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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Resenha: Um Cântico Para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.

Resultado de imagem para livro um cantico para leibowitzWalter Michael Miller Jr. foi um escritor norte-americano nascido em 23 de janeiro de 1923, em New Smyrna Beach, Flórida. Estudou na Universidade do Tennessee e na Universidade do Texas. Trabalhou como engenheiro. Serviu às Forças Armadas americanas como radiotelegrafista e artilheiro de retaguarda, tendo participado de mais de cinquenta bombardeios aéreos sobre a Itália. Tomou parte no ataque a uma Abadia Beneditina em Monte Castelo – experiência muito traumática para ele. Sofreu de depressão pós-traumática por trinta anos.

Walter converteu-se ao catolicismo e se casou com Anna Louise Becker em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Faleceu em 9 de janeiro de 1996. Escreveu vários contos do gênero ficção científica e ganhou o prestigioso prêmio Hugo, em 1955, por The Darfsteller. Entretanto, tornou-se famoso pelo único romance publicado em vida, Um Cântico Para Leibowitz, publicado em 1959 e pelo qual ganhou novamente o Hugo de 1961.

 Oportuníssima essa reedição brasileira pela Editora Aleph, de 2014. Com o miolo em papel pólen (amarelado, que contribui para descansar os olhos), boa diagramação, um belo projeto de capa de Mateus Valadares e uma cuidada tradução de Maria Sílvia Mourão Netto, Um Cântico Para Leibowitz é considerado um clássico da literatura de ficção científica distópica, ou pós-apocalíptica.

A capa apresenta um monge de cabeça para baixo, segurando um crânio em posição normal. Neste aspecto, a capa nos lembra as Vanitas, termo latino que designa, nas Artes Pictóricas, a tendência a se usar caveiras em pinturas, nos lembrando da insignificância da vida terrestre e da condenação da vaidade. O acabamento da capa é levemente aveludado e alude diretamente ao conteúdo do livro.

É sempre complicado tentar justificar uma história pelos dados autobiográficos do seu autor; todavia, nesse caso específico, alguma coisa daqueles dados não explica, mas ajuda a entender o tom sarcástico e de desencanto com a humanidade que permeia todo o texto. O bombardeamento da Abadia Beneditina durante a guerra e a depressão contraída por Walter Miller, além de sua experiência na guerra, sua conversão ao catolicismo vão constituir uma espécie de “sentimento de fundo”. A história começa a quatrocentos anos após o Dilúvio de Fogo e se estende por mil e oitocentos anos da humanidade, depois desse cataclisma nuclear. O livro é dividido em três partes, com nomes em latim: Fiat Homo, Fiat Lux e Fiat Voluntas Tua. Ou seja, em português, Faça-se o Homem, Faça-se a Luz e Faça-se Tua Vontade. Cada seção destas tem seus próprios personagens, embora outros, com participação ativa nas outras divisões sejam lembrados.

A escrita de Walter M. Miller é erudita. Cheia de termos em latim, com um excelente glossário ao fim da obra. E não é só um uso de fachada, pois o autor nos oferta, inclusive, trocadilho nessa língua, algo que só pode executar quem realmente a domine com propriedade. A utilização do latim eclesiástico contribui para criar uma atmosfera de autoridade às manifestações religiosas, ao mesmo tempo que serve como uma linguagem atemporal, já que atravessa todo o arco de existência da humanidade abordado pela obra. Une-se a isto um profundo conhecimento das liturgias católicas. Há outro glossário, que nos explica termos fundamentais na história, como por exemplo, a filiação da Ordem de São Leibowitz – Albertina.

Tudo começa com o noviço Francis Gerald de Utah realizando seu jejum quaresmal. Ele é vinculado à Abadia de Leibowitz, no deserto. Leibowitz tinha sido um mártir nos tempos do Dilúvio de Fogo (leia-se guerra nuclear) por dar importância ao Conhecimento e Cultura da humanidade, em detrimento da destruição do passado, defendida pelos Simplórios. Estes são os atingidos diretamente pelo Dilúvio; seus descendentes apresentam deformidades pela ação da radioatividade e abominam tudo o que esteja ligado ao passado.

Irmão Francis vive o seu jejum de modo extremamente penoso. O calor do deserto, a presença constante dos lobos, a companhia dos abutres – tudo funciona como uma espécie de rito de iniciação. Encontra, certo dia, um velho, um peregrino que descobre uma pedra para se encaixar à perfeição num buraco de sua morada de pedras, uma proteção contra os lobos. Ao apanhar a pedra, o noviço descobre um antigo abrigo subterrâneo, antiatômico; dentro do refúgio, vários documentos referentes a Leibowitz, fundador da Ordem. Sua descoberta vai mudar o curso dos acontecimentos dentro daquela Abadia, pois tal achado é tratado como relíquia sagrada.

Importante dizer que ninguém consegue entender direito o que aqueles documentos dizem, por dois motivos. Primeiro, porque o inglês utilizado oferece uma enorme dificuldade, dada a sua antiguidade; segundo, porque falam de assuntos e conhecimentos de uma época não mais existente, sem contextualização. O conhecimento se perdeu. Só existe a terra arrasada, os humanos utilizam armas rústicas. A Ordem de São Leibowitz, desse modo, funciona como guardiã de uma era a qual não consegue compreender; naturalmente, os objetos tornam-se objeto de culto, de mistério.

Existem dentro da Ordem, duas atividades básicas: a dos copistas – monges dedicados à manutenção dos livros antigos mediante cópia, e a dos memorizadores – religiosos compromissados com a propagação oral do conhecimento vivo. Todos privilegiam a Memorabilia, que é o acervo contendo a cultura e o conhecimento antigos.

O tempo que separa cada uma das três partes em que é divido o livro é de seiscentos anos. Esses primeiros acontecimentos têm lugar na divisão inicial, o Fiat Homo. Na segunda parte, a humanidade é composta pela barbárie e o retorno, inclusive, à antropofagia; a luta de tribos e um pouco mais tarde, de cidades-estados (como na Grécia antiga) se intensifica. No seio da Ordem, o conhecimento, pouco a pouco, vai sendo recuperado. Não obstante, ouvem-se os rumores de uma nova guerra.

Na terceira divisão, algumas pessoas identificam com mais facilidade os elementos caracterizadores da ficção científica propriamente ditas, com elementos futuristas como naves interestelares, carros automáticos, computadores, tecnologia nuclear, etc.

Um Cântico Para Leibowitz, publicado, como se viu, em 1959, adianta já alguns elementos técnicos narrativos da pós-modernidade. Integram o texto muitas onomatopeias (termos usados para representar ruídos, como hummpf!) frequentes em histórias em quadrinhos. Trechos de entrevistas, com alternância rápida de diálogos. Outro uso interessante é o do monólogo, ou diálogo interno.

O sarcasmo intenso perpassa o livro e, às vezes, a amargura tem o seu lugar. Vejamos alguns trechos.

Observe, leitor, o sarcasmo com que é descrita a figura do abade:

“O abade caminhava ao longo dos muros da abadia ao pôr do sol, seu maxilar projetado para frente como um velho rochedo barbado contra o qual arrebentavam as possíveis ondas do mar dos acontecimentos. Seus cabelos ralos esvoaçavam como flâmulas brancas ao vento do deserto, o mesmo vento que enrolava seu hábito colado como uma bandagem ao corpo curvado para frente, dando-lhe a aparência de um Ezequiel emaciado e dotado de uma pança estranhamente arredondada.” (página 157)

E nesta outra passagem:

“Havia novamente espaçonaves naquele século, e eram veículos tripulados por impossibilidades indistintas que caminhavam sobre duas pernas e tinham tufos de pelos brotando em partes inesperadas de sua anatomia. Eram criaturas expansivas e animadas. Pertenciam a uma raça muito capaz de admirar a própria imagem ao espelho, e igualmente capaz de cortar a própria garganta perante o altar de algum deus tribal, como, por exemplo, a deidade do Barbear Diário.” (página 283)

A amargura está evidente no trecho:

“O monge entregou a carta e saiu. Zerchi deixou-a fechada e mais uma vez olhou rapidamente para a promessa redigida pelo médico. Sem nenhum valor, talvez. Mas mesmo assim o homem tinha sido sincero. E dedicado. Ele teria de ser dedicado a julgar pelo trabalho que realizava pelo pagamento que a Estrela Verde oferecia. Parecia dormir menos do que precisava e trabalhar demais. (...) Vendo desgraças para todo lado e detestando, sincero em seu desejo de fazer algo a respeito. Sincero: essa era sua maldição. De longe, nossos adversários parecem malignos, mas, de perto, podemos enxergar sua sinceridade e ver que é tão grande como a nossa. Talvez satã fosse o mais sincero de todos.” (página 341)

Muita coisa poderia anotar nessa resenha, caro leitor, mas ela já vai muito longa. O livro é cheio de referências merecedoras de estudos mais aprofundados do que uma humilde resenha pode ofertar. E, sempre lembrando, não se procura nesse blog um trabalho acadêmico, mas sim oferecer uma degustação honesta sobre a obra lida. Parcial, é claro; subjetiva, sim. Enfim, o fito é adiantar alguma coisa sobre um livro, para que você – que não o leu – decida se quer ou não se aventurar.

Mas já o aviso: desejo seduzir você para a leitura deste Um Cântico Para Leibowitz. Para mim, não é apenas um clássico de ficção científica; é um clássico digno de figurar entre os clássicos de quaisquer gêneros. Quatrocentas páginas foram devoradas em três dias. Terminei de o ler no dia 21/01/2016, por volta das onze horas da noite; simplesmente, não conseguia me desgrudar do livro e, ao final da leitura, o indício seguro de que tinha valido a pena. Uma sensação de completude, de prazer estéticos.


MILLER JR., Walter M. Um Cântico Para Leibowitz. s/ ed. Editora Aleph. Rio de Janeiro, RJ: 2014
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