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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

As Realidades Adaptadas da Ficção Científica

A Ficção Científica é ainda tratada, por muitos críticos, como uma espécie de “lixo literário”, ou subgênero, no sentido pejorativo. Esta ideia se construiu, no passado, por uma quantidade muito grande de péssimas histórias em publicações baratas. Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador de Tarzan, incomodado com a baixa qualidade do que era feito na época, criou suas histórias envolvendo o planeta Marte. Idealizou o heroi John Carter, um americano abduzido pelos marcianos. Tais textos deram uma reviravolta de qualidade à chamada Ficção Científica.

De lá para cá, o gênero, aos poucos, foi se firmando. Em grande parte, devido ao trabalho de nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Anthony Burguess, Frank Herbert, Philip K. Dick e outros.

Isaac Asimov, russo naturalizado americano, nos deu a trilogia Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação e as histórias sobre robôs, como Os robôs do amanhecer. Ficou famoso pela grande ideia de criar um código que gerenciasse as atitudes destas máquinas. Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhes sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Estes autores deram sua contribuição imaginativa e qualitativa. Entretanto, nenhum obteve o mesmo resultado, no campo das adaptações para o cinema, como Philip K. Dick. Realidades Adaptadas é um livro de contos que deu origem a roteiros cinematográficos de qualidade. São sete, ao todo: Lembramos para você a preço de atacado (O Vingador do Futuro), Segunda Variedade (Screamers – Assassinos Cibernéticos), Impostor (Impostor), O relatório minoritário (Minority Report – A Nova Lei), O pagamento (O Pagamento), O homem dourado (O Vidente), Equipe de ajuste (Os Agentes do Destino).

As histórias de Philip K. Dick são construídas em torno de um olhar desconfiado sobre o mote a realidade não é exatamente aquilo que nos parece ser. Os contos de Realidades Adaptadas são perpassados por este olhar inquieto e inquisitivo; seus personagens humanos são surpreendidos pela realidade mutante. O futuro imediato nos é mostrado como uma miragem num deserto, adquirindo outros aspectos ou transformando-se mesmo em algo não observado antes à medida que caminhávamos para mais perto dele.

Histórias como Guerra nas Estrelas, em que personagens costumam ser princesas e príncipes, duques, barões, condes, são para mim, adaptações de contos de fadas a um tempo de naves espaciais e convivências (normalmente conflituosas) com seres alienígenas. Esta linha gerou boas narrativas e bons filmes, em que doses de magia são generosamente distribuídas.

Outra linha é proposta por séries como Jornada nas Estrelas, nas quais os acontecimentos se tornam possíveis se tivernos a tecnologia adequada. Os teletransportes da Jornada já foram motivo de zombaria nos meios científicos; atualmente, já se conseguiu o feito com algo minúsculo, como um fóton (o menor componente da luz). Parece ser apenas uma questão de desenvolver a tecnologia.

K. Dick filia-se a esta segunda linha, a da Ficção Científica hard core. Realidades Adaptadas é um livro de excelentes contos, com enredos altamente trabalhados, personagens convincentes. É para ser lido com cuidado: não confie naquilo que lhe parece confiável!

Ótimo livro. Aconselho… sem desconfianças!

Philip K. Dick. Realidades Adaptadas. Editora Aleph. São Paulo, SP: 2012.302 páginas

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Morre o escritor Autran Dourado

No dia 30/09/2012 morreu o escritor mineiro Waldomiro de Freitas Autran Dourado, mais conhecido por somente Autran Dourado, aos 86 anos de idade, de hemorragia estomacal. Ele já havia sido internado por quatro meses antes, para tratar de problemas respiratórios.

Autor de uma obra coerentemente construída, não foi exatamente um sucesso de público; entretanto, alguns de seus livros foram mais conhecidos, como Uma vida em segredo, Ópera dos mortos, O Risco do bordado, Os Sinos da Agonia. No total, foram 20 obras.

Ainda, era um escritor preocupado com a divulgação do seu fazer literário, o que o motivou a publicar Uma poética de romance (1973), Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976), Um artista aprendiz (2000) e Breve Manual de Estilo e Romance (2003).

O primeiro livro de sua autoria, lido por mim, foi exatamente o Sinos da Agonia. É de 1967 e o meu contato com o texto se deu por causa do vestibular. O que deveria ser apenas uma questão de atualização tornou-se um prazer. O livro é muito bom e cabe releitura; o tempo e o volume de leituras posteriores me fez perder detalhes. Li, também, o Uma vida em segredo, texto enxuto e aparentemente simples, contando-nos a história da personagem Biela .

Outros trabalhos: A Barca dos Homens, Solidão, Solitude, Novelas de Aprendizado, Novelário de Donga Novais, Um cavalheiro de Antigamente, A Serviço del-Rei, Confissões de Narciso, Ópera dos Fantoches, Monte da Alegria (seu último romance publicado), Armas & Corações, Lucas Procópio, Violetas e Caracóis, As Imaginações Pecaminosas. Em 2006, publicou um volume de histórias curtas, O Senhor das Horas.

Dourado foi secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek, experiência esta relatada no livro Gaiola Aberta, publicado em 2000. Nosso escritor ganhou vários prêmios, como o Goethe 1981), Jabuti (1982), Camões (2000), e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (2008).

Seus personagens são angustiados, o que fez a crítica identificar Lúcio Cardoso (outro fantástico e esquecido escritor) como uma de suas influências; outros, entretanto, apontam Graciliano Ramos, com seus personagens atormentados, como influência decisiva.

É na cidade fictícia de Duas Pontes que grande parte de suas criaturas se move e, em muitos livros, é sempre o mesmo narrador, João da Fonseca Ribeiro. Pode-se dizer que Autran Dourado era um escritor com um projeto literário definido, do qual nunca se afastou. Para ele, seus romances “tinham que ser cruéis, bater no centro da alma humana.”

Sua obra alcançou reconhecimento no exterior, sendo traduzida para vários idiomas. Essa universalidade, repetindo o caminho de vários escritores, vem do tratamento dado aos dramas localizados em Minas Gerais, mas concedendo amplitude ao que, na verdade, é o drama de todos nós, é o drama do viver. Dostoiévski fez isso ao retratar o homem médio russo, Guimarães Rosa trilhou por esta vereda ao tornar universal o drama do sertanejo. Lições não esquecidas.