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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A Cidade das Feras, de Isabel Allende

Isabel Allende nasceu em Lima, no Peru, em 1942, tendo ainda nacionalidade chilena. Aos dezesseis anos, começou a trabalhar como jornalista e depois como escritora. A Casa dos Espíritos, de 1982, foi sua obra inaugural, tendo se tornado uma referência em sua carreira literária. Escreveu, ainda, Eva Luna, O Plano Infinito, Zorro (já resenhado neste blog), De Amor e De Sombra, Paula, Afrodite, Inés de Minha Alma, Retrato em Sépia e, mais recentemente, Cadernos de Maya.

Quando se começa a ler este A Cidade das Feras, pensa-se que Isabel Allende escreveu um livro juvenil. Entretanto, após algumas páginas lidas, constata-se que tal suposição não é verdade, pelo menos inteiramente verdade; há no livro uma narrativa de cunho altamente poético e mesmo de engajamento ecológico. É uma história que envolve altas doses de aventura, mistério, intrigas, misticismo.

Alexander Cold é um adolescente de 15 anos e tem como irmãs Andrea e Nicole. A família Cold se completa com o pai, John, a mãe Lisa e a avó meio amalucada, Kate Cold. Kate não mora com o filho, tem 65 anos e vive metida em expedições, pois é escritora, contratada pela International Geographic.

Lisa Cold está muito doente, quase não se levanta da cama;  John tem de levá-la para o Texas, onde ela poderá receber tratamento condizente e, assim, as duas irmãs vão para a casa de Carla, mãe de Lisa e Alex parte sozinho para ficar com Kate, mãe de John, em Nova Iorque. Uma grande aventura o espera: a avó excêntrica está de partida para a Amazônia e leva-o com ela.

Como se pode esperar, serão muitas peripécias e perigos, na companhia do afetado e famoso antropólogo, professor Ludovic Leblanc, da médica de corpo escultural, doutora Omarya Torres, César Santos, dono de um pequeno avião caindo aos pedaços, mas que ainda voa e Nádia Santos, filha de César, de 12 anos. Completam a equipe o milionário Mauro Carías, os fotógrafos Joel González e Timothy Bruce, o capitão Ariosto e os índios Matwe e Karakawe.

De certa forma, há paralelos narrativos entre A Cidade das Feras, Zorro e Inés de Minha Alma – todas obras de Allende: forte presença da cultura indígena, o esforço da catequese católica que deseja converter os nativos. Outro ponto de contato entre Zorro e A Cidade das Feras são os ritos de passagem, de iniciação, em relação ao herois das histórias, que devem ascender da condição de adolescentes à de homens. Nos dois trabalhos também há a descoberta do animal totêmico, uma espécie de identificação da alma com um determinado animal que melhor a traduza.

Kate, os dois fotógrafos, o guia brasileiro César Santos e Alex formam a equipe da International Geographic, e têm como missão investigar o que há de verdade nos rumores sobre um ser gigantesco, chamado A Fera, algo assim como uma espécie de Abominável Homem das Selvas. Como Alex não conhece nada sobre viver na selva amazônica, desenvolve rapidamente amizade com Nádia Santos; a menina é autoridade, para ele, dentro daquele ambiente hostil. E Nádia ainda  conta com outra habilidade fundamental naquele lugar: ela fala a língua dos índios, é amiga de Walimai, um xamã.

A cena em que Alex encontra seu animal totêmico é carregada de mística e até mesmo de uma espécie de sensualidade natural:

“Como em um transe, Alex tinha se aproximado. Sentia-se fascinado pela visão do grande felino. Sua avó gritou-lhe uma advertência que ele não ouviu e avançou até tocar com ambas as mãos a tela de arame que o separava do animal. O jaguar parou, soltou um formidável grunhido e em seguida fixou seu olhar amarelado em Alex; estava imóvel, com os músculos tensos, a pele cor de azeviche faiscando. O rapaz tirou os óculos, que já usava por uns sete anos, e os deixou cair no chão. Estavam tão perto que pôde distinguir cada uma das pequeninas manchas douradas nas pupilas da fera, enquanto os olhos de ambos travavam um silencioso diálogo.

Tudo desapareceu. Viu-se sozinho diante do animal, em uma vasta planície de ouro, rodeado de altíssimas torres negras, sob um céu branco, no qual flutuavam seis luas transparentes como medusas. Viu o felino abrir as fauces, nas quais brilharam seus grandes dentes perolados, e com uma voz humana que parecia vir do fundo de uma caverna pronunciar seu nome: Alexander. E ele respondia com sua própria voz, que também soava cavernosa: Jaguar. O animal e o rapaz repetiram três vezes essas palavras, Alexander, Jaguar, Alexander, Jaguar, Alexander, Jaguar, e então a areia da planície tornou-se fosforescente, o céu ficou negro e as seis luas  começaram a girar em suas órbitas e a deslocar-se como se fossem lentos cometas.” (páginas 74/75) 

Temos aí, caro leitor, alguns elementos que, de modo claro, constroem um ambiente místico, mágico, de iniciação. A importância de se enunciarem os nomes, a repetição deles, o estranhamento causado pela constatação de seis luas, uma planície fosforescente. Há, inclusive,  a caracterização de um tempo que flui diferentemente do nosso, pois o movimento das luas é lentamente circular, como num estado alterado de consciência. Ritual que atrela definitivamente Alexander a seu totêmico Jaguar.

Há uma conspiração secreta que visa explorar de modo desonesto as riquezas naturais da grande floresta; homens inescrupulosos, porém, deverão entrar em combate com as forças conservadoras da mãe natureza, representadas pelos índios e pelo xamã Walimai.

Mas o ritual de passagem, de menino a homem (guerreiro) se dá no meio do estranho povo da neblina, que aceita tanto Alex quanto Nádia não como nahab, isto é, forasteiros, mas como seres portadores de missões junto a essa comunidade. As mulheres não precisam passar pelos ritos de passagem porque, explica Nádia a Alex, elas menstruam e com isso marcam claramente a transformação de meninas em mulheres. Mesmo assim, a amiga de Alex terá sua iniciação nos mistérios da tribo, pois ela também deverá provar ser merecedora da absoluta confiança do povo da neblina.

Editado pela Bertrand Brasil, este A Cidade das Feras faz parte de uma trilogia que se desdobra em O Reino do Dragão de Ouro e A Floresta dos Pigmeus – todos em catálogo. E para aqueles que gostam de história de aventura, esse primeiro livro será adaptado para o cinema, na esteira do sucesso de outras obras igualmente vertidas para a linguagem das telonas, O Senhor dos Aneis e Crônicas de Nárnia.

Tenham uma boa leitura!