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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Stoner, de John Williams

Resultado de imagem para livro StonerJohn Edward Williams nasceu em 1922, em Clarksville, um povoado no interior do Texas. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial, na China, na Birmânia e na Índia. Recebeu o bacharelado em Literatura Inglesa na Universidade de Denver e o doutorado na Universidade do Missouri, em 1954. Voltou para Denver no mesmo ano, onde trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa até sua aposentadoria, em 1985. Faleceu em 04/03/1994. De sua autoria, ainda temos Nothing but the night, Butcher’s Crossing e Augustus.

Durante a leitura deste livro, vieram-me à memória três outros livros. Coração Frágil, de Dostoiévski, Bartleby, O Escriturário, de Herman Melville e A Fera na Selva, de Henry James. O que haveria de comum entre narrativas tão diferentes? Em Coração Frágil, temos um Vássia Chumkov extremamente feliz que, por isso mesmo, começa a se questionar sobre o merecimento dessa mesma felicidade e, por isso, sofre. Já em Bartleby, O Escriturário, o personagem que dá título ao livro é completamente anódino; repete o tempo todo “melhor não”, recusando-se a fazer o que lhe pedem. A Fera na Selva nos conta sobre um casal, John Marcher e May Bartram; eles passam a vida toda esperando algo, pois John tem a nítida impressão de algo extraordinário estar reservado a eles. No entanto, esse algo extraordinário não vem. De quebra, ainda podemos incluir a excelente peça de Samuel Beckett, Esperando Godot. Stragon e Vladimir levam a peça toda esperando o tal Godot; ele não aparece. Qual elemento em comum meu subconsciente teria construído como ponte entre tais obras? Após pensar um pouco, o que me fica patente entre elas e esse Stoner é a inadequação para a felicidade, o absurdo da vida, o tédio dos dias sempre planos e iguais.

Stoner, de John Williams, é extraordinário. O parágrafo que abre a história é um enorme spoiler:

“William Stoner entrou na Universidade do Missouri como calouro no ano de 1910 com a idade de 19 anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, recebeu o diploma de doutorado e assumiu um cargo na mesma universidade, onde lecionou até sua morte, em 1956. Nunca subiu na carreira cima da posição de professor assistente, e poucos estudantes se lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas. Quando morreu, seus colegas doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. Esse manuscrito ainda pode ser encontrado no “Acervo de Livros Raros”, com a seguinte inscrição: “Doado à Biblioteca da Universidade do Missouri. Em memória de William Stoner, departamento de Inglês, por seus colegas.” (página 7)

Como pode um autor, depois de entregar o enredo da narrativa em poucas linhas, manter nossa atenção leitora por 306 páginas? A vida de Stoner é um monstruoso lugar-comum, cheio de dramas miúdos. Alguns leitores do livro o consideraram obra irregular, exatamente porque, em alguns pontos, a narrativa seja assim tão sem novidades. Não é, evidentemente, uma verdade absoluta: continuamos lendo sobre a vida de Stoner, pois mesmo de posse do spoiler inicial, tentamos entender sua atitude, sua quase completa apatia.

Certas obras se notabilizam pelo enredo bem trabalhado, cheio de reviravoltas; outras, terão seu ponto forte na caracterização dos personagens, ativos, verdadeiros heróis em sua luta para se afirmar ou vencer os infortúnios. Ainda outras serão notáveis pela recriação da linguagem, pelo belo polimento frasal.

A prosa de John Williams, nesse seu Stoner, não é nada disso. Não há trama repleta de imprevisto; ao contrário, ela é completamente previsível. A linguagem é simples e direta, sem apelos ao beletrismo ou sem concessões a belas construções frasais. E aqui reside a genialidade do autor: trabalhou forte a dimensão interna do personagem. Seus problemas são lugares-comuns; sofre calado por dificuldades solucionáveis por ele mesmo. Não obstante,  não consegue reagir e disso vem não só sua densidade dramática, como também a simpatia do leitor. Torcemos pelo protagonista, angustiamo-nos com sua tristeza, desejamos compreender-lhe a alma.

O que nos rouba a atenção e a vontade de seguir William Stoner é uma identificação dele com a maioria de nós mesmos, seres quase anônimos dentro da sociedade. Já se disse, a História é a história dos grandes homens – reis, guerreiros notáveis – mas é construída pela contribuição dos pequenos e anônimos soldados rasos e guerreiros sem nome. É impróprio enquadrar Stoner como herói ou anti-herói. Talvez a melhor definição seja a que escutei, “Stoner é um coadjuvante de si mesmo”.

Essa obra admirável foi lançada em 1965 nos Estados Unidos, vendeu 2.000 cópias e caiu no esquecimento do grande público, embora mesmo esgotado, continuasse sendo comentado por poucos.

Um artigo do escritor irlandês Colum McCann sobre o livro, publicado no jornal The Guardian, em 2006, começou a resgatar a obra esquecida. A autora francesa de best-sellers,  Anna Gavalda, se interessou pela obra e solicitou traduzi-la. Saiu na versão francesa em 2011. Foi republicado em inglês e ganhou pareceres entusiasmados de outros escritores, do porte de Ian McEwan, Julian Barnes, Enrique Vila-Matas e do ator Tom Hanks.  Resultado:  John Williams fez enorme sucesso na Europa, em 2013, após 50 anos da primeira edição.

Aqui no Brasil, a segunda edição é de 2015 e saiu pela pequena e iniciante Rádio Londres. A primeira teve problemas sérios de revisão, devidamente superados nessa atual, à qual também se ajuntou um posfácio de Peter Cameron. A editora promete, ainda, o lançamento de Butcher’s Crossing, do mesmo autor, para o segundo semestre desse ano.

Provavelmente, se o livro tivesse chegado às minhas mãos na adolescência, eu não o apreciaria como agora; a falta de reação de Stoner o teria condenado a um lugar qualquer na estante. Há realmente “um clima de tristeza sutil”, como está colocado na quarta capa da obra, reproduzindo as impressões de Julian Barnes.

É patente o clima de desesperança, de inadequação diante do absurdo da vida social. O personagem principal reproduz o modo como fora criado, deixando-se levar pelos fatos, pela força do meio. Não se insurge, não se queixa; quase não é muito afirmar que mesmo ele não se importa. Sua paixão pela literatura é algo tocante, talvez seja o que o mantenha vivo; o triste e belíssimo final da obra evidencia essa opção que, de início, não era a sua, mas que foi abraçada com profunda dedicação.

E eis o surgimento de outra nuance da obra: o autor instaura um narrador em estado de contida compaixão pelo personagem Stoner e sua vida difícil; compreende o sofrimento dele, é quase cúmplice da sua falta de vontade de forjar sua vida.

Se fosse vincular a obra a uma palavra apenas, escolheria “compaixão”.

William Stoner vivia com seus pais, numa pequena fazenda no centro do Missouri. Ele nascera em 1891 e desde criança ajudava os pais nos afazeres típicos:

“Desde que se entendia por gente, William Stoner teve seus deveres. Aos 6 anos, ordenhava as vacas magras, alimentava os porcos no chiqueiro a uns poucos metros da casa e coletava os pequenos ovos de galinhas magrelas. E, mesmo quando começou a frequentar a escola rural a 13 quilômetros da fazenda, seu dia, desde antes do amanhecer até depois do anoitecer, era repleto de incumbências, de um ou outro tipo. Aos 17 anos, seus ombros já estavam começando a se encurvar sob o fardo de suas tarefas.” (página 8)

É mandado estudar Ciências Agrárias na Universidade de Columbia. Ele vai prestar serviço na casa dos Foote, a troco de um lugar para dormir e o que comer:

“Foi alojado no andar de cima, que outrora fora um depósito. Sua única mobília era um catre de ferro preto com o estrado vergado sustentando um ralo colchão de penas, uma mesa quebrada em cima da qual apoiava um lampião de querosene, uma cadeira que ficava bamba no chão e um caixote enorme que ele usava como escrivaninha. No inverno o único aquecimento que ele tinha era o que se infiltrava pelo chão dos quartos lá embaixo. Stoner se embrulhava o melhor que podia nas colchas e nos cobertores puídos e soprava nas mãos para poder virar as páginas de seus livros sem rasgá-las.” (páginas 13-14)

No segundo ano do sua vida escolar, ele conhece o professor Archer Sloane, durante um curso sobre Literatura Inglesa. Uma pergunta instigante é feita a ele pelo professor, ao lhe pedir a interpretação de um poema de Shakespeare: “O Sr. Shakespeare está lhe falando de trezentos anos atrás, Sr. Stoner, você pode ouvi-lo?”

Ele, então, muda de curso. Não irá mais estudar Ciências Agrárias, mas Língua Inglesa e Literatura. Seus pais aceitam a mudança, dizendo “nós nos viramos”. E, quando ele lhes comunica, um pouco constrangido, ter decidido não voltar mais à fazenda, ele escuta dos pais o mesmo “nós nos viramos”.

O professor Archer tem com Stoner uma conversa importante, definidora do seu encaminhamento profissional:

“Sloane se inclinou até seu rosto ficar bem perto. Stoner viu as rugas do rosto magro e comprido se suavizarem, e ouviu a voz seca e zombeteira tornar-se gentil e desguarnecida.

“Mas você não entendeu, Sr. Stoner?”, perguntou Sloane. “Você ainda não entendeu mesmo? Você vai ser professor.” (página 26)

E assim, Stoner torna-se professor. Na universidade, faz amizade com David Masters e Gordon Finch. Explode a Primeira Guerra Mundial e os dois amigos resolvem se alistar; William não participa da guerra e continua seus estudos. Termina o bacharelado e preenche os requisitos para seu doutorado na primavera de 1918 e o termina em julho do mesmo ano. Aceita emprego na mesma universidade onde estudara. Recebe uma carta de Gordon, dizendo-lhe haver passado nas provas da Escola de Treinamento de Oficiais. Comunica, também, a morte do amigo David em Châteu-Thierry.

Em uma festa, Stoner conhece a jovem Edith:

“No fundo da sala, outra porta levava a uma sala menor, adjacente ao comprido e estreito salão de jantar. As portas duplas do salão estavam abertas, revelando uma vasta mesa de nogueira coberta com damasco amarelo e repleta de pratos brancos e tigelas de prata reluzente. Várias pessoas estavam reunidas em volta da mesa, em cuja cabeceira uma jovem mulher, alta, esguia e bela, com um vestido de seda azul aguado, estava de pé servindo chá em xícaras de bordas douradas. Stoner deteve-se na soleira, capturado por aquela visão. A jovem tinha um rosto longo e delicado e sorria para os outros em volta, e seus dedos esguios, quase frágeis, manuseavam habilmente bule e xícaras. Olhando para ela, Stoner foi assaltado pela consciência de sua própria falta de jeito.” (página 55)

Casam-se algum tempo depois e vão viver num pequeno apartamento alugado, perto da universidade. O relacionamento dos dois tem as dificuldades de adaptação comuns. Mas, aos poucos vai ficando claro para o nosso personagem que os problemas do início se agravarão, mesmo depois de terem uma filha, Grace, a quem Stoner dedica sua afeição.

Chega à universidade outro professor, um especialista no século XIX, Hollis N. Lomax:

“Durante o resto do verão, Lomax permaneceu uma figura misteriosa e objeto de especulação para os membros permanentes do corpo docente. Os ensaios que ele publicara foram desencavados, lidos e passados de mão em mão, ganhando uma prudente aprovação.” (páginas 101-102)

Os problemas do personagem principal se agravam a partir do momento em que ele aceita Charles Walker, queridinho do professor Lomax, em um de seus seminários. E nesse mesmo seminário, o professor William tem contato com uma estudante, professora de ensino médio, Katherine Driscoll:

“E assim ele teve o seu caso de amor.

A consciência desse seu sentimento por Katherine Driscoll lhe veio lentamente. Surpreendia-se procurando desculpas para ir até o apartamento dela durante as tardes: o título de um livro ou de um artigo lhe ocorreria, ele os anotaria e deliberadamente evitaria encontrá-la nos corredores do Jesse Hall para poder visitá-la à tarde e entregá-los pessoalmente, tomar café e conversar.” (páginas 207-208)

Chega a Segunda Guerra Mundial. Novamente, o campus da universidade se torna menos movimentado, pelo recrutamento de jovens. Stoner se lembra de seu amigo David Master, morto na primeira. Sua querida Grace se casa grávida.

Stoner, de John Williams é um romance belíssimo. Como vimos, sua escrita é objetiva, direta, sem volteios. Entretanto, isso não impede o autor de escrever momentos de poesia, como no trecho com que vou fechar essa resenha, já longa:

“Pouco lhe importava que o livro estivesse esquecido e não servisse para muito. Até o fato de que ele tivesse ou não algum valor lhe parecia trivial. Não tinha a ilusão de que iria encontrar a si mesmo ali, naqueles caracteres desbotados. No entanto, sabia que uma pequena parte de si mesmo que ele não poderia negar estava ali, e ali permaneceria.

Abriu o livro e, ao fazê-lo, o livro passou a não ser mais dele. Deixou seus dedos folhearem as páginas e sentiu um frêmito como se aquelas páginas estivessem vivas. O frêmito atravessou seus dedos e correu através de sua carne e de seus ossos. Estava profundamente consciente dele, e esperou até que o envolvesse por inteiro, até que a antiga excitação parecida com terror o imobilizasse onde estava deitado. A luz do sol, entrando pela janela, brilhou sobre a página, e ele não conseguiu ver o que estava escrito nela.

Os dedos relaxaram, e o livro que seguravam se moveu lentamente e depois rapidamente ao longo do corpo imóvel, caindo, por fim, no silêncio do quarto.” (páginas 305-306)

WILLIAMS, John. Stoner. Editora Rádio Londres, 2ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2015