena dos autores e pela descrição de personagens.

“A leitura nos permite viver outras vidas, ou a vida como poderia ter sido e não foi. Um livro nos ajuda a construir identidade e, com ela uma vez consolidada, a buscar horizontes mais ousados”, no parecer de Valesca de Assis, escritora e coordenadora de oficinas de desbloqueio literário. São indicados por ela o Clarissa, de Érico Verissimo, A Náusea, de Sartre e O Estrangeiro, de Camus. Já Luciana Villas Boas, agente literária, é de parecer que “… a leitura nos revela o mistério da linguagem e, de forma prática, quase autoajuda mesmo, ensina a nos expressar de maneira precisa, elegante e original. Não “recorro” à ficção. Ela faz parte de minha vida. Gosto, dependo, de transporte a outros universos. Não cita um livro em especial.

A leitura como forma de superação das angústias é abordada por Miguel Sanches Neto, autor de livro e colunista da própria revista Metáfora. Afirma que, ao estar depressivo, tem de ler poetas, principalmente Fernando Pessoa. O escritor, roteirista e tradutor Geraldo Carneiro, nos diz, mais incisivamente, que a realidade é alucinação provocada por falta de poesia, e afirma: “quando termino de ler um livro de qualidade literária ou ensaística, eu me sinto como se tivesse tomado uma overdose de vitamina. O Castelo, de Franz Kafka é mencionando por ele.

Em consonância com o objetivo primordial desse blog (resenhar para os leitores os livros que leio), também desejo deixar meu depoimento. O prazer da leitura fundamenta-se, para mim, em um pouco do que cada um desses leitores famosos disseram; entretanto, adoro a ideia de que cada livro lido contribui para fazer uma mudança interna, contínua e silenciosa. Sempre fica algo do que leio, seja uma impressão estética, vibrante, ou uma ideia em que não havia pensado antes, uma situação interessante pela qual determinado personagem tenha passado. Em síntese, os livros lidos me dão a experiência do compartilhamento de vivências e conhecimentos. Livros-referência? Certamente os tenho; minha infância deve muito a Monteiro Lobato, com o seu Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Serões de Dona Benta, Os doze trabalhos de Hércules, etc. Tão importantes naquela etapa da minha vida, os contos de fada também têm meu reconhecimento. Na juventude, rendi tributos a Dostoiévski, com Humilhados e Ofendidos, vivi os sonhos de Noites Brancas e me maravilhei com Crime e Castigo. Além disso, um livro impactante foi Procurando Godot, de Samuel Beckett, um verdadeiro soco na boca do estômago. Entre os nacionais, não poderia me esquecer de Laços de Família, de Clarice Lispector, o já mencionado Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa e Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Livros são assim. Mais do que acalentar sonhos, nos ajudam a construir sonhos, viagens e realidades. Afinal, para nós, leitores por prazer, somos um pouco como o menino lembrado por Carlos Drummond de Andrade, lendo debaixo de uma árvore, a “história de Robinson Crusoé, comprida história que não termina mais”.

Artigo A Vida Transformada, de Terciane Alves e Luiz costa Pereira Jr, in Metáfora nº 9, junho/2012, páginas 44-49

terça-feira, 31 de julho de 2012

O Poder dos Quietos: o comum entre Ghandi e Einstein

Acabei de ler O Poder dos Quietos, de Susan Cain. É classificado, pela livraria onde o comprei, no gênero de auto-ajuda. Não sei bem por quê. Talvez pelo seu último capítulo, no qual Susan arrola uma série de conselhos para os introspectivos, inseridos numa cultura que privilegia os extrovertidos. Mas, no resto, parece-se com um estudo, solidamente baseado em obras relevantes e trocas de ideias com autores de peso.

Cain separa didaticamente os dois extremos da personalidade humana: de um lado, os extrovertidos, de outro, os introvertidos, embora reconheça que não há temperamentos puros. Conceitua os extrovertidos como aqueles que buscam os holofotes da mídia, são faladores, comunicativos em tempo integral, festeiros; têm pavor de ficarem sozinhos. Já os introvertidos são os outros, que não promovem a autoexposição, preferem o contato com poucos amigos, dão-se bem em trabalhar sozinhos e, se vão a uma festa barulhenta e cheia de risadas, costumam passar despercebidos, indo embora tão logo seja possível.

Esses dois extremos do temperamento humano sempre intrigaram psicólogos. Estudiosos, desde a Grécia antiga, tentaram desvendar esse mistério dos temperamentos humanos; o tipo introvertido sempre foi confundido com o tímido, embora recentemente se faça diferença entre eles. Resumindo, o tímido tem pavor de falar em público, por exemplo, enquanto o introvertido, se for necessário, fala em público, mas prefere não fazê-lo.

O Poder dos Quietos defende a ideia de que os introvertidos são normais, e que o  mundo tanto tem lugar para a extroversão quanto para a introversão. E Cain narra um fato esclarecedor: Rosa Parks era uma negra diligente e honesta. Trabalhou vários anos nos bastidores da Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor e chegou a receber treinamento  em resistência não violenta. Certo dia, ela foi colocada numa situação constrangedora, pois ao entrar num ônibus, o motorista James Blake a maltratou por ser negra e entrar pela porta da frente. “Saia do meu ônibus", berrou ele. Ela obedeceu-lhe, não sem antes deixar cair propositalmente sua bolsa e, para apanhá-la, sentou-se no lugar para os brancos. Os desdobramentos desse acontecido levaram a “quieta” Rosa Parks a participar de um amplo movimento em favor dos negros, tendo ela sido palestrante em um ciclo promovido por ninguém menos que Martin Luther King Jr.

Susan Cain nos esclarece a respeito de pesquisas feitas com crianças muito reativas e pouco reativas a estímulos externos. Enquanto os bebês pouco reativos se constituem em adultos extrovertidos, os que são muito reativos dão adultos introvertidos. Essa correlação caminha na direção da validação científica: nascemos com programação de temperamento.

Dessa forma, Albert Einstein, Barack Obama, Chopin, Steven Spielberg, J. K. Rowling, Bill Gates e Mahatma Ghandi têm algo em comum: são introvertidos de carteirinha. O subtítulo do livro é indicador: “Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”. A própria autora de O Poder dos Quietos se declara introspectiva.

Há grupos de pessoas que necessitam muito mais de um líder introspectivo do que de um extrospectivo. Se são trabalhadores de alguma atividade intelectual, criativa, o ideal é um líder quieto, a deixar a turma fazer seu trabalho e depois, discutir com eles em pé de igualdade. Um líder extrospectivo é necessário naqueles grupos em que há real necessidade de a liderança levá-los a dar o melhor de si.

Ainda, contra a ideia de os introvertidos serem antissociais, Cain nos esclarece que eles são também socialmente participantes, mas do jeito deles, isto é, socializam-se bem com pequenos grupos de pessoas por vez.

Escutei de uma participante de uma banca examinadora de dissertação de mestrado, que o candidato era um representante da força do caos; ela assegurava que existem os que tiram sua energia da ordem. Aqueles que recarregam suas baterias da “força do caos” são os extrovertidos. Os outros, alimentados pela força da ordem, são os introvertidos.

Gostei muito do livro por dois motivos: primeiro, por ser uma leitura esclarecedora de muitas questões psicossociais; segundo, por eu ser também um introvertido. O Poder dos Quietos iluminou vários ângulos obscuros do meu próprio temperamento e me explicou como eu, um “quieto” por natureza, consegue ser professor e falar em público.

Na resenha do Bartleby e Companhia, de Enrique Vila-Matas, afirmei ter aquele livro e esse vários pontos em comum. E como têm! Os bartlebys são, invariavelmente, introvertidos…

Susan Cain. O Poder dos Quietos. Editora Agir, Rio de Janeiro, RJ, 2012. 334 páginas. R$ 29,90

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Mundo de Bartleby ou A Arte do Nada

Bartleby e Companhia é um livro diferente. Antes de expor o porquê da diferença, tornam-se necessárias algumas explicações. O escritor americano Herman Melville, criador do clássico Moby Dick escreveu também um conto, Bartleby, o escrivão. Esse escrivão tem uma particularidade: quando lhe pedem para fazer algo, ele responde “prefiro não fazê-lo”. Dessa forma, ele se converte em apenas alguém que contempla o mundo, sem interagir com ele. Por extensão, a síndrome de Bartleby nomeia a desistência do escritor que não escreve. É um potencial a não se realizar, a arte do não.

O escritor espanhol Enrique Vila-Matas se apropria do personagem de Melville e inclui na síndrome todo aquele que podia ser, mas não é. O escritor cuja obra nunca vem a lume, e aqui vão surgindo autores de uma obra só, por motivos vários, homens brilhantes recolhidos a atividades não condizentes com seu brilhantismo. Desfilam Marcel Duchamp, Charles Baudelaire, Jerome David Salinger (autor de O apanhador no campo de centeio, 1951), etc. Há até o caso do escritor Paranoico Perez, que nunca escreveu um livro sequer, pois, quando se dispunha a fazê-lo, o escritor português José Saramago lhe “roubava” a ideia e invalidava seu trabalho.

Enrique Vila-Matas inventa alguns fatos e autores, mas a originalidade do livro se baseia na ausência de um texto principal, sendo construído todo por notas do autor a esse texto em potencial. Alguns trechos do livro:

Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: “Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu – sem que eu soubesse – em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser um poema.” (página 43)

“Na verdade, a doença, a síndrome de Bartleby, vem de longe. Hoje chega a ser um mal endêmico das literaturas contemporâneas essa pulsão negativa ou atração pelo nada que faz com que certos autores literários jamais cheguem, aparentemente, a sê-lo.” (página 23)

“Disponho-me, então, a passear pelo labirinto do Não, pelas trilhas da mais perturbadora e atraente tendência das literaturas contemporâneas: tendência em que se encontra o único caminho que permanece aberto à autêntica criação literária; que se pergunta o que é e onde está a escrita e que vagueia ao redor de sua impossibilidade e que diz a verdade sobre o estado, de prognóstico grave – mas sumamente estimulante – da literatura deste fim de milênio.” (página 11)

Por todo o seu livro, Vila-Matas trata os bartlebys com humor, ele mesmo sendo um bartleby, pois ficou muito tempo sem escrever. O nome próprio – Bartleby – transforma-se num adjetivo a caracterizar os autores do Nada. A obra Bartleby e Companhia recebeu o Prêmio Cidade de Barcelona, de 2001 e Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro, França, 2002.

De certa forma pode-se fazer uma ligação a outro livro que, oportunamente, estou lendo, O Poder dos Quietos, de Susan Cain: ela aborda os introvertidos e suas características e os bartlebys são, na verdade, todos introvertidos diante de suas muralhas intransponíveis, dos textos que poderiam ter sido e nunca o foram.

Entre os brasileiros, um portador da síndrome de que trata o livro de Vila-Matas é o nosso Raduan Nassar. Após ter produzido duas importantes obras, Um copo de cólera e Lavoura Arcaica, simplesmente deixou de escrever.

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona, em 1948; estreou na ficção em 1973 e tem publicados 28 livros em mais de vinte países. Tem prêmios na Espanha, França, Itália e América Latina. Em português foram publicados A viagem vertical (2004), esse Bartleby e Companhia (2004), O mal de Montano (2005), Paris não tem fim (2007), Suicídios exemplares (2009), Doutor Pasavento e Dublinesca.

Enrique Vila-Matas. Bartleby e companhia. Editora Cosacnaify, São Paulo: SP, 2004.188 páginas

terça-feira, 3 de julho de 2012

Primeiras impressões de Prometheus, de Ridley Scott

Contra vários depoimentos, lá fui eu assistir ao filme Prometheus, do diretor Ridley Scott. De sua filmografia constam clássicos como Blade Runner - Caçador de Andróides, Alien - O Oitavo Passageiro, Gladiador. Gostei muito dos dois primeiros e não gostei do último.

Prometeu é um titã da mitologia grega que rouba o fogo dos deuses e o entrega aos homens. A partir daí, a raça dos humanos progride sem parar. Agastado com o titã, Zeus lhe impõe um castigo digno das torturas gregas: acorrenta-o a um rochedo e, durante o dia, uma águia vem lhe devorar o fígado; durante a noite, porém, o órgão devorado se recompõe. Prometeu, então, é visto como o doador do conhecimento dos deuses ao homem.

Além disso, pode-se expandir a alegoria: Prometeu é a primeira  interferência “alienígena” na vida dos Homens, já que os deuses olímpicos e os humanos não são da mesma raça. Inevitável trazer a essas primeiras impressões duas outras referências. Primeiro, o livro Eram Os Deuses Astronautas, de Erich von Daniken, que apontou estranhas interferências de seres extraterrestres na história e cultura de civilizações humanas antigas. Segundo, o filme 2001 – Uma Odisséia No Espaço, de Stanley Kubrick, com questionamentos parecidos aos que faz Prometheus.  É, portanto, um título extremamente apropriado para o filme de Scott.

Prometheus trilha a  mesma linha de Alien – O Oitavo Passageiro, ao qual faz referências o tempo todo. Na verdade, funciona como uma pré-sequência, assim como foi feito com as duas trilogias do Guerra Nas Estrelas. Os eventos deste Prometheus têm lugar antes daqueles de Alien.

Antes de entrar propriamente em minhas impressões sobre o filme, desejo trazer outra consideração. Quando autores ou diretores pensam uma série, devem, necessariamente, dotar o enredo de ganchos; questões importantes devem ter respostas definitivas adiadas, para que se constitua a série. Não é fácil fazer isso, sem perder o controle da mão que manipula as tensões do suspense e da outra, que manipula o interesse do público leitor/espectador. Pela estrutura da narrativa, claramente Prometheus foi concebido para ter uma (ou mais) sequências.

A primeira reclamação é: Prometheus é um filme frouxo, não provoca frisson na plateia. É verdade. O problema, me parece, está nas muitas referências ao Alien; os corredores imensos, claustrofóbicos e labirínticos; aquele ambiente gótico, cheio de claro-escuros; a forma como o monstro parasiteia os humanos, já nos foram dados em Alien. Aviso: mesmo o Alien não tem foco em dar sustos; é antes, um “causador de estranhezas”.

Não concordo com a ideia de que questões como “o que somos”, “para onde vamos”, “o que fazemos aqui” sejam essencialmente religiosas, tocando somente o campo da fé subjetiva. São questões que transcendem o religioso, embora não deixem de pertencer às questões de religião. São filosóficas. O Homem tem necessidade de se entender.

Algumas condenações foram feitas à criação de alguns personagens. Meredith Vickers (a bela Charlize Theron) seria sem expressão. Observemos bem, sua natureza humana ou androide é posta em dúvida por um dos outros personagens.

Ridley parece gostar de mulheres fortes. Como Ripley (Sigorney Weaver), Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) nos dá a impressão de uma mulher frágil e chorosa, presa aos sentimentos do passado; transforma-se numa guerreira, lutando com todas as unhas pela sua sobrevivência.

David (Fassbender) é um robô que aspira a ser humano, como aquele outro androide famoso da série Jornada Na Estrelas – A Nova Geração, o Data. Em Prometheus há uma cena denunciadora: David assiste a cenas do filme Lawrence da Arábia, copiando o visual de Peter O’Toole.

O filme é visualmente deslumbrante, usando recursos da computação gráfica. São cenas grandiosas, em câmara aberta, o que vemos na tela. Entretanto, aquelas questões filosóficas fundamentais não são respondidas. Quando os personagens pensam ter encontrado respostas, essas lhes fogem, transferindo-se para um outro planeta: “eles não são doidos para fazerem essa experiência [da criação dos humanos] em seu próprio planeta”, num óbvio aviso de que haverá uma continuação.

Ainda é cedo para julgar um filme que, forçosamente, deverá gerar um descendente. Falta-nos a visão de conjunto. Agora, se a sequência não vier, aí sim, concordo: Prometheus terá sido um péssimo filme. Levanta questões importantes demais para não tentar respondê-las.

Ridley Scott. Prometheus. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Kate Dickie, Idris Elba.

sábado, 30 de junho de 2012

O Guardião de Livros: a história revisitada

O entusiasmo pelo livro começou ao vê-lo na vitrina de uma livraria de shopping. O que primeiro me atraiu foi a bela capa, com um ornamento antigo em primeiro plano e uma estante de livros ao fundo. Embaixo, uma tomada do porto do Rio de Janeiro.

Fiz uma pesquisa na internet para saber um pouco mais sobre a autora Cristina Kace Norton. Ela nasceu a 28/02/1948. Ela é argentina, da cidade de Buenos Aires, entretanto, reside há mais de trinta anos em Portugal, onde se naturalizou. Trabalha, desde 1998, em oficinas de escrita criativa.

Do ponto de vista estrutural, várias vozes narram a história, como o escravo Manuel (Manuel Luís Cabinda), um negro que desejava ser como o seu amo; Luís Joaquim dos Santos Marrocos, o  guardião de livros de que trata o título e dono do escravo Manuel; Ana, a parceira de Luís; a escrava muda Gracinda e um narrador em terceira pessoa.

Marrocos é mandado para o Brasil, juntamente com 76 caixotes, contendo o acervo da Real Biblioteca do Palácio da Ajuda. Tal carregamento fora esquecido na cais de Belém, pois toda a corte portuguesa viajara atabalhoadamente para o Brasil, fugindo do exército invasor de Napoleão Bonaparte. Como Luís Joaquim já trabalhava na biblioteca real como bibliotecário, cabe-lhe a obrigação de acompanhar a transferência das suas tão queridas obras.

Aqui chegando, o bibliotecário não gosta do que vê. O Rio de Janeiro é sujo, quente demais, tem escravos demais e a população lhe parece mal-educada e iletrada. Ele sofre muito, pois é hipocondríaco e as doenças no Rio de Janeiro são comuns, principalmente por causa das parcas condições higiênicas. Entretanto, Marrocos vai mudando sua maneira de ver o Brasil e sua gente, pois o “destino” lhe reserva algumas surpresas.

Instala a Biblioteca Real, cai nas graças da corte portuguesa, mora numa boa casa e ganha a companhia de uma mulher brasileira.

A autora teve a boa idéia de acrescentar alguns trechos de cartas de Marrocos a seu pai Francisco e à irmã Bernardina, contribuindo para a construção do personagem principal. Além disso, alguns  documentos históricos  transcritos, sob o nome “Crônicas da Corte” têm a função de conferir veracidade à narrativa e por isso mesmo, conseguem trazer os fatos narrados para mais perto de nós.

Vários acontecimentos vão recheando o enredo, bem conduzido pela autora:  a  escrava muda Gracinda revela um segredo guardado durante duzentos anos; um cientista judeu naufraga nas ilhas Malvinas, arrastando consigo dois livros raros; para apimentar a história, Marrocos descobre as delícias do sexo com uma carioca; por fim, um escravo apaixona-se por quem não deveria ser o objeto de seus sonhos.

Cristina Norton. O Guardião de Livros. Editora Casa da Palavra. Rio de Janeiro, RJ, 2011. 310 páginas.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O menino do pijama listrado

A família é composta por Bruno, de 9 anos de idade, o pai, a mãe, a irmã Gretel, de 12 anos. Vivem na Alemanha hitlerista, numa casa de cinco andares em Berlim. Trabalham na mansão da família o mordomo Lars e a governanta Maria. Bruno tem três melhores amigos: Karl, Daniel e Martin.

Essa aparente tranquilidade começa a ser perturbada quando o pai de Bruno é designado para uma tarefa de alta consideração; sendo comandante do exército de Hitler, é enviado para um local distante, cujo nome Bruno não consegue pronunciar perfeitamente. O campo de concentração de Auschwitz só lhe sai “Haja-Vista”. Também o Füher é transformado, na boca de Bruno, em o “Fúria”.

Inicialmente, o menino detesta a nova casa: só tem três andares, não há o corrimão pelo qual ele gostava de escorregar. Não há vizinhos nem outras crianças com quem possa brincar. Sobretudo, pensa Bruno, não existem coisas interessantes a explorar. Desta forma, só tem a irmã Gretel com quem interagir. Mas ela é um Caso Perdido. Implica com ele o tempo todo, se vangloriando de sua inteligência e “experiência” maiores; afinal, ela tem 12 anos e Bruno, apenas 9!

Toda a história é contada do ponto de vista do menino. Ele não entende direito o funcionamento do mundo dos adultos. Entretanto, é inquieto, indagador dentro de suas possibilidades. Gosta de ler histórias, sente falta da avó que lhe proporcionava atuar em peças escritas por ela mesma, encenadas na época do Natal. Ela sempre fazia roupas adequadas à personagem interpretada:

“Lembra-me das peças que ela costumava encenar comigo e com Gretel”, disse Bruno, tirando os olhos de Shmuel, enquanto recordava aqueles dias distantes, ainda em Berlim, parte das muito poucas memórias que se recusavam a se desvanecer. “Lembra-me de como ela sempre tinha a roupa certa para mim. Usando a roupa certa, você se sente como a pessoa que está fingindo ser, ela sempre me dizia.” (página 178)

Certo Sr. Lizt é contratado para dar aulas para Bruno e Gretel. Ele só lhes ensina História (da Alemanha, é claro) e Geografia. Diz que o resto não tem importância. Nessa vidinha de interior, sem ter nada para fazer, o menino se aproxima das pessoas simples da casa, como Maria e Pavel, um estranho homem, convocado a trabalhar como servente da cozinha e que demonstra conhecimentos médicos quando Bruno se machuca ao cair do balanço:

“O que vai acontecer comigo, então?”, perguntou Bruno, sentindo o pânico crescer dentro de si, uma emoção que poderia levá-lo às lágrimas. “É capaz de eu sangrar até a morte.”

“Pavel sorriu gentilmente e balançou a cabeça. “Você não vai sangrar até a morte”, disse o servente, puxando um banco e acomodando sobre ele a perna de Bruno. “Fique parado um instante. Há um estojo de primeiros socorros bem ali.” (página 74)

Da janela da casa Bruno vê um campo imenso, cercado de arame e decide que tem de ir lá explorar. Encontra Shmuel, um menino triste, que nasceu no mesmo dia e ano que ele: 15 de abril de 1934. Ambos têm, portanto, 9 anos. Shmuel mora do outro lado da cerca. A amizade entre os dois toma proporções cada vez mais profundas. Embora com uma carga de experiência amarga, a qual lhe proporciona uma melhor visão sobre sua própria condição, Shmuel é doce e desesperadamente necessitado de um amigo.

Mais tarde, Bruno descobre a palavra “judeu”: seu amigo Shmuel e todos os que vivem do lado de lá da cerca são judeus, assim como Pavel, o servente. O jovem não sabe exatamente o que a palavra significa, mas intui, aos poucos,  que algo de muito ruim acontece aos judeus. Eles sofrem as piores humilhações, são apartados do convívio com os alemães (os soldados germânicos são vistos por eles como uma constante ameaça e perigo de vida).

O livro pode ser entendido de algumas maneiras. É um libelo contra o holocausto e, nesse item, aproxima-se de O Diário de Anne Frank; é também a exaltação da amizade, que, sendo pura, pode extrapolar classes sociais díspares. Ainda, mostra alemães contrários ao projeto hitlerista, assumindo como podem suas posições contrárias ao regime dominante. A briga entre o comandante e sua mãe é exatamente por isso: ela não concorda com a atuação dele, principalmente, com a adesão do filho à ideologia hitlerista. A mãe de Bruno também se sente mal com as escolhas do marido, mas é fraca demais para contrariá-lo.

O texto é enxuto, liricamente construído em 186 páginas. Li, em alguns textos críticos, que John Boyne (autor de O menino do pijama listrado) perdeu a oportunidade de ser mais contundente na condenação do holocausto. Discordo completamente. O valor do livro como um libelo contra o nazismo, contra os horrores do holocausto, está exatamente na forma como o autor narra a história. Escolhendo o ponto de vista de Bruno, com sua candidez, ingenuidade, Boyne atinge a meta de seu projeto literário: o testemunho pela emoção. Como se nos dissesse: a sensibilidade é capaz de nos elevar, ou de nos levar a não cometermos erros monstruosos como os de Auschwitz.

John Boyne. O menino do pijama listrado. Tradução de Augusto Pacheco Calil. Cia das Letras, São Paulo, SP, 2007. 186 páginas.

domingo, 24 de junho de 2012

Uma coleção recomendável

Tinha prometido a mim mesmo que não compraria mais livros de coleções ofertadas em bancas de revistas. Afinal, as escolhas não são nossas, e isso pode gerar um volume de obras inertes na biblioteca particular. Tenho prazer em fazer minhas próprias opções literárias, normalmente, de livros que começo a ler tão logo os compro.

Essa coleção da Folha de São Paulo, de Literatura Ibero-americana, entretanto, mudou meu propósito. Pelo preço bastante acessível de R$ 16,90 compro livros importantes, com bom acabamento. A periodicidade é de um volume por semana, sempre aos domingos.

Talvez, por iniciativa própria, não teria acesso a tais livros e escritores. A seleção é muito bem feita; temos ali o Neruda, o Garcia Lorca, o Jorge Luís Borges,o Bioy Casares, o Mário Vargas Llosa. Além desses, mais: António Lobo Antunes, José Saramago, Milton Hatoum, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Raduan Nassar, Cabrera Infante, etc. Um seleção de peso. São vinte e cinco volumes, ao todo. É realmente uma oportunidade e tanto para se ter em casa obras representativas da literatura ibero-americana. Gostaria que a Folha considerasse a possibilidade de fazer algo semelhante com a literatura africana de expressão portuguesa.

domingo, 17 de junho de 2012

A elegância do ouriço: uma distopia

Nunca havia ouvido falar desse A elegância do ouriço e nem de sua autora marroquina, Muriel Barbery. Entretanto, a obra já vendeu mais de um milhão de exemplares ao redor do mundo, sendo, segundo nos informa a 4ª capa da obra, mais de 850 mil só na França.

Muriel Barbery nasceu no Marrocos, em 1969. Formou-se pela École Normale Supérieur, em Paris, e lecionou filosofia em Saint-Lô, na Normandia. A morte do gourmet, seu romance de estreia (2000), ganhou o prêmio de Melhor Livro  de Literatura Gourmande. Desde 2008 a autora vive em Kyoto, no Japão.

O livro A Elegância do ouriço já estava na fila das minhas leituras há algum tempo. Foi-me emprestado por uma colega, também professora. Muito bem, comecei a lê-lo. Como vários leitores, li até uma parte e a leitura travou.

Reconhecendo certos indícios promissores na obra, resolvi investir minha disciplina no projeto de leitura e continuei. Não gosto de deixar livros que começo a ler sem a devida finalização, quando por nada, pelo menos para ser honesto ao dizer “não gostei desse”. Ou, talvez por muito respeito à literatura, não sei. Mas o fato é que continuei a ler.

O restante foi puro prazer, tanto estético como intelectual, pois o livro é muito, muito bom mesmo. A elegância do ouriço é explicitamente filosófico, mas – pontos para a autora – coloca as considerações de maneira leve e atraente.

Todo o enredo se passa num prédio de apartamentos luxuosos à Rue de Grenelle, 7, no qual vivem pessoas ricas. Lá trabalha uma concierge, de nome Renée, mais conhecida como Sra. Michell. É viúva, e tem como companheiro de sua solidão um gato chamado Leon, em homenagem ao escritor russo Leon Tolstoi. Renée faz o possível e o impossível para se fazer passar por uma pessoa sem cultura, embora seja amante de literatura e possua uma profunda visão filosófica sobre o mundo e pessoas. Começou aí o meu estranhamento: uma simples zeladora ter predileções tão eruditas e mais, não querer se fazer valer delas.

Há também uma menina de 12 anos, Paloma, que faz anotações de seus pensamentos profundos e sobre o movimento do mundo. Ela havia prometido a si mesma que, se não conseguisse achar um sentido para a vida, se suicidaria no dia dos seus 13 anos e atearia fogo ao seu apartamento. Acontece que a pequena Paloma compartilha com Renée o olhar filosófico sobre seu redor. Esse foi o segundo estranhamento: uma menina de apenas doze anos e já preocupada com questões filosóficas e, ainda, sendo capaz de explicitá-las.

Como se estivessem colocadas por trás da cortina de luxo dos maneirismos dos moradores do prédio da Rue de Grenelle, as duas fazem releituras daquelas pessoas, vendo-as por trás de suas máscaras de convenção social. Esses relatos são, às vezes, sutis e bem-humorados; noutras, entretanto, prevalece a crítica ácida.

Um terceiro elemento entra na composição dessas personagens que têm uma visão distópica daquela aparente harmonia, sossegada convivência dos vizinhos: o Sr. Kakuro Ozu. Ele é um japonês que adquire um apartamento quando um dos moradores morre e o imóvel é posto à venda.

Sendo um elemento de fora, trazendo uma visão de uma cultura diferente, japonesa, embora ele se expresse bem em francês, ele forma com Renée e Paloma um trio dissonante. Como Renée, ama a literatura russa; como Paloma, tem gosto por questões filosóficas. Como as duas, não se enquadra no padrão intelectual e comportamental dos residentes do prédio.

Eis alguns trechos pinçados da obra:

“Mas para que serve a gramática?”, ele perguntou. “Você deveria saber”, respondeu a senhora-eu-sou-paga-para-ensinar-lhes. “Bem, não”, respondeu Achille com sinceridade, pelo menos dessa vez, “ninguém nunca se deu o trabalho de nos explicar isso. “A sra. Maigre deu um longo suspiro, do tipo “será que ainda tenho que aguentar perguntas estúpidas?”, e respondeu: “Serve para falar bem e escrever bem”.

Aí então, achei que ia ter uma ataque cardíaco. Nunca ouvi nada tão inepto. E com isso não quero dizer que é errado, quero dizer que é realmente inepto. Dizer a adolescentes que já sabem falar e escrever que a gramática serve para isso é como dizer a alguém que é preciso ler uma história dos banheiros através dos tempos para fazer xixi e cocô. É sem sentido!” (página 167)

“Pessoas inteligentes, há aos montes. Há muitos débeis, mas também muitos cérebros extraordinários. Vou dizer uma banalidade, mas a inteligência, em si, não tem nenhum valor e nenhum interesse. Gente muito inteligente dedicou a vida à questão do sexo dos anjos, por exemplo. Mas muitos homens inteligentes têm uma espécie de bug: consideram a inteligência como um fim. Têm uma única ideia na cabeça: ser inteligente, o que é muito estúpido.” (página 177)

“Para que serve a Arte? Para nos dar a breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos.” (página 218)

E por último, por que o nome do livro, A elegância do ouriço? Deixo o próprio texto se explicar:

“A sra. Michell tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.” (página 152)

A elegância do ouriço não é um livro fácil de se ler. Pede urgente(s) releitura(s) pela sua densidade de informações, pela sutileza na composição dos personagens e situações. Se você, leitor, começou a ler e parou em algum ponto do texto, insista e será premiado; se você ainda não leu, faça-o! Eu vou adquiri-lo, para mais releituras.

Muriel Barbery. A elegância do ouriço. Companhia das Letras. São Paulo, SP, 2011. 350 páginas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

História do Estádio Independência

É um projeto muito interessante o BH. A cidade de cada um. De acordo com a orientação desses trabalhos, um autor é convidado para escrever algo sobre várias localidades de Belo Horizonte. Tal colcha de retalhos acaba nos dando uma visão deliciosa sobre nossa cidade. Não há compromisso com a pesquisa histórica; vale, de acordo com o explicitamente exposto, a memória afetiva. Este volume 3, dedicado ao Estádio Independência, traz crônicas saborosas de Jairo Anatólio Lima.

Jairo foi locutor e cronista esportivo; transmitiu mais de três mil partidas de futebol e cobriu sete Copas do Mundo. Uma pessoa assim terá muito o que contar sobre o que viu e ouviu nesses anos todos, pelos campos do Brasil afora. E, certamente, está gabaritado para nos conduzir num passeio temporal pelo Estádio do Horto.

E coisas curiosas vão aparecendo: as impressões sobre a partida Inglaterra e Estados Unidos, pela Copa do Mundo de 1950 – a mesma vencida pelo Uruguai e que nos maltrata a memória de brasileiros, até hoje.

Ele nos conta, por exemplo, que o clima popular era francamente favorável aos Estados Unidos, por causa da empáfia do ingleses; estes recusaram-se a ficar em Belo Horizonte, indo diretamente para as dependências da Mina de Morro Velho, em Nova Lima, que era dos ingleses. Contra toda as expectativas da crônica especializada da época, ganharam os Estados Unidos, de 1 X 0.

Bola Na Madrugada nos fala de uma incrível partida de futebol, disputada no Independência às duas horas da manhã:

“Pouca gente sabe  da história de um incrível jogo de futebol realizado às duas horas da madrugada no Estádio Independência. Talvez tenha sido caso virgem  na história do futebol, não só no campo do Sete de Setembro. Pois houve este jogo. Mais precisamente na madrugada do dia 21 de maio de 1969. Estava o país vivendo todo o clima do movimento militar que eclodira cinco anos antes. Censura, caça aos chamados ‘terroristas’, ‘subversivos’ e outras classificações. Mas todos  sabem o que é o jornalista, o cronista, o homem de rádio, o homem de televisão, o homem de jornal. […]  Lá pelas tantas,  já com a cara mais cheia do que vazia, alguns dos frequentadores do [restaurante] Rosário, vindos do Mineirão, tiveram uma ideia genial. Que tal realizarmos um jogo esta madrugada? A proposta saiu, sabem de quem? Do então solteirão cobiçado Ronam Ramos de Oliveira, o repórter da camisa amarela.” (páginas 30-31)

As donas dos famosos “rendez-vous”, casas de prostituição, como a famosa Zezé, iam ao Independência, na mais discreta aparência, fazendo desfilar suas meninas para a apreciação masculina. A célebre prostituta Hilda Furacão também frequentava o Estádio. Ela era atleticana e acabou se casando com Paulo Valentim, ídolo do Galo. Há jogos memoráveis do Atlético, golaços, detalhes pitorescos dos galãs-jogadores e o assédio feminino que, gostosamente, sofriam. O folclórico técnico Yustrich, com fama de homem durão é lembrado. Raimundo Sampaio, presidente pétreo do time do Sete de Setembro, a quem pertencia o campo, não tinha dinheiro para cuidar do estádio do Horto como devia. Usava cabras para “aparar” a grama do campo.

Os textos são despretensiosos, e talvez, por isso mesmo, encontram o tom certo para o público. Leiam, se puderem!

Jairo Anatólio Lima. Estádio Independência. Editora Conceito, BH, 2ª Edição, 2007. 84 páginas

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O fotógrafo Cristovão Tezza

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mudando-se ainda criança para Curitiba. Escreveu Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra, Juliano Pavollini, O Filho Eterno (esse último recebeu os mais importantes prêmios literários brasileiros de 2008).

A trama de O Fotógrafo envolve cinco personagens; desses, quatro interagem. O personagem central, chamado de o fotógrafo, nunca é nomeado. É casado com Lídia, com quem tem uma filha, Alice. Depois de muito tempo, Lídia volta aos bancos da faculdade, para fazer mestrado e encontra Duarte, um professor por quem tem admiração.

O professor Duarte é casado com Mara, uma psicanalista (linha Freudiana) e seu casamento entrou naquela fase morna, mantido mais pelo costume e acomodação. Quando Lídia retorna à faculdade, Duarte e ela começam um caso.

Também acontece algo parecido entre o fotógrafo e Lídia. Estão num relacionamento que já acabou e nenhum dos dois toma iniciativa de conversar. Guardam para si mesmos seus problemas. Fazem opção pelo silêncio ressentido.

Íris é modelo mantida por um ricaço e mora em apartamento próprio. A relação dela com o ricaço é sem amor; o encaminhamento dela à psicanalista é para revelar-lhe seus fantasmas particulares. Curiosamente, Íris é a única que fala abertamente de seus dramas, pelo menos com sua terapeuta.

Toda a ação se passa em um único dia. Como pano de fundo, temos a disputa pela presidência do Brasil entre José Serra e Lula. Tal situação é abordada por uma ou outra referência feita por algum personagem.

O fotógrafo é contratado por um homem misterioso, para tirar fotos de Íris. Receberá 200 dólares por rolo de filme batido. Ele acaba se sentindo fortemente atraído por Íris e terá de decidir se continua a fotografá-la e ganhar o dinheiro ou abandonar o projeto e tentar ficar com a modelo.

Cristovão Tezza administra com segurança todo esse caos relacional. Quase não há diálogos entre os personagens, o que lhes enfatiza a solidão orientada por ressentimentos, que caracteriza o livro. O autor opta por verdadeiros solilóquios, isto é, todos “pensam alto” e esses solilóquios vêm misturados às intervenções do narrador, em discurso indireto livre.

O foco narrativo também se alterna, ora para primeira pessoa, ora para terceira pessoa; isso confere dinâmica à narrativa que, em nenhum momento se torna tediosa, monótona (risco que corre quem insiste em apresentar personagens falando para si próprios), além de criar um efeito de aproximação do leitor com o texto.

O fotógrafo vive, além da crise de relação com Lídia, outra crise de relação com seu emprego. Escuta sempre de seu patrão “que ele é o único fotógrafo mal-humorado que conheço”. O desemprego é uma ameaça permanente sobre sua cabeça, embora ele seja, como diz o texto, um profissional reconhecido pelo seu trabalho.

O personagem principal guarda um outro tipo de ressentimento: como ele é adepto das câmara analógicas, não vê com bons olhos o uso crescente das máquinas digitais em seu ambiente. E há coisas que detesta na sua profissão: por exemplo, o trabalho de fotografar um político ou, ainda, a fotografia de publicidade.

Alguns trechos do livro:

“— Você leu As ilusões perdidas? — ele perguntou, e era como se ele ganhasse tempo, recuperando o próprio terreno, a voz do professor. E antes que ela respondesse: — Leia. Antes de ver o filme, para não destruir a leitura — e ela riu. É a grande obra de Balzac.

— As ilusões perdidas — Lídia repetiu, contrita, mas o tom era de quem não ouve o que está dizendo.” (página 80)

“Viu seu próprio rosto atentamente — é melhor tomar banho agora antes que ele invente de se trancar nesse laboratório horrendo, sempre que ele se deprime ele se tranca ali, e ele vai ficar deprimido, ele já está deprimido — e aproximou-se mais de sua imagem. Um rosto cansado, ela avaliou. O que tão fortemente me levou a acreditar que o Duarte me ama? Cada gesto, ela pensou; ele sabe disso.Talvez ele aguarde uma declaração formal: eu estou apaixonada por você.” (página 191)

Apesar da pouca probabilidade das relações tão próximas entre os personagens — Duarte é casado com a psicanalista de Íris e tem um caso com a mulher do fotógrafo que se apaixona por Íris, lembrando uma quadrilha —, o romance é muito bem escrito, merece ser lido. Tezza é um escritor em plena maturidade, demonstrando mão segura na condução do enredo.

Cristovão Tezza. O Fotógrafo. Editora Record, São Paulo, 2ª ed., 2011. 285 páginas

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Fazendo sala para Danuza Leão

Já conhecia a Danuza Leão de uma ou outra coluna da Folha de São Paulo e a ligava a textos que falam sobre etiqueta, como recepcionar pessoas. Minha esposa comprou o livro mais recente, o É Tudo Tão Simples, recomendada por alguma colega. Como não deixo livro sem viagem, comecei a folheá-lo.

São bons textos, as crônicas são bem humoradas. Ela fala do mundo feminino, como não podia deixar de ser, mas não somente. Junta o seu olhar de socialite à sua experiência em escrever para nos dar textos deliciosos. Reflexivos, eles falam sobre a vida; Danuza se mostra disposta a não complicar a vida e o livro segue, seguro, por esse caminho. Também há conselhos para homens e mulheres, em questões de vestimenta, o que é ou não de bom tom, qual o melhor jeito de se comportar numa viagem.

Ainda, conselhos úteis para quem deseja se destralhar, a autora nos faz refletir sobre a desnecessidade de se manter prataria cara, ocupando lugar, se não se recebe mais como uma madame.

A situação econômica da colunista mudou; longe, entretanto, de tornar-se amarga ou revoltada contra tudo e contra todos, ela opta – sabiamente – pelo desapego. Alguns trechos:

“Mas a garotada ficou conservadora de novo. Alguns querem festa de 15 anos, e até casamento na igreja. Incrível como as coisas entram na moda, saem e depois voltam. E é incrível o prazer da garotada em enlouquecer os pais.” (página 55)

“Cuidado com os cotovelos: mãos sempre em cima da mesa, a não ser que você tenha um desejo urgente de fazer um carinho na perna de sua amada. Mas que seja rápido e discreto, ninguém precisa ver. E cuidado para que seja a perna dela, e não de outra (aliás, conheço vários romances que começaram assim).” (página 79)

“É mesmo difícil ter alguma noção diante da Mona Lisa, com quinhentas pessoas em volta, todas tirando uma fotinha com o celular. Mais prático comprar um cartão-postal na lojinha do museu. E tem aquela história de um conhecido banqueiro, fóbico. Ao ser perguntado “Mas o sr. não sente saudade de viajar?”. Ele  respondeu: “Meu filho, depois do advento do Google, isso tudo está superado”. Mas ouvi falar que os supervips podem marcar uma visita aos museus de Paris só para eles, às duas ou três da manhã, deve ser divino.” (página 112)

“Nada mais desagradável do que acordar ao lado de um desconhecido de quem não se sabe nem o nome: é sempre melhor acordar em sua própria cama, e sozinha, para não ter que conversar e oferecer um café, cruzes.” (quarta capa)

Enfim, uma leitura leve, com ótimas pitadas de humor, em textos que fluem magnificamente, formando um todo coeso e degustável. Tal é esse É Tudo Tão Simples.

Danuza Leão. É tudo tão simples. Agir Editora, Rio de Janeiro, 2011.192 páginas.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Clube do Livro dos Anos 80

 

Caro leitor, se você tem 30 anos ou mais, já gostava de leitura, deve se lembrar do Círculo do Livro. Refresquemos a memória: era um sistema de “clube do livro”, que entregava os volumes selecionados para associados. Havia uma revista, com resumo de todos as obras disponíveis e o sócio tinha por obrigação pedir pelo menos um livro a cada trimestre.

Os vendedores iam a nossa casa fazer a entrega e levar o novo catálogo. Lugares onde não existiam vendedores eram atendidos por correio. O Círculo do Livro foi uma editora brasileira, com parceria firmada entre o Grupo Abril e a editora alemã Bertelsmann e inicou suas atividades em 1973.

Em 1982, as vendas alcançaram cinco milhões de exemplares vendidos; em 1983, eram oitocentos mil sócios espalhados pelo território brasileiro. Entretanto, na mesma década de 80, acontecia, além do apogeu da empresa, sua falência.

Eu era um dos associados. Recebia meus pedidos com regularidade. Eram livros bem-acabados, com capa dura e páginas costuradas, a preços bastante competitivos. Lembro-me que havia muitos outros associados ao Círculo do Livro na empresa onde eu trabalhava.

Não me importa o motivo pelo qual as atividades da editora foram encerradas. Dizem uns, pela má administração; outros dão como causa a retirada da Bertelsmann do negócio. Sinto pelo término do projeto, pois acredito que ele realmente contibuiu para a formação e manutenção de leitores brasileiros; mas, é claro, uma empresa não pode ser mantida por romantismo e, às vezes, nem o idealismo, por mais nobre, pode preservá-la. Foi uma pena. É uma pena.