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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Vigésima Quinta Hora, de C. Virgil Gheorghiu

Constantin Virgil Gheorghiu não é um nome muito conhecido do grande público no Brasil. Assim, deixemos falar a biografia do autor, retirada diretamente da Wikipédia:

“Virgil Gheorghiu nasceu em Valea Alba, uma vila no Războieni Comuna, condado de Neamt, na Romênia, [em 15/09/1916]. Seu pai era um padre ortodoxo em Petricani . Um estudante dos mais brilhantes, ele cursou o ensino médio em Chişinău de 1928 a junho de 1936, após o que ele estudou filosofia e teologia na Universidade de Bucareste e no Universidade de Heidelberg .

Entre 1942 e 1943, durante o regime do general Ion Antonescu , atuou no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Roménia como secretário da embaixada. Ele foi para o exílio quando tropas soviéticas entraram na Romênia em 1944. Preso no final da II Guerra Mundial pelas tropas americanas, ele finalmente se estabeleceu na França em 1948. Um ano depois, ele publicou o romance Ora 25 (em francês: La vingt-cinquième heure; em Inglês: A Vigésima Quinta Hora ), escrito durante seu cativeiro.

Gheorghiu foi ordenado sacerdote da Igreja Ortodoxa Romena em Paris, em 23 de maio de 1963. Em 1966, o Patriarca Justiniano concedeu-lhe a cruz do Patriarcado romeno por suas atividades litúrgicas e literárias. [Morreu em 22/06/1992, em Paris, França.] Ele está enterrado no Cemitério Passy , em Paris.”

Na verdade, tomei contato com este autor por intermédio do seu livro O Homem Que Viajou Sozinho, tendo também como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. E pelo menos por três motivos claros – primeiro, gosto do autor – segundo, amo a literatura – terceiro, O Homem Que Viajou Sozinho tem um valor fortemente sentimental para mim – vou falar um pouco sobre minha experiência com a obra citada acima.

Havia lido em minha adolescência um exemplar da obra, velho, desgastado, amarelado e sem capa, que me fora emprestado por uma colega de sala de aula. O drama do personagem Traian Matisi marcou-me profundamente, talvez por se passar dentro de um cenário de guerra mundial – não lera, ainda, livros cuja ação se desenrolasse nesse ambiente.

Muitos anos se passaram, mas quando vi numa vitrine de livraria, em uma capa verde, editada pela Betrand Brasil, exatamente aquela obra lida nos anos adolescentes, comprei-a imediatamente. Relê-la, passado tanto tempo, foi uma experiência nova, apesar de já conhecê-la. É que, livros compulsados nos recuos dos anos, quando revisitados em idade mais madura, resultam em visões diferentes do mesmo produto cultural. Portanto, eu tenho com o autor  um “relacionamento” – diria – afetivo mesmo.

A Vigésima Quinta Hora é uma obra extraordinária. Costumo fazer notações a lápis na folha de rosto, enquanto vou lendo e a deste volume está muito anotada. Existem no livro personagens  dos quais não nos esquecemos facilmente.

Iohann Moritz é um camponês romeno, cuja ingenuidade tem algo de pureza e, ao mesmo tempo, de estranheza diante de como o mundo funciona. Denunciado, certa feita, como judeu (sem o ser, verdadeiramente) por um gendarme local que lhe deseja a esposa, Suzanna, ele se vê enredado pela máquina de guerra, caindo em mãos nazistas.  Inicia-se aí uma “peregrinação” por vários campos de concentração.

Foge para a Hungria, com outros detentos, é preso como espião romeno e torturado. Segue preso para a Alemanha, sob a condição de “trabalhador húngaro voluntário”. Não se esquece de Suzanna, de sua aldeia Fôntâna e da vida tranquila; nunca desejou muito, apenas uma casinha onde pudesse viver com sua família, umas terras em que trabalhar e se manter.

De modo completamente inesperado, é identificado pelo coronel Müller, estudioso das questões antropológicas (leia-se cientista influenciado pelos ideais de raça pura, de Hitler) como um exemplar de um grupo germânico valorizado:

“Pela conformação do crânio e o molde da ossatura frontal, nasal e facial, pela estrutura do esqueleto e, especialmente, da caixa torácica e a posição das clavículas, o indivíduo pertence a um grupo germânico que vive atualmente em pequeno número no vale do Reno, em Luxemburgo, na Transilvânia e na Austrália. (…) A “Família Heroica”, de que faz parte o rapaz que se encontra diante de seus olhos, demonstrou suficientemente a tenacidade do instinto de conservação de nossa raça.” (página 157)

Assim, Iohann passa de judeu a “trabalhador húngaro voluntário” e daí a um exemplar valorizado da “família heroica” sem entender, exatamente, o porquê disso tudo.

Outros personagens vão compor a história: Eleonora West, editora e dona do jornal mais importante da Romênia; Alexandru Koruga, um padre ortodoxo da aldeia de Fôntâna, combativo e extremamente íntegro; Traian Koruga, filho de Alexandru e intelectual. Aliás, Traian é romancista, amigo de Moritz e sua voz narra a história. Como foi dito na orelha do livro, “numa espécie de livro dentro do livro.”

Este é um romance com uma ideologia. Libelo não só contra o nazismo, mas contra qualquer forma de totalitarismo – seja ele de esquerda ou de direita, Gheorghiu instaura, por meio de sua obra dilacerada e dilacerante – o que ele classifica como “sociedade técnica”:

“[os americanos]  jamais se darão conta de que existimos – diz Traian. – A civilização ocidental em sua última fase de progresso não tem mais consciência do indivíduo. E nada nos permite esperar que o faça algum dia. Essa Sociedade  só conhece determinadas dimensões do indivíduo. O homem integral, tomado individualmente, não existe mais para ela. Você, Eleonora West, que continua na prisão, embora não seja culpada, eu e muitos outros, não existimos para eles. Pura e simplesmente, não somos. Existimos apenas como frações infinitesimais de uma categoria. Você, por exemplo, não passa de uma cidadã inimiga, presa em território alemão. É o máximo de informações características que a Sociedade Técnica ocidental é capaz de assimilar. Isso é tudo que pode representá-la aos seus olhos. Ela só a reconhece graças a esses traços distintivos e a trata, consequentemente,  junto ao grupo ao qual você pertence, de acordo com as regras da multiplicação, da divisão ou da subtração. Você não passa de uma parte da Romênia. Essa fração está presa. O deslize, ou o crime, que é causa de sua prisão, pertence à categoria.” (página 220)

Extremamente atual, não é, leitor? Para a Sociedade Técnica nós, você, os outros, eu, somos meramente consumidores, uma categoria sem rostos ou identificações individuais. O tema é recorrente, basta nos lembrarmos de obras como O Videota, do polonês radicado nos Estados Unidos, Jerzy Kosinsky. O livro transformou-se em filme, roteirizado pelo próprio autor e se chamou, em português, Muito Além do Jardim, de 1979, com Peter Sellers no papel do personagem Chance. Ou, se quiser, pontos de contato com a série Matrix não são mera coincidência. E outra: você se lembra da fábula O Lobo e O Cordeiro, de Esopo? Ali também a culpa não é do indivíduo, mas da categoria cordeiro, presa do lobo predador.

E por que o estranho título do livro, A Vigésima Quinta Hora? Eis a explicação, dada por Traian Koruga, escritor do romance que é, ao mesmo tempo, título da obra de Virgil:

“- Pessoalmente, acredito que morreremos nos grilhões dos escravos técnicos. Meu romance acompanhará esse epílogo.

- Qual será o título?

- A 25ª Hora – disse Traian. – O momento em que toda tentativa de renovação é inútil. Nem o advento de um Messias resolveria alguma coisa. Não é sequer a última hora: é uma hora depois da última hora. O tempo preciso da Sociedade ocidental. É a hora atual. Exatamente agora.” (página 46)

Extraordinária obra, literatura de protesto, romance ideológico – escolha a classificação que melhor lhe aprouver, leitor, mas leia-o se puder. Evidentemente, é preciso ter estômago, pois, pouco a pouco nos sintonizamos com o personagem principal, Iohann Moritz, em sua completa incapacidade de entender o Absurdo Humano. Acompanhar as reflexões lúcidas colocadas na boca do intelectual Traian Koruga também não é nada digerível.

Entretanto, são livros assim – distópicos – que nos fazem tomar consciência do completo non sense em que vivemos e que, afinal, nós ajudamos a reproduzir.

GHEORGHIU, Constantin Virgil. A 25ª Hora. Editora Intrínseca, 1ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2014.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Novos Tempos, Novas Mídias

Após muito ler e escutar sobre livros digitais e os leitores de ebooks, como são conhecidos esses aparelhos próprios para a leitura dessa mídia, decidi que já era hora de ter contato com o mundo da literatura digital.

Há várias marcas no mercado e acredito que todas elas se equivalham; uma vantagenzinha aqui, outra vantagenzinha ali. Algumas coisas me chamaram a atenção: a possibilidade de carregar uma biblioteca inteira num pequeno aparelho, o acesso quase imediato ao produto que se quer ler, tecnicamente de qualquer parte do mundo (desde que se tenha um acesso wi-fi), a economia do espaço de armazenamento, a duração longa da bateria e, por fim, pelo menos teoricamente, o preço mais em conta dos livros.

A experiência tem se mostrado prazerosa. A tela, apesar de pequena (mais ou menos equivalente a uma página de um livro de bolso), é confortável; você pode aumentar o tamanho das letras com movimento dos dedos em pinça, abrindo-os. A minha versão tem iluminação noturna, uma verdadeira mão na roda.

Se você está pensando em como é cansativo ler por muito tempo numa tela de computador, esqueça. Os processos são diferentes. Num leitor de ebook, o texto é formado por e-ink, isto é, tinta eletrônica e aparece sobre uma tela opaca. A impressão é a mesma de se ler um livro “analógico”. Várias funções como marcar a página à qual se queira voltar, indicação de onde você parou a leitura, um cômodo dicionário já instalado, seleção de trechos para posterior referência, anotações, tudo é possível.

Existe já em português (e esta foi uma das minhas preocupações mais agudas) uma vasta disponibilidade de obras, que não para de crescer. Livros de estudo de várias áreas, literatura nacional, traduzida, Best-sellers e clássicos.

Como nem tudo são flores, os preços da maioria dos livros é muito salgada. Essa é uma política a ser revista, pois se a diferença entre a versão tradicional e a digital não compensar, o leitor fatalmente irá comprar a primeira. Não consigo entender qual seria o motivo sério para um ebook custar R$ 30,00 ou R$ 20,00 reais. O gasto para produzi-los é muito baixo, mesmo considerando-se os direitos autorais. Aliás, os tais direitos do autor são o que menos pesa em uma publicação – em ambiente físico ou digital.

É preciso ter paciência e pesquisar (aliás, hábito muito saudável na aquisição de qualquer produto). Tenho conseguido coisas interessantes a R$ 10,00, às vezes R$ 4,00.

Resumo da ópera: tenho feito uso intenso do meu leitor de ebooks. Nem por isso deixei de comprar livros comuns. Sempre há obras ainda não digitalizadas, importantes ou as quais desejo ler imediatamente, sem paciência de aguardar o lançamento alternativo. Mas o pequeno aparelho já faz parte da minha vida de leitor e não me arrependi de tê-lo comprado.

Na verdade, no início tive um pouco de receio, depois de ouvir tantas pessoas enaltecerem os livros físicos, que têm textura, cheiro, cor. Eu também tenho a cultura do objeto tradicional, mas lia muito na tela do computador. Afinal, são tempos novos, não? Ademais, o texto – o que realmente importa num livro – está integralmente ali, à mão, para o prazer da leitura.

De agora em diante, ao resenhar alguma obra, prometo deixar indicado se é uma versão digital.

sábado, 25 de outubro de 2014

O Leitor, de Bernhard Schlink

O autor tem um estilo objetivo, direto, quase sem uso de figuras de linguagem. Meu primeiro contato com essa obra se deu por intermédio do filme do mesmo nome. Estrelado por Kate Winslet e Ralph Fiennes, foi um dos indicados ao Oscar 2009; por ele, Kate Winslet ganhou o prêmio de melhor atriz principal.

Bernhard Schlink é professor de Direito e Filosofia na Universidade Humboldt desde 1996 . O Leitor foi o primeiro livro alemão a conquistar o primeiro lugar do New York Times. É também autor de outros Best Sellers, entre os quais, O Outro, igualmente filmado.

Michael Berg é um estudante de ensino médio, 15 anos, na Alemanha do pós-guerra. Um dia tem uma indisposição na rua e é socorrido por Hanna Schmidt, uma mulher 20 anos mais velha que ele. Com ela, Michael tem sua iniciação sexual. Ela nunca diz nada sobre o seu passado ou sobre sua vida. Aos poucos, o menino passa a frequentar a casa de Hanna e ela lhe pergunta sobre a escola. A partir desse momento, estabelece-se uma espécie de ritual entre os dois: ele lê para ela várias obras literárias, ela lhe dá banho e fazem amor. Pouca coisa ele sabe sobre ela: trabalha como cobradora em uma linha de bonde. Certa vez, fazem uma viagem de bicicleta, aceita pela família dele porque Berg, apesar de ter estado doente, consegue boas notas e passa no final do ano.

A viagem de bicicleta torna-os mais íntimos; ela se inscreve nas pensões como mãe dele, mas deixa que o jovem amante tome todas as providências quanto a preencher formulários, solicitar a comida nos restaurantes.

Depois, certo dia, Hanna recusa ser promovida à categoria de motorneira da companhia de bonde. Vai trabalhar na Siemens, empresa de comunicação. Neste período é que desaparece, sem deixar qualquer justificativa para Michael. Apesar disso, a presença dela estará sempre na cabeça do estudante.

Michael tem outros relacionamentos, como seria normal se esperar, mas não são duradouros; suas namoradas se queixam de que ele é muito razão e pouco coração. É um homem amargo. Enfim, seus estudos na faculdade direcionam-se para a área de direito. Fazendo estágio, ele volta a tomar contato com Hanna, após muito tempo. É que ele é designado como estagiário da faculdade e destacado para observar o julgamento de uma criminosa de guerra. A criminosa é precisamente Hanna. Ela participara de um destacamento de guerra alemão responsável pela guarda das prisioneiras de campos de concentração. É acusada por uma sobrevivente, de ter sido a mandante de várias execuções de prisioneiras, após tê-las obrigada a ler livros para ela.

Parece alheia ao processo, com atitudes que vão complicando cada vez mais o seu julgamento, irritando o promotor e o juiz. A certa altura, diz ter feito apenas o que mandaram-na fazer. Michael descobre o porquê de Hanna nunca ter comentado sobre sua vida, quando estavam juntos. Ela, então, tem de escolher entre revelar seu segredo e se defender, pelo menos parcialmente, da acusação de ser a autora de um relato do incêndio de uma igreja, no qual pereceram várias prisioneiras, ou calar-se e deixar o tribunal condená-la à prisão perpétua. Ela prefere arcar com a condenação, mesmo não tendo escrito o documento.

Michael Berg casa-se com Gertrud, ex-colega de faculdade e atuante na área de direito. Ela se torna juíza. Ele, entretanto, marcado pelo que assistiu no julgamento da sua antiga amante, foge daquela função e se especializa em História do Direito, realizando pesquisas. Têm uma filha, de nome Júlia. Pouco tempo depois, quando Júlia tinha cinco anos, Gertrud e Michael se divorciam. O relacionamento simplesmente havia chegado ao fim e a separação fora consensual.

Michael Berg, sempre preso à Hanna Schmidt e ao passado alemão da Segunda Guerra Mundial, que o envergonha e angustia, passa a remeter para sua ex-amante obras lidas e gravadas em fita cassete. Tal fato será extremamente importante na vida da prisioneira. O outro contato com a diretora do presídio acontece na semana em que Hanna finalmente obtém o indulto por bom comportamento e está para ser libertada. Michael a visita pela primeira vez; ela está velha, grisalha, mas mantém certo frescor. Conversam pouco e ele lhe diz ter-lhe arranjado um apartamento e um trabalho de costureira. 

Michael Borg diz, no final do livro, ter tido a necessidade de escrever a história vivida pelos dois como um meio de exorcizá-la, um meio de ficar livre dela:

“As camadas tectônicas de nossa vida descansam tão apertadas umas sobre as outras, que sempre encontramos o fato anterior no posterior, não como algo completo e realizado, mas como algo presente e vivo. Entendo isso. Todavia às vezes acho difícil suportar. Talvez eu tenha escrito a nossa história porque queria mesmo me ver livre dela, ainda que isso não seja possível.”

O Leitor não é exatamente “uma daquelas obras-primas para ser lidas antes de se morrer.” Entretanto, é uma história de boa qualidade, bem conduzida por um autor competente. Entrega ao chamado grande público um produto capaz de emocioná-lo e prender-lhe a atenção. Por isso mesmo tornou-se um Best-seller.

SCHLINK, Bernard. O Leitor. Editora Record, 3ª edição. São Paulo, SP: 2009