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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A Cidade das Feras, de Isabel Allende

Isabel Allende nasceu em Lima, no Peru, em 1942, tendo ainda nacionalidade chilena. Aos dezesseis anos, começou a trabalhar como jornalista e depois como escritora. A Casa dos Espíritos, de 1982, foi sua obra inaugural, tendo se tornado uma referência em sua carreira literária. Escreveu, ainda, Eva Luna, O Plano Infinito, Zorro (já resenhado neste blog), De Amor e De Sombra, Paula, Afrodite, Inés de Minha Alma, Retrato em Sépia e, mais recentemente, Cadernos de Maya.

Quando se começa a ler este A Cidade das Feras, pensa-se que Isabel Allende escreveu um livro juvenil. Entretanto, após algumas páginas lidas, constata-se que tal suposição não é verdade, pelo menos inteiramente verdade; há no livro uma narrativa de cunho altamente poético e mesmo de engajamento ecológico. É uma história que envolve altas doses de aventura, mistério, intrigas, misticismo.

Alexander Cold é um adolescente de 15 anos e tem como irmãs Andrea e Nicole. A família Cold se completa com o pai, John, a mãe Lisa e a avó meio amalucada, Kate Cold. Kate não mora com o filho, tem 65 anos e vive metida em expedições, pois é escritora, contratada pela International Geographic.

Lisa Cold está muito doente, quase não se levanta da cama;  John tem de levá-la para o Texas, onde ela poderá receber tratamento condizente e, assim, as duas irmãs vão para a casa de Carla, mãe de Lisa e Alex parte sozinho para ficar com Kate, mãe de John, em Nova Iorque. Uma grande aventura o espera: a avó excêntrica está de partida para a Amazônia e leva-o com ela.

Como se pode esperar, serão muitas peripécias e perigos, na companhia do afetado e famoso antropólogo, professor Ludovic Leblanc, da médica de corpo escultural, doutora Omarya Torres, César Santos, dono de um pequeno avião caindo aos pedaços, mas que ainda voa e Nádia Santos, filha de César, de 12 anos. Completam a equipe o milionário Mauro Carías, os fotógrafos Joel González e Timothy Bruce, o capitão Ariosto e os índios Matwe e Karakawe.

De certa forma, há paralelos narrativos entre A Cidade das Feras, Zorro e Inés de Minha Alma – todas obras de Allende: forte presença da cultura indígena, o esforço da catequese católica que deseja converter os nativos. Outro ponto de contato entre Zorro e A Cidade das Feras são os ritos de passagem, de iniciação, em relação ao herois das histórias, que devem ascender da condição de adolescentes à de homens. Nos dois trabalhos também há a descoberta do animal totêmico, uma espécie de identificação da alma com um determinado animal que melhor a traduza.

Kate, os dois fotógrafos, o guia brasileiro César Santos e Alex formam a equipe da International Geographic, e têm como missão investigar o que há de verdade nos rumores sobre um ser gigantesco, chamado A Fera, algo assim como uma espécie de Abominável Homem das Selvas. Como Alex não conhece nada sobre viver na selva amazônica, desenvolve rapidamente amizade com Nádia Santos; a menina é autoridade, para ele, dentro daquele ambiente hostil. E Nádia ainda  conta com outra habilidade fundamental naquele lugar: ela fala a língua dos índios, é amiga de Walimai, um xamã.

A cena em que Alex encontra seu animal totêmico é carregada de mística e até mesmo de uma espécie de sensualidade natural:

“Como em um transe, Alex tinha se aproximado. Sentia-se fascinado pela visão do grande felino. Sua avó gritou-lhe uma advertência que ele não ouviu e avançou até tocar com ambas as mãos a tela de arame que o separava do animal. O jaguar parou, soltou um formidável grunhido e em seguida fixou seu olhar amarelado em Alex; estava imóvel, com os músculos tensos, a pele cor de azeviche faiscando. O rapaz tirou os óculos, que já usava por uns sete anos, e os deixou cair no chão. Estavam tão perto que pôde distinguir cada uma das pequeninas manchas douradas nas pupilas da fera, enquanto os olhos de ambos travavam um silencioso diálogo.

Tudo desapareceu. Viu-se sozinho diante do animal, em uma vasta planície de ouro, rodeado de altíssimas torres negras, sob um céu branco, no qual flutuavam seis luas transparentes como medusas. Viu o felino abrir as fauces, nas quais brilharam seus grandes dentes perolados, e com uma voz humana que parecia vir do fundo de uma caverna pronunciar seu nome: Alexander. E ele respondia com sua própria voz, que também soava cavernosa: Jaguar. O animal e o rapaz repetiram três vezes essas palavras, Alexander, Jaguar, Alexander, Jaguar, Alexander, Jaguar, e então a areia da planície tornou-se fosforescente, o céu ficou negro e as seis luas  começaram a girar em suas órbitas e a deslocar-se como se fossem lentos cometas.” (páginas 74/75) 

Temos aí, caro leitor, alguns elementos que, de modo claro, constroem um ambiente místico, mágico, de iniciação. A importância de se enunciarem os nomes, a repetição deles, o estranhamento causado pela constatação de seis luas, uma planície fosforescente. Há, inclusive,  a caracterização de um tempo que flui diferentemente do nosso, pois o movimento das luas é lentamente circular, como num estado alterado de consciência. Ritual que atrela definitivamente Alexander a seu totêmico Jaguar.

Há uma conspiração secreta que visa explorar de modo desonesto as riquezas naturais da grande floresta; homens inescrupulosos, porém, deverão entrar em combate com as forças conservadoras da mãe natureza, representadas pelos índios e pelo xamã Walimai.

Mas o ritual de passagem, de menino a homem (guerreiro) se dá no meio do estranho povo da neblina, que aceita tanto Alex quanto Nádia não como nahab, isto é, forasteiros, mas como seres portadores de missões junto a essa comunidade. As mulheres não precisam passar pelos ritos de passagem porque, explica Nádia a Alex, elas menstruam e com isso marcam claramente a transformação de meninas em mulheres. Mesmo assim, a amiga de Alex terá sua iniciação nos mistérios da tribo, pois ela também deverá provar ser merecedora da absoluta confiança do povo da neblina.

Editado pela Bertrand Brasil, este A Cidade das Feras faz parte de uma trilogia que se desdobra em O Reino do Dragão de Ouro e A Floresta dos Pigmeus – todos em catálogo. E para aqueles que gostam de história de aventura, esse primeiro livro será adaptado para o cinema, na esteira do sucesso de outras obras igualmente vertidas para a linguagem das telonas, O Senhor dos Aneis e Crônicas de Nárnia.

Tenham uma boa leitura!

domingo, 10 de novembro de 2013

O Fio, de Victoria Hislop

Terceiro livro da autora que tenho oportunidade de ler, esse O Fio, como os anteriores A Ilha e O Retorno constitui-se em uma leitura prazerosa e proveitosa. Victoria é inglesa de nascimento e esse é seu terceiro trabalho literário. Já resenhei dela, aqui, neste blog, O Retorno.

Os enredos de seus três romances passam-se em meio a cenários de guerra, conferindo aos seus temas um ambiente apropriado para serem desenvolvidos – é em meio a conflitos que seus personagens são postos à prova nos quesitos de persecução de seus objetivos, na construção de suas identidades e – sobretudo –, na construção de laços entre si em meio às maiores adversidades. Exatamente em ambientes propícios aos horrores e à desagregação interior dos seres humanos, seus personagens têm de arregimentar forças onde há poucas probabilidades de elas existirem; para tais feitos, enormes doses de coragem e abnegação individuais e anônimas em meio a devastações interiores são requeridas. Proposta literária que nos fala, a nós, seres feitos de pequenos grandes atos igualmente anônimos, muito de perto, daí nossa identificação quase imediata com algum dos personagens criados por Hislop. Essa empatia, mas não apenas ela, é o móvel responsável pelo sucesso dos livros da autora.

O Fio não é diferente. Trata das adversidades e das lutas para vencê-las de pessoas localizadas na cidade grega de Tessalônica.

Inicialmente, explode a guerra da Grécia contra a Turquia e os turcos obrigam os gregos, entre os quais Zenia Sarafoglou e Katerina – mãe e filha – a evadirem-se da cidade de Esmirna, a terceira maior cidade da Turquia, a sudoeste, junto ao Mar Egeu. A pequena Katerina fica para trás, sendo salva por um soldado grego e embarcada para destino desconhecido. No barco, fica sob a proteção de Kyria Eugenia Karayanidis e na companhia das duas filhas gêmeas desta, Maria e Sofia. Vão para o campo de refugiados de Mitilene, onde as dificuldades normais nessas ocasiões estreitam fortemente os laços entre as três e Katerina. Zenia, por seu lado, segue para Atenas, a aproximadamente 250 quilômetros de Mitilene.

Chega, entretanto, o dia da troca de prisioneiros turcos por gregos e o grupo é retirado de Mitilene para Tessalônica, a segunda cidade mais importante da Grécia. Obtêm, então, uma pequena casa para morar na Rua Irini. Naquele lugar, conhecem a família judia dos Moreno, com quem firmarão uma amizade intensa. Ainda, como vizinhos, são apresentados à Kyria Olga Komninos e o filho, Dimitri.

Olga é mulher de Kyrios Konstantinos Komninos, o maior distribuidor de tecidos de Tessalônica. Recentemente, um incêndio de proporções enormes, originado por uma simples fagulha sobre um colchão de feno, destruíra grande parte da cidade, quase todo o estoque de tecidos de Konstantinos. Olga se mudara de sua mansão semi-destruída, com Dimitri, para uma casa da rua Irini.

Eugenia é tecelã de tapetes e logo ela percebe na pequena Katerina uma habilidade incomum com bordados e costura. Como os Moreno possuem a melhor alfaiataria da cidade, empregam a menina, que se inicia nas artes da alta costura pela orientação segura de Kyria Moreno.

A situação em Tessalônica evolui com algumas dificuldades, oriundas da presença de judeus, os quais são mal suportados pelos gregos. Kyrios Komninos rapidamente se enriquece mais. Dimitri, embora não tendo o amor do pai, é incitado a ser bom aluno para que, no futuro, os planos paternos para ele se concretizem, no sentido de o filho tornar-se um advogado e trabalhar para seu negócio. Mas Dimitri tem outros planos para si e deseja formar-se médico. Além do mais, a observação da pobreza extrema de vários habitantes e as novas ideias mais libertárias dos professores da faculdade de medicina acabam por posicioná-lo contra as autoridades gregas, para desgosto e ódio do pai, francamente um direitista.

Explode a Segunda Guerra Mundial. A Grécia não demora a ser invadida pelos alemães e os ricos de Tessalônica alinham-se, por interesse, à direita. Logo, quando os germanos tomam a cidade, aqueles se unem a esses, num jogo em que o uso da delação é frequente. O ELAS – Exército Nacional de Libertação Popular, de cunho comunista, transforma-se em força de oposição aos alemães, não obstante não contarem com a simpatia da população, que os vê como causadores da perseguição alemã contra os gregos. Dimitri torna-se um combatente nas fileiras do ELAS.

Olga Komninos não ama o marido, servindo a ele e à sua distribuidora de tecidos (mais tarde ele adquire uma produção de seda) como uma vitrine para a qualidade dos tecidos do marido e tendo um amor secreto.

A guerra termina finalmente, mas não acaba a animosidade dos gregos contra os judeus e comunistas. O governo assina uma anistia a favor dos resistentes, desde que eles assinem um mea culpa,  renegando as ideias de esquerda, mas, na prática, nada muda. Dimitri havia sido encarcerado numa ilha e, apesar da muita recusa, termina por assinar a renúncia ao comunismo. Os gregos são surpreendidos, mais uma vez, por um conflito, desta vez interno: a guerra civil.

Quando tudo parece caminhar para a normalidade, outra tragédia: Tessalônica é palco de um terremoto que destrói uma grande área urbana. Mais uma vez as pessoas são convocadas a se superarem e a reencetar suas vidas, aceitando do melhor modo possível suas perdas, tanto econômicas quanto familiares e de amigos.

Um romance poderoso. Apoiada por uma intensa pesquisa histórica, Victoria Hislop faz uma obra, no parecer do respeitado The Guardian, “uma narrativa de ritmo acelerado e extremamente convincente.” São 365 páginas de uma escrita fluente, de tons poéticos, que me envolveu completamente (li o livro em dois dias e meio), com trechos como:

“Por um momento percebeu seus sentidos despertarem para todos os ingredientes casuais e considerados naturais da vida normal: o chiar do vapor, o cheiro de um cigarro, o rangido e o espocar de uma rolha ao ser extraída de uma garrafa de conhaque, o arrastar de uma cadeira no chão ladrilhado. Todos esses elementos quase esquecidos se misturavam. Ele fechou os olhos, a momentânea conexão com o passado lhe dando esperança para o futuro.” (página 279)

Até mesmo a submissão das mulheres aos seus maridos  ganha força de determinação no texto da autora.  Trágica aceitação do inevitável, do já-estabelecido cultural, ainda no silêncio a que se condenam perpassa a dignidade da indignação contra o que consideram errado, desumano.

Sem sombra de dúvida, é um livro para ser recomendado. Recomendo-o, então.

Victoria Hislop. O Fio. s/ed. Gávea, RJ: Intrínseca, 2011.

sábado, 12 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Viver Não Dói, de Leila Ferreira

Leila Ferreira é formada em Letras e Jornalismo, mestre em Comunicação pela Universidade de Londres. Atuou como repórter da Rede Globo Minas, tendo, durante 10 anos, apresentado o programa Leila Entrevista, pela Rede Minas e TV Alterosa. É autora de duas publicações anteriores: Mulheres: por que será que elas…? e A Arte de Ser Leve, ambas publicadas pela Globo Livros.

 

Gosto muito do gênero textual crônicas. Leila tem um estilo gostoso, de conversa com seus interlocutores. Os textos de Viver Não Dói são distribuídos ao longo de 275 páginas, agrupados em subtítulos: Felicidade: menos, por favor; Amor, sexo e sedução; Admirável mundo novo; No meio do caminho tinha uma serra; Vasto mundo; O tal do envelhecer; Mães e filhas; Faits divers (ou trivial variado) e Resumo da ópera.

Crônicas são textos habitualmente leves, sobre coisas, eventos, fatos do dia a dia. Como exerci o papel de turista recentemente, entendo muito bem o que ela diz na crônica Turista sofre (e não conta); está nas páginas 148:

“A começar pelos guias ou, sejamos justos, por alguns deles. Imagine conhecer a Capadócia, na Turquia, com uma guia que não fecha a boca – uma turca que, apesar de havermos dito a ela que falávamos inglês (idioma que ela dominava), insistia em se expressar num espanhol com sotaque carregadíssimo. Mas o problema nem era o sotaque: era que ela insistia em falar, ponto final. As palavras jorravam e, como nosso grupo consistia de duas pessoas apenas – meu companheiro e eu –, não havia com quem dividir a avalanche. Verbos, sustantivos, adjetivos e preposições se sucediam com a velocidade da luz, e nós, atordoados, íamos nos convencendo de que no mundo de hoje há formas de sofrimento que se aproximam muito daquelas vividas pelos cristãos perseguidos pelos romanos que se refugiavam nas catacumbas.”

Na página 65, por exemplo, começa a crônica Um cochilo na sex shop. Ela e o companheiro, em uma sex shop, resolvem parecer “normais” e como um número grande de clientes da loja, optam por participar de um curso sobre o tema Técnicas para aumentar o prazer sexual. Ministrado, segundo Leila, por duas americanas desenvoltas e desinibidas, vestidas com figurinos o menos sexy possível: tênis, jeans largos e camisetas idem, com o entusiasmo de duas cheerleaders. Eis a parte explícita a que se refere o título do texto (páginas 67):

“Minha vontade de rir, incontrolável no começo, aos poucos foi cedendo. No seu lugar, veio o sono. Um sono implacável que, a cada movimento de penetração simulada (a repetição entorpece), ia ficando mais intenso. Tentei me distrair. Comi um chocolate que estava na bolsa, fiz uma lista dos presentes que iria comprar para a minha família (certamente, nenhum ali), pensei em coisas alegres e tristes, prendi a respiração várias vezes e nada de passar o sono. A última imagem que meu consciente registrou foi das duas professoras de quatro pela vigésima vez, com sex-appeal comparável ao de dois caranguejos atracados num manguezal. Acordei minutos depois com meu companheiro me cutucando e dizendo “Acorda! Acorda! Tá todo mundo  olhando!”

O livro traz uma coletânea de frases de todas as crônicas, na sudivisão Resumo da ópera , frases-achado, tanto dela quanto de autores citados nas crônicas, pinçadas aqui e ali, como por exemplo, “Flertar era preservar distâncias estratégicas, enquanto se firmava em silêncio um contrato de cumplicidade. Areias movediças, ambivalências, a sedução no fio da navalha.” Ou, então, “A sensação é que arrancaram as cortinas do mundo, e as janelas estão todas abertas, as portas, escancaradas. Tudo se diz, tudo se mostra, tudo se explicita. Não há mais bastidores, não há mais avessos, não há mais intimidade.”

Espero ter dado ao leitor deste blog um gostinho do que o está aguardando nesse Viver Não Dói. Livro bom de se ter à mão, um antíodoto para a mesmice e chatice que, tantas vezes, assola nosso mundo.

Leila Ferreira. Viver Não Dói. 1ª Edição, Editora Globo: São Paulo, SP. 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Cavalo de Troia 2 – Massada

Meu projeto de leitura está bastante atrasado: estava inicialmente programado ler a série de 9 livros até o final desse ano de 2013. Vários acontecimentos, no entanto, impediram a proposta inicial.

Mas vamos ao volume 2, Massada. Benítez dedica uma boa parte das primeiras duzentas e dez páginas à contextualização política antes do lançamento do “berço” em sua segunda incursão aos tempos de Jesus Cristo. Escutei, de algumas pessoas que leram esse segundo volume, que “a narrativa cai de nível” e atribuo essa sensação ao possível menor interesse dessas pessoas pelas injunções político-militares arroladas pelo autor. Não obstante, essa contextualização está profundamente coerente com a proposta da obra. É compreensível, entretanto, que certos leitores sejam mais ansiosos em relação aos relatos da trajetória de Cristo do que em se deter em explicações adicionais.

Jasão e Eliseu concluíram, como se sabe, sua missão com sucesso, apesar de um pequeno incidente: Jasão não consegue evitar a perda do sofisticado microfone, escondido no lustre da sala onde acontecera o evento da Santa Ceia. Essa falta, de início, é o que vai motivar o retorno dos astronautas do tempo à nova empreitada, pois a ordem clara tinha sido não deixar vestígios que pudessem interferir com o passado, sob pena de o presente e até o futuro serem igualmente afetados.

A situação em Israel é insegura; há risco de terrorismo por parte de guerrilheiros palestinos. O laboratório de rastreamento e processamento de fotografias por satélite, usado para encobrir o projeto Cavalo de Troia, é transferido, à noite, para Massada. Esta é a ruína de uma cidade no alto de uma meseta, de acesso quase intrasponível, de onde, no ano 66 de nossa era, os judeus voltaram a opor resistência ao domínio dos romanos. Tal evento é registrado pela Bíblia. Quando os romanos, finalmente, conseguiram atingir a cidade, encontraram quase que somente cadáveres: os resistentes, num pacto sangrento, tinham se matado.

Há uma guerra iminente a ser desencadeada sobre o Estado de Israel; estão em cena Henry Kissinger, pelos Estados Unidos; o General Moshe Dayan, o governo de Golda Meir. O ambiente político local era um tanto inconsistente, como de resto o é até os dias atuais.

Numa noite, Jasão e Eliseu vão em busca do General Curtiss, responsável pela Operação Cavalo de Troia, em Massada. O militar mostra sua outra face, ao emocionar-se com os relatos de Jasão sobre Cristo e seus atos. O Major (codinome Jasão) dá a conhecer o relato do que se passou na Última Ceia, com o som captado pelo microfone e gravado na nave. Jasão faz muitas reflexões sobre várias discrepâncias entre o que nos contam os evangelistas em seus evangelhos e o que efetivamente foi captado ao vivo. Jasão consegue, enfim, reaver o microfone (houve um terremoto, o lustre ficou avariado e foi mandado a uma oficina, para conserto. Lá, o major consegue examinar a peça e aproveita para pegar o aparelho).

Na página 170, vamos encontrar as seguintes palavras de Jesus:

“Quando tiver voltado a vós em espírito poderei guiar-vos melhor através desta vida e das muitas moradas da vida futura, no céu dos céus. A vida da eterna criação do Pai não é um repouso, uma ociosidade sem-fim…”

Não sei ainda por que o fiz. O fato é que interrompi a fita e a rebobinei parcialmente. Curtiss e Eliseu olharam-me surpresos. Mas nada perguntaram.

“- … através desta vida” – voltamos a ouvir a voz de Jesus – “e das muitas moradas da vida futura, no céu dos céus. A vida na eterna criação não é um repouso, uma ociosidade sem-fim, ou uma egoística comodidade, senão uma incessante progressão em graça, verdade e glória. Cada uma das inúmeras moradas da casa de meu Pai é um lugar de passagem, uma vida projetada para servir-nos de preparação para a seguinte. E assim os Filhos da Luz seguirão de glória em glória até alcançar o estado divino, no qual serão espiritualmente perfeitos, tal qual o Pai é perfeito em todas as coisas.”

- Deus meu! – exclamei sem poder conter-me. – Vocês ouviram o mesmo que eu? É a promessa mais clara e categórica não de uma e sim de muitas “vidas”, em contínua e progressiva perfeição!… Mas que poderão ser essas moradas?

Outra passagem interessante, nas páginas 188:

“Por último – já que a análise da “útima ceia” nos levaria longe demais –, por que os textos evangélicos não dizem uma só palavra sobre a chefia de André, o irmão de Simão Pedro? Por que não dedicam mais espaço às belas e esperançosas revelações de Jesus sobre “seu Universo” e o “Universo dos Universos do Pai”, ou ainda sobre as “moradas” ou “lugares de passagem” no mais além? Será que o Universo do Filho do Homem é um e o de seu Pai outro?”

Jasão nos relata várias aparições do Cristo, após seu corpo ter sumido do santo sepulcro. Na maioria desses eventos, o Major não os constata visualmente, mas de cada um deles tem notícia, pois os seguidores do Filho do Homem chegam relatando que O viram. Até que, finalmente, nas páginas 368, Jasão pode constatar o acontecimento pessoalmente:

“- A paz seja convosco!

Era ele! Seu timbre de voz… Mas sua figura… por que não pude reconhecê-la?

- Por que estais tão assustados, como se se tratasse de um espírito?

Os comentários que agora acompanham a narração deste fato foram, logicamente,  fruto de minhas reflexões posteriores. Naquele momento não pensava, não respirava, apenas via e sentia. O caso é que as primeiras palavras da “visão” – como poderia defini-la melhor?, – não tinham muito sentido. Era lógico que qualquer ser humano sentisse não medo, mas terror!

- Não vos disse que os principais sacerdotes e dirigentes me entregariam à morte, que um de vós me trairia e que ressussitaria ao terceiro dia?

Jesus de Nazaré – porque tinha de ser Ele –  foi baixando os braços devagar.”

J. J. Benitez cria um efeito de verdade ao instaurar o major como relator da história. É um homem maduro, treinado militarmente para situações as mais diversas e adversas. Além do mais, as notas de pé de página, normalmente com complexas explicações científicas, históricas e bíblicas dão um tom de verossimilhança à história contada.

Neste segundo volume da série, um terrível acontecimento será explicado. A manipulação dos swivels – trata-se de uma unidade elementar generalizada no cosmo – não será sem uma reação devastadora. “Em essência (escrevia o major), esse ‘sistema básico’ que havia impulsionado a operação consistia na descoberta de uma entidade elementar – generalizada no cosmo – na qual a ciência não havia reparado até esse momento e que resultara, e resultaria no futuro, na ‘pedra angular’ para uma melhor compreensão da formação da matéria e do próprio Universo. Tal entidade elementar – que foi batizada de swivel – evidenciou que todos os esforços da ciência para detectar e classificar novas partículas subatômicas nada mais eram do que estéril miragem.” É a manipulação desses swivels, voltando seus eixos em determinada orientação, que possibilita o recuo no tempo e, em última análise, a operação Cavalo de Troia.

O segundo volume termina com um enigma a ser decifrado e promessa de novos acontecimentos. Que surpresas nos aguardarão no terceiro volume?

J. J. Benítez. Cavalo de Troia 2 – Massada. Editora Planeta, São Paulo, SP, 2008.480n páginas.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Notas de Viagem 7: Florença à Vista

Deixamos o circuito Milão-Verona-Pádua-Veneza, por ônibus, em demanda de Florença, ou Firenze, como a chamam os italianos. A paisagem variava bastante, mas sempre bonita; às vezes, campos cultivados a perder de vista; às vezes, matas com grandes árvores. Eu ia repassando mentalmente o que vira naqueles últimos dias.

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imageVerona e Pádua (Padova) são cidades pequenas, mas em todas elas, há o que se ver, em termos de monumentos e pura história. Verona foi grande o bastante para eu me perder  do grupo da excursão. Mantive a calma, abordei um casal de turistas, em inglês, pedi informações (tinha tirado uma foto de algumas estátuas de bronze, do lado externo da Arena di Verona, nosso ponto de encontro) e a mostrei como referência. Simpático, o casal me deixou tirar uma foto do mapa que tinham; agradeci e daí para a frente, orientando-me pela foto do mapa, cheguei ao ponto de encontro sem maiores problemas. Entretanto, perdi a visitação à Casa de Julieta, local onde os amantes e apaixonados de todas as idades ou credos podem deixar sua cartinha de amor. Exatamente como no delicioso filme romântico Cartas para Julieta, estrelado por Amanda Seyfried, Gael García Bernal, Vanessa Redgrave e Franco Nero.

imagePádua é agradável, mas não havia muito movimento turístico lá. É uma cidade voltada mais para a peregrinação. Há uma praça, circundada por um fosso com água e, compondo a paisagem histórica, várias estátuas (algumas precisando de urgente restauração). O ônibus nos aguardava além da muralha que outrora protegia a cidade.

As placas à beira da autovia passavam rápido, mal nos dando tempo de ler o que nelas havia escrito. As estradas são um capítulo à parte: com várias pistas, asfalto perfeito, bem sinalizadas, são uma beleza para quem gosta de dirigir. Alguns dos colegas de viagem dormiam; vida de turista é muito cansativa! Seguindo a política do “máximo no mínimo de tempo”, essas excursões são corridas demais, com pouco tempo para o descanso. É apenas uma constatação, não uma reclamação. Há que se ter pique, e isso eu tinha de sobra.

Florença se anunciava. De novo, acionei meus conhecimentos prévios, já que nos aproximávamos do berço do Renascimento italiano, como de resto, o Renascimento como efeverscente e vigoroso fazer artístico. Mas não só artístico: foi claramente uma mudança de parâmetro no olhar humano sobre todas as coisas.

A guia me tirou de meus devaneios. Não ficaríamos no hotel inicialmente indicado, disse-nos ela,  mas em outro, pertinho do centro histórico florentino. Logo após determinarmos o quarto em que ficaríamos e desarrumarmos as malas, saímos em exploração noturna pelas cercanias do hotel. Ruazinhas estreitas, nas quais quase não cabiam dois carros em paralelo nos convidavam para um passeio. Um pequeno e aconchegante restaurante nos prometia boa pasta e bom vinho. Estávamos cansados e com fome.

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Quantos artistas plásticos, escultores, poetas, filósofos e atores teriam andado por aquelas ruas estreitas? Teriam eles consciência de que mudariam o mundo mais uma vez, com sua visão de “o homem como medida de todas as coisas”? Miguelângelo, Benvenuto Cellini, Dante Alighieri, Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli, Rapahel Sanzio, Donatello… E, mesmo não sendo artistas, o nome dos Médicis, amantes das artes e mecenas de tantos talentos. Todos deixaram, de alguma forma seus nomes ligados a obras florentinas.

É, precisávamos dormir bem para, no dia seguinte, bem cedo, começarmos o nosso périplo cultural. Estava programada uma visita guiada ao museu Michelangelo. Não demorei a dormir, embalado por sonhos cheios de referências renascentistas.

 

(todas as fotos feitas por Cleuber Marques da Silva)

sábado, 3 de agosto de 2013

Notas de Viagem 6: Venezia, Veneza, Venecia, Venice

Veneza é absolutamente apaixonante! A cidade está construída dentro da lagoa veneziana, contando com mais de 123 ilhas, das quais as mais importantes são Lido, Murano, Burano. Murano é onde se fabrica o famoso cristal do mesmo nome. Entrecortada por 177 canais, sobre os quais estão 400 pontes, Veneza é única. Há um grande canal, equivalente a uma vasta avenida, por onde trafegam lanchas, gôndolas, barcos comerciais e os vaporetto (espécie de ônibus-barcos).

Somente há carros na ilha de Lido, talvez por ser a maior. No restante, anda-se a pé mesmo, pois inexistem bicicletas, carroças, motocicletas, carros de qualquer tipo. Lá é na sola do sapato ou, então, com deslocamentos por barco. As casas têm, em frente aos seus portões de entrada, um pequeno cais onde podem atracar as lanchas.

A data de fundação de Veneza é incerta: 697, quando os venezianos elegeram seu primeiro chefe (Doge, do latim Dux, “comandante”) e 810, quando o ducado, quase independente, mudou sua capital de Eraclea para Veneza. A data em que se comemora oficialmente a fundação é 25 de março; o patrono da cidade é São Marcos, com referências por toda a localidade. Ali, na cidade lacustre, nasceram pessoas importantes, como o músico Antônio Vivaldi, o pintor Tintoretto, os papas Gregório XII, Eugênio IV, Paulo II, Clemente XIII e Pio X. A autoridade local mais importante era o Doge: o Palácio dos Doges é algo deslumbrante.

Veneza está situada na região italiana do Vêneto e foi, antigamente, capital da República Sereníssima, que existiu do século IX ao XVIII. Por muito tempo A Serenissima (como também é conhecida) foi uma das cidades mais importantes, sendo apontada por muitos historiadores como a primeira comunidade capitalista. Ao fim do século XVIII, entretanto, sofrendo as modificações por que passava o mundo à época, como a queda de Constantinopla para os turcos, o início das grandes navegações portuguesa e espanhola, a República Sereníssima entrou em decadência (Veneza era um importante porto comercial do mediterrâneo). As tropas napoleônicas invadiram o local em 1797 e a cidade foi cedida à Áustria, em troca da Bélgica.

Os passeios de gôndolas são românticos; os passageiros têm direito a um garrafa de Champagne, degustado em copos descartáveis e deploráveis, ao som dos acordeons e das vozes entoando O Sole Mio e outras canções de amor. Os gondoleiros, com suas camisas listradas, alguns vestidos a caráter, guiam com habilidade seus barcos pelos estreitos canais.

A Praça São Marcos é muito bonita. Ampla, cheia de pombos, camelôs vendendo máscaras venezianas, camisetas, quinquilharias e lembrancinhas para os turistas; é um ponto obrigatório para uma parada e fotografias. Napoleão teria se referido à Praça como le plus élégant salon d’Europe (o mais belo salão da Europa). É dominada pela Basílica de São Marcos, tendo num dos lados o Palácio Ducal e o campanário da Basílica. Não é só a cidade de Pisa a ter uma torre inclinada: também o Campanário de São Marcos, construído sobre um aterro e à beira do grande canal, está inclinada para este. Quando chove muito, a praça é o primeiro lugar a sofrer enchente, com a água correndo para o grande canal. Entretanto, quando é o canal que enche, a praça fica submersa.

O carnaval veneziano é o segundo mais famoso do mundo, perdendo apenas para o do Rio de Janeiro. Como característica carnavalesca, há, além de roupas coloridas, as máscaras venezianas, belíssimas e com acabamentos que vão desde o mais simples até o mais requintado (claro, os preços acompanham o status do objeto).

Veneza merece ser visitada, por tudo o que foi exposto aqui. É muito bonita, pitoresca, quer por ser construída sobre estaqueamento de troncos de madeira fincados no leito da lagoa, quer pelo seu ar romântico e medieval, quer pela sua história e importância no passado. Se forem à Itália, não a percam, vale muito a pena!

(fotos: Google images)