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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cavalo de Troia vol. 4 – Nazaré, de J. J. Benítez

Jasão faz parte do grupo que acompanha Maria de Nazaré, passando pelo Lago de Tiberíades, em demanda da cidade de nascimento da mãe de Jesus. Já próximos de Caná, ocorre um acidente: Maria se afasta para colher lírios, seguida de Bartolomeu. De repente, o grupo assiste a um gesto violento do homem, que, com as duas mãos, desfere um golpe de espada, chegando a cravá-la no chão. Uma cobra peçonhenta, escondida entre os lírios, tinha picado a mão de Bartolomeu. Os conhecimentos medicinais de Jasão são requisitados, mas preso à regra da “não intomissão nos fatos do passado”, ele simplesmente não intervém, para a estranheza e animosidade de todos. Mais tarde, essa mesma disposição de não intervir no passado trará dissabores para o “grego”.

Entre várias peripécias, incômodos e cansaços, o grupo finalmente chega à Nazaré de Maria. Jasão conhece a casa simples onde morou o Mestre, observa ainda várias peças abandonadas na oficina de carpintaria onde Ele havia trabalhado.

O major prossegue em seu relato. Agora, nos fala que Jesus tivera oito irmãos, três mulheres e cinco homens: Mirian, Ruth, Tiago, Marta, José, Simão, Judas e Amon. Amon tinha morrido ainda novo. E prossegue, trazendo revelações sobre o obscuro período de Jesus, dos doze aos trinta anos (os evangelistas não são nada reveladores sobre esse decurso de tempo).

Com a morte de José, pai de adotivo de Jesus, o primogênito teve de assumir o papel de arrimo de família; às páginas 343, o major nos fala das profissões do messias:

“- … Meu filho tinha muitos e bons contatos e não era de estranhar que uma daquelas oficinas o admitisse a seu serviço.

Duro trabalho, por Deus! Se a memória não me traía, até esse ano 16 Jesus havia trabalhado como carpinteiro, ebanista de interiores, dono de um armazém de aprovisionamento de caravanas, forjador e, ocasionalmente, como lavrador, pescador no yam e mestre “particular” de seus irmãos. Todo um recorde que certamente não ficaria aí. E renovo a minha crítica: fraca contribuição dos evangelistas ao mostrar-nos um Filho de Deus basicamente carpinteiro. Em seu afã por conhecer e partilhar a existência humana, o Mestre foi desempenhando – às vezes sem o querer – um bom número de ofícios, cada qual mais fatigante e representativo.”

Uma excelente contextualização está presente às páginas 177, anotada pelo autor, J. J. Benítez, da qual resumo alguns trechos, para o melhor entendimento da inserção de Jesus na cultura da época:

Havia rumores sobre um ser especial, um “ungido” do Senhor, meshiah em aramaico e designado também pelo termo grego christos.Uma poderosa corrente de fervor desembocava nessa misteriosa figura, uma imensa esperança que, desde gerações e gerações, enchia o peito dos crentes. Essa esperança jamais foi tão viva, e tão premente a espera, como nesse período de tristeza e de surda angústia (Rops – autor de um alentado estudo – refere-se à submissão de Israel ao jugo de Roma)”. Na verdade, o povo de israel, sofrendo sob tal jugo, entendia que o enviado por Deus surgiria triunfante e forte; a poder de espada, humilharia Roma e imporia Israel como o Povo de Deus, contra o qual nenhuma afronta seria possível.

Particularmente interessante é o encontro de Jasão com Rebeca, uma bela moça, apaixonada pelo Mestre:

“E a senhora, levando as mãos da desconhecida a seu lábio, beijou-as com doçura. Depois, olhando para mim como para um menino, dirigiu-me um sorriso que começava nos seus olhos verdes e pronunciou um nome que lhe vinha não só dos lábios, mas também do coração:

- É Rebeca.

Não sei se empalideci ou me ruborizei. O caso é que fiquei mudo e, a julgar pelo espontâneo fogo cruzado das risadas das duas, minha cara deve ter-se aberto como um espelho.

- Jasão, é Rebeca – tornou Maria, sacudindo-se de riso. – Chegou esta manhã de Séforis…

Aquilo explicava também a saída intempestiva de Jacó do armazém.  A fiel apaixonada de Jesus havia sabido conquistar o afeto da família.”

Jasão, às vezes, se mostra muito ingênuo. Previsível, pois estudar sobre uma época não é, exatamente, vivê-la. Atraído por certo Ismael, um saduceu, a uma armadilha, não percebe o fato e termina em apuros. Esse Ismael é autoridade local, contrariado por Jasão em mais de uma oportunidade; inclusive, o saduceu tinha ordenado sua morte e se os assassinos contratados não fossem tão néscios, Jasão já estaria morto. O volume 4 termina exatamente com o major em apuros, com a narrativa construindo um “gancho” a ser deslindado no volume 5.

Mais uma vez, a polêmica faz parte da história, mas sempre se pode lê-la como mera narrativa de aventuras, ainda que tantas notas ao pé-de-página e tantas referências histórias, geográficas, culturais revelem um domínio absolutamente surpeendente, mesmo para um autor prolífico como Benítez.

J. J. Benítez. Cavalo de Troia, vol. 4. Edição s/n, revisada. 1ª reimpressão. Editora Planeta. São Paulo, SP: 2011.