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domingo, 10 de novembro de 2013

O Fio, de Victoria Hislop

Terceiro livro da autora que tenho oportunidade de ler, esse O Fio, como os anteriores A Ilha e O Retorno constitui-se em uma leitura prazerosa e proveitosa. Victoria é inglesa de nascimento e esse é seu terceiro trabalho literário. Já resenhei dela, aqui, neste blog, O Retorno.

Os enredos de seus três romances passam-se em meio a cenários de guerra, conferindo aos seus temas um ambiente apropriado para serem desenvolvidos – é em meio a conflitos que seus personagens são postos à prova nos quesitos de persecução de seus objetivos, na construção de suas identidades e – sobretudo –, na construção de laços entre si em meio às maiores adversidades. Exatamente em ambientes propícios aos horrores e à desagregação interior dos seres humanos, seus personagens têm de arregimentar forças onde há poucas probabilidades de elas existirem; para tais feitos, enormes doses de coragem e abnegação individuais e anônimas em meio a devastações interiores são requeridas. Proposta literária que nos fala, a nós, seres feitos de pequenos grandes atos igualmente anônimos, muito de perto, daí nossa identificação quase imediata com algum dos personagens criados por Hislop. Essa empatia, mas não apenas ela, é o móvel responsável pelo sucesso dos livros da autora.

O Fio não é diferente. Trata das adversidades e das lutas para vencê-las de pessoas localizadas na cidade grega de Tessalônica.

Inicialmente, explode a guerra da Grécia contra a Turquia e os turcos obrigam os gregos, entre os quais Zenia Sarafoglou e Katerina – mãe e filha – a evadirem-se da cidade de Esmirna, a terceira maior cidade da Turquia, a sudoeste, junto ao Mar Egeu. A pequena Katerina fica para trás, sendo salva por um soldado grego e embarcada para destino desconhecido. No barco, fica sob a proteção de Kyria Eugenia Karayanidis e na companhia das duas filhas gêmeas desta, Maria e Sofia. Vão para o campo de refugiados de Mitilene, onde as dificuldades normais nessas ocasiões estreitam fortemente os laços entre as três e Katerina. Zenia, por seu lado, segue para Atenas, a aproximadamente 250 quilômetros de Mitilene.

Chega, entretanto, o dia da troca de prisioneiros turcos por gregos e o grupo é retirado de Mitilene para Tessalônica, a segunda cidade mais importante da Grécia. Obtêm, então, uma pequena casa para morar na Rua Irini. Naquele lugar, conhecem a família judia dos Moreno, com quem firmarão uma amizade intensa. Ainda, como vizinhos, são apresentados à Kyria Olga Komninos e o filho, Dimitri.

Olga é mulher de Kyrios Konstantinos Komninos, o maior distribuidor de tecidos de Tessalônica. Recentemente, um incêndio de proporções enormes, originado por uma simples fagulha sobre um colchão de feno, destruíra grande parte da cidade, quase todo o estoque de tecidos de Konstantinos. Olga se mudara de sua mansão semi-destruída, com Dimitri, para uma casa da rua Irini.

Eugenia é tecelã de tapetes e logo ela percebe na pequena Katerina uma habilidade incomum com bordados e costura. Como os Moreno possuem a melhor alfaiataria da cidade, empregam a menina, que se inicia nas artes da alta costura pela orientação segura de Kyria Moreno.

A situação em Tessalônica evolui com algumas dificuldades, oriundas da presença de judeus, os quais são mal suportados pelos gregos. Kyrios Komninos rapidamente se enriquece mais. Dimitri, embora não tendo o amor do pai, é incitado a ser bom aluno para que, no futuro, os planos paternos para ele se concretizem, no sentido de o filho tornar-se um advogado e trabalhar para seu negócio. Mas Dimitri tem outros planos para si e deseja formar-se médico. Além do mais, a observação da pobreza extrema de vários habitantes e as novas ideias mais libertárias dos professores da faculdade de medicina acabam por posicioná-lo contra as autoridades gregas, para desgosto e ódio do pai, francamente um direitista.

Explode a Segunda Guerra Mundial. A Grécia não demora a ser invadida pelos alemães e os ricos de Tessalônica alinham-se, por interesse, à direita. Logo, quando os germanos tomam a cidade, aqueles se unem a esses, num jogo em que o uso da delação é frequente. O ELAS – Exército Nacional de Libertação Popular, de cunho comunista, transforma-se em força de oposição aos alemães, não obstante não contarem com a simpatia da população, que os vê como causadores da perseguição alemã contra os gregos. Dimitri torna-se um combatente nas fileiras do ELAS.

Olga Komninos não ama o marido, servindo a ele e à sua distribuidora de tecidos (mais tarde ele adquire uma produção de seda) como uma vitrine para a qualidade dos tecidos do marido e tendo um amor secreto.

A guerra termina finalmente, mas não acaba a animosidade dos gregos contra os judeus e comunistas. O governo assina uma anistia a favor dos resistentes, desde que eles assinem um mea culpa,  renegando as ideias de esquerda, mas, na prática, nada muda. Dimitri havia sido encarcerado numa ilha e, apesar da muita recusa, termina por assinar a renúncia ao comunismo. Os gregos são surpreendidos, mais uma vez, por um conflito, desta vez interno: a guerra civil.

Quando tudo parece caminhar para a normalidade, outra tragédia: Tessalônica é palco de um terremoto que destrói uma grande área urbana. Mais uma vez as pessoas são convocadas a se superarem e a reencetar suas vidas, aceitando do melhor modo possível suas perdas, tanto econômicas quanto familiares e de amigos.

Um romance poderoso. Apoiada por uma intensa pesquisa histórica, Victoria Hislop faz uma obra, no parecer do respeitado The Guardian, “uma narrativa de ritmo acelerado e extremamente convincente.” São 365 páginas de uma escrita fluente, de tons poéticos, que me envolveu completamente (li o livro em dois dias e meio), com trechos como:

“Por um momento percebeu seus sentidos despertarem para todos os ingredientes casuais e considerados naturais da vida normal: o chiar do vapor, o cheiro de um cigarro, o rangido e o espocar de uma rolha ao ser extraída de uma garrafa de conhaque, o arrastar de uma cadeira no chão ladrilhado. Todos esses elementos quase esquecidos se misturavam. Ele fechou os olhos, a momentânea conexão com o passado lhe dando esperança para o futuro.” (página 279)

Até mesmo a submissão das mulheres aos seus maridos  ganha força de determinação no texto da autora.  Trágica aceitação do inevitável, do já-estabelecido cultural, ainda no silêncio a que se condenam perpassa a dignidade da indignação contra o que consideram errado, desumano.

Sem sombra de dúvida, é um livro para ser recomendado. Recomendo-o, então.

Victoria Hislop. O Fio. s/ed. Gávea, RJ: Intrínseca, 2011.