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sábado, 12 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Viver Não Dói, de Leila Ferreira

Leila Ferreira é formada em Letras e Jornalismo, mestre em Comunicação pela Universidade de Londres. Atuou como repórter da Rede Globo Minas, tendo, durante 10 anos, apresentado o programa Leila Entrevista, pela Rede Minas e TV Alterosa. É autora de duas publicações anteriores: Mulheres: por que será que elas…? e A Arte de Ser Leve, ambas publicadas pela Globo Livros.

 

Gosto muito do gênero textual crônicas. Leila tem um estilo gostoso, de conversa com seus interlocutores. Os textos de Viver Não Dói são distribuídos ao longo de 275 páginas, agrupados em subtítulos: Felicidade: menos, por favor; Amor, sexo e sedução; Admirável mundo novo; No meio do caminho tinha uma serra; Vasto mundo; O tal do envelhecer; Mães e filhas; Faits divers (ou trivial variado) e Resumo da ópera.

Crônicas são textos habitualmente leves, sobre coisas, eventos, fatos do dia a dia. Como exerci o papel de turista recentemente, entendo muito bem o que ela diz na crônica Turista sofre (e não conta); está nas páginas 148:

“A começar pelos guias ou, sejamos justos, por alguns deles. Imagine conhecer a Capadócia, na Turquia, com uma guia que não fecha a boca – uma turca que, apesar de havermos dito a ela que falávamos inglês (idioma que ela dominava), insistia em se expressar num espanhol com sotaque carregadíssimo. Mas o problema nem era o sotaque: era que ela insistia em falar, ponto final. As palavras jorravam e, como nosso grupo consistia de duas pessoas apenas – meu companheiro e eu –, não havia com quem dividir a avalanche. Verbos, sustantivos, adjetivos e preposições se sucediam com a velocidade da luz, e nós, atordoados, íamos nos convencendo de que no mundo de hoje há formas de sofrimento que se aproximam muito daquelas vividas pelos cristãos perseguidos pelos romanos que se refugiavam nas catacumbas.”

Na página 65, por exemplo, começa a crônica Um cochilo na sex shop. Ela e o companheiro, em uma sex shop, resolvem parecer “normais” e como um número grande de clientes da loja, optam por participar de um curso sobre o tema Técnicas para aumentar o prazer sexual. Ministrado, segundo Leila, por duas americanas desenvoltas e desinibidas, vestidas com figurinos o menos sexy possível: tênis, jeans largos e camisetas idem, com o entusiasmo de duas cheerleaders. Eis a parte explícita a que se refere o título do texto (páginas 67):

“Minha vontade de rir, incontrolável no começo, aos poucos foi cedendo. No seu lugar, veio o sono. Um sono implacável que, a cada movimento de penetração simulada (a repetição entorpece), ia ficando mais intenso. Tentei me distrair. Comi um chocolate que estava na bolsa, fiz uma lista dos presentes que iria comprar para a minha família (certamente, nenhum ali), pensei em coisas alegres e tristes, prendi a respiração várias vezes e nada de passar o sono. A última imagem que meu consciente registrou foi das duas professoras de quatro pela vigésima vez, com sex-appeal comparável ao de dois caranguejos atracados num manguezal. Acordei minutos depois com meu companheiro me cutucando e dizendo “Acorda! Acorda! Tá todo mundo  olhando!”

O livro traz uma coletânea de frases de todas as crônicas, na sudivisão Resumo da ópera , frases-achado, tanto dela quanto de autores citados nas crônicas, pinçadas aqui e ali, como por exemplo, “Flertar era preservar distâncias estratégicas, enquanto se firmava em silêncio um contrato de cumplicidade. Areias movediças, ambivalências, a sedução no fio da navalha.” Ou, então, “A sensação é que arrancaram as cortinas do mundo, e as janelas estão todas abertas, as portas, escancaradas. Tudo se diz, tudo se mostra, tudo se explicita. Não há mais bastidores, não há mais avessos, não há mais intimidade.”

Espero ter dado ao leitor deste blog um gostinho do que o está aguardando nesse Viver Não Dói. Livro bom de se ter à mão, um antíodoto para a mesmice e chatice que, tantas vezes, assola nosso mundo.

Leila Ferreira. Viver Não Dói. 1ª Edição, Editora Globo: São Paulo, SP. 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Cavalo de Troia 2 – Massada

Meu projeto de leitura está bastante atrasado: estava inicialmente programado ler a série de 9 livros até o final desse ano de 2013. Vários acontecimentos, no entanto, impediram a proposta inicial.

Mas vamos ao volume 2, Massada. Benítez dedica uma boa parte das primeiras duzentas e dez páginas à contextualização política antes do lançamento do “berço” em sua segunda incursão aos tempos de Jesus Cristo. Escutei, de algumas pessoas que leram esse segundo volume, que “a narrativa cai de nível” e atribuo essa sensação ao possível menor interesse dessas pessoas pelas injunções político-militares arroladas pelo autor. Não obstante, essa contextualização está profundamente coerente com a proposta da obra. É compreensível, entretanto, que certos leitores sejam mais ansiosos em relação aos relatos da trajetória de Cristo do que em se deter em explicações adicionais.

Jasão e Eliseu concluíram, como se sabe, sua missão com sucesso, apesar de um pequeno incidente: Jasão não consegue evitar a perda do sofisticado microfone, escondido no lustre da sala onde acontecera o evento da Santa Ceia. Essa falta, de início, é o que vai motivar o retorno dos astronautas do tempo à nova empreitada, pois a ordem clara tinha sido não deixar vestígios que pudessem interferir com o passado, sob pena de o presente e até o futuro serem igualmente afetados.

A situação em Israel é insegura; há risco de terrorismo por parte de guerrilheiros palestinos. O laboratório de rastreamento e processamento de fotografias por satélite, usado para encobrir o projeto Cavalo de Troia, é transferido, à noite, para Massada. Esta é a ruína de uma cidade no alto de uma meseta, de acesso quase intrasponível, de onde, no ano 66 de nossa era, os judeus voltaram a opor resistência ao domínio dos romanos. Tal evento é registrado pela Bíblia. Quando os romanos, finalmente, conseguiram atingir a cidade, encontraram quase que somente cadáveres: os resistentes, num pacto sangrento, tinham se matado.

Há uma guerra iminente a ser desencadeada sobre o Estado de Israel; estão em cena Henry Kissinger, pelos Estados Unidos; o General Moshe Dayan, o governo de Golda Meir. O ambiente político local era um tanto inconsistente, como de resto o é até os dias atuais.

Numa noite, Jasão e Eliseu vão em busca do General Curtiss, responsável pela Operação Cavalo de Troia, em Massada. O militar mostra sua outra face, ao emocionar-se com os relatos de Jasão sobre Cristo e seus atos. O Major (codinome Jasão) dá a conhecer o relato do que se passou na Última Ceia, com o som captado pelo microfone e gravado na nave. Jasão faz muitas reflexões sobre várias discrepâncias entre o que nos contam os evangelistas em seus evangelhos e o que efetivamente foi captado ao vivo. Jasão consegue, enfim, reaver o microfone (houve um terremoto, o lustre ficou avariado e foi mandado a uma oficina, para conserto. Lá, o major consegue examinar a peça e aproveita para pegar o aparelho).

Na página 170, vamos encontrar as seguintes palavras de Jesus:

“Quando tiver voltado a vós em espírito poderei guiar-vos melhor através desta vida e das muitas moradas da vida futura, no céu dos céus. A vida da eterna criação do Pai não é um repouso, uma ociosidade sem-fim…”

Não sei ainda por que o fiz. O fato é que interrompi a fita e a rebobinei parcialmente. Curtiss e Eliseu olharam-me surpresos. Mas nada perguntaram.

“- … através desta vida” – voltamos a ouvir a voz de Jesus – “e das muitas moradas da vida futura, no céu dos céus. A vida na eterna criação não é um repouso, uma ociosidade sem-fim, ou uma egoística comodidade, senão uma incessante progressão em graça, verdade e glória. Cada uma das inúmeras moradas da casa de meu Pai é um lugar de passagem, uma vida projetada para servir-nos de preparação para a seguinte. E assim os Filhos da Luz seguirão de glória em glória até alcançar o estado divino, no qual serão espiritualmente perfeitos, tal qual o Pai é perfeito em todas as coisas.”

- Deus meu! – exclamei sem poder conter-me. – Vocês ouviram o mesmo que eu? É a promessa mais clara e categórica não de uma e sim de muitas “vidas”, em contínua e progressiva perfeição!… Mas que poderão ser essas moradas?

Outra passagem interessante, nas páginas 188:

“Por último – já que a análise da “útima ceia” nos levaria longe demais –, por que os textos evangélicos não dizem uma só palavra sobre a chefia de André, o irmão de Simão Pedro? Por que não dedicam mais espaço às belas e esperançosas revelações de Jesus sobre “seu Universo” e o “Universo dos Universos do Pai”, ou ainda sobre as “moradas” ou “lugares de passagem” no mais além? Será que o Universo do Filho do Homem é um e o de seu Pai outro?”

Jasão nos relata várias aparições do Cristo, após seu corpo ter sumido do santo sepulcro. Na maioria desses eventos, o Major não os constata visualmente, mas de cada um deles tem notícia, pois os seguidores do Filho do Homem chegam relatando que O viram. Até que, finalmente, nas páginas 368, Jasão pode constatar o acontecimento pessoalmente:

“- A paz seja convosco!

Era ele! Seu timbre de voz… Mas sua figura… por que não pude reconhecê-la?

- Por que estais tão assustados, como se se tratasse de um espírito?

Os comentários que agora acompanham a narração deste fato foram, logicamente,  fruto de minhas reflexões posteriores. Naquele momento não pensava, não respirava, apenas via e sentia. O caso é que as primeiras palavras da “visão” – como poderia defini-la melhor?, – não tinham muito sentido. Era lógico que qualquer ser humano sentisse não medo, mas terror!

- Não vos disse que os principais sacerdotes e dirigentes me entregariam à morte, que um de vós me trairia e que ressussitaria ao terceiro dia?

Jesus de Nazaré – porque tinha de ser Ele –  foi baixando os braços devagar.”

J. J. Benitez cria um efeito de verdade ao instaurar o major como relator da história. É um homem maduro, treinado militarmente para situações as mais diversas e adversas. Além do mais, as notas de pé de página, normalmente com complexas explicações científicas, históricas e bíblicas dão um tom de verossimilhança à história contada.

Neste segundo volume da série, um terrível acontecimento será explicado. A manipulação dos swivels – trata-se de uma unidade elementar generalizada no cosmo – não será sem uma reação devastadora. “Em essência (escrevia o major), esse ‘sistema básico’ que havia impulsionado a operação consistia na descoberta de uma entidade elementar – generalizada no cosmo – na qual a ciência não havia reparado até esse momento e que resultara, e resultaria no futuro, na ‘pedra angular’ para uma melhor compreensão da formação da matéria e do próprio Universo. Tal entidade elementar – que foi batizada de swivel – evidenciou que todos os esforços da ciência para detectar e classificar novas partículas subatômicas nada mais eram do que estéril miragem.” É a manipulação desses swivels, voltando seus eixos em determinada orientação, que possibilita o recuo no tempo e, em última análise, a operação Cavalo de Troia.

O segundo volume termina com um enigma a ser decifrado e promessa de novos acontecimentos. Que surpresas nos aguardarão no terceiro volume?

J. J. Benítez. Cavalo de Troia 2 – Massada. Editora Planeta, São Paulo, SP, 2008.480n páginas.