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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Trapo, de Cristovão Tezza

Este Trapo é o quinto romance escrito por Cristovão Tezza e o primeiro que lhe rendeu aplausos incondicionais da crítica nacional. O autor vem construindo uma sólida carreira literária e hoje é considerado um autor digno de figurar na galeria dos escritores mais importantes deste país. Merecidamente, aliás. É o terceiro livro dele que leio, o segundo que resenho aqui neste blog. O primeiro foi O Fotógrafo; já havia lido, há um tempo, O Filho Eterno com que Tezza ganhou o prêmio Jabuti.

Trapo é um romance em terceira pessoa. O professor universitário Manuel, numa noite qualquer, recebe a visita de certa Izolda, dona de uma pensão. Ela tem aparência vulgar – a palavra prostituta aparece na cabeça do mestre – e lhe entrega dois pacotes mal-amarrados, contendo os manuscritos de Trapo. Esse estranho apelido nomeia um morador de sua pensão barata, supostamente um poeta, a quem muito se afeiçoara Izolda:

“- Isso é para o senhor!

Dois pacotes amarrados de qualquer jeito aparecem da calçada para os meus pés, como quem se livra de um lixo.

- Para mim?!

Ela passa um lenço perfumadíssimo no rosto suado:

- Ai, como pesam!

- A senhora…

- Senhorita!

- Perdão. Os pacotes… ahn… a senhorita não quer entrar um momentinho…” (página 9)

Foi a perdição do professor. Izolda entra, toma conta da casa, pede um cafezinho; percebendo que o professor só tem café velho, dirige-se à cozinha e faz um café novinho. Critica a bagunça da casa de homem viúvo e desiludido (o professor perdera a esposa cinco anos antes e não se casara novamente), lava-lhe a louça. Posteriormente, despede a empregada que, uma vez por semana, “arruma” a residência de Manuel.

Ao ler o espólio de Trapo, o professor dá com poemas amalucados, cartas tresloucadas a uma tal Rosana, namorada do poeta. Mesmo não dando o braço a torcer, Manuel se interessa pelo material e pela vida do protegido de Izolda. O que  teria levado ao suicídio um jovem de 21 anos? Então, o mestre começa a investigar a vida de Trapo: tentar contactar pessoas do círculo de amizade do morto, vai ao bar que frequentava, ouve conversas sobre ele.

As relações do escritor morto e sua família não eram boas, como fica claro na página 44:

“- Trapo só falava mal. “Meu irmão é um babaca, só pensa em se encher de dinheiro. Meu pai é um sem-vergonha.” – Escândalo de Izolda: – Bem assim que ele falava, professor, “sem-vergonha”! “E minha mãe é uma idiota, mas uma idiota que está do lado deles. Que pena que a senhora não é minha mãe.” Nunca me esqueci, professor. Era de cortar o coração. Eu dava conselho: que é isso, Trapo, família é família, não presta falar essas coisas. E ele ouvia?” (página 44)

Manuel prossegue em sua pesquisa, conhece o pai de Trapo, as amigas dele, tenta contato com Rosana, enfim, aumenta seu conhecimento sobre aquela figura estranha. Mas, o mais importante, enquanto Manuel mergulha na vida de Trapo, buscando significar todo aquele acervo literário que lhe fora entregue, o próprio Manuel vai, pouco a pouco, também mudando sua vida. Os dois processos – de um lado, a aquisição de mais dados sobre o investigado, de outro, a modificação de sua vida – são entrelaçados e progressivos.

Vamos a um outro trecho, na página 157, um diálogo entre o professor Manuel e o principal amigo do Trapo, Hélio:

“- Isso é verdade, professor. Um porra-louca. – Tentou consertar a inconveniência: – Quer dizer, um esculhambado na vida… o senhor entende…

- O aspecto pessoal é irrelevante neste caso. É obrigação do crítico analisar estritamente a obra, não a biografia – acrescentei, didático, disposto a manter o comando da conversa e reduzi-lo ao silêncio. Prossegui: – Quando o Trapo projetou seus modos de assassinar a poesia…

- Ah, ele me falou disso! num fogo que nós tomamos na…

- Pois é – cortei. – Parece-me que nestes “assassinatos” ele estava respondendo mais a um sentimento de frustação do que de poesia propriamente dita.

Hélio devolveu-me a farpa, numa ironia cautelosa:

- É… se bem que a gente não deve levar muito em conta essa opinião pessoal, não é, professor? Como o senhor mesmo disse…

Engoli em seco, vermelho.

- Exatamente.”

O livro é excelente.  São 254 páginas de um texto que pega a gente pela gola, volta nossa cabeça para ele e não nos larga – até o finale. Se, ao ler minha resenha de O Fotógrafo, você gostou, não perca igualmente este Trapo. Vale a pena.

Cristovão Tezza. Trapo.Editora Record, Rio de Janeiro, RJ: 2007, 254 páginas.

sábado, 18 de maio de 2013

O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

Há muito tempo as Graphic Novels atingiram o status de Arte. Elas são histórias em quadrinhos, caracterizadas por um tratamento gráfico sofisticado e criativo, com roteiros bem elaborados.

Descobri, quase por acaso, numa agência de revistas, a edição de luxo de Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?, da Panini Books. A história é de ninguém menos que Neil Gaiman, o fantástico autor de Sandman; os desenhos são de Andy Kubert, a superestrela dos quadrinhos dos superpersonagens.

De todos os super-heróis da minha adolescência somente o Batman ficou. Personagem atormentado, muitas vezes passando dos próprios limites impostos pela ética, no sentido exato da expressão ele não é um super-herói. Estes têm, via de regra, superpoderes, são sobre-humanos. O Batman, não. Ele tem força física, construída por ginásticas constantes; apoia-se em uma parafernália técnica desenhada especialmente para ele.

Como pode, entretanto, alguém gostar de um herói assim, atomentado, que não consegue se livrar da síndrome da perda dos pais, que se põe ao lado da Justiça na sombria e gótica cidade de Gotham City, mas que, muitas outras vezes, tende a fazer justiça pelas próprias mãos? Na verdade, o Encapuzado representa a nossa parte mais escura, aquele que todos nós gostaríamos não existisse. Em episódios sem conta, Batman esmurra criminosos, nos dando a impressão de só a custo se conter nos limites da lei.

Sua figura é imponente e amedrontadora; silencioso e imprevisível em sua indumentária de morcego, nosso personagem vive na noite, galgando edifícios ou “voando” pelos telhados da cidade. Tem gosto de brincar com a presa; atua poderosamente nos arquétipos localizados em algum desvão escuro das mentes para despertar o medo, desestabilizar o criminoso e então, atacar. Na realidade, Batman é um psicopata que descobriu como lidar com sua doença mental, mantendo-a sob as fronteiras do socialmente aceitável. Gothan City é obrigada a conviver com essa dualidade, pois, apesar de condenar o Cavaleiro das Trevas, depende muito dele na sua luta contra o crime. E a sociedade de Gothan é igualmente uma sociedade doente.

O enredo de Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? é empolgante e, ao mesmo tempo, o atestado de humanidade do nosso herói: super-heróis não morrem. A história começa com a morte de Batman; sua figura encapuzada, dentro de um caixão, no escuro Beco do Crime, local onde o Homem-Morcego teve sua gênese, em Gothan City. Seus principais inimigos ou adversários comparecem fielmente ao velório: lá estão o Charada, a Hera Venenosa, o Coringa, o Pinguim, o Duas Caras, a Mulher-gato… A recepção dos personagens é feita por Alfred, o fiel mordomo.

Não há a “encomenda da alma” do Batman, isto é, não há aquele ritual de todo velório, em que se pede a Deus (com qualquer concepção que se tenha Dele) pela alma do morto, recomendando-a à misericórdia divina. A alma do Batman, caso ele realmente a tenha, está no inferno.

Cada um dos oponentes fornece sua versão para a morte do herói, atribuindo a si mesmo a consecução de tal ato. É um festival de egolatria e de invencionices. Batman, Charada, Hera Venenosa, Mulher-gato, Pinguim, Duas Caras, Coringa – todos têm o ego inflado, revoltados contra uma sociedade que os criou e os mantém e da qual todos se julgam vítimas. Desta forma, esses verdadeiros espectros jusfiticam sua revolta constante.

No final da história, ficamos com uma desagradável percepção de que, se todos mentem, não há como saber a verdade: quem matou o Batman, e de que ele teria morrido. E – coisa curiosa – todos os adversários demonstram algum tipo de afeição ao Cavaleiro das Trevas. Afinal, grande parte dos que eles são devem ao herói; morto o que os sustenta, só lhes resta lamentar profundamente, nunca mais serão os mesmos.

A voz narradora da história é a do Batman, numa espécie de manifestação extracorpórea, muito embora ele diga, em certa altura, no diálogo com a aparição identificada como sua mãe:

“Eu… na verdade não acredito em vida após a morte, sabia? Não acredito que haja um lugar para onde você finalmente parta se foi alguém bom. Tentei acreditar, mas não consigo. O que temos sou só EU, sozinho na minha mente. Certo, mamãe? Ou seja, você não está realmente aqui.”

Ao que ela lhe responde, tomando as mãos dele entre as suas:

“Estou aqui, Bruce. Sempre estou.”       (página 62)

Numa leitura atenta, num quadrinho antes, Batman se refere ao seu estado como uma “experiência de quase morte”. Gancho para, numa outra história, em sequência, reviver o Cavaleiro?

O arquétipo da MÃE como redentora dos pecadores (e Batman é um pecador, ou, pelo menos, sua autoassumida culpa nos faz pensar assim) é nitidamente cristão. A mãe de Jesus, Nossa Senhora, é uma espécie de modelo de pureza feminina e por sua alta condição espiritual e posição privilegiada nas relações com a divindade, constitui-se numa interventora.

Recomendo entusiasticamente a leitura desta Graphic Novel. Há outras histórias a comporem o volume encadernado, mas a cereja do bolo é realmente este O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

Neil Gaiman e Andy Kubert. Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?. Editora Panini Books. São Paulo, SP, 2013