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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Resenha: O Tempo Entre Costuras, de María Dueñas

Resultado de imagem para livro o tempo entre costurasMaría Dueñas nasceu em Puertollano, Ciudad Real, em 1964. É PhD em Filologia Inglesa. Trabalha como professora na Universidade de Múrcia, tendo ainda lecionado em  universidades americanas. Em 2009, publicou o romance El Tiempo Entre Costuras (O Tempo Entre Costuras), que se tornou um Best-seller, um sucesso de público e de crítica. É autora de diversos trabalhos acadêmicos, com participação em diversos projetos educacionais, culturais e editorais.

Escreveu, ainda, Misíon Olvido, de 2012, (A Melhor História Está Por Vir) e Destino: La Templanza, de 2015 (conservaram o título espanhol na tradução brasileira). Todos os livros dessa autora publicados no Brasil são da Editora Planeta.

O texto do romance se estende por 471 páginas de puro prazer da leitura. A ambientação em que se movem os personagens é a de dois conflitos armados – A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com uma vasta e sólida pesquisa sobre essas duas conflagrações, María Dueñas consegue construir ricas referências históricas e culturais. Seus personagens fictícios convivem lado a lado com personagens reais.

Numa preocupação assumida, Dueñas não abre mão de incluir, ao final do livro, uma bibliografia utilizada na pesquisa. Muitos são contra tal apêndice numa obra ficcional; a meu ver, isso só valoriza um romance de fundo histórico. É mais uma questão pessoal, já que a ausência de uma bibliografia assim não desmerece qualquer obra narrativa.

O texto da autora é muito fluente, o que contribui sensivelmente para o seu sucesso; a leitura não representa qualquer dificuldade para o leitor mediano. As referências, quando atinentes às guerras, personalidades espanholas, à haute couture (alta costura) são devidamente explicadas, para que o leitor não se perca. O enredo apresenta boas reviravoltas, manejadas – surpreendentemente, mas não tanto – pela ficcionista iniciante. Ressalvei o termo "surpreendentemente", acima, pois acredito ser María Dueñas uma leitora frequente de obras literárias, como se pode depreender da segurança com que manipula a narrativa. À medida que a gente vai lendo, inconscientemente internaliza estruturas textuais, elaborações de personagens.

Sira Quiroga, a protagonista deste O Tempo Entre Costuras, é absolutamente fascinante. Acompanhamos o seu desenvolvimento desde uma ingênua adolescente, aprendiz de costureira, trabalhando com sua mãe no ateliê de dona Manuela, em Madri, insegura e dependente, a uma mulher madura, dona de suas escolhas e do seu destino. Nesse sentido, a presente obra se caracteriza como um romance de formação.

Rosalinda Fox é uma inglesa, muito esperta, vivida, não obstante presa a um casamento infeliz (fora contraído quando ela estava muito nova) com um marido que não lhe concede o divórcio sob nenhuma hipótese. Os diálogos entre Sira e Rosalinda são pontuados de termos em inglês, português e um espanhol pouco fluente. Tornam-se amigas.

Candelária é outra personagem excelente. Velha trambiqueira, contrabandista de plantão, terá um papel fundamental na vida de Sira. Dona de uma pensão, uma verdadeira pocilga, essa mulher sem muita instrução, mas com uma enorme experiência de vida é afável e dura e, ao mesmo tempo, uma verdadeira mãezona para a protagonista.

Dom Claudio Vázquez é um delegado humano, com um forte sentido de intuição, sentido esse usado por ele sem culpa. Sira também deverá a Dom Cláudio, durante parte da narrativa, alguns favores imprescindíveis para ela.

O coronel Juan Beigbeder Atienza é um alto comissário da Espanha em Marrocos; supreendentemente, sente-se em casa entre os marroquinos. Creio, María Dueñas tirou um coelho da cartola, ao construir um personagem como este. É um militar sensível, culto, com ideias, digamos, pouco afeitas ao militarismo, ao nazismo hitleriano e à ditadura do Generalíssimo Franco.

Marcus Logan, de origem inglesa, a princípio um jornalista que vai fazer um trabalho sobre o Marrocos – mais precisamente, a cidade de Tetuán – é cheio de mistérios, alguém que irá ocupar um papel fundamental na vida de Sira. Ela obterá revelações importantes sobre ele no final da história.

Gonzalo Alvarado é um empresário cuja empresa possui duzentos empregados; no passado, cedeu a pressões familiares e não impôs sua vontade, não tendo lutado por construir sua vida amorosa ao lado de quem realmente amava, fato ainda perturbador para ele no presente. Como nunca é tarde para mudanças, ele resolve assumir a filha do relacionamento anterior ao seu atual casamento, dotando-a com uma considerável quantia em dinheiro e joias.

Dolores, mãe de Sira Quiroga, outra personagem muito bem elaborada. Mostra-se forte, determinada e segura sobre qual caminho seguir, mas secretamente, tem seus momentos de indecisão. Mesmo assim, é uma mulher com profundo sentido de dever e de caráter. A sucessão dos acontecimentos vai trazer maior flexibilidade à sua forma de pensar e ela consegue, em meio aos conflitos, desenvolver certa visão crítica dos fatos.

Enfim, num ambiente de guerra, de conspirações, a obra nos mostra um pouco do que acontece nos bastidores desses conflitos. Serviços de espionagem e contraespionagem, cenário constantemente ambíguo, inseguro, fluido, no qual nenhum dos envolvidos mostra aquilo que realmente é tornam a vida de Sira Quiroga uma aventura de alto risco; mas é aí mesmo, sem muitas escolhas uma vezes, outras fazendo escolhas de modo acrítico, que ela deverá se mover.

Os personagens vão e voltam, trazendo evocações à protagonista. Ela aprende sentindo o perigo, a dor na própria pele. Tais seres, importantes dentro da narrativa, têm suas virtudes e seus defeitos; Sira Quiroga, por exemplo, tem seus medos, é acusada por Ignácio de não se lembrar dos mais pobres, das pessoas conhecidas do bairro onde havia morado, em Madri e sente o golpe, por ser verdade. Como seres humanos reais, eles mostram às vezes suas faces menos elogiáveis, agem por interesse. Como a certa altura a mãe de Sira lhe lembra, a Inglaterra quer a Espanha fora do apoio às potências do eixo em benefício próprio, mas tal interesse deve ser aproveitado, pois o povo espanhol, sobretudo a camada mais pobre, já não suporta mais passar por privações e desmandos. Ficar fora da guerra seria para eles um alívio ao sofrimento pelas privações impostas pela Guerra da Espanha.

Como já disse, Sira Quiroga tinha uma vida tranquila com a mãe, em Madri. Entretanto, apaixona-se por um homem sedutor, trai o noivo, distancia-se da mãe e muda-se para o Marrocos, na cidade de Tânger. O Marrocos, à época, é um protetorado espanhol, isto é, uma espécie de território anexado à Espanha, mas gozando de bastante liberdade. As coisas se complicam para nossa personagem e ela é obrigada a se mudar para Tertuán e lá monta um ateliê de alta costura, com a ajuda de Candelária. Pela sua confecção circulam mulheres de oficiais alemães e esta movimentação acaba por envolver a senhorita Quiroga num complexo jogo de quebra-cabeças político de bastidores. Aparece a oportunidade de montar uma confecção como a que tem em Tertuán em Madri. É o que faz. De lá, entretanto, depois de algum tempo, viaja para Lisboa, em Portugal.

Sossegue, caro leitor, não estou avançando qualquer spoiler; isso é apenas um resumo, muito por alto, do enredo, uma espécie de planta baixa. O que acontece entre essas constantes mudanças de endereço é o que realmente importa para manter sua atenção à leitura.

Algumas pequenas degustações, como costumo fornecer:

“Uma máquina de escrever detonou meu destino. Foi uma Hispano-Olivetti, e dela me separou durante semanas o vidro de uma vitrina. Visto hoje, do  parapeito dos anos passados, é difícil acreditar que um simples objeto mecânico pudesse ter potencial suficiente para alterar o rumo de uma vida e dinamitar em quatro dias todos os planos traçados para sustentá-la. Pois assim foi, e nada pude fazer para impedir.” (página 10)

“Trabalhei manhã, tarde e noite ao longo dos dias seguintes. Era a primeira vez que eu fazia peças daquela envergadura sozinha, sem a supervisão nem a ajuda de minha mãe ou de dona Manuela. Por isso, apliquei na tarefa os cinco sentidos multiplicados por cinquenta mil, e, contudo, o medo de falhar não me abandonou nem por um segundo. Desmanchei mentalmente os modelos das revistas, e quando as imagens não podiam me oferecer mais nada, afiei a imaginação e intuí tudo aquilo que não consegui visualizar.” (página 124)

“Deus sabe que não sou nenhum liberal, mas acho repugnante o totalitarismo megalomaníaco que Franco montou depois da vitória; esse monstro que ele engendrou e que muitos de nós colaboramos para alimentar. Você não imagina como me arrependo de ter contribuído para engrandecer sua figura em Marrocos durante a guerra. Não gosto deste regime, não gosto de jeito nenhum. Acho que nem gosto da Espanha; pelo menos, não gosto dessa grande e livre que estão tentando nos vender. Passei mais anos de minha vida fora deste país que dentro; aqui eu me sinto um estranho, muitas coisas são estranhas para mim.” (página 327)

A quarta capa da obra diz:

“Seria injusto classificar O tempo entre costuras. Mais correto seria dizer que se trata desses romances deliciosos nos quais cada página nos provoca sensações diferentes. Sem sombra de dúvidas, María Dueñas é dessas autoras que sabem falar e tocar os leitores. Entregue-se a esta história, você não vai se arrepender.”

Não tenho nada a acrescentar. Nem uma vírgula.



DUEÑAS, María. O tempo entre costuras. Editora Planeta do Brasil, 4ª reimpressão. São Paulo, SP: 2012.
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