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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resenha: Quando os livros foram à guerra, de Molly G.Manning

Ao receber meu kit relativo ao mês de maio da Tag – Experiências Literárias, na revista que acompanha o material encontrei uma referência a Quando os livros foram à guerra. A autora me era completamente desconhecida – uma tal Molly Guptill Manning.

Interessei-me imediatamente. É que, nesta obra, parte da história da Segunda Guerra Mundial era contada por uma outra ótica, não usual: a do valor das obras literárias como possibilidade de entretenimento, identificação e reflexão.

Numa guerra em que a principal arma era o discurso – os alemães de Hitler convenceram, por meio de emissões radiofônicas, os franceses de que não tinham qualquer chance de enfrentar os exércitos do Führer. Afinal de contas, as palavras eram extremamente importantes.

E foi assim que a ASE – Armed Services Editions – editora que se especializou na produção de livros para os combatentes americanos ganhou proeminência no conflito. Todo e qualquer soldado conhecia os horrores e a carnificina que se instauravam no solo guerreiro. Mas a guerra não era feita apenas de heroísmos, violência e mortes. Por períodos muito longos, o sofrimento dos homens era brutalmente aumentado pelo tédio entre as batalhas, a incerteza de sua própria vida, as condições sub-humanas em trincheiras cheias de frio, fome e chuva. E os livros, à medida que chegavam, tornavam a vida daqueles soldados menos terrível:

“Os livros, porém, eram uma catarse para muitos homens. Essa resposta intangível tornou-se evidente pelas reações dos soldados a certos livros. De modo improvável, Katherine Anne Porter foi uma autora que conquistou grande apelo. Seus contos expunham de maneira delicada experiências e emoções profundamente pessoais, que tendiam a dar aos leitores a impressão de que ela entendia seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Centenas de homens escreveram para Porter após a leitura do seu livro da ASE: alguns descreviam como tinham se identificado com determinado personagem, outros sentiam como se uma camada de solidão e isolamento tivesse sido removida por sua prosa. Ao escrever para a pessoa que tocou seu coração, os soldados davam vida à relação que tinham com as páginas que liam. Frequentemente, essas cartas detalhavam experiências e sentimentos bastante pessoais; na realidade, detalhes que muitas vezes não haviam sido revelados nem mesmo aos entes queridos foram confidenciados aos autores. ” (páginas 116/117)

Outro relato pungente aparece à página 123, dos combatentes localizados nas ilhas Aleutas:

“Das ilhas Aleutas, um soldado escreveu para Taylor dizendo que não foi capaz de “resistir à tentação de escrever para a senhora, para revelar como Chicken Every Sunday está sendo lido e apreciado por um público para o qual, com toda a certeza, seu livro não era destinado”. Na realidade, afirmou, ele “não estava falando de um ou dois quando disse que é um livro para soldados, pois o vi passando de beliche em beliche em minha própria barraca e ouvi a explosão de risadas que provocava até dores abdominais, seguida por trechos lidos em voz alta para todo o grupo”. E ouviram-se “ecos das barracas vizinhas, dos dois lados”. Esse soldado recordou que, quando alguém “levava Chicken para o trabalho”, ele “mal conseguia conter seu entusiasmo quando aquele homem voltava à noite”. O livro era o produto mais desejado da guarnição. Como a leitura era uma das poucas formas de recreação disponíveis para os recrutas baseados nas Aleutas, esse soldado revelou que ele e seus amigos tinham se tornado bastante seletivos nos gostos de leitura. Ele explicou que o motivo pelo qual Chicken Every Sunday dialogou com ele e com os homens próximos dele era o fato de os personagens do livro serem “pessoas familiares, e todo recruta que lê a respeito delas se recorda nostalgicamente de seus semelhantes que ficaram no país”. “Em nome de muitos de nós, quero agradecer-lhe as muitas horas de ótima diversão”, afirmou ele. “Todos nós esperamos que lancem mais livros de Rosemary Taylor. ” E lançaram. O conselho publicou Ridin’ the Rainbow. ”

As edições da ASE chegavam às mãos dos destinatários em formato pocket, por alguns motivos. Primeiro, eram mais baratos de se produzir; segundo e maior motivo, seu tamanho era desenhado para caber nos bolsos dos homens e serem leves de transportar. Feitos de papel fino, com capa mole, diferente daqueles postos à venda no país, confeccionados em papel de alta gramatura, em hard cover (capa dura), eram companheiros de todas as horas.

Quando a guerra acabou, a ASE e suas edições econômicas perderam a razão de ser. Mas houve um incrível “efeito colateral”. Quando aqueles ex-combatentes retornavam a sua vida normal e participavam do programa de incentivo ao Ensino Superior, eles faziam a alegria de qualquer professor: eram fortemente dedicados, persistentes e com uma capacidade de entendimento textual acima da média. Há no Quando os livros foram à guerra alguns trechos transcritos em que os outros estudantes reclamavam dos “malditos que elevavam a média”:

“Entre agosto de 1945 e janeiro de 1946, 5,4 milhões de norte-americanos que serviram no Exército e na Marinha foram dispensados do serviço. Quando esses veteranos ficaram sabendo dos benefícios disponíveis de acordo com a GI Bill emendada, afluíram em massa para se matricular no ensino superior. Em 1948, as matrículas alcançaram seu auge, com 900 mil veteranos se matriculando. Ao longo de nove anos, cerca de 7,8 milhões de veteranos procuraram formação acadêmica ou profissional de acordo com a GI Bill, com um total de 2,2 milhões se matriculando em cursos de nível superior. De 1947 a 1948, nos Estados Unidos, 50% dos alunos do ensino superior eram veteranos, e a quantidade total dos alunos em faculdades e universidades era maior do que época anterior. Embora alguns críticos iniciais acreditassem que os veteranos não queriam estudar, não tinham interesse em ler livros, e estavam inclinados a procurar emprego em vez de formação educacional, os veteranos rapidamente adquiriram a reputação de estudantes sérios e maduros; eles frequentavam as aulas, anotavam as matérias meticulosamente, estudavam muito e tiravam notas altas. Os estudantes não veteranos começaram a se ressentir de ter veteranos em suas turmas, pois as altas notas dos ex-soldados causavam estragos na média geral das notas. ” (página 197)

Quando os livros foram à guerra é uma obra de reportagem. Há casos e mais casos de depoimentos dos leitores, os quais não transcrevi na íntegra para não ficar cansativo. Ademais, uma resenha deve dar apenas uma ideia do que o leitor pode encontrar nas páginas de um livro.

Recomendo fortemente essa leitura, embora não consiga entender a precariedade da divulgação dos livros no Brasil. A editora LeYa poderia ter feito um trabalho bem melhor ao divulgá-lo. Nós, amantes de livros, ainda conseguimos “farejar” algo, escutando um comentário aqui ou ali, mas não deveria ser assim.


Agora, posso começar a ler o livro enviado pela Tag – Experiências Literárias. É uma história de guerra também; O caminho estreito para os confins do norte é escrito pelo australiano Richard Flanagan. Trata dos horrores sofridos por soldados australianos nas mãos dos japoneses. As referências a todo esse cenário composto pelo sofrimento e tédio dos combatentes, amenizados apenas pela chegada dos livros está lá. Contextualização feita, fico com melhores condições de entender e avaliar o que se passa na história.

HANNING, Molly Guptill. Quando os livros foram à guerra. Editora Casa da Palavra. Rio de Janeiro, RJ: 2015