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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Faltam professores

Deu no jornal O Globo, de 31/01/2012, seção educação: faltam professores no mercado. Esta notícia constata aquilo que nós, professores da ativa, já sentíamos. O maior motivo é a desvalorização do profissional. Segundo o mesmo jornal, um professor tem como piso salarial o valor de R$ 1.187,14, o que representa algo em torno de 60%, em média, do que ganham profissionais de outras áreas, com a mesma formação. De acordo com os dados do Conselho Nacional de Educação, com base nos dados do IBGE, no Distrito Federal um educador ganha 3.472,00 enquanto outros profissionais com formação similar ganham 28% mais. Em Pernambuco, a diferença sobe para 48%.

Os cursos de áreas pedagógicas estão em queda: em 2005, o Brasil teve 103.626 concluintes desses cursos; em 2007, 79.196; em 2009, foram 52.842. O país tem como meta zerar o déficit de professores até 2020. Ao correr dos fatos, meta comprometida.

Pelo que observo, ainda há mais problemas não detectados pela referida matéria: os educadores não têm segurança para exercer sua profissão, sendo vítimas de toda sorte de ameaças e em muitos casos sofrem agressões físicas. Não há valorização e/ou investimentos na atualização profissional. Faltam planos de cargos e salários atrativos. Muitas escolas têm tido verbas reduzidas, falta material pedagógico, às vezes falta folha de papel. Hoje, esses profissionais não têm nem mesmo status social (não sejamos hipócritas, o reconhecimento do trabalho é sim, muito importante).

Com esse quadro, não é de surpreender haja tantos professores desistentes de suas carreiras entre aqueles que estão começando e, entre os que são mais antigos, a síndrome de “burnout” (lê-se bârn aut) é uma realidade triste. Essa síndrome caracteriza-se pelo desânimo por causa da inutilidade do esforço de preparar e dar aulas. Têm-se a impressão de tudo ser em vão e ninguém deseja ser um inútil.

Por outro lado, a proliferação danosa de cursos pedagógicos sem qualquer qualidade produz profissionais despreparados para sua função. Se o Ensino Superior vai mal, o que se pode esperar dos níveis básicos?

Ainda, para compor seu salário, o professor é obrigado a dar aulas em pelo menos duas escolas. Conheço professores que dão aulas pela manhã, à tarde e à noite. Como pode haver qualidade no que ensinam, se estão mortos de cansaço?

Há, igualmente, mestres que dão aula como “bicos”, pois trabalham em atividades mais rentosas. A realidade dentro das escolas particulares não é tão diferente. Já se tornou clássico o caso de o aluno desautorizar seu professor dentro de sala, sob a alegação (ameaça) de “meu pai paga o seu salário”.

É preciso, é urgente a valorização do trabalho do educador. Que ele seja submetido a avaliações, com cobranças justas, mas que se dê a ele condições de trabalho, que se o valorize não somente por meio de um salário adequado, mas também em incentivos à constante atualização. É preciso que o mestre possa ser disponibilizado para realizar cursos.

A Lei Federal 11.738/2008 garante aos professores tempo para correção de provas, preparação de aulas, elaboração de projetos e atendimento a alunos fora de sala de aula, sem prejuízo do seu (pouco) salário. Entretanto, há muitas escolas públicas em que isso não é observado, sofrendo os mestres coação ou constrangimento por parte da direção ou da Secretaria Municipal de Educação. Há que se fazer cumprir essa lei, primeiro porque é uma lei federal, segundo, por ser justa, pois se o educador planeja as aulas ou corrige provas em casa, esse tempo não é contabilizado.

Junto com estas providências, que se faça uma reforma no ensino, de alto a baixo, com a participação de quem vive a realidade dentro de sala de aula: o professor.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Em Algum Lugar do Paraíso

As impressões ao se ler Luís Fernando Verissimo já se tornaram um lugar comum: são de prazer. Não é diferente com este seu novo livro, “Em algum lugar do paraíso”. Ao longo de 41 textos curtos e bem escritos, há uns simplesmente hilariantes e outros que nos provocam aquele sorriso diante do humor fino e da inteligência das situações criadas pelo escritor.

Verissimo domina como ninguém o timing das piadas. Toda piada é construída sobre uma estrutura em que o autor nos leva sedutoramente por um raciocínio errado para, em algum momento, aplicar um “gatilho”, isto é, uma reviravolta na sequência de ideias por meio de uma expressão, uma palavra, e nos revelar que íamos pelo caminho equivocado.

Nesta obra, por exemplo, gostei muito da crônica que abre o livro e dá nome a ele. A descoberta do sexo realizada por ninguém menos que Adão nos mostra o personagem na mais cândida inocência e desconhecimento das reações do próprio corpo: ganha uma mulher, Eva, e se espanta com o crescimento do seu membro, “que ele pensara que fosse só para fazer xixi”. E avisa para Eva:

“- É melhor chegar para trás porque eu não sei até onde este negócio cresce.”

Há também o engraçado “O Olhar da truta”: um freguês de restaurante não consegue escolher a truta viva, ainda no aquário, que o desafia a fazê-lo. “Uma mulher fantástica” aborda a insegurança de uma mulher que deseja que o marido receba muito bem sua tia, em visita a sua casa. Ela se arrepende da visita da parente ao constatar que o marido a acha “fantástica demais”.

Talvez um pouco erudita, a crônica de fechamento do livro, “Entra Godot” só faz sentido se compreendida em sua intertextualidade assumida com a excelente peça teatral “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. A peça é um clássico do chamado Teatro do Absurdo, em que se aborda, por meio de um texto aparentemente sem pé nem cabeça, os absurdos da vida humana.

Enfim, “Em algum lugar do paraíso” é um legítimo Verissimo, se não o melhor dentre os nossos escritores contemporâneos, seguramente um dentre o seleto time dos melhores.

Consuma-o sem moderações. Faz muito bem à nossa saúde e nos ativa os humores.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O Ano da Leitura Mágica



Não entrei na livraria com a intenção deliberada de comprar este livro. Na verdade, nem havia ouvido falar dele; mas, fazia como sempre faço com as novidades expostas, examinava cada título, cada capa. O que primeiro me chamou a atenção, neste caso, não foi propriamente a capa. Foi o título: “O Ano da Leitura Mágica”. Folheei-o, pinçando aqui e ali alguns trechos. Decidi-me por comprá-lo e não me arrependi, a leitura me pegou logo de início.
O livro de Nina Sankovitch, publicado no Brasil pela editora LeYa,  não é literatura; é um livro de memórias envolvendo o ato mágico de ler, daí o título. Nina perde a irmã Anne-Marie e a terapia aplicada por ela no trato com a difícil ausência da irmã é ler. Entretanto, não ler simplesmente; ler um livro por dia, durante um ano, sem repetir livro ou autor. E ela nos dá acesso às suas memórias, falando-nos dos seus sentimentos e acontecimentos de cada dia, sempre relacionando-os com o conteúdo do que lia. “O Ano da Leitura Mágica” é um depoimento apaixonado sobre o poder fantástico da literatura de nos influenciar pensamentos e disposições, de nos conhecermos melhor, de conhecermos os outros melhor.
Extraí dois trechos entre os muitos interessantes anotados durante a leitura. Vamos lá:
  • “Cyril Connolly, escritor e crítico do século XX, escreveu que ‘as palavras têm vida e a literatura se torna uma fuga, não da vida, e sim para dentro da vida’. Era assim que eu queria usar os livros: como uma fuga de volta à vida. Eu queria mergulhar nos livros e voltar à tona unida novamente.” (página 25)
  • “O valor da experiência, real ou imaginada, está no fato de ela nos mostrar como viver – ou como não viver. Ao ler sobre diferentes personagens e as consequências de suas escolhas, eu estava me descobrindo transformada. Estava descobrindo maneiras novas e distintas de suportar as tristezas e alegrias da vida.”(página 135)
Nina Sankovitch propôs-se, além de ler um livro por dia, a publicar a resenha deles, para que outros também pudessem usufruir da leitura de bons livros. Essas resenhas estão publicadas no website ReadAllDay.org. Ele é a filha caçula de uma família de imigrantes, nasceu em Evanston, Illinois. Tornou-se também resenhista do jornal Huffington Post.
Àqueles que amam os livros, como eu, recomendo enfaticamente a leitura das memórias de Nina. Aprendi muito com elas e gosto de livros com que possa aprender alguma coisa. Ou quando nada, gosto daqueles que me convençam do entusiasmo das pessoas por suas leituras. O que não é pouco, e é quase a mesma coisa…

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Plano de Voo Literário

Em começo de ano, é comum fazermos listas, intermináveis listas sobre o que faremos durante o ano... Pois é, para este ano de 2012 também tenho listas. E faço questão de expor uma delas: a dos livros para serem lidos:

1) A Peste, de Albert Camus
2) Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier - Lido e resenhado
3) Leite Derramado, de Chico Buarque - Lido e resenhado
4) Zorro, de Isabel Allende - Lido e resenhado
5) A menina que roubava livros - Lido e resenhado
6) O Cemitério de Praga, de Umberto Eco
7) Marina, de Carlos Ruiz Zafón
8) Claraboia, de José Saramago
9) A Cidade das Feras, de Isabel Allende - Lido e resenhado
10) O Retorno, de Victoria Hislop - Lido e resenhado
11) O Ano da Leitura Mágica, de Nina Sankovitch - Lido e resenhado
12) O Poder dos Quietos, de Susan Cain - Lido e resenhado

13) O menino do pijama listrado, de John Boyne - Lido e resenhado

14) Em Algum Lugar do Paraíso, de Luis Fernando Verissimo - Lido e resenhado
15) A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón - Lido e resenhado

16) Estádio Independência, de Jairo Anatólio Lima - Lido e resenhado
17) A elegância do ouriço, de Muriel Barbery - Lido e resenhado
18) O guardião de livros, de Cristina Kace Norton - Lido e resenhado
19) O fotógrafo, de Cristovão Tezza - Lido e resenhado
20) Feliz por nada, de Martha Medeiros - Lido e resenhado
21) É tudo tão simples, de Danuza Leão - Lido e resenhado
22) Bartleby e Companhia, de Enrique Vila-Matas - Lido e resenhado
23) Um copo de cólera, de Raduan Nassar - Lido e resenhado
24) Vencendo o desafio de escrever um romance, de Ryoki Inoue - Lido e resenhado
25) A Última Semana, de J. P. Cuenca - Lido e resenhado
26) Acidente em Matacavallos e outros faits divers, de Mateus Kacowicz - Lido e resenhado
27) Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick - Lido e resenhado

Esta lista é mínima, e será atualizada durante o ano. Por exemplo, venho sentindo falta dos autores africanos de expressão portuguesa, como os moçambicanos, os angolanos... E aí, tome mais:

Alguma obra do Eduardo Agualusa, do Mia Couto, do Ondjak, do Pepetela...

Observação: retirei dessa lista os livros que são técnicos e que, acredito, não são do interesse da maioria dos leitores desse blog: Como narrar uma história e Como escrever diálogos, de Silvia Adela Kohan; Seis passeios pelos bosques da ficção, de Umberto Eco.