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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Resenha: As Memórias do Livro, de Geraldine Brooks

Geraldine Brooks é australiana, nascida em sua capital, Sidney, em 14/09/1955. Após ter concluído seus estudos superiores, trabalhou como repórter e em 1982 foi bolsista do programa de mestrado em jornalismo da Columbia University, nos Estados Unidos. Não retornou mais para a Austrália e começou a trabalhar para o The Wall Street Journal, pelo qual cobriu conflitos e crises do Oriente Médio, na África e nos Bálcãs (região que engloba a Albânia, a Bósnia, a Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônia, Montenegro e Sérvia, Kosovo, porção da Turquia, Croácia, Romênia, Eslovênia e Áustria).

Em 1994, publicou seu livro de estreia, Parts of Desire, imediatamente traduzido para 17 línguas. Em 2006, veio a consagração com March, premiado com o Pulitzer de ficção. Atualmente, Geraldine Brooks vive com a família entre Martha’s Vineyard, Massachussetts e Sydney.

Sucesso de público e crítica, Geraldine Brooks conseguiu elaborar um romance viciante e original em sua estrutura. É uma história complexa, envolvendo a Hagadá de Sarajevo – o livro do título – cujas “memórias” serão objeto de poderosa imaginação criativa da autora. É uma obra de suspense, com uma trama repleta de variações e acréscimos. Podemos dizer que o livro em questão se filia à corrente inaugurada por Umberto Eco, a do suspense erudito (ou, como os americanos preferem chamá-lo, smart thriller). Altas doses de teorias de conspiração, com generosas quantidades de informações cultas ou técnicas a respeito do assunto tratado, normalmente elegendo fatos ocorridos na Idade Média. Outro exemplo de sucesso é O Código Da Vinci, do americano Dan Brown.

As Memórias do Livro é dividido em seções: Hanna – Sarajevo, primavera de 1996; A Asa de um inseto – Sarajevo, 1940; Hanna – Viena, primavera de 1996; Penas e uma rosa – Viena, 1894; Hanna – Viena, primavera de 1996; Manchas de Vinho – Veneza, 1609; Hanna – Boston, primavera de 1996; Água salgada – Tarragona, 1492; Hanna – Londres, primavera de 1996; Um pêlo branco – Sevilha, 1480; Hanna – Sarajevo, primavera de 1996; Lola – Jerusalém, 2002 e Hanna – Terra de Arnhem, Gunumeleng, 2002. Arremata o romance um útil posfácio da autora, no qual ela explica o que é real e o que é ficção.

Pela listagem das seções constitutivas da obra o leitor já perceberá ser este um livro com enredo não linear (recua, avança no tempo). Preferi chamá-los de seções ao invés de capítulos pois, dentro da minha concepção, é isso mesmo o que são: seções. E aqui talvez seja interessante explicar ao leitor não acostumado com conceitos literários a organização estrutural do que se conhece por romance, em sentido restrito. Romance é a obra literária, narrativa, com dois ou mais núcleos dramáticos; enquanto o conto tem apenas um núcleo desse tipo, o romance tem pelo menos dois.

Por exemplo, o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Esse livro nos conta o drama de Bentinho e Capitu, mas nos dá a conhecer também o drama do amigo Escobar e do filho do casal. Apresenta-nos um pouco da vida de Capitu, como Bentinho foi criado, suas relações com a mãe, etc.

As Memórias do Livro é, portanto, um romance. Mas, ao invés de capítulos propriamente ditos, ousaria dizer que há vários “romances” dentro deste romance, várias histórias autônomas que, em nenhum momento, se cruzam, pois se dão em lugares e em épocas diferentes. O único fio que as enlaça é a presença da Hagadá. Dessa forma, o livro, por meio dos vários indícios, tem memórias. Mais ou menos como se tivéssemos comprado um livro em um sebo e no qual houvesse várias anotações anônimas e quiséssemos pesquisar quem as teria escrito ali e como teriam sido as vidas tocadas pelo livro.

Hanna Heath é uma restauradora de livros extremamente competente. Ph.D., é requisitada para trabalhar em diversos lugares do mundo. Um dia, ela recebe um convite para trabalhar e dá de cara com a famosa Hagadá de Sarajevo. Hagadá é uma “narrativa da libertação e da saída dos judeus do antigo Egito, entremeada de ensinamentos rabínicos, salmos de louvor, canções e trechos bíblicos, conforme compilada da tradição oral, e que é recitada na primeira noite da Páscoa judaica”.

Há, naturalmente, vários exemplares da Hagadá nas mãos dos judeus; esta, entretanto, tem uma particularidade: ela tem iluminuras. Iluminuras eram gravuras coloridas, feitas à mão, que adornam as margens dos textos, usualmente textos religiosos da Idade Média. É conceito corrente que os judeus antigos não toleravam artes figurativas, isto é, representações da figura humana.

Hanna aceita participar do projeto de conservação da obra e, durante o trabalho, verifica haver no livro várias “pistas”, indícios não pesquisados. Elabora perguntas e faz o possível para respondê-las. Por que há uma mancha de sangue numa página? Por que, para um livro tão valioso e trabalhado, uma capa tão mal-acabada? Onde foi parar o fecho, cujas endentações indicam, com segurança, ter existido? Qual seria a importância da asa de borboleta encontrada no livro? Há uma mancha de água salgada numa das páginas por quê? Que significado um pêlo branco esquecido no livro poderia ter? Por que aquele exemplar da Hagadá tem iluminuras, se os judeus antigos não as aceitavam? E, finalmente, por que o censor oficial da Inquisição – portanto, uma autoridade católica – salvou o livro judaico de ser queimado, aprovando-o sob sua assinatura? Perguntas demais, não, caro leitor?

Questionamentos são para serem respondidos. Em cada uma das seções do trabalho de Brooks haverá uma história coerente para cada um desses fatos. Hanna não terá acesso a elas, mas nós, leitores privilegiados, acompanharemos cada uma das vivências, envolvendo dramas de pessoas que já viveram, dentro de um contexto cultural e politicamente muito complexo. Todas as perguntas levantadas serão respondidas.

Só com esse enredo, se bem manipulado (e, certamente, é), já teríamos um bom trabalho. Não obstante, Hanna vive um terrível problema de relacionamento com a mãe, uma brilhante, arrogante e perfeccionista cirurgiã neurológica. Ela não consegue aceitar a profissão escolhida pela filha. Não reconhece sua competência. Quando estão juntas, infernizam a vida uma da outra, numa relação impossível.

Se as perguntas levantadas por Hanna vão sendo respondidas para nós, leitores, ao longo do livro, em cada uma das seções, o final absolutamente imprevisível só é revelado no apagar das luzes, e mesmo assim, comportando ainda uma reviravolta relacionada à vida da mãe de Hanna.

Eis alguns trechos, para degustação.

“Mas ninguém sabia por que essa Hagadá era ilustrada com numerosas pinturas em miniatura, em uma época em que a maioria dos judeus considerava a arte figurativa uma violação dos mandamentos. Era improvável que um judeu tivesse condições de aprender as habilidosas técnicas de pintura evidenciadas no livro. O estilo não era diferente do dos iluminadores cristãos. Contudo, a maioria das miniaturas ilustrava cenas bíblicas conforme interpretação no Midrashe, ou a exegese bíblica judaica.” (página 28)

“A luz reluzia sobre o aço brilhante, me fazendo pensar em minha mãe. Se ela fosse hesitante daquele jeito, o paciente sangraria até morrer, na mesa. Mas minha mãe, a primeira mulher a se tornar chefe do departamento de neurocirurgia na história da Austrália, não conhecia a dúvida íntima. Nunca duvidou de seu direito de burlar todas as convenções de sua era, tendo uma filha mas não sentindo a necessidade de marido, ou sequer citando à filha um pai. Até hoje, eu não tenho ideia de quem foi ele. Uma homem que ela amava? Alguém que usou? A segunda opção era mais provável. Ela achava que poderia me criar à imagem dela. Que piada. ” (página 30)

“Hirschfeldt soltou um resmungo quase inaudível de irritação. Por que David estaria lá na clínica para aborrecê-lo? Ele esperava que seu irmão tivesse o bom senso de não entrar na sala separada. Herr Mittl era um sujeito nervoso, muito decente, que pagara um alto preço por sua momentânea indiscrição, em sua já distante juventude. ” (página 124)

“— Sou Clarissa Montague-Morgan. — Outra Alguma Coisa hífen Alguma Coisa, embora não tivesse o estilo clássico, e seu leve odor era de substâncias de laboratório, e não do laboratório em si. — Sinto muitíssimo por não convidá-la a entrar — ela disse, como se eu a estivesse visitando para tomar chá. — Mas há protocolos rígidos aqui que protegem a rede de evidências e assim por diante. É muito difícil realmente obter permissão para um visitante que seja funcionário, ainda mais se a pessoa não trabalha na área legal. ” (página 280)

Os personagens principais não são de constituição simples, isto é, eles têm seus próprios demônios, como ficou evidente no trecho acima, em que Hanna avalia sua mãe. Sua animosidade contra a figura materna é patente.

As Memórias do Livro é extremamente recomendável. Esta foi uma releitura, após quase dois anos da primeira vez. É incrível como, numa releitura algum tempo depois, descobrimos coisas não percebidas no primeiro contato. Essa leitura inicial, não por acaso, é chamada de leitura de exploração. Por ela, tomamos contato com o estilo do autor, com os personagens, com a história. Livres desse contato incipiente, somos liberados para perceber outras nuances literárias.

Leia-o, se puder, amigo leitor. Estão garantidas boas horas de divertimento e aprendizado. Aprendizado, sim, pois Geraldine Brooks nos oferece várias informações sobre a vida e cultura judaicas, sobre o valor dos livros, e algumas pitadas sobre o cenário da Segunda Guerra Mundial para uma parte da Europa.

BROOKS, Geraldine. As memórias do livro. Ediouro. Rio de Janeiro, RJ: 2008



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