Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Acidente em Matacavallos

Uma lavadeira portuguesa, Maria Couceiro, morre atropelada, na Rua Matacavallos, por um bonde da Rio de Janeiro Electric Street Railway Company, companhia inglesa que operava no Rio. Tal fato era classificado, normalmente, na seção dos jornais chamada faits divers (fatos diversos, em francês). Assim era denominada a parte dos jornais a receber acontecimentos mais corriqueiros.

Mas o jornal mambembe de Diógenes Braga, a Folha da Capital, não pensava da mesma maneira e deu um lugar de destaque à notícia, iniciando uma verdadeira campanha contra a Electric. Mr. Gross, gerente da empresa no Brasil, manobrou para comprar o silêncio do jornal: Mr. Gross, em pessoa, avalizou o empréstimo bancário junto ao South American & Caribbean Bank (banco do mesmo grupo da Railway Company) para o financiamento de impressoras modernas e até de uma lynotipe para a Folha da Capital.

Yuli Woloshin, um judeu ucraniano emigrou para o Brasil, sendo recebido no Rio por seu irmão Mark. Em sua terra, tinha trabalhado como tipógrafo; em terras brasileiras, entretanto, iria ajudar seu irmão como “clienteltchik”, vendedor ambulante. Yuli ganhou o apelido de Juca e o que mais o caracterizava era uma disposição ímpar para aprender qualquer coisa. Aprendeu o português e seu sistema de escrita.

O Rio de Janeiro, então Distrito Federal, capital do país, ostentava maneirismos à francesa e uma política renhida e autoritária. Era o fim do governo de Epitácio Pessoa e o início do de Artur Bernardes. Decisões, conchavos, extorsões eram realizados nas casas de prostituição que pululavam no cenário carioca. Uma delas, a mais famosa, pertencente a Mme. Charlotte, tornou-se o palco de alguns acontecimentos. Frequentavam-na Diógenes Braga e o Ministro Palhares; era também onde trabalhava a cocote (prostituta) Ninon, por quem se apaixonou o Ministro.

O Ministro Palhares montou casa para a sua teúda e manteúda Ninon e  Braga ficou sabendo disso. A notícia foi parar no jornal e o Ministro caiu em desgraça. Toda a família Palhares sofreu os efeitos: Dona Herminia, a matriarca, Luisinho, filho mais velho, Silvio, o mais novo dos homens, uma outra filha e Felícia. E o Banco Couto & Irmão tinha suas finanças  e sua idoneidade abaladas, ao serem reveladas as constantes e altas retiradas do Ministro Palhares, para presentear e manter Ninon.

Conduzido com maestria por Mateus Kacowicz, o enredo deste romance prende a atenção do leitor. Uma excelente pesquisa sobre o Rio de Janeiro do início do século XX (por volta de 1922), seus costumes e usos foi realizada com esmero.

Saborosamente, há trechos escritos em português da época:

“Quasi dávamos á estampa a presente edição quando fomos informados de que mais uma familia foi enluctada por um bonde n’esta cidade. D’esta feita o infausto se deu a Matacavallos. A portugueza Maria Couceiro, lavadeira, cuja edade nos é desconhecida, foi colhida pelo carro-motor Nº 8, conduzido pelo nacional Clemente Euphrasio. O collectivo ia no trajecto que damanda de Paula Mattos ao Passeio e não reduziu sua furiosa marcha na descida da ladeira, vindo a colher a desditosa e provocar o infortunio.” (página 5)

Mateus Kacowicz é carioca, jornalista, e este Acidente em Matacavallos é seu primeiro romance. A ironia perpassa a obra:

“Intervenção notável foi a do Senador situacionista Ludgero Cordeiro da Purificação, conhecido por enlevar-se ao ouvir a própria voz e que, neste episódio, proferiu notável peça oratória a favor do cumprimento da lei, contra a utilização de subterfúgios e recursos subalternos, cuja única finalidade seria a tentativa de Diógenes Braga de elidir-se da citação policial.” (página 207)

Neste cenário político, em que prevaleciam os favores, os toma-lá-dá-cá, os tapinhas nas costas (como tudo isto nos soa atual, não?), Diógenes Braga era apenas um corrupto a mais, com a diferença de que ele era peixe pequeno entre os grandes:

“- Doutor Diógenes Braga, eu soube de uma seçãozinha(sic) de cinema que o doutor promoveu quase que especialmente para meu dileto amigo e compadre – frisou o compadre –, o Desembargador F. Sei que o doutor deixou o Desembargador – um crianção, de tão inocente – bem defronte ao doutor. Sei de tudo. O doutor fique avisado: se o doutor estiver arrumando alguma patranha para cima do meu amigo e compadre o Desembargador F, alguma treta, algum engenho, vou ser obrigado a mandar dar cabo do  doutor. E dependendo da maldade que o doutor tiver pensado não vou abrir mão deste prazer para ninguém, dou-lhe eu o tiro na cara.” (página 238)

A recomendação do livro é evidente: já o havia lido no início do ano passado; reli-o com o mesmo prazer, apesar de, desta feita, com a intenção principal de resenhá-lo.

Mateus Kacowicz. Acidente em Matacavallos e outros faits divers. Rio de Janeiro, RJ. Editora Record, 2010, 317 páginas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Última Semana

Há algum tempo venho tomando conhecimento de João Paulo Cuenca, um jovem escritor. Cuenca iniciou sua carreira literária por meio de seu blog, sendo que, ao mesmo tempo, começou a escrever seu primeiro romance, Corpo Presente. Tem participação em várias feiras e festivais, tendo sido convidado como palestrante na FLIP de Paraty, em 2003. Publicou várias crônicas de 2003 a 2010. A editora LeYa reuniu parte desses textos no livro A Última Madrugada, cuja leitura terminei ontem.

J. P. nos relata sua formação de leitor como sendo anárquica. Leu de tudo, e muito novo, viu filmes europeus. Ingmar Bergman foi citado num programa no qual Jô Soares entrevista nosso autor. Assistiu, também a filmes americanos, leu revistas em quadrinhos. “Isso me deu um colchão”, nos diz ele. Tornou-se leitor voraz por influência da mãe.

O autor viajou muito pelo mundo, conheceu vários países e isso se reflete, saborosamente, em seus textos. Neste livro, por exemplo, ele nos fala de sua experiência de uma noite no Hotel Cápsula, em Tóquio. Para quem não sabe, esse hotel não tem quartos, mas pequenas cápsulas, com o espaço suficiente para alguém se deitar e dormir. É quase a conta da cama, uma pequena televisão presa a um suporte de parede:

“Antes de dormir, exploro os corredores lúgubres e estranhamente iluminados do hotel cápsula. Uma cápsula é uma gaveta de fibra de vidro. Você dorme na gaveta, enquanto outros dormem na gaveta de baixo ou acima. Cada corredor tem umas trinta gavetas por parede, três fileiras de dez, uma sobre a outra. Aqui devem ter umas quinhentas pessoas.” (página 198, O encapsulado)

Alguns pontos de vista originais dão um sabor único aos textos:

“Um trem noturno é uma máquina de abandono. Pelas janelas, as paisagens transformam-se em alta velocidade: montanhas e pequenas cidades ficam para trás, como peças de roupa jogadas no chão. A cada zunir de postes, a cada dormente dos trilhos, o passado dos viajantes se desprende um pouco mais dos seus corpos – como casca de ferida.” (página 209, Um trem noturno)

Há lugar para o lirismo, como na página 215, da crônica O Olhar da dançarina:

“Abaixo das órbitas incendiárias daqueles olhos, alguém poderia dizer que sua saia é uma onda brava do mar de Alborán. Que seus pés são armas de repetição. Que suas mãos são plumas brancas soltas no ar. Que seus dedos de pianista são cápsulas de orquídeas desconhecidas pela biologia moderna… Pouco disso importa quando uma súbita explosão interrompe os passos suaves da bailarina e, com eles, toda poesia barata.

É que, num movimento ágil, ela pula sobre si mesma, batendo os dois pés no piso de madeira. O choque sobe pelas pernas da dançarina, há um estremecimento doce em cada ponto desse corpo. Num movimento ágil, ela gira o tronco com violência e bate as palmas das mãos. O choque vibra pelos braços da dançarina até chegar aos seus ombros que se contraem com breve ternura.”

Mas, o grande personagem é a cidade. Na verdade, as cidades. O cronista as observa com olhos sagazes, anotando seus humores, suas transformações, seus indícios de modernidade e de passado.

João Paulo Cuenca usa referências como Amy Winehouse, em Londres; um quadro de Hopper em Madri; o cantor e compositor João Gilberto, no Brasil; os concertos do Radiohead. Referências históricas também têm seu lugar. Cuenca tem um olhar sobre o moderno, o contemporâneo, sem deixar, entretanto, de levar em conta o passado, a história.

Um ótimo livro para se ler de uma sentada, em 233 páginas de textos fluentes e curtos, com um lirismo contido e observações agudas.

João Paulo Cuenca. A Última Madrugada, editora LeYa,São Paulo: SP, 2012, 233 páginas.