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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Vigésima Quinta Hora, de C. Virgil Gheorghiu

Constantin Virgil Gheorghiu não é um nome muito conhecido do grande público no Brasil. Assim, deixemos falar a biografia do autor, retirada diretamente da Wikipédia:

“Virgil Gheorghiu nasceu em Valea Alba, uma vila no Războieni Comuna, condado de Neamt, na Romênia, [em 15/09/1916]. Seu pai era um padre ortodoxo em Petricani . Um estudante dos mais brilhantes, ele cursou o ensino médio em Chişinău de 1928 a junho de 1936, após o que ele estudou filosofia e teologia na Universidade de Bucareste e no Universidade de Heidelberg .

Entre 1942 e 1943, durante o regime do general Ion Antonescu , atuou no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Roménia como secretário da embaixada. Ele foi para o exílio quando tropas soviéticas entraram na Romênia em 1944. Preso no final da II Guerra Mundial pelas tropas americanas, ele finalmente se estabeleceu na França em 1948. Um ano depois, ele publicou o romance Ora 25 (em francês: La vingt-cinquième heure; em Inglês: A Vigésima Quinta Hora ), escrito durante seu cativeiro.

Gheorghiu foi ordenado sacerdote da Igreja Ortodoxa Romena em Paris, em 23 de maio de 1963. Em 1966, o Patriarca Justiniano concedeu-lhe a cruz do Patriarcado romeno por suas atividades litúrgicas e literárias. [Morreu em 22/06/1992, em Paris, França.] Ele está enterrado no Cemitério Passy , em Paris.”

Na verdade, tomei contato com este autor por intermédio do seu livro O Homem Que Viajou Sozinho, tendo também como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. E pelo menos por três motivos claros – primeiro, gosto do autor – segundo, amo a literatura – terceiro, O Homem Que Viajou Sozinho tem um valor fortemente sentimental para mim – vou falar um pouco sobre minha experiência com a obra citada acima.

Havia lido em minha adolescência um exemplar da obra, velho, desgastado, amarelado e sem capa, que me fora emprestado por uma colega de sala de aula. O drama do personagem Traian Matisi marcou-me profundamente, talvez por se passar dentro de um cenário de guerra mundial – não lera, ainda, livros cuja ação se desenrolasse nesse ambiente.

Muitos anos se passaram, mas quando vi numa vitrine de livraria, em uma capa verde, editada pela Betrand Brasil, exatamente aquela obra lida nos anos adolescentes, comprei-a imediatamente. Relê-la, passado tanto tempo, foi uma experiência nova, apesar de já conhecê-la. É que, livros compulsados nos recuos dos anos, quando revisitados em idade mais madura, resultam em visões diferentes do mesmo produto cultural. Portanto, eu tenho com o autor  um “relacionamento” – diria – afetivo mesmo.

A Vigésima Quinta Hora é uma obra extraordinária. Costumo fazer notações a lápis na folha de rosto, enquanto vou lendo e a deste volume está muito anotada. Existem no livro personagens  dos quais não nos esquecemos facilmente.

Iohann Moritz é um camponês romeno, cuja ingenuidade tem algo de pureza e, ao mesmo tempo, de estranheza diante de como o mundo funciona. Denunciado, certa feita, como judeu (sem o ser, verdadeiramente) por um gendarme local que lhe deseja a esposa, Suzanna, ele se vê enredado pela máquina de guerra, caindo em mãos nazistas.  Inicia-se aí uma “peregrinação” por vários campos de concentração.

Foge para a Hungria, com outros detentos, é preso como espião romeno e torturado. Segue preso para a Alemanha, sob a condição de “trabalhador húngaro voluntário”. Não se esquece de Suzanna, de sua aldeia Fôntâna e da vida tranquila; nunca desejou muito, apenas uma casinha onde pudesse viver com sua família, umas terras em que trabalhar e se manter.

De modo completamente inesperado, é identificado pelo coronel Müller, estudioso das questões antropológicas (leia-se cientista influenciado pelos ideais de raça pura, de Hitler) como um exemplar de um grupo germânico valorizado:

“Pela conformação do crânio e o molde da ossatura frontal, nasal e facial, pela estrutura do esqueleto e, especialmente, da caixa torácica e a posição das clavículas, o indivíduo pertence a um grupo germânico que vive atualmente em pequeno número no vale do Reno, em Luxemburgo, na Transilvânia e na Austrália. (…) A “Família Heroica”, de que faz parte o rapaz que se encontra diante de seus olhos, demonstrou suficientemente a tenacidade do instinto de conservação de nossa raça.” (página 157)

Assim, Iohann passa de judeu a “trabalhador húngaro voluntário” e daí a um exemplar valorizado da “família heroica” sem entender, exatamente, o porquê disso tudo.

Outros personagens vão compor a história: Eleonora West, editora e dona do jornal mais importante da Romênia; Alexandru Koruga, um padre ortodoxo da aldeia de Fôntâna, combativo e extremamente íntegro; Traian Koruga, filho de Alexandru e intelectual. Aliás, Traian é romancista, amigo de Moritz e sua voz narra a história. Como foi dito na orelha do livro, “numa espécie de livro dentro do livro.”

Este é um romance com uma ideologia. Libelo não só contra o nazismo, mas contra qualquer forma de totalitarismo – seja ele de esquerda ou de direita, Gheorghiu instaura, por meio de sua obra dilacerada e dilacerante – o que ele classifica como “sociedade técnica”:

“[os americanos]  jamais se darão conta de que existimos – diz Traian. – A civilização ocidental em sua última fase de progresso não tem mais consciência do indivíduo. E nada nos permite esperar que o faça algum dia. Essa Sociedade  só conhece determinadas dimensões do indivíduo. O homem integral, tomado individualmente, não existe mais para ela. Você, Eleonora West, que continua na prisão, embora não seja culpada, eu e muitos outros, não existimos para eles. Pura e simplesmente, não somos. Existimos apenas como frações infinitesimais de uma categoria. Você, por exemplo, não passa de uma cidadã inimiga, presa em território alemão. É o máximo de informações características que a Sociedade Técnica ocidental é capaz de assimilar. Isso é tudo que pode representá-la aos seus olhos. Ela só a reconhece graças a esses traços distintivos e a trata, consequentemente,  junto ao grupo ao qual você pertence, de acordo com as regras da multiplicação, da divisão ou da subtração. Você não passa de uma parte da Romênia. Essa fração está presa. O deslize, ou o crime, que é causa de sua prisão, pertence à categoria.” (página 220)

Extremamente atual, não é, leitor? Para a Sociedade Técnica nós, você, os outros, eu, somos meramente consumidores, uma categoria sem rostos ou identificações individuais. O tema é recorrente, basta nos lembrarmos de obras como O Videota, do polonês radicado nos Estados Unidos, Jerzy Kosinsky. O livro transformou-se em filme, roteirizado pelo próprio autor e se chamou, em português, Muito Além do Jardim, de 1979, com Peter Sellers no papel do personagem Chance. Ou, se quiser, pontos de contato com a série Matrix não são mera coincidência. E outra: você se lembra da fábula O Lobo e O Cordeiro, de Esopo? Ali também a culpa não é do indivíduo, mas da categoria cordeiro, presa do lobo predador.

E por que o estranho título do livro, A Vigésima Quinta Hora? Eis a explicação, dada por Traian Koruga, escritor do romance que é, ao mesmo tempo, título da obra de Virgil:

“- Pessoalmente, acredito que morreremos nos grilhões dos escravos técnicos. Meu romance acompanhará esse epílogo.

- Qual será o título?

- A 25ª Hora – disse Traian. – O momento em que toda tentativa de renovação é inútil. Nem o advento de um Messias resolveria alguma coisa. Não é sequer a última hora: é uma hora depois da última hora. O tempo preciso da Sociedade ocidental. É a hora atual. Exatamente agora.” (página 46)

Extraordinária obra, literatura de protesto, romance ideológico – escolha a classificação que melhor lhe aprouver, leitor, mas leia-o se puder. Evidentemente, é preciso ter estômago, pois, pouco a pouco nos sintonizamos com o personagem principal, Iohann Moritz, em sua completa incapacidade de entender o Absurdo Humano. Acompanhar as reflexões lúcidas colocadas na boca do intelectual Traian Koruga também não é nada digerível.

Entretanto, são livros assim – distópicos – que nos fazem tomar consciência do completo non sense em que vivemos e que, afinal, nós ajudamos a reproduzir.

GHEORGHIU, Constantin Virgil. A 25ª Hora. Editora Intrínseca, 1ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2014.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Novos Tempos, Novas Mídias

Após muito ler e escutar sobre livros digitais e os leitores de ebooks, como são conhecidos esses aparelhos próprios para a leitura dessa mídia, decidi que já era hora de ter contato com o mundo da literatura digital.

Há várias marcas no mercado e acredito que todas elas se equivalham; uma vantagenzinha aqui, outra vantagenzinha ali. Algumas coisas me chamaram a atenção: a possibilidade de carregar uma biblioteca inteira num pequeno aparelho, o acesso quase imediato ao produto que se quer ler, tecnicamente de qualquer parte do mundo (desde que se tenha um acesso wi-fi), a economia do espaço de armazenamento, a duração longa da bateria e, por fim, pelo menos teoricamente, o preço mais em conta dos livros.

A experiência tem se mostrado prazerosa. A tela, apesar de pequena (mais ou menos equivalente a uma página de um livro de bolso), é confortável; você pode aumentar o tamanho das letras com movimento dos dedos em pinça, abrindo-os. A minha versão tem iluminação noturna, uma verdadeira mão na roda.

Se você está pensando em como é cansativo ler por muito tempo numa tela de computador, esqueça. Os processos são diferentes. Num leitor de ebook, o texto é formado por e-ink, isto é, tinta eletrônica e aparece sobre uma tela opaca. A impressão é a mesma de se ler um livro “analógico”. Várias funções como marcar a página à qual se queira voltar, indicação de onde você parou a leitura, um cômodo dicionário já instalado, seleção de trechos para posterior referência, anotações, tudo é possível.

Existe já em português (e esta foi uma das minhas preocupações mais agudas) uma vasta disponibilidade de obras, que não para de crescer. Livros de estudo de várias áreas, literatura nacional, traduzida, Best-sellers e clássicos.

Como nem tudo são flores, os preços da maioria dos livros é muito salgada. Essa é uma política a ser revista, pois se a diferença entre a versão tradicional e a digital não compensar, o leitor fatalmente irá comprar a primeira. Não consigo entender qual seria o motivo sério para um ebook custar R$ 30,00 ou R$ 20,00 reais. O gasto para produzi-los é muito baixo, mesmo considerando-se os direitos autorais. Aliás, os tais direitos do autor são o que menos pesa em uma publicação – em ambiente físico ou digital.

É preciso ter paciência e pesquisar (aliás, hábito muito saudável na aquisição de qualquer produto). Tenho conseguido coisas interessantes a R$ 10,00, às vezes R$ 4,00.

Resumo da ópera: tenho feito uso intenso do meu leitor de ebooks. Nem por isso deixei de comprar livros comuns. Sempre há obras ainda não digitalizadas, importantes ou as quais desejo ler imediatamente, sem paciência de aguardar o lançamento alternativo. Mas o pequeno aparelho já faz parte da minha vida de leitor e não me arrependi de tê-lo comprado.

Na verdade, no início tive um pouco de receio, depois de ouvir tantas pessoas enaltecerem os livros físicos, que têm textura, cheiro, cor. Eu também tenho a cultura do objeto tradicional, mas lia muito na tela do computador. Afinal, são tempos novos, não? Ademais, o texto – o que realmente importa num livro – está integralmente ali, à mão, para o prazer da leitura.

De agora em diante, ao resenhar alguma obra, prometo deixar indicado se é uma versão digital.

sábado, 25 de outubro de 2014

O Leitor, de Bernhard Schlink

O autor tem um estilo objetivo, direto, quase sem uso de figuras de linguagem. Meu primeiro contato com essa obra se deu por intermédio do filme do mesmo nome. Estrelado por Kate Winslet e Ralph Fiennes, foi um dos indicados ao Oscar 2009; por ele, Kate Winslet ganhou o prêmio de melhor atriz principal.

Bernhard Schlink é professor de Direito e Filosofia na Universidade Humboldt desde 1996 . O Leitor foi o primeiro livro alemão a conquistar o primeiro lugar do New York Times. É também autor de outros Best Sellers, entre os quais, O Outro, igualmente filmado.

Michael Berg é um estudante de ensino médio, 15 anos, na Alemanha do pós-guerra. Um dia tem uma indisposição na rua e é socorrido por Hanna Schmidt, uma mulher 20 anos mais velha que ele. Com ela, Michael tem sua iniciação sexual. Ela nunca diz nada sobre o seu passado ou sobre sua vida. Aos poucos, o menino passa a frequentar a casa de Hanna e ela lhe pergunta sobre a escola. A partir desse momento, estabelece-se uma espécie de ritual entre os dois: ele lê para ela várias obras literárias, ela lhe dá banho e fazem amor. Pouca coisa ele sabe sobre ela: trabalha como cobradora em uma linha de bonde. Certa vez, fazem uma viagem de bicicleta, aceita pela família dele porque Berg, apesar de ter estado doente, consegue boas notas e passa no final do ano.

A viagem de bicicleta torna-os mais íntimos; ela se inscreve nas pensões como mãe dele, mas deixa que o jovem amante tome todas as providências quanto a preencher formulários, solicitar a comida nos restaurantes.

Depois, certo dia, Hanna recusa ser promovida à categoria de motorneira da companhia de bonde. Vai trabalhar na Siemens, empresa de comunicação. Neste período é que desaparece, sem deixar qualquer justificativa para Michael. Apesar disso, a presença dela estará sempre na cabeça do estudante.

Michael tem outros relacionamentos, como seria normal se esperar, mas não são duradouros; suas namoradas se queixam de que ele é muito razão e pouco coração. É um homem amargo. Enfim, seus estudos na faculdade direcionam-se para a área de direito. Fazendo estágio, ele volta a tomar contato com Hanna, após muito tempo. É que ele é designado como estagiário da faculdade e destacado para observar o julgamento de uma criminosa de guerra. A criminosa é precisamente Hanna. Ela participara de um destacamento de guerra alemão responsável pela guarda das prisioneiras de campos de concentração. É acusada por uma sobrevivente, de ter sido a mandante de várias execuções de prisioneiras, após tê-las obrigada a ler livros para ela.

Parece alheia ao processo, com atitudes que vão complicando cada vez mais o seu julgamento, irritando o promotor e o juiz. A certa altura, diz ter feito apenas o que mandaram-na fazer. Michael descobre o porquê de Hanna nunca ter comentado sobre sua vida, quando estavam juntos. Ela, então, tem de escolher entre revelar seu segredo e se defender, pelo menos parcialmente, da acusação de ser a autora de um relato do incêndio de uma igreja, no qual pereceram várias prisioneiras, ou calar-se e deixar o tribunal condená-la à prisão perpétua. Ela prefere arcar com a condenação, mesmo não tendo escrito o documento.

Michael Berg casa-se com Gertrud, ex-colega de faculdade e atuante na área de direito. Ela se torna juíza. Ele, entretanto, marcado pelo que assistiu no julgamento da sua antiga amante, foge daquela função e se especializa em História do Direito, realizando pesquisas. Têm uma filha, de nome Júlia. Pouco tempo depois, quando Júlia tinha cinco anos, Gertrud e Michael se divorciam. O relacionamento simplesmente havia chegado ao fim e a separação fora consensual.

Michael Berg, sempre preso à Hanna Schmidt e ao passado alemão da Segunda Guerra Mundial, que o envergonha e angustia, passa a remeter para sua ex-amante obras lidas e gravadas em fita cassete. Tal fato será extremamente importante na vida da prisioneira. O outro contato com a diretora do presídio acontece na semana em que Hanna finalmente obtém o indulto por bom comportamento e está para ser libertada. Michael a visita pela primeira vez; ela está velha, grisalha, mas mantém certo frescor. Conversam pouco e ele lhe diz ter-lhe arranjado um apartamento e um trabalho de costureira. 

Michael Borg diz, no final do livro, ter tido a necessidade de escrever a história vivida pelos dois como um meio de exorcizá-la, um meio de ficar livre dela:

“As camadas tectônicas de nossa vida descansam tão apertadas umas sobre as outras, que sempre encontramos o fato anterior no posterior, não como algo completo e realizado, mas como algo presente e vivo. Entendo isso. Todavia às vezes acho difícil suportar. Talvez eu tenha escrito a nossa história porque queria mesmo me ver livre dela, ainda que isso não seja possível.”

O Leitor não é exatamente “uma daquelas obras-primas para ser lidas antes de se morrer.” Entretanto, é uma história de boa qualidade, bem conduzida por um autor competente. Entrega ao chamado grande público um produto capaz de emocioná-lo e prender-lhe a atenção. Por isso mesmo tornou-se um Best-seller.

SCHLINK, Bernard. O Leitor. Editora Record, 3ª edição. São Paulo, SP: 2009

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Sobre a leitura no Brasil

A revista Língua do mês de agosto do ano corrente trouxe uma pequena matéria, às páginas 22, sobre os dados da Câmara Brasileira do Livro, concernentes aos hábitos dos leitores no Brasil.

Dos 90 milhões de pessoas letradas no nosso país - todas maiores de 15 anos - 14 milhões não leem nada. E não se está falando de analfabetos funcionais, isto é, aqueles que aprenderam somente a escrever/ler o próprio nome. Estamos falando de leitores com alguma proficiência.

Assustador, não?

Um terço do leitor da classe A admite ter total falta de prazer com o ato de ler e olha que esses fazem parte de nossa elite cultural. Um entre quatro indivíduos das classes AB dizem que não leem por preguiça ou impaciência. E a mesma relação, desta vez entre os de nível superior, afirma categoricamente não gostar de ler e nem ter pegado em qualquer livro após os 19 anos, se não tiver sido por obrigação (em geral, a pedido da escola ou por necessidade do emprego).

Daí decorre algo conhecido e já divulgado: a falta de leitura se reflete na dificuldade de produzir textos de qualquer gênero. Esta situação é claramente notada em sala de aula. Leciono em curso preparatório do ENEM em Betim e corrigir os textos argumentativos é tarefa quase impossível, embora eu tente.

São dois processamentos mentais diferentes, o da escrita e o da leitura. Entretanto, há uma imbricação entre ambos, pois não adianta nada alguém dominar todas as regras gramaticais (supondo-se tal feito ser mesmo possível a algum mortal) e não ter nada para dizer. Os textos escritos têm uma forma diferente de apresentar argumentos, no caso específico do gênero argumentativo, exigido pelos Exames Nacionais do Ensino Médio.

Há uma correlação entre bons leitores e bons escritores. Estes são ou foram bons leitores, embora a recíproca nem sempre seja verdadeira. É que fazer literatura depende de fatores muito mais complexos.

Entretanto, qualquer um pode escrever textos aceitáveis, com clareza de ideias, argumentação eficaz. É necessário treino, mas o hábito da leitura é fundamental. E por esse motivo, não se ensina a escrever com propriedade da noite para o dia; é um processo longo, que deveria ter sido construído ao longo de toda a vida escolar.

Mas, para dar um alento, na mesma revista Língua, lá nas páginas 61, noticia-se, na entrevista com o escritor de literatura infantojuvenil Alexandre de Castro Gomes. Ele nos diz que “O crescimento do setor é inegável. E vejo isso como um fenômeno mundial, não só na literatura. Bandas como They Might Be Giants estão gravando material infantil. Animações da Pixar e filmes de heróis estão entre os campeões de bilheteria.”

O Brasil tem 1.800 livrarias, espalhadas por todo o seu território; destas, 900 estão no estado de São Paulo. São 200 só na cidade paulistana; o Rio conta com umas 150. O Amapá e o Acre, porém, têm apenas 3 cada um.

No caso brasileiro, a proporção é de 1 livraria para cada 84.500 habitantes. Na Argentina, 1 para cada 50.000; os EUA têm 1 para cada 15 mil. Não é difícil chegar-se ao motivo de porque a tiragem de livros no Brasil, excetuando-se alguns casos ainda isolados, ser pífia.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cavalo de Troia vol. 4 – Nazaré, de J. J. Benítez

Jasão faz parte do grupo que acompanha Maria de Nazaré, passando pelo Lago de Tiberíades, em demanda da cidade de nascimento da mãe de Jesus. Já próximos de Caná, ocorre um acidente: Maria se afasta para colher lírios, seguida de Bartolomeu. De repente, o grupo assiste a um gesto violento do homem, que, com as duas mãos, desfere um golpe de espada, chegando a cravá-la no chão. Uma cobra peçonhenta, escondida entre os lírios, tinha picado a mão de Bartolomeu. Os conhecimentos medicinais de Jasão são requisitados, mas preso à regra da “não intomissão nos fatos do passado”, ele simplesmente não intervém, para a estranheza e animosidade de todos. Mais tarde, essa mesma disposição de não intervir no passado trará dissabores para o “grego”.

Entre várias peripécias, incômodos e cansaços, o grupo finalmente chega à Nazaré de Maria. Jasão conhece a casa simples onde morou o Mestre, observa ainda várias peças abandonadas na oficina de carpintaria onde Ele havia trabalhado.

O major prossegue em seu relato. Agora, nos fala que Jesus tivera oito irmãos, três mulheres e cinco homens: Mirian, Ruth, Tiago, Marta, José, Simão, Judas e Amon. Amon tinha morrido ainda novo. E prossegue, trazendo revelações sobre o obscuro período de Jesus, dos doze aos trinta anos (os evangelistas não são nada reveladores sobre esse decurso de tempo).

Com a morte de José, pai de adotivo de Jesus, o primogênito teve de assumir o papel de arrimo de família; às páginas 343, o major nos fala das profissões do messias:

“- … Meu filho tinha muitos e bons contatos e não era de estranhar que uma daquelas oficinas o admitisse a seu serviço.

Duro trabalho, por Deus! Se a memória não me traía, até esse ano 16 Jesus havia trabalhado como carpinteiro, ebanista de interiores, dono de um armazém de aprovisionamento de caravanas, forjador e, ocasionalmente, como lavrador, pescador no yam e mestre “particular” de seus irmãos. Todo um recorde que certamente não ficaria aí. E renovo a minha crítica: fraca contribuição dos evangelistas ao mostrar-nos um Filho de Deus basicamente carpinteiro. Em seu afã por conhecer e partilhar a existência humana, o Mestre foi desempenhando – às vezes sem o querer – um bom número de ofícios, cada qual mais fatigante e representativo.”

Uma excelente contextualização está presente às páginas 177, anotada pelo autor, J. J. Benítez, da qual resumo alguns trechos, para o melhor entendimento da inserção de Jesus na cultura da época:

Havia rumores sobre um ser especial, um “ungido” do Senhor, meshiah em aramaico e designado também pelo termo grego christos.Uma poderosa corrente de fervor desembocava nessa misteriosa figura, uma imensa esperança que, desde gerações e gerações, enchia o peito dos crentes. Essa esperança jamais foi tão viva, e tão premente a espera, como nesse período de tristeza e de surda angústia (Rops – autor de um alentado estudo – refere-se à submissão de Israel ao jugo de Roma)”. Na verdade, o povo de israel, sofrendo sob tal jugo, entendia que o enviado por Deus surgiria triunfante e forte; a poder de espada, humilharia Roma e imporia Israel como o Povo de Deus, contra o qual nenhuma afronta seria possível.

Particularmente interessante é o encontro de Jasão com Rebeca, uma bela moça, apaixonada pelo Mestre:

“E a senhora, levando as mãos da desconhecida a seu lábio, beijou-as com doçura. Depois, olhando para mim como para um menino, dirigiu-me um sorriso que começava nos seus olhos verdes e pronunciou um nome que lhe vinha não só dos lábios, mas também do coração:

- É Rebeca.

Não sei se empalideci ou me ruborizei. O caso é que fiquei mudo e, a julgar pelo espontâneo fogo cruzado das risadas das duas, minha cara deve ter-se aberto como um espelho.

- Jasão, é Rebeca – tornou Maria, sacudindo-se de riso. – Chegou esta manhã de Séforis…

Aquilo explicava também a saída intempestiva de Jacó do armazém.  A fiel apaixonada de Jesus havia sabido conquistar o afeto da família.”

Jasão, às vezes, se mostra muito ingênuo. Previsível, pois estudar sobre uma época não é, exatamente, vivê-la. Atraído por certo Ismael, um saduceu, a uma armadilha, não percebe o fato e termina em apuros. Esse Ismael é autoridade local, contrariado por Jasão em mais de uma oportunidade; inclusive, o saduceu tinha ordenado sua morte e se os assassinos contratados não fossem tão néscios, Jasão já estaria morto. O volume 4 termina exatamente com o major em apuros, com a narrativa construindo um “gancho” a ser deslindado no volume 5.

Mais uma vez, a polêmica faz parte da história, mas sempre se pode lê-la como mera narrativa de aventuras, ainda que tantas notas ao pé-de-página e tantas referências histórias, geográficas, culturais revelem um domínio absolutamente surpeendente, mesmo para um autor prolífico como Benítez.

J. J. Benítez. Cavalo de Troia, vol. 4. Edição s/n, revisada. 1ª reimpressão. Editora Planeta. São Paulo, SP: 2011.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Educação, Escola e Docência, de Mario Sergio Cortella

Mario Sergio Cortella nasceu em Londrina, Paraná, em 05 de março de 1954. É filósofo e escritor muito conhecido no Brasil, professor-titular da PUC-SP, tendo atuado na instituição por 35 anos, com mestrado e doutorado em Educação. Publicou, entre outros livros importantes, talvez os mais conhecidos do público em geral: Não Espere Pelo Epitáfio: provocações filosóficas; Não nascemos prontos!; Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética.

Este Educação, Escola e Docência - novos tempos, novas atitudes, é um pequeno grande livro. Com a leveza de texto que lhe é peculiar, bem como o bom humor e profundidade com que toca questões primordiais, Cortella nos dá, em 126 páginas, várias pérolas, produtos do seu refletir sobre o mundo e, especificamente, sobre a Educação.

O livro busca analisar o descompasso que existe entre a Escola e o mundo aqui fora. Nós, como sociedade, mudamos muito ao longo do século XX e deste princípio de XXI. A Escola continua lá nos idos do século XIX. Como mudamos nós?

Tornamo-nos mais apressados, mais superficiais, impacientes e com um ritmo diferente do da Escola. Hoje temos acesso a tecnologias interessantes, as informações são acessadas rapidamente pela internet, com seus mecanismos de busca de dados. Passamos a padecer do excesso de informação, pois como nos dizia Caetano Veloso, em Alegria, Alegria,  O sol nas bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça/Quem lê tanta notícia.

Analisando no texto introdutório a crise por que passamos, notadamente por que passa a Escola, o autor nos diz:

“Com a emergência de múltiplos paradigmas, precisamos lembrar que estamos vivendo, hoje, na Educação – não só nela, mas também nela –, momentos graves, em que há certo desnorteamento, uma alteração rápida das situações do nosso dia a dia, uma mudança muito veloz na maneira como as coisas são feitas, pensadas e comunicadas. Também o adensamento exagerado das pessoas nas metrópoles levou ao esvaimento e até à extinção de alguns valores que eram fortes em outros momentos da nossa história e que precisam ser resgatados.

Esses momentos graves significam, como sempre na história humana, a possibilidade de momentos grávidos. Sim, momentos graves são também momentos grávidos! Afinal de contas, toda situação grave contém uma gravidez, ou seja, a possibilidade de dar à luz uma nova situação. Só que, em Educação, muita gente enxerga só a gravidade do momento e não vê a gravidez que ele contém. E passa boa parte do tempo dizendo: “Eu queria voltar ao passado se pudesse”, “no meu tempo…”, recorrendo, portanto, a uma nostalgia muito negativa em relação àquilo que podemos, de fato, fazer em Educação.” (páginas 10/11)

A partir desta proposta, Cortella nos indica mudanças de ponto-de-vista, mudanças de atitudes. Os títulos dos capítulos são sugestivos A Emergência de Múltiplos Paradigmas, Entre a cautela e o ímpeto: escola em descompasso, E quanto a nós, docentes?, Estado de atenção e o desafio de mudar, etc.

Edgar Morin, antropólogo, filósofo e sociólogo nos alerta sobre o homem ser um produto 100% biológico e 100% cultural. Necessariamente, está nos dizendo que, qualquer análise do Homem terá de levar em conta esse dois componentes indissociáveis. Produzimos a cultura e somos igualmente afetados por ela, em todos os nossos pensamentos, em todas as nossas atitudes e valores.

O pós-modernismo liquidou praticamente com existência de apenas um paradigma e isto pode ser sentido ou visto mesmo fora do âmbito das Artes. Vivemos uma época pós-moderna, na qual as diferenças têm de conviver, nem sempre harmoniosamente, mas já não há somente uma tendência a se analisar. E o que resulta daí?

Se não podemos nos centrar em uma única escola literária, artística, ou qualquer outro objeto de estudo, servindo-nos de atitudes orientadas por apenas uma teoria de contornos rígidos, forçosamente temos de aprender a aprender. Aprender com o processo, já que em nenhum outro momento da história humana tal quantidade de paradigmas coexistentes se fez presente e, de quebra, nunca tivemos tantos fatos importantes com consequências planetárias. Daí a expressão de Mario Sergio, “momentos graves são também momentos grávidos”, ganhar tamanha preponderância: é, em última análise, o “aprender com o processo”.

Espero ter dado uma leve degustação do livro do Mario Sergio Cortella. Este Educação, Escola e Docência é um livro que não pode faltar na estante de atualização de qualquer professor. É leitura imprescindível, mais que isso: é reflexão imprescindível!

Mario Sergio Cortella. Educação, Escola e Docência. Cortez editora, s/ed. São Paulo, SP: 2014

domingo, 27 de julho de 2014

Existiu Outra Humanidade, de J. J. Benítez

Em Pamplona, Espanha, nasceu J. J. Benítez, em 1946. Formou-se na Universidade de Navarra; aos 26 anos, começou a fazer reportagens investigativas, pricipalmente sobre temas de mistério para a humanidade. Mais de cinquenta livros publicados, milhares de artigos e diversos documentários televisivos. É autor da série Cavalo de Troia, agora em 10 volumes, três deles resenhados neste blog.

Existiu outra humanidade é um livro polêmico. Mais um do autor. Depois de ter lido quatro livros da saga Cavalo de Troia (em breve, posto a resenha do quarto volume), nada mais me surpreende em termos de temas incandescentes do escritor espanhol. O presente livro não é um romance, nem mesmo um texto romanceado. Filia-se ao gênero textual reportagem.

Simplesmente, Benítez, dessa vez, destroi vários estudos consagrados, o suficiente para – calculo – os especistas dos assuntos envolvidos preferirem ver o diabo em pessoa pela frente.

J. J. havia sido enviado pelo jornal em que trabalhava, em 1974, ao Peru e teve a oportunidade de conhecer o Dr. Javier Cabrera Darquea e sua famosa biblioteca lítica (de pedra) e os desconcertantes segredos guardados nela. O museu particular fica em Ica e as pedras foram encontradas, em grande parte, no deserto de Ocucaje. Uma coleção de mais de onze mil pedras de variados tamanhos, contando o passado remoto da humanidade chamada por Cabrera de gliptolítica. Prepare-se o leitor para a série de revelações decifradas pelo Dr. Javier e divulgadas pelo repórter espanhol.

 De acordo com o livro, existiu uma humanidade, perdida na imemória do tempo e que agora ressucita pelas pedras, muito mais avançada em determinados pontos que a nossa. As pedras contêm vários desenhos contando a história de uma civilização que conhecia e praticava cirurgias complexas, como cesariana, transplantes de coração, de cérebro, contornados os problemas de rejeição do órgão implantado no corpo do receptor.

Dominavam a aviação, com um sistema de propulsão completamente diferente, sem combustíveis propelentes, podiam viajar pelo espaço cósmico, conheciam a fundo astronomia, o universo, os ciclos do nosso planeta, a cartografia, a fotogrametria eram ciências sem mistérios para eles.

E tome mais desvendamentos polêmicos: aqueles seres conviveram com os grandes dinossauros, tiranossauros – em resumo, com toda aquela fauna mostruosa que vemos reconstituídas em museus paleontológicos. Entretanto, a ciência oficial nos diz que nunca se encontraram os homens e os grandes répteis do planeta, por viverem em épocas distintas. Daí o leitor pode avaliar, as teses do Dr. Javier e a divulgação de Benítez são tachadas  de loucuras.

As pedras foram compradas pelo médico peruano de um tal Basilio Uchuya, camponês analfabeto. Mais tarde, sob pressão policial (é crime alguém apropriar-se de material arqueológico e vendê-los), o camponês disse ter sido ele mesmo a esculpir as figuras.

Benítez compra a tese do Dr. Darquea e elabora vários argumentos para defender a veracidade do material pesquisado. O médico tem a seu favor alguns pareceres de instituições respeitadas sobre o exame de material enviado: a Universidade de Bonn, Alemanha, Universidade de Engenharia de Lima, e, inclusive, a Seção de Minas da empresa Hchschild.

As coisas não ficam apenas por aí. Em várias pedras, nos diz Benítez, foram encontradas a comprovação cartográfica da existência dos continentes perdidos de Atlântidada e de Mu. Tais continentes sempre foram contestados pela maior parte dos cientistas. A Terra já teve três luas(?) – a atual e mais duas, bem menores. Essas foram atraídas e despencaram sobre o planeta, gerando uma modificação sem precedentes. Mu afundou em parte, o restante foi empurrado e formou o que é hoje a Ásia, deixando em seu caminho alguns vestígios, como a Ilha de Páscoa, a Polinésia. Quanto à Atlântida (cuja existência é também relatada no livro Timeu e Crítias, de Platão), ela também teria uma parte perdida no mar e a outra, em deriva, indo formar grande parte do que atualmente conhecemos por Europa.

Aquela humanidade seria de outro filum, isto é, eram diferentes em muitos aspectos de nós, não obstante guardarem semelhanças com os humanos do nosso filum. Essa palavra latinizada, de origem grega, na taxonomia biológica caracteriza grandes grupos os quais partilham certos aspectos evolutivos em comum (Wikipédia, 28/07/2014). Discorre o Dr. Cabrera, quando tais homens gliptolíticos previram a catástrofe que se abateria sobre o planeta, fugiram para as Plêiades, um aglomerado de estrelas da Constelação do Touro.

Um mapa múndi muito antigo, o do navegador turco Piri Reis é mencionado como prova do conhecimento muito antigo, passado de geração a geração. Realmente, o documento de Piri foi encontrado em 9 de novembro de 1929, quando o diretor dos Museus Nacionais da Turquia, Malil Edhem, tabalhava no inventário e classificação dos documentos do museu Topkapi de Instambul.

Tudo isso parece um desvairio só. Entretanto, outros pequisadores têm se debruçado sobre material diferente, em diferentes locais, e chegado a conclusões de que, realmente, tivemos contato com outras civilizações extraterrestres em algum ponto do nosso passado. O respeitadíssimo pesquisador Robert Temple tem um alentado estudo sobre o assunto em seu livro O Mistério de Sirius.

Para terminar, consultei a Wikipédia na data da publicação desta resenha e obtive a informação de que o Dr. Javier Cabrera Darquea morreu em 30/12/2001, de câncer.

É ler o livro para se inteirar de muito mais segredos revelados, se você, leitor, se interessa por temas polêmicos, sobretudo aqueles referentes a um passado nebuloso de nossa história humana não oficial.

J. J. Benítez. Existiu outra humanidade. Editora Planeta. São Paulo, SP: 2012.