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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Resenha: O Estrangeiro, de Albert Camus

Resultado de imagem para livro o estrangeiroTítulo original: L’Etranger
Título em português: O Estrangeiro
Autor: Albert Camus
Tradutora: Valerie Rumjanek
Editora: Record
Copyright: 1957
Edição: 40ª
Origem: Literatura Francesa
ISBN: 978-85-01-01486-3
Bibliografia do autor: Révolte dans les Asturies (Revolta nas Astúrias), 1936; L'Envers et l'Endroit (O Avesso e o Direito), 1937; Noces (Núpcias), 1939; Réflexions sur la Guillotine (Reflexões sobre a Guilhotina), 1947; L'Étranger (O estrangeiro), 1942; Le Mythe de Sisyphe (O mito de Sísifo), 1942; Les justes (Os justos), 2008; Malentendu (O malentendido), 1944; Lettres à un ami allemand (Cartas a um amigo alemão),1941; La peste (A peste), 1972; L'État de siège (Estado de sítio), 1948; L'Artiste en prison (O Artista na prisão), 1952; Actuelles (Atuais) I, Crônicas, 1944-1948", 1950; "Actuelles (Atuais) II, Crônicas, 1948-1953; L’homme révolté (O homem revoltado); L'Été (O Verão), 1954; Requiem pour une nonne (Réquiem para uma freira); La chute (A queda),  1972; L'Exil et le Royaume (O exílio e o reino), 1957; La Femme adultere (A mulher adúltera), Le Renégat (O Renegado), Les Muets (Os Mudos), L'Hôte (O Hóspede), Jonas. La Pierre qui pousse (A Pedra que brota, Os discursos da Suécia (publicado juntamente com O avesso e o direito); Carnets I (Cadernetas I), 1962; Carnets II (Cadernetas II), janeiro 1942-março 1951, 1964; Carnets III (Cadernetas III), março 1951-dezembro, 1959; La Postérité du soleil, photographies de Henriette Grindat. Itinéraire par René Char (A posteridade do Sol, fotografias de Henriette Grindat. Itinerário por René Char, 1965;  Les possédés (Os possessos),  adaptação ao teatro do romance de Fiódor Dostoiévski, 1959; Résistance, Rebellion, and Death (Resistência, Rebelião e Morte); Le Premier Homme (O primeiro homem), 1994; La mort heureuse (A morte feliz); Albert Camus, Maria Casarès. Correspondance inédite (1944-1959). Avant-propos de Catherine Camus, Gallimard, Collection Blanche, 2017.

Albert Camus é um escritor argelino de nacionalidade francesa. Nasceu em 07/11/1913, em Mondovi, Argélia, e faleceu em 04/01/1960, em Villeblevin, França. Um homem de vários talentos: romancista, ensaísta, jornalista, dramaturgo e filósofo. Na sua terra natal, viveu sob o guante da fome, da guerra, da miséria e do sol. Tais referências vão aparecer em toda a sua obra.
Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de 1957, pelo conjunto da obra. Ele era tuberculoso e esta condição, à época uma ameaça real de morte, lhe traz a dimensão da falibilidade do ser humano. Como filósofo, Albert integra a corrente existencialista; como escritor, vincula-se ao que se convencionou chamar “estética do absurdo”. Como precedentes, dentro da mesma proposta estética, temos Dostoiévski e Franz Kafka; como filiados posteriores, Samuel Beckett e Eugène Ionesco.
Vale transcrever a abertura de O Estrangeiro:

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Vou tomar o ônibus às duas horas e chego ainda à tarde. Assim posso velar o corpo e estar de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de licença a meu patrão e, com uma desculpa destas, ele não podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: “A culpa não é minha.” Não respondeu. Pensei, então, que não devia ter-lhe dito isto. A verdade é que eu nada tinha por que me desculpar. Cabia a ele dar-me os pêsames. Com certeza, irá fazê-lo depois de amanhã, quando me vir de luto. Por ora é um pouco como se mamãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso encerrado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.” (página 13)

Uma das mais perfeitas páginas de abertura que já li. E o parágrafo introdutório é simplesmente irretocável. Perfeito. Várias informações importantes são adiantadas já neste introito. Vejamos.
  • A mãe do protagonista morreu em um asilo para velhos, na localidade de Marengo;
  • A relação do protagonista com o patrão não é das mais afetivas;
  • O narrador é em primeira pessoa, narrando do ponto de vista do protagonista e se constitui, pelo tom já demonstrado, numa voz neutra, distante de qualquer envolvimento emocional com os fatos;
  • O estilo desenvolvido pelo autor é seco, direto, quase sem adjetivos;
  • ·Por fim, o protagonista é um homem sem grande importância social;
  • Não é demais perceber-se, de saída, o tom de pessimismo assumido.

Mersault leva uma vida banal, completamente convencional. A tudo que lhe é proposto, reage com um “tanto faz”, que nos lembra muito, a nós, leitores do século XXI, a extraordinária novela de Herman Melville, Bartleby, o escrivão. Também ele reage de forma parecida, quando lhe propõem alguma tarefa: “melhor não”. Mersault não tem quase desejos, ambições; a vida o leva.
Coloca-se, desde cedo, a grande questão da liberdade. Mersault, não tendo opções a fazer, não tendo ambições, não sendo vinculado a sentimentos, nem a correntes filosóficas, religiosas ou ideológicas e mesmo não sendo filiado a nenhuma corrente teórica científica, configura-se como um homem completamente livre. É um homem que realmente pode escolher o caminho que desejar, pois tem todas as cartas à sua disposição. O que acontece, entretanto, é que ele não escolhe. É livre para escolher, mas tudo lhe parece tão banal, tão sem propósito, que não há o que escolher.
O narrador-protagonista nos narra os fatos no tempo do presente, às vezes fazendo incursões ao passado. Estas incursões, não obstante, não são portadoras de afetividade ou saudosismo. São apenas referências que desembocam no presente.
Penso ser de muita utilidade a transcrição de outro trecho, desta vez de autoria de Manuel da Costa Pinto, jornalista que assina o prefácio:

“Estamos diante de uma consciência esvaziada, estranha (ou “estrangeira”) a tudo, que vive no tempo presente e na recusa de estabelecer nexos entre a gratuidade dos fatos. Esse novo tipo de herói – ou, no caso, de anti-herói, pelo caráter banal de sua existência nua – antecipa em duas décadas o nouveau roman de Alain Robbe-Grillet e Claude Simon, com seus enredos confinados na descrição fenomenológica das coisas e em ações que rejeitam determinações sociais ou explicações de ordem psicológica.” (páginas 5 e 6)

Somos obrigados a fazer relação direta ao livro anteriormente resenhado neste blogue, ainda dentro do mês de novembro, O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati. Aqui como lá, o tom de desencanto; aqui como lá, a percepção de que a vida não é significativa, de que existe apenas o esvaziamento dos sentidos atribuíveis à vida.
Mesmo no caso das relações amorosas, especificamente entre Mersault e Marie, há um esvaziamento, por parte dele:

“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.
— Nesse caso, por que se casar comigo? – perguntou ela.
Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, nós poderíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu me contentava em dizer que sim. Observou, então, que o casamento era uma coisa séria.
— Não – respondi.
Ela se calou durante alguns instantes, olhando-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, partindo de outra mulher com a qual tivesse o mesmo relacionamento, eu teria aceitado a mesma proposta.
— Naturalmente – respondi.” (página 49)

De vez em quando, Mersault a desejava, mas era apenas uma necessidade fisiológica, um impulso natural e automático.
A falta de religião do protagonista vai levar, a certa altura da narrativa, um padre à exasperação. Ele havia tentado obter de Mersault uma declaração de pertencer a esta ou aquela religião:

“Ia dizer-lhe que estava errado em obstinar-se: este último ponto não tinha tanta importância assim. Mas ele me interrompeu e exortou-me uma última vez, do alto de sua posição, perguntando-me se acreditava em Deus. Respondi que não. Sentou-se, indignado. Disse-me que era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que lhe viravam o rosto. Essa era a sua convicção, e se algum dia viesse a duvidar dela, a sua vida deixaria de ter sentido.
— O senhor quer – exclamou – que a minha vida não tenha sentido?Na minha opinião, eu não tinha nada com isso, e foi o que lhe disse. Mas do outro lado da mesa ele já brandia o Cristo sob os meus olhos e gritava de maneira irracional:— Eu sou cristão. Peço perdão pelos seus pecados a esse aqui. Como pode não acreditar que ele sofreu por você?” (página 73)

Não tive, leitor, o planejamento de ler duas obras tão densas, enquadradas na “estética do absurdo” – obras tão desesperançadas – uma após a outra. O deserto dos tártaros, sim, foi opção; queria ler essa obra há muito tempo. Mas não este O estrangeiro. Ele me foi indicado pelo instrutor de um curso que estou fazendo. Ademais, Albert Camus era uma lacuna imperdoável na minha vida de leitor – lacuna que reparo agora.
Se você gosta de leituras densas, é uma boa indicação. Aliás, é mais do que a questão posta. Na verdade, se você gosta desta linha pessimista, ou se você consegue lê-la, mesmo não se identificando com o tom tão pessimista (sou desses, otimista de carteirinha, mas que consegue mesmo assim gostar de algo tão contrário à minha disposição), leia-o. É um dos clássicos da literatura ocidental.

domingo, 19 de novembro de 2017

Resenha: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

Resultado de imagem para livro o deserto dos tártarosTítulo original: Il deserto dei Tartari
Título em português: O deserto dos tártaros
Autor: Dino Buzzati
Editora: Editora Nova Fronteira
Tradução: Aurora Fornoni Bernaradini/Homero Freitas de Andrade
Origem: Literatura Italiana
ISBN: 9788520923849
Bibliografia do autor: Bàrnabo delle montagne, 1933; Il segreto del bosco vecchio (O segredo do bosque velho), 1935; Il deserto dei Tartari, 1940; I sette mesaggieri, 1942; La famosa invasione degli orsi in Sicilia, 1945; Il libro delle pipe, 1945; Paura ala Scala, 1949; In quel preciso momento, 1950; Il crollo della Baliverna, 1957; Sessanta racconti, 1958; Le storie dipinte, 1958; Esperimento di magia, 1958; Il grande ritratto, 1960; Egregio signore, siamo spiacenti di..., 1975; Un amore, 1963; Il capitano Pic e altre poesie, 1965; Scusi da che parte per Piazza Duomo?, 1965; Tre colpi alla porta, 1965; Il colombre, 1966; Presentazione a L'opera di Bosch, 1966; Due poemetti, 1967; Prefazione a R.James, 1967; Prefazione a W:Disney, Vita e dollari di Paperon de' Paperoni, 1968; La boutique del mistero, 1968; Poema a fumetti, 1969; Le notti difficili, 1971; I miracoli di Val Morel, 1971; Prefazione a Tarzan delle scimmie, 1971; Cronache terrestri, servizi giornalistici, a cura di Domenico Porzio, 1972; Congedo a ciglio asciutto di Buzzati, 1974; Romanzi e racconti, 1975; I misteri d'Italia, 1978; Teatro, 1980; Dino Buzzati al Giro d'Italia, 1981; Le poesie, 1982; 180 racconti, 1984; Il reggimento parte all'alba, 1985; Lettere a Brambilla, 1985; Il meglio dei racconti, 1990; Le montagne di vetro, 1990; Lo strano Natale di Mr. Scrooge e altre storie, 1990; Bestiario, 1991; Il buttafuoco, 1992; La mia Belluno, 1992; Il borghese stregato ed altri racconti, 1994. Teatro: Piccola passeggiata, 1942; La rivolta contro i poveri, 1946; Un caso clinico, 1953; Drammatica fine di un musicista, 1955; Sola in casa, 1958; Una ragazza arrivò, 1958; Le finestre, 1959; L'orologio, 1959; Un verme al ministero, 1960; I suggeritori, 1960; Il mantello, 1960; L'uomo che andrà in America, 1962; L'aumento, 1962; La colonna infame, 1962; Spogliarello, 1962; La telefonista, 1964; La famosa invasione degli orsi in Sicilia (representado em Milão em 1965); La fine del borghese, 1968.

Dino Buzzati Traverso nasceu San Pellegrino (Itália), em 16/11/1906 e faleceu em Milão, em 28/01/1972. Foi jornalista, escritor italiano de romances, teatro. Em 1924, ingressou na Universidade de Milão, onde curso Direito. Quando terminava seu curso, iniciou suas atividades jornalísticas no Corriere della Siera, ficando neste emprego durante toda a sua vida. É bastante difundida a tese de que sua carreira jornalística tenha influenciado diretamente sua atividade literária, dando-lhe um estilo objetivo e próximo da realidade, mesmo nos escritos nos quais se aproxima do absurdo. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na África como jornalista da Marinha Italiana. Logo após, publicou sua obra O deserto dos tártaros, obtendo fama mundial.
Este O deserto dos tártaros é um clássico, indubitavelmente. Filiado à corrente literária que propõe uma narrativa cujos elementos constitutivos pertencem ao mundo do absurdo, a leitura da obra é angustiante. Ela me deixou ansioso em vários trechos. Apesar de ter fatos absurdos, desconcertantes, Dino Buzzati os descreve com riqueza de detalhes, como se estivesse tratando de coisas aceitáveis, corriqueiras.
Em muitos livros, realiza-se a catarse grega, isto é, uma espécie de depuração; seguimos o drama do personagem e depois nos advém o alívio. Não precisamos experimentar o drama em nossa vida, observamos tais acontecimentos na vida do personagem e, ao fim, o sentimento de empatia nos eleva. Não, entretanto, neste O deserto dos tártaros. Não há catarse. Ao término da leitura, fica-se com a amargura do personagem, sem remissão.
Certo Giovanni Drogo é designado para servir no Forte Bastiani, uma fortaleza de fronteira. Ela guarda a segurança das terras contra a invasão dos tártaros, que devem atravessar um deserto. Daí o nome da obra. Não obstante, a história não é sobre militarismo ou guerra.
O Forte Bastiani não é considerado importante, por um pequeno detalhe: ninguém acredita ser possível um ataque dos tártaros, tendo de atravessar um deserto inóspito. Ela se configura, então, como uma fortaleza protocolar, uma afirmação da autoridade. Tão desimportante é a construção que nem mesmo o comum dos habitantes de uma cidade próxima se lembram da existência dela:
“Da sombra acumulada aos pés da muralha surgiu então um homem, uma espécie de vagabundo e mendigo, com uma barba grisalha e um pequeno saco na mão. Na penumbra, contudo, não se distinguia bem, somente o branco de seus olhos emitia reflexos. Drogo fitou-o, reconhecido.
— O que está procurando o senhor? – perguntou.
— Procuro o forte. É este?
— Não existe mais forte aqui – disse o desconhecido, com voz afável. – Está tudo fechado, já faz uns dez anos que não há ninguém.
— E onde fica o forte, então? – perguntou Drogo, repentinamente irritado com aquele homem.
— Que forte? Aquele, talvez? – E o desconhecido estendia um braço para indicar alguma coisa.” (página 10)
Giovanni Drogo é um homem simples e acompanhamos sua trajetória; é um tenente e se apresenta, então, ao comando militar. Conhece a rotina do forte e, pouco a pouco, se integra a ela. E vai percebendo duas coisas: primeira, as pessoas que servem no forte vão se acomodando a ele e não desejam mais ir embora; segunda, ciclicamente, alguém diz ter identificado ao longe, no deserto, alguma movimentação do inimigo, o que poria em estado de atenção o destacamento do forte. Entretanto, tais avistamentos não se concretizam.
Os acontecimentos cíclicos marcam o romance. O ciclo das estações, que vão se sucedendo, o ciclo dos avistamentos, o ciclo da água que goteja na cisterna, inicialmente se tornando uma tortura para Drogo, no silêncio da noite. O madeirame do forte range quando se dilata sob o calor do verão ou quando se retrai, sob os rigores do inverno.
A certa altura, Giovanni Drogo vai passar um tempo com a família. Acentua-se a sensação do absurdo que é a vida no forte e é um ponto a mais para termos a percepção de que o forte significa muito mais do que uma mera construção militar:
“Não pense mais nisso, Giovanni Drogo, não se vier para trás, agora que chegou à borda do planalto e a estrada está para mergulhar no vale. Seria uma tola fraqueza. Você conhece, pedra por pedra, o forte Bastiani, certamente não corre o risco de esquecê-lo. O cavalo trota alegremente, o dia está bom, o ar, morno e leve, a vida à frente é longa, como que ainda por começar, que necessidade haveria de dar uma última olhada nas muralhas, nas casamatas, nas sentinelas de turno na borda dos redutos? Assim uma página lentamente é virada, passada para o outro lado, acrescenta-se a outras já findas, por hora é apenas uma leve camada; as que falta ler são, em comparação, um monte inesgotável. Mas é sempre uma outra página gasta, senhor tenente, uma porção de vida que se foi.” (página 110/111)
Drogo retorna, entretanto. A sua vida de antes da apresentação ao forte não tem mais significado; a sua própria casa se torna estranha a ele. O forte exerce uma estranha atração sobre Giovanni. Não lhe importa o absurdo de servir a uma fortaleza decrépita, quase inoperante porque antiga, defasada, contra um inimigo que não comparece.
E, num dos belos trechos desta obra, entre tantos outros, lemos o seguinte:
“Aos poucos a fé se enfraquecia. É difícil acreditar numa coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que, se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que, se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso o que causa a solidão da vida.” (páginas 144/145)
O trecho acima é fundamental para o entendimento do livro. Estamos lendo uma obra literária sobre o grande tema da solidão do Homem, mesmo em meio aos seus semelhantes. O forte nos dá uma amostragem da sociedade em que vivemos; ali, os soldados e oficiais, desejam ardentemente a tal invasão dos tártaros, cujo combate lhes trará glória, os tornará importantes. Dão os melhores anos de sua vida para este gran finale, que, afinal de contas, provavelmente não vai acontecer.
O famoso mal de siècle, o mal-estar da humanidade. A sociedade que começa a emergir do período de guerras mundiais, que nos promete o paraíso se todos participarmos da sua sustentação. Entretanto, a premiação é pífia e difusa, num mundo líquido (Bauman, obrigado), em que nada é aquilo que parece ser, tudo muda o tempo todo. Agimos com um cão correndo atrás de um naco de carne amarrado, numa extremidade, a uma vara e a vara, na outra extremidade, na própria coleira do cão. Nunca a alcançará.
Perturbador, sim, mas leitura obrigatória, pelo menos para aqueles que gostam ou sentem necessidade de reflexão. Na minha opinião, este é um livro que trafega no mesmo caminho de A fera na selva, de Henry James, Bartleby, O escriturário, de Herman Melville, Esperando Godot, de Samuel Beckett, A metamorfose, de Franz Kafka. Cada uma deles tem suas peculiaridades, os temas não são exatamente os mesmos, mas trabalham a percepção de um mundo absurdo. Em sentido amplo, são obras distópicas, embora se tenha convencionado a aplicação desta palavra – distópico – a obras de ficção científica que mostram uma visão pessimista de uma sociedade futura.
Para degustação final, outro belo trecho deste O deserto dos tártaros:
“À soleira estava sentada uma mulher, ocupada em tricotar uma meia, e a seus pés dormia, num rústico berço, uma criança. Drogo fitou espantado aquele sono maravilhoso, tão diferente do dos homens grandes, tão delicado e profundo. Não haviam nascido ainda naquele ser os sonhos turvos, a pequena alma vagava despreocupada, sem desejos ou remorsos, por um ar puro e calmo. Drogo permaneceu parado, admirando a criança adormecida, e uma aguda tristeza penetrava em seu coração. Tentou imaginar a si mesmo mergulhado no sono, um Drogo estranho que ele nunca pudera conhecer.” (página 167)
Curiosa aqui a presença de uma mulher tricotando uma meia, provavelmente para a criança. Uma construção possível é a da mulher que, ao pôr o filho no mundo, já começa a construir para ele os passos que fatalmente o levarão ao sofrimento de ser sozinho.
Pessimista, caro leitor, mas belo. Este O deserto dos tártaros é um livro que certamente revisitarei. Esquecê-lo, provavelmente, nunca mais.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Resenha: A Metamorfose, de Franz Kafka

A Metamorfose Título original: Die Verwandlung
Título em português: A Metamorfose
Autor: Franz Kafka
Tradutor: Marcelo Backes
Editora: Folha de São Paulo (em parceria com a LP&M)
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-7949-282-2
Bibliografia: Romances – O Desaparecido, 1912; O Processo, 1914; O Castelo, 1922. Contos – Na Colônia Penal, 1914; Um Médico Rural, 1919; Um Artista da Fome, 1922; A Grande Muralha da China, 1918. Novela – A Metamorfose, 1912.

Franz Kafka nasceu em 03/07/1883, em Praga, na República Tcheca e morreu em 03/06/1924, na Áustria. Pertencia a uma família judia de classe média, morando em Praga, à época pertencente ao famoso Império Austro-Húngaro. Os habitantes daquela capital falavam, em sua maioria, o idioma tcheco e a outra parte dela, o alemão. Cada um destes grupos idiomáticos tentava a supremacia, pois trabalhavam para fortalecer a identidade nacional.
Kafka cursou Direito e logo conseguiu emprego numa companhia de seguros. No seu tempo livre, escrevia contos e por toda a sua vida reclamou muito do pouco tempo para cumprir o que ele chamou de seu “chamado”. A ocupação com o seu ganha-pão não lhe deixava tempo suficiente para se dedicar à sua obra. Escreveu centenas de cartas para seus familiares e amigos mais próximos, como seu pai, sua noiva Felice Bauer e sua irmã mais nova, Ottla Kafka.
A relação turbulenta com o pai, a condição de ser judeu são condições normalmente apontadas como influência sobre as características de suas histórias, onde prevalece a estranheza, o absurdo, o labiríntico, surreal. O adjetivo kafkiano, para dizer destas características foi criado.
A Metamorfose, livro que acabei de ler, tem um dos inícios mais impressionantes e sensacionais de quantos eu tenha lido:
“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobe suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco sua cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.” (página 5).
O texto segue, num tom de completo absurdo. Kafka, ao invés de focar na condição estranha de Gregor, em nenhum momento nos dá qualquer explicação sobre o que teria motivado tal transformação. Ao contrário, ele vai tratar a metamorfose abjeta do seu personagem como algo comum, possível de acontecer a qualquer um de nós. O próprio Gregor, logo depois de verificar sua nova figura, procura se adaptar a ela, tentando dominar suas pernas e seu abdômen em forma de couraça.
Ele trabalhara num pequeno negócio, como caixeiro-viajante; nunca se atrasara ou faltara ao serviço. Não adoecia. E assim, quando sua família percebe que Gregor ainda não se aprontou para ir trabalhar, começa a se preocupar. Até seu gerente comparece, pois, naquele horário, ele deveria ter viajado e estar muito distante dali. A única pessoa que vai cuidar dele, limpar o quarto, alimentá-lo é sua irmã mais nova, Grete.
O processo de mudança de homem em animal continua. Logo Samsa não se alimenta mais como um ser humano, mas começa a demonstrar preferência por alimentos estragados, não frescos, chegando até mesmo a consumir dejetos, lixo. Adquire nova habilidade e aprende a subir pelas paredes e andar pelo teto:
“Gostava em particular de ficar pendurado no teto; era bem diferente do que ficar deitado sobre o piso; conseguia-se respirar com mais facilidade; uma leve vibração percorria o corpo; e na distração quase feliz em que Gregor se encontrava lá em cima às vezes acontecia que, para sua própria surpresa, ele se deixava cair estalando no chão. Mas agora, naturalmente, ele já tinha domínio de seu corpo, bem diferente de antes, e não se danificava mesmo numa queda tão grande.” (página 39)
A família Samsa é caracterizada como irremediavelmente burguesa; Samsa a carrega nas costas com seu trabalho aviltante, como fica explícito no trecho:
“Mas em volta estava tudo tão silencioso, ainda que, com certeza, a casa não estivesse vazia. “Que vida sossegada que a família não levava”, disse Gregor a si mesmo e sentiu, enquanto fixava os olhos à frente de si na escuridão, um grande orgulho pelo fato de ter conseguido dar a seus pais e sua irmã uma vida dessas numa casa tão bonita.” (página 28)
Em uma outra passagem, fica bastante evidente o conflito edipiano de Gregor Samsa em relação a seus pais:
“Com o último olhar ainda viu a porta de seu quarto ser escancarada e a mãe correndo à frente da irmã, gritando em desespero, em roupas de baixo, uma vez que a irmã tivera de despi-la a fim de que ela respirasse com mais liberdade enquanto estava desmaiada; viu também como a mãe correu em direção ao pai a seguir, enquanto as saias despertadas caíam uma a uma no caminho, e como ela, tropeçando sobre as saias, caiu sobre o pai, abraçando-o, em completa união com ele –, mas nesse momento a vista de Gregor já falhava – implorando  com as mãos sobre a nuca do pai, para que ele poupasse a vida de Gregor.” (página 48)
O conflito de Édipo se traduz da peça Édipo Rei, do grego Sófocles, em que o filho cumpre seu destino de matar o pai para se casar com Jocasta, sua própria mãe. E a referência mitológica se faz porque Samsa observa a mãe quase nua, caindo sobre o pai e abraçando-o “em completa união com ele”. Neste momento, a vista de Gregor começa a falhar – ele não pode ver o ato de união entre o pai e a mãe - na peça do grego, Édipo vaza seus próprios olhos.
A Metamorfose é uma novela pequena, a edição que tenho, da Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura, tem apenas 71 páginas, texto integral. Mas é uma história rica em referências de toda sorte. Escrita com um cuidado artesanal na composição dos elementos sintáticos/semânticos, é uma leitura para reflexão. Kafka não é um autor fácil.
A transformação de Samsa em inseto asqueroso é uma grande metáfora para a incomunicabilidade entre os seres – principalmente, na história, entre os familiares –, a absurda subserviência do ser ao sistema dominante (mesmo transformado Gregor continua a se preocupar com seu emprego), uma crítica aos valores burgueses e alienantes.
A edição traz várias notas de pé de página, esclarecedoras, que nos enriquecem a leitura consideravelmente. Apontam, às vezes, concomitâncias com outras grandes obras, como O Duplo, do russo Dostoiévski. É que certos temas, certas relações são recorrentes em literatura, como de resto, na arte.
Marc Chagall, por exemplo, foi um pintor que se serviu muito, para compor parte de sua obra, dos temas, situações e personagens de outro grande russo, Nikolai Gógol, de sua obra Almas Mortas.
Absolutamente imperdível a leitura atenta deste A Metamorfose, do genial Franz Kafka. Se você, leitor, sente-se disposto a enfrentar uma leitura que, provavelmente, irá marcá-lo pela originalidade, pela competência com que os temas são tratados, leia este livro. Se já o leu alguma vez, disponha-se a enfrentá-lo outra vez.

Afinal, nunca lemos o mesmo livro duas vezes. A Metamorfose é um destes clássicos do século XX, tão citados que, ao compulsá-lo, temos a impressão de já conhecermos sua história; nada mais enganoso. O subtexto, as entrelinhas, o sugerido, torna a leitura desta obra um inesgotável prazer estético.

domingo, 29 de outubro de 2017

Resenha: As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

Resultado de imagem para livro as alegrias da maternidade buchi emechetaTítulo original: The Joys of Motherhood
Título em português: As Alegrias da Maternidade
Autoria: Buchi Emecheta
Edição: TAG Livros/Dublinense (especial)
Copyright: 1979
ISBN: 9788583180968
Gênero literário: Romance
Literatura africana: Nigéria
Número de páginas: 311
Bibliografia: In the ditch, 1972; Second-class citizen, 1974; The bride price, 1976; The slave girl, 1977; The joys of motherhood, 1979; The moonlight bride, 1981; Our own freedom, 1981; Destination Biafra, 1982; Naira Power, 1982; Adah’s story, 1983; The rape of shavi, 1983; Double Yoki, 1982; A kind of marriage, 1986; Gwendolen, 1989; Kehinde, 1994; The new tribe, 2000.

Florence Onyebuchi Emecheta, mais conhecida como Buchi Emecheta, é uma escritora nigeriana nascida em 21/07/1944, em Lagos, antiga capital da Nigéria, e falecida em Londres, em 25/01/2017. Como se pode depreender de sua bibliografia acima, foi uma autora bastante prolífica. Passou boa parte da sua infância na cidade de Ibuza, terra dos pais. Eles faziam questão de cultivar em Buchi e seu irmão mais velho as raízes da cultura igbo. Entre outras coisas, isto significava que o irmão poderia estudar, por ser menino, e Buchi, por ser menina, não. As mulheres não se pertencem, elas simplesmente passam das mãos masculinas do pai para as do marido e, mais tarde, para as mãos masculinas dos filhos.
Ela adorava escutar histórias contadas pelos mais velhos. E tanto insistiu com os pais, que eles acabaram concordando: Buchi Emecheta passou a frequentar uma escola para meninas, onde aprendeu as línguas nativas e o inglês — idioma escolhido por ela mais tarde, para a produção de seus trabalhos.
Buchi casou-se muito cedo; aos onze anos, já estava noiva do estudante Sylvester Onwordi e aos dezesseis, já estavam casados. Nasceram-lhes dois filhos e a família se mudou para Londres, onde Sylvester entrou para a faculdade. Não foi um relacionamento tranquilo; muito pelo contrário, Onwordi revelou-se um homem machista e violento. A futura autora esboçava seu trabalho de estreia e sofreu o desgosto de ver os originais que compunha completamente queimados.
Aos vinte e dois anos, ela conseguiu o divórcio, pois Sylvester não podia tolerar os sonhos da mulher, de estudar também numa faculdade e tornar-se uma autora. O ex-marido não reconheceu a paternidade sobre os filhos e Emecheta viu-se num país estranho, com cinco filhos para criar e sozinha. Foi à luta, criou os filhos, arranjou trabalho e em 1974 estava formada em sociologia.
Acabei de ler este As Alegrias da Maternidade hoje, domingo, 29/10/2017. Leitura deliciosa, Buchi Emecheta — até então desconhecida para mim, aliás, desconhecida da absoluta maioria dos brasileiros — criou um texto em que o efeito da simplicidade está patente. Os personagens principais, de nomes estranhos, ainda estão circulando na minha cabeça. Nwokocha Agbadi, Ona, Nnu Ego, Nnaife Owulum, Adaku, Adankwo, Okpo, Dumbi, Ngozi, Oshiaju, Adimabua, Taiwo, Kehinde, Nmadio, Obiageli, Malachi...
Esta é uma edição de parceria entre a editora Dublinense, de Porto Alegre, e a TAG Experiências Literárias. Uma edição especial para os associados, mas que, depois de algum tempo, terá uma edição nas livrarias. Não compreendo como um livro desta qualidade pode estar fora do mercado editorial brasileiro há tanto tempo.
Emecheta assumiu o compromisso de “questionar os estereótipos da mulher nigeriana e africana, expondo sua realidade diária e a sua opressão das normas sociais. Sua obra critica, entre outros temas, o tipo de educação destinado à mulher, a valorização da maternidade como única preocupação possível, a violência degradante do colonialismo e a cultura que deslegitima sua autonomia”, de acordo com o exposto na página 11 da revista que acompanha o kit da TAG de outubro.
Nossa autora faz mais do que isto, neste As Alegrias da Maternidade. Nnu Ego, a protagonista desta história, está longe de ser uma personagem plana. Filha do importante chefe Nwokocha Agbadi e a altiva Ona, Nnu casa-se primeiramente com Amatokwu. Não consegue engravidar dele, o que, para uma mulher, dentro desta cultura, é uma autêntica desgraça. É relegada a segundo plano e ela vê o marido contrair novo casamento, desta vez com uma mulher que lhe dá filhos.
O relacionamento é desfeito, pois o chefe Agbadi vê o sofrimento da filha e a compra de volta. Uma mulher não pode ficar sozinha e assim, mesmo com a compreensão paterna, Nnu se vê em outro relacionamento não desejado, desta vez com um homem da cidade de Lagos. O novo marido não é do seu agrado; barrigudo, trabalhando na casa dos ingleses colonizadores como lavador e passador de roupas, tudo o que ele obtém de Nnu é desprezo. Aquilo não é trabalho de homem. Homem é caçador, agricultor.
Nnu se constrói, então, como uma personagem rica, aparentemente incoerente, oscilando sem consciência da transformação entre a força da tradição e os novos tempos. Quem tem muita consciência sobre o processo de mudança imposta é Adamkwo, a esposa mais velha do irmão morto de Nnaife, quando esta dá sua opinião à Nnu, sobre o filho dela, Nnu:
“O que você acha que eu devo fazer com Oshia? Ele se adaptou tão bem à vida na lavoura quanto à do estudante. Adora estar aqui.”
“Isso é verdade”, respondeu Adamkwo, pensativa. “Mas há algo novo chegando à nossa terra, você percebeu? Nós, como família, não precisamos viver e ser criados no mesmo lugar. Deixe que ele estude em Lagos, onde nasceu. Depois, poderá vir para cá trazendo aquela cultura para enriquecer a nossa.” (página 223)
O romance analisa a questão da tradição que vai se perdendo, sufocada pelos novos costumes impostos pelo branco colonizador. Desta forma, o costume de um homem poder ter tantas esposas quantas consiga sustentar, tantos filhos quantos nasçam, ora é defendido por Nnu (dentro de sua cultura isto é normal), ora é combatido por ela.  E mais, quando o irmão de Nnaife morre, as esposas dele passam para a posse do seu marido, por herança.
Nnaife é um homem acomodado, com uma visão limitada. Ele quer apenas viver a vida sem grandes pretensões, ser amparado pelos filhos na velhice, ter muitos filhos com as esposas porque isto faz com que seja respeitado como homem. As filhas são vistas, não só por ele, como por todos, como investimentos (carreiam dotes para a economia da família).
Nnu Ego herdou a altivez da mãe Ona. Não exatamente como Ona, de gênio mais impositivo, mas a rebeldia a certos preceitos é a mesma. Isto não a impede, entretanto, de viver uma vida de ausências: ausência de dinheiro, mínimo para educar direito os filhos, para ter uma condição razoavelmente digna de vida; ausência prolongada do marido, transformado em combatente na Segunda Guerra Mundial. Não há grandes empregos em Lagos, para os nigerianos. Eles vivem à margem dos ingleses, contratados com baixos salários.
A Segunda Guerra Mundial estoura, mas o conflito é tratado no romance como algo distante, desconfigurado. Só se sabe que, de repente, os ingleses começam a abandonar suas casas na Nigéria e voltarem para a Inglaterra. A empregabilidade dos nigerianos da capital cai sensivelmente. Não há mais quem lhes dê serviço.
Entretanto, as coisas tomam matizes terríveis quando os próprios nigerianos são convocados — sequestrados seria a palavra mais correta — para uma guerra que não é deles, que eles não entendem.
Vemos uma Lagos em transformação. Um conflito potencialmente modificador dos hábitos locais, apesar de distante; o cristianismo modificando os costumes e condenando o sistema familial; a industrialização promovida pelos colonizadores, ainda que incipiente. O contraponto é Ibuza, onde a vida segue dentro dos eixos da tradição, pacata e sem fortes contradições internas, pois vigoram as leis da ancestralidade — vale dizer, leis advindas da tradição.
As Alegrias da Maternidade é, sem dúvida, uma grande obra. Buchi Emecheta é, sem dúvida, uma grande escritora. Não à-toa, a famosa Chimamanda Ngozi Adichie, curadora da TAG para o mês de outubro, tem nela uma de suas inspiradoras. O título, que poderia ser interpretado como um elogio à maternidade, constitui-se como uma rasgada ironia, como se pode verificar neste trecho, transcrito da página 308:
“Nunca fizera muitos amigos, de tão ocupada que vivera acumulando as alegrias de ser mãe.”
Uma das coisas que valoriza muito o romance é que Emecheta fala de dentro da cultura igbo, localizando ali grande parte dos conflitos de suas personagens:
“Meses depois, quando caiu naquele sono cansado que muitas vezes aprece no início da gravidez, Nnu Ego sonhou que estava vendo um menininho de cerca de três meses de idade abandonado junto a um riacho. Ficara pensando por qual razão a criança estaria abandonada daquele jeito. Metade do corpo do bebê estava coberto de lama, a outra metade de muco que escorria de seu nariz e de sua boca. Ela estremeceu quando se aproximou para recolhê-lo. era muito escuro, tinha a cor de azeviche de seu pai, mas era gorducho e estava extremamente sujo. Ela não pensou duas vezes: pegou o bebê e resolveu lavá-lo no regato para depois esperar a chegada da mãe dele. A mãe não chegava e Nnu Ego sonhou que o dependurava nas costas, já que o menino estava sonolento. Depois, em seu torpor, viu a escrava, sua chi, do outro lado do riacho, dizendo: ‘Isso, pegue os bebês sujos e gorduchos.” (página 111)
Chi, o deus ou deusa particular, reencarnação, predestinação... valores de uma cultura. Estes mesmos valores que são questionados, cada vez mais, na cidade de Lagos são aqueles mesmos inquestionados em lugares mais distantes, nos quais a influência do branco ainda não chegou.
É o que está presente na página 215, quando morre o grande chefe Agbadi:
“Semanas mais tarde, Nnu Ego entrou em trabalho de parto. O menino que ela teve chegou ao mundo exatamente na mesma hora da madrugada em que seu pai morrera. Ela queria dar a ele o nome do pai, mas não sabia como dizer isso à gente de Nnaife, temendo que a considerassem uma mulher ultracivilizada, dessas que escolhem sozinhas os nomes dos filhos. Só porque o marido estava lutando na guerra. Era uma preocupação desnecessária. Bastou um olhar para a criança de corpo alongado e pele seca deitada sobre a folha de bananeira para que Adamkwo, a esposa Owulum mais velha, que auxiliara no parto, exclamasse:”
“É Agbadi! Ele está de volta!.”
 O filho Oshia representa a nova mentalidade que se impõe aos mais velhos, não sem sofrimento e conflito:
“Não estou entendendo, pai. Você está me dizendo que eu deveria alimentar meus irmãos, você e minha mãe também, mas vocês estão vivos e fortes, ainda trabalham...”.
“Cale a boca! Cale a boca antes que eu jogue você no chão e lhe mostre eu você não ficou assim tão crescido que eu não possa lhe dar uma lição. Por acaso não ouviu meus amigos dizerem, no outro dia, que estava na hora de eu descansar, depois de todo o trabalho que tive ao longo dos anos? Que você devia assumir os gastos?”.
“Não posso assumir os gastos, pai. Vou para os Estados Unidos. Ganhei uma bolsa de estudos, embora tenha que pagar pelo alojamento.” (Página 278)          
Para finalizar, um lamento profundo comparece nas páginas finais do capítulo O pai soldado:

“Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?” (desabafo de Nnu Ego, página 257)                                                                                                                                                                                                                      

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Resenha: Para Ler Romances Como Um Especialista, de Thomas C. Foster

Resultado de imagem para Para ler romances como um especialistaTítulo original: How To Read Novels Like A Professor
Título em português: Para Ler Romances Como Um Especialista
Autor: Thomas C. Foster
Editora: Lua de Papel
Copyright: 2011
ISBN: 978-85-63066-47-3
Páginas: 286
Bibliografia do autor: Form and Society in Modern Literature, 1988; Seamus Heaney, 1989; Understanding John Fowles, 1994; How to read literature like a professor (Para Ler Literatura Como Um Professor), 2003; How to read novels like a professor (Para Ler Romances Com Um Especialista), 2008; Twenty-five books that shaped America, 2011; Reading the Silver Screen, 2016.

Thomas C. Foster é professor de inglês na Universidade de Michigan, Flint, e também ministra cursos sobre ficção contemporânea, teatro, poesia, escrita criativa e composição. Escreveu diversos livros sobre literatura e poesia, inglesa e irlandesa do século XX, e mora em East Lansing, Michigan.  

Se você gosta muito de ler, mas acha que poderia ler melhor, este é o livro indicado para você. Para Ler Romances Como Um Especialista é e não é um manual. Do manual ele mantém a intenção de instruir o leitor a respeito de como executar alguma coisa. Entretanto, possui um texto muito gostoso de ler, bem humorado. Thomas sabe que, em literatura, conselhos para aproveitar melhor a leitura são sempre bem-vindos, mas não há lugar, neste campo, para “fórmulas consagradas”. Até porque, insiste ele, cada livro ensina ao leitor como deve ser lido.
O leitor já maduro não encontrará muita coisa de novo, que já não tenha intuído. Todavia, acho interessantíssimo um livro em que uma relação ampla de estratégias de leitura de romances esteja reunida e explicada.
Partindo de sua vasta experiência letiva, Foster vai traçando “leis”, como por exemplo:
Lei da Unidade Narrativa: a melhor maneira de organizar um romance é a que faz mais sentido para aquele livro em particular. (...) A única unidade que um romance tem é qualquer uma que o escritor impõe a ele e o leitor descobre.” (página 235)
Ou, então esta, uma das minhas preferidas:
Lei de Nós e Eles: Os leitores escolhem o grau em que se identificam com os personagens. Talvez esta seja a coisa mais milagrosa com relação à leitura, a maneira pela qual podemos ficar cativados pelo familiar quanto pelo estranho.” (página 211)
Esta lei explica, por exemplo, o sucesso do queridinho do momento, John Williams, no seu romance Stoner. Neste romance atípico, nada — absolutamente nada — acontece ao personagem que dá nome à obra. Contraria toda a orientação dada em oficinas de escrita criativa e as fórmulas dos mais estrondosos best-sellers. Prega-se, nestes meios, exatamente o contrário: deve-se dotar o livro de um enredo dinâmico, num texto moderno, ágil. Stoner não é nada disso. Não obstante, é um estrondoso sucesso, após vinte anos de ostracismo.
Este livro vai se juntar a alguns livros sobre leitura/escrita que considero hors concours: Para Ler Como Um Escritor, de Francine Prose; Para Ler Literatura Como Um Professor, do próprio Thomas C. Foster; A Arte da Ficção, de David Lodge; Escrever Com A Alma, de Natalie Goldberg; Oficina de Escritores, de Stephen Koch. Útil também poderá ser a leitura dos três pequenos volumes publicados pela editora L&PM, Viver E Escrever, de Edla Van Steen.
Uma oportuna lista comentada de leituras acompanha o volume de Thomas C. Foster.
Gostei de muitas coisas ditas pelo autor, como por exemplo, a ideia de que todos os livros do mundo formam uma rede de diálogos, desde o Dom Quixote, de Cervantes, o Decamerão, de Boccaccio, o Tristram Shandy, de Lawrence Sterne até a mais recente obra contemporânea.
Ao se esforçar para dotar o leitor de estratégias de compreensão e apreensão dos romances, Foster acaba evidenciando alguma coisa sobre a outra arte, a de escrever. Sim, pois aos esmiuçar certos livros, bases para o que deseja explicar, mostra as estratégias traçadas pelos autores para a orientação dos seus leitores.

Li este Para Ler Romances Como Um Especialista exatamente como um romance: degustando o texto e sistematizando conhecimento já adquirido por estas minhas já extensas andanças literárias. Muito bom. Recomendo.