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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Barbeiro de Vila Rica, de Fuad Gabriel Yazbeck

Resultado de imagem para fuad gabriel yazbeckFuad Gabriel Yazbeck nasceu em Juiz de Fora, MG. Trabalhou durante 6 anos em um refinaria de petróleo e graduou-se em Economia, ingressando no Ministério da Fazenda. Atuou também como professor de Economia, tendo obtido mestrado em Filosofia. Escreveu e publicou vários artigos acadêmicos nessas áreas. É autor dos romances O Segundo Degredado(2008) e este O Barbeiro de Vila Rica(2014), ambos publicados pela Record, escrito após intensa pesquisa histórica. Yazbeck morreu em janeiro de 2013, de câncer que, entretanto, não o impediu de terminar a presente obra. Não obstante, não pôde vê-la publicada.

As duas obras são classificadas como romances históricos.  O chamado romance histórico – aquele que mistura fatos/personagens históricos à ficção – ganha força durante o romantismo, movimento literário que teve lugar no século XIX, celebrizando-se com obras como Ivanhoe, do escritor escocês Walter Scott, Os Três Mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas, Eurico, O Presbítero, do português Alexandre Herculano e Guerra e Paz, do russo Léon Tolstói.

Já se tem dito, a literatura não tem compromisso com a história real, obedecendo a obra ao conceito de “verossimilhança”, isto é, os acontecimentos têm apenas de parecer como se reais fossem. No caso do romance histórico – diríamos romance histórico em conceito estrito – os fatos e os personagens serão aqueles mesmos documentados pela história. É uma limitação, um desafio para o autor contar, de modo atraente para o leitor, um enredo o qual, provavelmente, já seja do seu conhecimento.

Yazbeck se sai magnificamente da empreitada. E não é pouco: contar a história de Tiradentes à época da Inconfidência Mineira, já de amplo conhecimento de quantos hajam frequentado bancos de escolas. As pesquisas tomaram-lhe quatro anos, e de acordo com a avaliação de Laurentino Gomes, na quarta capa do livro,

“Fuad Yazbeck colecionou toda essa preciosa matéria-prima ao longo de mais de quatro anos de profunda pesquisa nos documentos e fontes históricas. Fez isso na condição de um apaixonado pelo tema. Com as informações resultantes da pesquisa em mãos, Fuad poderia ter feito um excelente livro de História do Brasil na categoria de não ficção, gênero hoje muito promissor no mercado editorial brasileiro. Preferiu, no entanto, arriscar-se num terreno mais incerto e desafiador, o da literatura de ficção, que, segundo disse, lhe dá mais liberdade criativa. O Barbeiro de Vila Rica é, portanto, um romance histórico, ou seja, a história romanceada de personagens e acontecimentos reais do passado.”

E num dos mais belos inícios, Fuad recua no tempo e nos dá a conhecer Alexandre:

“Foi na manhã enevoada e fria do Dia de Todos os Santos de 1755, enquanto o chão começava a se mover, como que obedecendo às ordens dos trovões que vinham do fundo da terra, que tua cabeça, Alexandre, despontou entre as pernas de tua mãe natural, deixando-me, como parteira, a opção de correr para salvar minha própria vida ou continuar meu trabalho e salvar também a tua, agora em minhas mãos. O dilema se resolveu quando o tremor se ampliou e fez desabar uma das paredes da casa, desprendendo do teto uma grossa trave que atingiu a parturiente, a criada e a rezadeira que acompanhavam a parição, esmigalhando seus crânios. Apesar dos estilhaços que me atingiram, ainda pude rapidamente te puxar, num arranco que arrebentou o cordão umbilical, logo te embrulhando entre os panos que estavam à mão, e fugir em disparada para o meio da rua, esquivando-me das telhas, madeiras e tijolos que dos altos caíam como chuva sólida.”

O terremoto é aquele mesmo que destruiu a cidade de Lisboa, mais tarde reconstruída. Os fatos se precipitaram, como se a natureza conspirasse contra a vida daquele pequeno ser que vinha à luz e que será, tempos depois, o companheiro de Tiradentes, marcando Alexandre com os tons da tragédia.

O livro é dividido em três partes, com três narradores distintos. A primeira narradora, como se pode deduzir até agora, é a própria parteira, em um tom levemente barroco:

“Cresceste, Alexandre, no apogeu da opulência da vila, embalado pelos mesmos sonhos de felicidade buscada nas riquezas que alimentavam a vida cobiçosa de todos os que chegaram e  permaneceram ali apenas por causa do ouro.” (página 99)

No terremoto de Lisboa, a parteira perdera o filho e Alexandre, sem mais ninguém no mundo, torna-se seu filho. E como nada havia a fazer entre os escombros lisboetas, ela resolve vir para o Brasil com o menino, a princípio, para o Rio de Janeiro, à procura do marido. Não o encontra, mas obtém referências do companheiro e viaja para as terras das gerais, mais especificamente Vila Rica.

Pouco a pouco conheceremos a vida de Alexandre, personagem fictício; observaremos seu desenvolvimento como homem, progressivamente envolvido com os ideais da Inconfidência Mineira. Seu mestre: Tiradentes, o alferes. Ecos de Dom Quixote e Sancho Pança, bem se vê

As memórias da mãe adotiva vão até a página 105; a segunda parte, “Onde o filho encarcerado acrescenta às memórias da mãe as suas próprias, narrando fatos que ela pouco sabia, ou desconhecia”, vão da página 109 até  a182:

“Estou aqui, mofando neste cárcere, mãe, por minhas exclusivas culpas. Apesar de convivermos sob o mesmo teto por muito tempo, nunca fui de falar-vos da minha vida e das minhas andanças. Um pouco pelo respeito que sempre vos devi, um pouco também por medo de vossas reações aos meus atos, nem sempre muito católicos. Os diálogos entre filho e mãe não se fazem com a mesma intimidade que entre filho e pai. E ainda que tivésseis cumprido para mim também o papel paterno, esta condição nunca chegou àquele grau de intimidade.” (página 109)

A terceira parte começa na página 185 e se estende até 346, final da obra. Nesta terceira parte, o narrador é constituído por um sujeito “… sem a paixão dos anteriores, mas com o entusiasmo de quem narra uma grande aventura, conta as andanças do Tiradentes e seu fiel companheiro, dos conspiradores, da conspiração e seu triste desfecho.” Eis um excerto da terceira parte:

“Não perdia de vista, enquanto isso, seu amigo Joaquim José. A cada volta deste das viagens ao Rio de Janeiro, entretinha com ele longas conversas acerca de suas andanças, planos e conversas mantidos na corte, e mais que tudo o progresso em que andava o movimento conspiratório de preparação da independência do Brasil.” (página 186)

A escolha por narradores não oniscientes é muito acertada; nas três partes, com nuances lexicais e de tom, as informações vão sendo acrescentadas, mantendo o interesse de quem lê a obra. O fio condutor é o da História (assim mesmo, com H maiúsculo) mas seguindo essa linha do tempo, são anexadas as visões da parteira, do próprio Alexandre e, por fim, de um narrador o qual não se sabe quem seja. Os amores de Alcina (mãe adotiva), de Vasco (seu antigo companheiro), e de Alexandre são contados.

O movimento da Inconfidência Mineira é mostrado como uma empreitada de intelectuais e o povo não entendia bem o que se passava ou tinha medo de se insurgir contra a coroa. A maior parte dos inconfidentes tem interesses econômicos (afinal têm propriedades e negócios e a derrama anunciada prejudicaria muito as finanças deles) e o Tiradentes é um homem com a “ingenuidade crédula” do Dom Quixote. Fala demais, tentando cooptar simpatizantes para a causa.

O Barbeiro de Vila Rica é uma obra excelente. Incomoda-me que um livro de tal quilate não tenha tido um trabalho de divulgação à altura, por parte da editora Record. Problema, aliás, de que padecem os livros nacionais: a divulgação é pífia. Só vi o volume numa prateleira baixa da livraria por garimpagem literária. E tanto aprovei o trabalho que já comprei o primeiro, O Segundo Degredado, da mesma editora Record, em que Yazbeck ambienta a história na época da Carta de Pero Vaz de Caminha. Duas pessoas foram degredadas para o Brasil de então. De uma, tem-se alguns dados; da segunda, praticamente nada, além da certeza de ter sido degredada. É por esta falha documental que entra a inteligêncial ficcional de Fuad Gabriel Yazbeck.

Excelente e recomendadíssima leitura!

YAZBECK, Fuad Gabriel. O Barbeiro de Vila Rica. Editora Record, 1ª Edição. Rio de Janeiro, RJ: 2014

domingo, 8 de novembro de 2015

O Leitor Que Não Amou O Homem Que Amava Os Cachorros

SResultado de imagem para livro o homem que amava os cachorrose você acompanha este blogue e, por acaso, consultou a programação de livros a ler no mês de novembro, vai perceber que retirei da lista O Homem Que Amava Os Cachorros, de Leonardo Padura. Creio que o fato acontece com todo mundo, mas, ainda assim, ficou-me certo incômodo. Não é a primeira vez, nem será a última. E aí pensei: por que não usar essa minha já longa experiência de leitor e falar um pouco sobre livros cuja leitura se iniciou e não terminou?

Então, comecemos. Por que, às vezes, não conseguimos terminar uma obra adquirida ou emprestada (como no presente caso)? Ah, são vários os motivos. Vejamos:

 

    1. O livro é mal escrito, o enredo não consegue prender a atenção do leitor; os personagens são muitos e sem função na história; o autor não percebeu, mas o livro é um poço de incoerências.
    2. O leitor não sente identificação com o assunto. É o caso, por exemplo, de alguém que detesta livros de terror e tenta forçar a leitura de uma história assim.
    3. O leitor é do tipo exigente e o livro está cheio de erros graves de revisão; erra na concordância verbal e nominal, etc.
    4. O leitor gosta do autor, sente indentificação com o assunto, mas naquele exato momento não está disponível para aquele tipo de leitura. Há certas épocas em que estou mais para ler algo mais leve, mais fantasioso, como O Senhor dos Anéis.
    5. O leitor está numa fase difícil, preocupado com alguma coisa importante, o que o impede de mergulhar na leitura. Existe sempre um contrato tácito entre a obra e seu leitor, no sentido de este aceitar o jogo proposto pela obra.
    6. O livro é considerado de leitura muito complexa, erudita, com muitas palavras desconhecidas do leitor. Isso acontece, via de regra, com leitores mais jovens diante de clássicos com traduções antigas, cheias de vocábulos em desuso.
    7. Medo da fama do autor. Muita gente treme de medo diante da possibilidade de ler algo de Machado de Assis, mesmo que seja um trabalho mais leve. A celebridade de Machado pode criar no leitor um pensamento de que não esteja à altura de ler algo dele.
    8. A obra é um calhamaço, aí pelas 600 ou 800 páginas. Conheço muita gente assim; quando aconselhamos uma leitura, vem a indefectível resposta: “Ah, mas é grande demais!”
    9. O leitor não tem muito tempo para ler e tenta ler um romance poucas páginas por dia e com pouca concentração. Fatalmente, vai matar a sequência da leitura e desistir da tarefa.
    10. O leitor começa a ler o livro e dá de cara com spoilers, isto é, aquele amigo-mais-que-inimigo resolve, entusiasmadamente, lhe contar como tudo acaba e acaba por estragar sua diversão.

De acordo com o livro Como um romance, de Daniel Pennac (é fininho, é ótimo, recomendo a leitura), o leitor tem o direito de não continuar a leitura. Isso parece simples, mas uma boa parte de nós já teve, certamente, de ler algum livro extremamente chato, para alguma disciplina de faculdade. E aí, a recomendação de Daniel Penac se torna complicada. Não há outro caminho para esses casos: taca-lhe disciplina, força de vontade!

O que aconteceu com este O homem que amava os cachorros? Leonardo Padura é ótimo escritor, o livro é bem escrito, bem traduzido (o autor é cubano), a história é interessante – sobre uma parte da vida de Léon Trotsky e sua vinculação com o comunismo –, a obra é um calhamaço, mas não tenho problemas quanto a isso. Penso, simplesmente, ser o caso de um livro certo num momento errado. Fosse outro o tempo, me forçaria assim mesmo, acabando por fazer uma leitura sofrida. Nada disso. Procuro o prazer da leitura.

Comigo, leitor, isso aconteceu poucas, pouquíssimas vezes. O Harry Potter eu só li o primeiro volume e fui até o meio do segundo. A leitura travou e nunca mais o peguei. Tenho planos de retomar a leitura desta série.