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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Enfiando o pé na jaca II

Hoje, dia 14 de setembro de 2017, estive na 2ª FLI-BH, no Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação, em frente ao 104. Como já é do conhecimento de muitos, resisto bem às liquidações de uma porção de coisas, mas não às dos livros. Na FLI-BH, livros com 40% de desconto falaram mais alto.
A FLI – Festival Literário Internacional fica aberta do dia 14 ao dia 17, no horário comercial. A deste ano homenageia a poeta Laís Corrêa de Araújo (1927-2006) e a entrada é gratuita.
Eis abaixo os livros que escolhi, no meio de muitas opções:

Resultado de imagem para livro pecar e perdoarPecar e Perdoar, de Leandro Karnal: há algum tempo eu estava namorando este livro, atraído pelo título e pelo seu autor. Leandro Karnal é figurinha conhecida nas terras youtúbicas. Acho muito pertinentes a maioria das suas análises, e as outras, com as quais talvez não concorde tanto, pelo menos dignas de escuta e reflexão.

Resultado de imagem para livro jogo de cena em bolzanoJogo de cena em Bolzano, de Sándor Márai. Sándor é um escritor húngaro; talvez seu livro mais conhecido no Brasil seja As Brasas. O título húngaro é impronunciável para brasileiros e apenas como curiosidade, o coloco aqui: Vendégjáték Bolzanóban. O maior sedutor do mundo, Giacomo Casanova fugiu da prisão onde estava e chega à cidade de Bolzano, no extremo norte da Itália. Lá, o mal-afamado veneziano tentará usar de todas as suas artimanhas sedutoras para se ajeitar na vida, mas terá um encontro com fantasmas de um passado não tão distante.

Resultado de imagem para livro um estranho numa terra estranha Um estranho numa terra estranha, de Robert Heileim, é um clássico da ficção científica. A editora Aleph tem feito um trabalho admirável no campo da sci-fi. Esta obra é dos anos 1960 e foi muito importante para a época, por causa da sua mensagem de amor e liberdade. O autor, Robert Anson Heileim havia sido um autor para jovens e resolveu, a partir do livro Tropas Estelares, escrever ficção para adultos. Diferentemente do Tropas, com viés bem militarista, este reflete a insatisfação do autor com os valores sociais estabelecidos. Heileim é considerado, ao lado de Arthur C. Clarke e Isaac Asimov, um dos maiores autores do gênero literário.


Resultado de imagem para livro viver em paz para morrer em pazViver em paz para morrer em paz, de Mario Sergio Cortella. Não é desconhecido pelos leitores deste blogue que sou fã de carteirinha do Cortella. Gosto muito do seu jeito didático de explicar questões complexas; sua argumentação é irretocável. Dele, já resenhei aqui dois livros: Educação, Escola e Docência e Por que fazemos o que fazemos? As duas resenhas são campeãs de acesso, o que comprova, muita gente também é fã dele ou, pelo menos, tem simpatia ou curiosidade pelos seus escritos.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Coleção Mulheres na Literatura, da Folha de São Paulo


Resultado de imagem para mulheres na literaturaNovamente, a Folha de São Paulo manda às bancas uma nova coleção de livros - desta vez, o tema escolhido é Mulheres na Literatura. A seleção é de peso: Clarice Lispector, Perto do coração selvagem; Emily Dickinson, Poemas escolhidos; Isabel Allende, A casa dos espíritos; Simone de Beauvoir, Mal-entendido em Moscou; Virginia Woolf, Cenas londrinas; Jane Austen, Persuasão; Jeannette Walls, O castelo de vidro; Lya Luft, Perdas e ganhos; Herta Müller, Depressões; Rachel de Queiroz, Dôra, Doralina; Agatha Christie, E não sobrou nenhum; Nélida Piñon, Vozes do deserto; Mary Shelley, Frankenstein; Fannie Flagg, Tomates verdes fritos; Madame de Lafayette, A princesa  de Clèves; Maria Adelaide Amaral, Tarsila; Florbela Espanca, Poemas de Florbela Espanca; Françoise Sagan, Bom dia, tristeza; Katherine Mansfield, 15 contos escolhidos; Thays Martinez, Minha vida com Boris; Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes; Louisa May Alcott, Mulherzinhas; Anna Gavalda, Eu a amava; Thrity Umrigar, A distância entre nós; Alice Munro, Fugitiva; Edith Wharton, A época da inocência; Wendy Holden, Os bebês de Auschwitz; Charlotte Brontë, Jane Eyre; Jhumpa Lahiri, Aguapés e, finalmente, Agustina Bessa-Luís, A Sibila.

Percebe-se o cuidado para não ser óbvio ou previsível, fugindo de títulos já bastante desgastados em coleções desse tipo.
A diagramação está bem feita, os livros todos têm capas duras e são publicados em papel amarelado - um fator de descanso para os olhos - uma vez que aquele papel branco reflete luz demais, prejudicando a leitura. O preços é convidativo, R$ 19,90 por volume, sendo que se você comprar o primeiro volume, leva pelo mesmo preço o volume dois. Esta é uma boa oportunidade para quem goste de ler e não tem muita disponibilidade financeira para fazê-lo. Claro, cabe o argumento de serem R$ 79,60 por mês, inviável para muita gente. Aí, talvez seja aconselhável não se preocupar com a coleção e adquirir o livro que mais interessa ao leitor. De posse da lista, ele poderá escolher qual exemplar deseja comprar. A coleção abrange, ao todo, trinta volumes.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Resenha: A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells

Resultado de imagem para livro a ilha do dr. moreauTítulo Original: The Island of Dr. Moreau
Título em português: A Ilha do Dr. Moreau
Autor: Herbert George Wells
Origem: Inglaterra
Editora: Alfaguara
Copyright: 2012
ISBN: 978-85-7962-116-1

Bibliografia do autor: A máquina do tempo (The time machine), 1895; A ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau), 1896; O homem invisível (The invisible man), 1897; A guerra dos mundos (The war of the worlds), 1898; Love and Mr. Lewisham, 1900; The first men in the moon, 1901; O alimento dos deuses (The food of the gods), 1904; Kipps, 1905; A modern utopia, 1905; Os dias do cometa (In the days of the comet), 1906; Ann Veronica, 1909; Tono-Bungay, 1909; The history of Mr. Polly, 1910; The new Machiavelli, 1911; Marriage, 1912; The world set free, 1914; Men like gods, 1923; The world of William Clissoid, 1926; Mr. Blettsworthy on rampole island, 1928; The shape of things to come, 1933.

H. G. Wells, como ficou conhecido, nasceu em Bromley, um distrito da grande Londres, Inglaterra, em 21/09/1866. Em 1883 tornou-se professor da Midhurst Grammar School e ganhou uma bolsa para estudar biologia na Escola Normal de Ciências, em Londres, com ninguém menos que T. H. Huxley, um dos maiores cientistas do século XIX, avô do escritor Aldous Huxley (de Admirável Mundo Novo).  T. H. Huxley era evolucionista, tendo ganhado o apelido de “buldogue de Darwin”, pela sua forte defesa das teses do pai do evolucionismo. O contato com o evolucionismo é um traço importante na biografia de Wells, uma vez que este conhecimento vai aparecer na obra A ilha do Dr. Moreau.
Wells foi um escritor prolífico, como se pode atestar pela sua bibliografia; é tido hoje como um dos iniciantes do gênero literário ficção científica, à época chamado de romance científico. Suas ideias sobre sociedade caminhavam para uma espécie de socialismo, o que o fez aproximar-se de Stálin e da Rússia comunista. Não obstante, acabou se decepcionando por constatar que tal regime era imposto à força de muita violência dos bolcheviques.
Ao longo do tempo, deixou-se levar pelo viés doutrinário e suas obras não conseguiram manter o mesmo nível de criatividade e originalidade da fase inicial. Faleceu em 13/08/1946, aos 79 anos, em Londres. Deixou, indiscutivelmente, um conjunto de obras importante, até hoje em catálogo — sinal insofismável de que elas têm ainda algo a dizer ao nosso conturbado tempo. Alguns de seus livros foram convertidos para o cinema, como por exemplo, A ilha do Dr. Moreau, O homem invisível, Guerra dos Mundos.
Este exemplar que tenho em mãos é o da Alfaguara, digital, em tradução de Bráulio Tavares, que também assina as notas e um prefácio bastante contextualizador. A ilha do Dr. Moreau é constantemente classificada como ficção científica ou uma história de terror. O prefácio de Bráulio nos diz que:
“Se A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e A Guerra dos Mundos eram exemplos de ficção científica ‘pura’ no começo da carreira de H. G. Wells, A ilha do Dr. Moreau (1896) é uma forma híbrida entre a FC (ou o Scientific Romance, como era chamado na Inglaterra daquele tempo) e o romance de aventura em lugares exóticos. As últimas décadas do século XIX foram uma espécie de idade de ouro da literatura de aventura fantástica. O sucesso dos livros de Julio Verne a partir dos anos 1860 desencadeou esse processo, e as obras de Wells surgiram num ambiente literário que já conhecia também A ilha de coral, de R. M. Ballantyne (1857), A ilha do tesouro, de R. L. Stevenson (1882), As minas do rei Salomão (1885) e Ela (1887), de H. Rider Haggard.”
O enredo de A ilha do Dr. Moreau é deveras conhecido: um certo Prendick sofre um naufrágio enquanto viajava no Lady Vain:
“No dia 1º de fevereiro de 1887, a embarcação Lady Vain naufragou por colisão com um navio à deriva quando se encontra a 1 grau de latitude Sul e 107 graus de longitude Oeste.
A 5 de janeiro de 1888, ou seja, onze meses e quatro dias depois, meu tio, Edward Prendick, um cavalheiro financeiramente independente, que decerto embarcara no Lady Vain em Callao, e que àquela altura era dado por morto, foi recolhido a 5 graus e 3 minutos de latitude Sul e 101 graus de longitude Oeste, num pequeno barco cujo nome estava ilegível, mas que se supõe ter pertencido a uma escuna tida como desaparecida, a Ipecacuanha. O relato que fez a respeito do que lhe acontecera foi de tal modo estranho que o julgaram louco. Depois, ele viria a afirmar que tinha perdido a memória de tudo o que lhe ocorrera após escapar ao naufrágio do Lady Vain. Na época, seu caso foi bastante discutido entre os psicólogos, como um interessante exemplo de lapso de memória em consequência de um estresse físico e mental. A narrativa que se segue foi encontrada entre seus papéis pelo abaixo assinado, seu sobrinho e herdeiro, mas sem nenhuma indicação de que era seu desejo vê-la publicada.”
Vejam como, nestes parágrafos iniciais, H. G. Wells demonstra ser um escritor de talento: em poucas linhas, nos entrega o início do enredo: a história vai envolver as experiências do tio, Edward Prendick; ficamos sabendo que tudo ocorreu em função de um naufrágio; que o personagem em questão ficou à deriva, num pequeno barco. Que acontecera algo muito estressante, a ponto de fazê-lo perder a memória. Diz-nos mais, toda a narrativa foi achada entre os papéis do tio. A informação do estresse e da perda de memória do protagonista da história já o instaura como um narrador não confiável. Portanto, toda a sua narrativa será posta em dúvida: aconteceu ou não? Ou, pelo menos, aconteceu na forma narrada ou sofreu os delírios narrativos da condição estressante? Esta não confiabilidade é habilmente construída pelo autor, pois além de instituir um narrador com essa característica, a ilha nunca foi encontrada, o acidente marítimo tem muitas imprecisões.
Prendick é recolhido por outro barco, com pessoas muito estranhas e atitudes suspeitas. É levado a uma ilha — a ilha do Dr. Moreau, do título. Nesta ilha, uma série de acontecimentos e avistamentos do protagonista são chocantes. O Dr. Moreau é um cientista e faz intervenções evolucionistas em animais. Uma espécie de “brincar de Deus”, interferindo diretamente nos animais selecionados para as suas experiências. Tal característica, sem dúvida, é o que associa A ilha do Dr. Moreau ao romance gótico de horror, como por exemplo, Frankenstein, de Mary Shelley.
O suspense vai sendo construído, com a competência que se espera de um bom escritor de aventuras:
“Segui-o com os olhos, e nesse instante, por algum truque do pensamento inconsciente, brotou na minha mente uma frase — ‘Os amores de Moreau’?... — seria isto? ... Ah! Logo minha memória deu um salto de dez anos no passado. ‘Os horrores de Moreau’. A frase pairou em minha lembrança até me trazer de volta a imagem de um panfleto impresso em letras vermelhas, um impresso cuja leitura era de arrepiar os cabelos e provocar calafrios.” (página 42)
Aqueles anos do século XIX viviam a expansão tecnológica que, se de um lado encontrava defensores ardorosos, de outro produzia o medo das novas engenhocas que afetavam diretamente o modo de vida da sociedade. Tal receio vai transparecer no depoimento de Prendick, podendo ser tomado como um discurso de oposição às mudanças impostas pela Revolução Industrial:
“Devo confessar que perdi minha fé na sanidade do mundo, quando vi o sofrimento desordenado que reinava naquela ilha. Um destino cego, um vasto mecanismo impiedoso, parecia talhar e coser o tecido da existência, e eu, Moreau e sua paixão pelo estudo, Montgomery e sua paixão pela bebida, o Povo Animal, com seus instintos e suas limitações mentais, todos estávamos sendo dilacerados, esmagados implacavelmente, inevitavelmente, por entre a complexidade infinita de engrenagens impiedosas.” (página 108)
A mesma desilusão pode ser lida na página 119:
“— Que mundo absurdo — disse ele. — Que coisa mais sem sentido! Não pude até hoje viver a minha vida. Fico pensando quando ela vai finalmente começar. Dezesseis anos sofrendo maus-tratos de enfermeiras e professores de colégio que faziam o que bem entendiam, depois mais cinco anos de sacrifícios para estudar medicina... Comida ruim, alojamentos vagabundos, roupas vagabundas, vícios vagabundos... Um fracasso... Nunca pude achar algo melhor...”
E o desencanto do mundo, além da esfera social e cultural, abrange até mesmo a religião, que deveria amenizá-lo por prometer um Reino do Céu, onde tudo fosse perfeito:
“Eu procurava refúgio no interior de uma capela, e mesmo ali, tal era minha perturbação que aos meus olhos o pregador parecia estar papagueando um ‘grande pensar’ tal qual o Homem-Macaco; ou eu entrava numa biblioteca e ali os rostos concentrados sobre as páginas me lembravam predadores pacientes aguardando sua caça.”
O narrador-personagem Edward Prendick, já quase ao final do livro, filosofa em diálogo interno (monólogo), numa verdadeira e comovente epifania:
“Dedico meus dias à leitura e a experimentos de química, e passo as noites em claro a estudar astronomia. Existe, embora eu não saiba como existe ou por que existe, uma sensação de infinita paz e segurança na contemplação dos céus estrelados. Deve existir, penso eu, nas vastas e eternas leis da matéria, e não nos problemas cotidianos e nos pecados e sofrimentos dos homens, aquele algo em que a parte de nós que é mais do que um mero animal encontra seu alívio e sua esperança.”
Então, fica claro que o desencanto não é com a ideia de Deus; a desesperança não é em relação ao ser humano como raça. Não. Esta epifania deixa claro, a decepção não é com a religiosidade, este sentimento a nos impulsionar para a grandeza e plenitude espiritual — ainda que bastante impreciso —, para a união com Algo-acima-das-misérias-humanas. Então, há esperança para o Homem, pois Prendick (e o autor?) acredita profundamente na Utopia.


Leia, se puder, leitor amigo, este A ilha do Dr. Moreau. Você deverá armar-se de compreensão para dar o desconto do ritmo lento da narrativa. Nosso tempo apressado produz narrativas apressadas. Uma obra é filha do seu tempo, isto é, nasce dentro das características de um determinado tempo. Entretanto, aquelas que transbordam os limites do seu tempo e atingem outras épocas, portando ainda algo de importante a dizer, estas são obras-primas. A ilha do Dr. Moreau pertence, sem nenhum preconceito de gênero literário, a esta categoria.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Enfiando O Pé Na Jaca



A livraria Amazon promoveu, na quinta-feira, dia 17/08/2017, o seu “Book Friday”, vendendo livros com ótimos descontos.  Pois é, acabei “enfiando o pé na jaca”, como se diz popularmente e adquiri estes seis livros abaixo, alguns planejados, outros não. Um pequeno comentário sobre as aquisições:

Resultado de imagem para livro frankensteinFrankenstein, de Mary Shelley. Um clássico. Alguns dizem que o gênero a que ele se filia é o do terror, naturalmente apoiados no filme derivado. Acho que poucos realmente o leram. Essa edição da Darkside é uma das mais belas que já vi. Os que me conhecem, dirão, em bom mineirês: uai, mas cê tinha dito que não curtia livros de terror!. De fato, mas filio este livro ao gênero ficção científica. É ler para verificar.
Resultado de imagem para livro NósNós, de Iviguêni Zamiátin. Outro clássico do gênero ficção científica, subgênero distopia. É reconhecido como o livro que iniciou esta tendência de apresentar o futuro por uma ótica da destruição (o contrário de utopia). Muito devem a ele o famoso 1984, de George Orwell, o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e mesmo Fahrenheit 451, de Ray Brudbury. Esta foi uma compra planejada há algum tempo.
Resultado de imagem para livro a festa katherine mansfield revanA Festa e Outros Contos, de Katherine Mansfield. Já estava de olho nele, pois há pouco descobri a autora e as edições de suas obras pela editora Revan. Li e gostei tanto de Je ne parle pas français, da mesma autora, que desejo comprar tudo o que puder. É um livro de contos, gênero aliás, de que gosto muito.
Resultado de imagem para livro o conto da aiaO Conto da Aia, de Margaret Atwood. Pertencente ao gênero ficção científica distópica, esta foi uma compra por impulso e a responsável por este “ato impensado” foi Tatiana Feltrin, dona do canal Tiny Little Things (não deixe de vê-lo), no Youtube. Tatiana fez comentários muito positivos sobre o livro e eu simplesmente tinha de adquiri-lo!
Resultado de imagem para livro o homem que caiu na terraO Homem que Caiu na Terra, de Walter Trevis. Este, foi a própria resenha na Amazon que me pegou. Achei a história interessante, e é outra obra bem bacana da Darkside. O corte é colorido, capa dura e marcador de fita. Um livro muito bonito. O gênero é ficção científica, mas não é distopia.
Resultado de imagem para livro o deserto dos tártarosO Deserto dos Tártaros, de Dino Buzatti. Um clássico italiano. Tenho um exemplar dele, em tamanho pocket, já bem velhinho e mofado. A meu favor, posso dizer que resolvi comprá-lo por ser alérgico a mofo; o livreto antigo não é favorável à minha saúde, daí...


Como a promoção da Amazon incluía também ebooks, acabei comprando Vida e Destino, do russo Vassíli Grossman; As Benevolentes, do escritor americano radicado na França, Jonathan Littell; Mestre e Margarida, do russo Mikháil Búlgakov e O Pomar das Almas Perdidas, de Nadifa Mohamed. Todos eles eu já estava namorando e os preços praticados compensaram muito.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Resenha: Je Ne Parle Pas Français, de Katherine Mansfield

Resultado de imagem para livro je ne parle pas françaisTítulo Original: Je Ne Parle Pas Français
Autora: Katherine Mansfield
Tradutora: Juliana Cupertino
Editora: Revan
Edição: 2ª edição, 1ª reimpressão
Copyright: 1974
ISBN: 9788571060685
Gênero Literário: Contos
Origem: Literatura Inglesa
Bibliografia da autora: In a german pension (Numa pensão alemã), 1911; The garden party and other stories (A festa e outros contos), 1922; The dove’s nest and other stories Ninho de pomba e outros contos), 1923; Bliss and other stories (Felicidade e outros contos), 1923; Poems, 1923; Something childish, 1924; The journal of Katherine Mansfield, 1927; The letters of Katherine Mansfield (dois volumes), 1928/1929; The Aloe, 1930; Novels and novelists, 1930; The short stories of Katherine Mansfield, 1937; The scrapbook of Katherine Mansfield, 1939; The collected stories of Katherine Mansfield, 1945; Letters to John Middleton Murry, 1913-1922; The urewera  notebook, 1978; The critical writings of Katherine Mansfield, 1987; The collected letters of Katherine Mansfield, (4 volumes), 1984-1996.

Katherine Mansfield nasceu Kathleen Mansfield Beauchamp, em 14/10/1888, em Wellington, Nova Zelândia Britânica – hoje Nova Zelândia. Nascida em família colonial, era filha de um banqueiro e prima da autora Condessa Elizabeth von Armim. Em criança teve uma infância solitária e alienada. Seus primeiros escritos apareceram no High School Journal e na revista do Colégio para Garotas de Wellington, em 1898 e 1899. No ano de 1902, Katherine mudou-se para Londres, frequentando o Queen’s College. O curioso é que ela não mostrava interesse, inicialmente, pela literatura; era violoncelista de talento. Somente a partir de sua volta para a Nova Zelândia, em 1906, que se interessou pela arte de escrever contos. Enfastiada pela vida naquele lugar, Mansfield retorna a Londres em 1908. Aí participa do famoso Grupo de Bloomsbury – um grupo formado por vários artistas com uma proposta nitidamente antivitoriana, conhecida por ter valores sociais muito rígidos e formais. Entrega-se, como era muito usual ao grupo contestatório, a relações bissexuais e à vida boêmia.
Em um período de apenas três semanas, conheceu seu primeiro marido, George Bowden, casou-se e separou-se dele. A escritora ficou grávida de uma relação com o violonista profissional e seu amigo, Garnet Trowell. Katherine perde o bebê em 1909. Ao retornar à Inglaterra, publica seu primeiro trabalho, In a german pension (Numa pensão alemã), sob o nome modificado de Katherine Mansfield. Neste período, ela acaba por contrair gonorreia, o que a faz sofrer de uma artrite pelo resto de sua curta vida, além de ela passar a se considerar “uma mulher suja”. Katherine Mansfield morre a 09/01/1923, aos 34 anos de idade (com provavelmente tuberculose).
Demorei-me um pouco mais na biografia dessa autora exatamente por ela ser pouco conhecida no Brasil. Eu mesmo já tinha ouvido falar de Katherine Mansfield, em uma ou outra obra crítica, mas nunca havia lido nada dela antes. Na verdade, meu contato com nossa autora se deu quando resenhei, para este blogue o livro de Virginia Woolf, Mrs. Dalloway.  É que Mansfield e Woolf foram amigas, participantes do mesmo Grupo de Bloomsbury. Aliás, segundo consta, Virginia disse sentir inveja da qualidade da escrita da amiga.
É impressionante o silêncio em torno desta autora neozelandesa, no Brasil. Katherine Mansfield é uma contista – algo em torno de 88 contos formam sua bibliografia; talvez esteja aí o motivo pelo qual seja pouco conhecida entre nós: contos não fazem muito sucesso por terras brasileiras.
Je ne parle pas français e outros contos é o meu livro de entrada na literatura de Katherine. Compõem o volume: Na praia, A casa de bonecas, Cenas, Je ne parle pas français, O homem indiferente e A mosca. É impressionante a capacidade desta contista em, partindo de histórias com situações tão pequenas, do dia-a-dia, conseguir montar trabalhos tão bons. Utiliza algumas técnicas narrativas que serão, mais tarde, exploradas pela literatura modernista. Assim, temos o fluxo de consciência:
“De Lottie”, murmurou com brandura. “Pobre querida... tanto transtorno... pé esquerdo... Ela pensou... neurite... Doutor Blyth... pé chato... massagem... tantos pintarroxos este ano... criada muitíssimo satisfatória... coronel indiano... cada grão de arroz separado... tempestade de neve muito forte.” E seus grandes olhos iluminados ergueram-se da carta. “Neve, Robert! Imagine!” Ela tocou as violetinhas escuras e presas ao peito e voltou à carta.” (conto O homem indiferente, página 112)
Um bom exemplo de como Mansfield consegue extrair de uma situação corriqueira uma incrível carga dramática está no conto A mosca. Neste texto, um homem observa uma pequena mosca que caiu dentro do tinteiro que ele tem sobre a mesa. Resgata-a e a depõe sobre o mata-borrão e a observa:
“Ela é um demoniozinho corajoso, pensou o chefe. Sentia uma real admiração pela bravura da mosca. Aquele era o modo de atacar as coisas; aquele era o espírito correto. Jamais entregar os pontos; era tudo uma questão de... Mas a mosca havia novamente terminado sua laboriosa tarefa...” (conto A mosca, página 130)
Possivelmente, você, leitor pensou ao ler este trecho transcrito: peraí, já li alguma coisa neste mesmo tom... e, puxando pela memória, você terá um insight: já sei: Clarice Lispector! Brilhante argúcia, a sua, caro leitor! Clarice deixou seu depoimento por escrito:
“Com o primeiro dinheiro que ganhei, entrei, muito altiva, numa livraria para comprar um livro. Aí mexi em todos, e nenhum me dizia nada. De repente eu disse: ‘Ei, isso aí sou eu!’ Eu não sabia que Katherine Mansfield era famosa, descobri sozinha. Era o livro Felicidade.” (na apresentação Sofisticada Simplicidade, página 7)
A abertura do conto At the Bay (Na Praia) pode nos dar uma ideia do poder detalhista desta neozelandesa:
“De manhã bem cedo. O sol ainda não surgira, e Crescent Bay ocultava-se em meio à branca neblina que vinha do mar. As grandes colinas cobertas de arbustos, ao fundo, permaneciam enevoadas, e não se podia ver onde elas terminavam nem onde começavam as pastagens o os bangalôs. A estrada de areia desaparecera, assim como tudo o mais por trás dela, os pastos, as chácaras; mais além, não havia dunas brancas, cobertas de vegetação rasteira avermelhada. Nada que distinguisse o que era praia do que era mar. Um pesado orvalho havia caído. A grama estava azul. Grandes gotas a ponto de despencar pendiam dos ramos; o toi-toi prateado e peludo oscilava molemente em sua longa haste e, nos jardins das casas, a umidade curvava para o chão todos os malmequeres e cravos.” (conto Na Praia, página 13)
Habilmente, por meio da inserção de detalhes precisos e preciosos, Mansfield cria a tensão narrativa, seus personagens passam por verdadeiras epifanias (ou revelações), e conduz o interesse pela leitura até o desfecho. Nossa escritora tem vários dos seus contos incluídos entre as verdadeiras pérolas da literatura de todos os tempos. E como é difícil, leitor, escrever contos! Eles têm de ser uma narrativa equilibrada; nada de personagens demais, nada de underplots (sub-enredos que convergem para o plot). É quase sempre, pelo menos entre os mestres do assunto, um texto enxuto, com uma respiração própria que se acelera rapidamente para de novo relaxar-se ao final.
No Brasil, a editora Revan mantém cinco coletâneas de contos de Mansfield em constante disponibilidade: A Festa e Outros Contos, Aula de Canto e Outros Contos, Je Ne Parle Pas Français e Outros Contos, Numa Pensão Alemã e Outros Contos e Felicidade e Outros Contos. Além deles, em catálogo também o volume de Diário e Cartas da autora.
Existe também uma antologia de contos desta escritora, que saiu pela L&PM pocket, intitulada Os melhores contos de Katherine Mansfield e outra, lançada pela editora Record, 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield.

Kahterine Mansfield é uma contista de absurdo talento. Ter tido contato com este Je ne parle pas français foi uma experiência sensorial e intelectual muito prazerosa. Tanto assim que já adquiri o Aula de Canto e Outros Contos.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Resenha: Mil Rosas Roubadas, de Silviano Santiago

Resultado de imagem para livro mil rosas roubadasTítulo original: Mil Rosas Roubadas
Autor: Silviano Santiago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª edição
Copyright: 2014
Gênero Literário: Romance
ISBN: 978-85-359-2454-1
Origem: Brasil
Bibliografia do autor: Os Velhos, 1955; 4 Poetas, 1960; Duas Faces, 1961; Brasil: prosa e poesia (Antologia publicada em Nova York), 1969; Salto, 1970; O Olhar, 1974; Ariano Suassuna (Antologia comentada), 1975; Carlos Drummond de Andrade (ensaios), 1976; Crescendo durante a guerra numa província ultramarina, Uma literatura nos trópicos (ensaios), 1978; Em liberdade (romance), 1981; Vale quanto pesa (ensaios), 1982; Stella Manhattan, 1985; Brasilianische Literatur der Zeit der Militärherrschaft, 1988; Nas malhas da letra (ensaios), 1989; Uma história de família, Viagem ao México, 1993; Cheiro forte, 1995; Keith Jarret no Blue Note (contos), 1996; De cócoras, 1999; Intérpretes do Brasil, 2000; Heranças, 2008; Mil Rosas Roubadas, 2015; Machado (romance), 2016; Genealogia da ferocidade (análise da obra Grande Sertão: veredas).

Mil Rosas Roubadas. Silviano Santiago. O que dizer da obra e do autor? Leitura lenta, reflexiva, mas não sem prazer. Autor, primeiro contato um tanto tardio, já devia tê-lo conhecido antes. Mas nunca é tarde para conhecer um pouco da obra e autor.
Mineiro da cidade de Formiga, nascido em 29/09/1936. Passou por Belo Horizonte aos dez anos de idade; em 1959, laureou-se em Letras Neolatinas. Depois, foi-se embora para o Rio de Janeiro, especializou-se lá em literatura francesa, caminho que o levou ao doutorado pela Universidade de Paris (Sorbonne), com uma tese sobre a importante obra de André Gide, Os moedeiros falsos.
Professor universitário extremamente atuante, lecionou em várias instituições no estrangeiro, participante da conferência em Toronto, Canadá, sobre o projeto de História da Literatura Latino-americana.
Em 2013, recebeu o prêmio Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras e em 2015 o Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa.
Mil Rosas Roubadas não é um livro para leitor iniciante. Digo isto não com o intuito de desanimar ninguém, mas é uma obra madura de um escritor sofisticado, erudito mesmo. A obra não faz concessões à leitura instantânea, sem profundidade. Estruturada em dois níveis – um, macrocósmico, pulsante, das modificações culturais e sociais por que passa o Brasil destes últimos sessenta anos e outro, microcóspico, em que as experiências de certo Zeca e o narrador conduzem o enredo.
Livro de proposta complexa, de difícil classificação de gênero literário: misto de romance, memórias e ensaio. Um tom irônico, muitas vezes sarcástico perpassa estas recordações-ensaios-ficção, deitando ao passado um olhar de análise madura dos fatos e dos sentimentos.
Início:
“Perco meu biógrafo. Ninguém me conheceu melhor que ele.
Nascemos um para o outro aos dezesseis anos de idade, em Belo Horizonte, nos idos de 1952. Ele me distinguiu então com a transparência que fiz também minha e continuei a fazer minha em 2010, quando o vi pela última vez em vida. Estava deitado no leito do Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro. Deitado de costas e com os olhos fechados.
Tomado pelos muito e longos anos de vida e pelo recente tumor cerebral, apelidado carinhosamente por ele de Toninho, e pelas sequelas decorrentes no sistema nervoso, o corpo respira por recurso artificial. Está sendo martirizado pela parafernália de aparelhos computadorizados e luminosos, de onde saem mangueiras sifonadas cinza e azuis e sondas transparentes, energizadas por fios de eletricidade negros.” (página 7)
O doente é o Zeca, “um esfuziante e ferino jornalista cultural, crítico e letrista de música popular”. O narrador, um professor universitário já aposentado que decide escrever sua biografia, como um meio de resgate da profunda amizade entre os dois. Este o plano micro do livro.
Várias passagens de metaliteratura (a literatura usada para falar dela própria ou dos processos de escrita), como se segue:
“Volto atrás e me corrijo. Só assim me absolvo do deslize cometido e espero ganhar o perdão do leitor.
Apoio a mão direita no botão esquerdo do mouse e levo o cursor a caminhar de volta a páginas anteriores do texto. Ao mesmo tempo, procuro refrescar a memória obscurecida pelo correr dos muitos anos.” (páginas 69/70)
O plano macroscópico traça um panorama rico das mudanças socioculturais por que passa o Brasil e por que passa Belo Horizonte:
“Desde abril de 1946, quando o presidente general Dutra proíbe o jogo em território nacional, até aquela data, o majestoso prédio do Cassino estava entregue aos ratos e mendigos. Quando nascíamos e crescíamos para a vida cultural, convivemos todos com o cadáver – envenenado pelos caramujos que transmitem esquistossomose – do lago da Pampulha e com os edifícios às margens, corroídos pelo tempo e ainda belos. Com dia salvava-se apenas o Iate Clube. O cassino mofava, como a excomungada igreja São Francisco de Assis. Desenhada, como os demais prédios do lago, por Oscar Niemayer, a igreja abriga os murais e pinturas de Portinari e os baixos-relevos de Alfredo Ceschiatti. Tinham desparecido os jardins desenhados por Burle Marx.” (página 138)
O caráter ensaístico pode ser localizado, por exemplo, quando Silviano Santiago teoriza sobre as artes cênicas:
“Tenho por mim – e aplico a teoria a ele – que cada aspirante a ator traz consigo um espelho que, embora fique guardado lá dentro e seja demasiadamente humano, mostra imagem objetiva e intrigante da qualidade do seu desempenho como ator. Por trazer reflexo objetivo e intrigante da atuação em cena, o espelho é mais sentimental que cerebral. O forte do espelho interno e sentimental é a escaramuça que arma para o ator que, já em cena aberta e diante da plateia, quer se enxergar a si nele. Será que estou levando bem o trabalho de interpretação do papel? (...) Se em determinado momento da representação a moldura da cena teatral enquadrar a imagem de que o ator não gosta, ele tem de operar no centro do palco o milagre da transmutação. Procura transformar – água em vinho – a imagem de que não gosta em imagem de que gosta, e é só assim que consegue força para dar o máximo de si e atrair a atenção e o aplauso do público. Solto em cena, tem apenas um recurso.” (páginas 116/117)
As citações e confirmações vão permeando a obra. Por exemplo, são várias as referências aos Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes (não é demais lembrar aqui que Silviano traduziu um livro de Alain Robbe-Grillet, Por que amo Barthes.
Uma juventude inconsequente, hedonista, machista e sensual salta das páginas de Mil Rosas Roubadas, na década de 70, em Belo Horizonte:
“A vida íntima da mulher belo-horizontina era matéria de conversa segregada entre machos profissionais e maduros, e não ia além da descrição pormenorizada e capciosa dos dons de caridade sexual oferecidos em total submissão pela fêmea. Ela se entregava em decúbito dorsal ou montada que nem amazona em alazão fogoso. Coitada daquela que, mesmo se branca e pequeno-burguesa, se atrevesse a expor em público a deslealdade masculina, ou luta pela liberdade feminina junto à justiça civil. Algumas levavam tiros, e só seriam julgadas mártires nos distantes e libertários anos 1980.
Nos blues que escutávamos se falava de um cotidiano marcado pela prisão do culpado e pelo julgamento, pela presença decisiva do juiz e do escrivão, falava-se de modo de vida dominado pela vadiagem, pela bebida e pelas drogas assassinas.” (página 204)
Há, bem sei, quem desprestigie a literatura brasileira, relegando-a um produto cultural de segunda categoria. Poucos dias atrás, li o depoimento de um jovem dizendo que a literatura brasileira só fala de pobres, tem um longo caminho de realização pela frente. Algumas coisas aqui se impõem. Primeiro, de que literatura brasileira se está falando? Ela é tão vária, trata de tantos temas diferentes. Fico me perguntando a que obras este jovem teve acesso, para tal julgamento disparatado. Eu poderia dizer que não gosto de literatura africana sob a alegação de que ela só fala de guerras civis?
É óbvio que não. Pode ser este um assunto recorrente em vários autores, pois que tal assunto é importante para eles e, longe de limitar a literatura, concede-lhe um caráter de depoimento. Haverá outros assuntos, porém. Até lugar para prosas poéticas, como as de um Mia Couto, de quem gosto muito.
Mil Rosas Roubadas, pelo seu caráter de narrativa ousada, que não se deixa apreender em uma leitura superficial, é muito importante para a literatura nacional. Compõe a galeria das grandes obras referenciais, dignas de constantes leituras. Eu poderia ser levado a criticar os Best-sellers, mas considero esta atitude também um crasso equívoco. Os arrasa-quarteirões literários têm seu público certo e é importante que este público leia, pois é assim mesmo que a gente começa a gostar de ler: lendo o que se gosta de ler. Depois, se gostarmos de desafios mais amplos, livros mais maduros.
Foi dito que Mil Rosas Roubadas pisca um olho para Encontro Marcado, de Fernando Sabino; é que Silviano Santiago conseguiu imprimir em seu romance-ensaio-memória um tom de romance de geração – o mesmo da mais conhecida obra de Sabino.
Fiquei realmente com vontade de reler Encontro Marcado; vão-se anos e anos da minha única leitura da obra.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Resenha: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Virginia Woolf (Vol. 10)Título original: Mrs. Dalloway
Título da edição em português: Mrs. Dalloway
Autora: Adeline Virginia Woolf
Tradução: Gabriela Maloucaze
Editora: Folha de São Paulo
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-7949-279-2

Bibliografia da autora (incompleta) – romances: A Viagem, 1915; Noite e Dia, 1919; O Quarto de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Ao farol (Rumo ao Farol), 1920; Orlando, 1931; As Ondas, 1931; Os Anos, 1937; Entre os Atos, 1941. Contos: Kew Gardens, 1919; Monday or Tuesday, 1921; A Casa Assombrada, 1944; Mrs. Dalloway’s Party, 1973; The Complete Shorter Fiction, 1985; A Casa de Carlyle e Outros Esboços, 2003. Biografias: Flush: Uma Biografia, 19336; Roger Fry: A Biogrphy, 1940. Ensaios: Modern Fiction, 1919; O Leitor Comum, 1925; Um Teto Todo Seu, 1929; On Being III, 1930; The London Scene, 1931; The Common Reader: Second Series, 1932; Três Guinéus, 1938; The Death of The Moth and Other Essays, 1950; Granite and Writing, 1958; Books and Portraits, 1978; Women and Writing, 1979; Collected Essays (em quatro volumes). Teatro: Freshwater: A Comedy, 1976.

Adeline Virginia Woolf nasceu em Kensington, Middlesex, em 25/01/1882. Foi ensaísta, escritora, editora – uma das mais importantes figuras do modernismo britânico. Era membro do Grupo de Bloomsbury, claramente de oposição aos valores da Era Vitoriana. Virginia (nascida com o sobrenome Stephen, substituindo-o por Woolf ao se casar com Leonard Woolf, em 1912), tinha três irmãos: Vanessa, Thoby e Adrian Stephen, além de uma meio-irmã, filha do primeiro casamento de seu pai, Laura Makepeace Stephen, além de mais três meio-irmãos, filhos do primeiro casamento de sua mãe com Herbert Duckworth, a saber: George, Stella e Gerald Duckworth.
Virginia não frequentou a escola formal, tendo recebido uma educação esmerada do pai, Leslie Stephen. Em sua casa, ele mantinha uma biblioteca muito boa, o que criou o ambiente eletivo ao surgimento da escritora. Joseph Conrad, Jane Austen, o filósofo Montaigne, Joyce, Defoe, Sterne e os russos Dostoiévski e Tólstoi eram escritores lidos por ela. Junto com o marido, Leonard Woolf, fundou a editora Hogarth Press, tendo sido responsável pela publicação de autores como Katherine Mansfield e T. S. Eliot.
Cedo Virginia Woolf apresentou problemas psicológicos, com surtos de depressão e, mais tarde, sofrendo do que hoje seria diagnosticado como “transtorno bipolar”. Há suspeita de que, na infância, ela teria sofrido abusos sexuais incestuosos. Infelizmente, numa dessas crises de bipolaridade suicidou-se em Lewes, Sussex, em 28/03/1941, deixando, como se vê em sua bibliografia acima, uma obra literária consolidada e bastante produtiva.
Mrs. Dalloway é minha primeira incursão na obra da escritora inglesa. Seu primeiro trabalho, entretanto, é o romance A Viagem, de 1915 (Mrs. Dalloway fora publicado em 1925). É um livro extraordinário, escrito a partir de um enredo extremamente simples: numa quarta-feira de junho, Clarissa Dalloway dará uma festa à noite e passa o dia ocupada com o evento; pela manhã, visita várias lojas do centro de Londres, à procura de objetos, utensílios para a sua festa. Enquanto isso, fatos do passado e uma série de ilações psicológicas têm lugar enquanto ela prepara a recepção.
Sempre me impressionam estes enredos minimalistas; O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway é outro exemplo. Prova de que não é necessário ter um enredo cheio de voltas e reviravoltas para se obter uma obra-prima. É o como o autor/autora trabalha o material que tem em mãos.
Mas, retornando, o romance Mrs. Dalloway se inicia da seguinte forma:
“Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores. Sim, pois Lucy tinha trabalho o suficiente. As portas seriam tiradas das dobradiças, os homens de Rumpelmayer estavam vindo. E então, pensou Clarissa Dalloway: Que manhã! Fresca como se fosse presente para crianças na praia.” (página 5)
Virginia Woolf se notabilizou por ser uma escritora de vários recursos estilísticos; é constantemente apontada como uma das criadoras do chamado fluxo de consciência, isto é, a representação escrita da complexidade do pensamento humano, no qual o raciocínio lógico é entremeado por divagações momentâneas, exibindo um processo de associação de ideias:
“O saguão da casa estava frio como uma cripta. A Mrs. Dalloway levou a mão aos olhos e, quando a empregada fechou a porta, e ela ouviu silvo das saias de Lucy, sentiu-se como uma freira que deixou o mundo e sente dobrarem-se ao seu redor os véus familiares e a resposta a velhas devoções. A cozinheira assobiou na cozinha. Ela ouviu o teclar da máquina de escrever. Era sua vida, e curvando a cabeça sobre a mesa, ela se dobrou sob aquela influência, sentiu-se abençoada e purificada, dizendo a si mesma, ao pegar o bloco com o recado telefônico nele, como momentos como esse são brotos na árvore da vida, são flores da escuridão, ela pensou (como se alguma rosa adorável tivesse florescido somente para ela); nem por um momento ela acreditou em Deus. Mas mais ainda, ela pensou, pegando o bloco; deve-se retribuir na vida diária aos criados, sim, aos cachorros e canários, acima de tudo a Richard, seu marido, que era a base disso – dos sons alegres, das luzes verdes, da cozinheira assobiando, pois a Mrs. Walker era irlandesa e assobiava o dia inteiro –, deve-se retribuir esse depósito secreto de momentos sublimes, ela pensou, levantando o bloco, enquanto Lucy ficava ao seu lado, tentando explicar como “O Mr. Dalloway, madame” – Clarissa leu no bloco de recados, “Lady Bruton deseja saber se o Mr. Dalloway almoçará com ela hoje.” (página 30)
Aliás, é impressionante como nossa autora passa do discurso direto (diálogo, em que cada personagem fala a seu turno) para o diálogo indireto (alguém nos conta o que outros personagens falaram) e para o diálogo indireto livre (como no diálogo indireto simples, mas sem as indicações verbais como ‘disse ele’, ‘afirmou ela’).
São dois eixos narrativos. De um lado, temos Mrs. Dalloway com suas recordações do passado e suas percepções psicológicas do presente; de outro, o personagem Septimus Warren Smith, que vive mergulhado em dolorosas recordações da guerra, na qual perdera seu amigo Evans. E – mais um aditivo – surge Peter Walsh, que volta da Índia e que é apaixonado por Mrs. Dalloway.
O casamento da protagonista com Richard Dalloway é um casamento de conveniência, isto é, ela não o ama, mas ele pode lhe dar a segurança e a projeção social desejada por ela. Ao contrário, Peter Walsh jamais poderia lhe dar tais coisas. Mrs. Dalloway tem uma filha de dezessete anos, Elizabeth, que vive às turras com a empregada, Doris Kilman. Elizabeth sonha com a possibilidade de fazer escolhas pessoais, como ser médica, fazendeira, enfim, poderá escolher o que quiser. É a nova geração que chega, modificando aquela moral e costumes herdados da rígida Era Vitoriana.
O romance se constitui numa crítica ácida à sociedade da época, vista pela narradora como decadente (lembrem-se, estamos no período entre guerras, cheio de modificações e crises):
“Talvez fosse uma oferenda pela própria oferenda. De qualquer forma, era seu dom. ela não tinha mais nada da menor importância; não podia pensar, escrever, nem mesmo tocar piano. Ela confundia armênios e turcos; amava o êxito; detestava o desconforto; precisa que gostassem dela; falava oceanos de bobagens: e até hoje, se lhe perguntasse o que era o Equador, ela não saberia. De qualquer forma, um dia vinha depois do outro; ver o céu, andar no parque; encontrar Hugh Whitbread; e então de repente entrava Peter; então aquelas rosas; era suficiente. Depois disso, como era inacreditável a morte! – que tudo tivesse que terminar; e ninguém no mundo inteiro conseguiria saber como ela adora tudo; como a cada instante...” (página 118)
Este período entre guerras teve um fato importante: a quebra da bolsa de Nova York, a qual afetou o mundo todo. E nesta sociedade frívola, de mulheres fúteis, mas também de muita repressão, sobretudo a repressão sexual, surgem relações homoafetivas; não chegam a termo, é bem verdade, mas elas estão presentes no livro, trazendo infelicidade ao ponto de um dos personagens, em crise psíquica por este motivo,  consideravelmente aumentada por uma neurose de guerra, terminar por se suicidar.
Somente uma personagem parece gozar de maior liberdade, neste mar de fortes convenções e essa é exatamente Sally Seton, amiga de infância de Clarissa Dalloway:
“— Voltarei – ela disse, olhando seus velhos amigos, Sally e Peter, que estavam dando as mãos, e Sally, sem dúvida lembrando o passado, estava rindo. Mas de sua voz tinha sido tirada a velha riqueza arrebatadora; seus olhos não brilhavam como costumavam quando ela fumava os charutos, quando ela passava pelo corredor para buscar sua esponja sem sequer uma peça de roupa e Ellen Atkins perguntara: Mas e se os cavalheiros a vissem? Mas todos a perdoavam. Ela tinha roubado um frango da despensa porque estava com fome à noite; fumava charutos no quarto; tinha largado um livro inestimável no bote. Mas todos a adoravam (a não ser talvez o Papai). Era seu entusiasmo; sua vitalidade – ela pintava, escrevia.” (página 175)
Por todo o exposto, Virginia Woolf é, sem dúvida, uma grande escritora, atenta às condições de seu tempo. E Mrs. Dalloway é destas obras inesquecíveis, merecedoras de várias leituras. Com você viu, nossa escritora tem uma capacidade admirável de nos fornecer detalhes minuciosos, de modo a caracterizar bem a sociedade da época, que ela se propõe combater.
Há quem veja influência do irlandês James Joyce na escrita de Virginia Woolf – frequentemente, tal comparação tem sentido pejorativo. O motivo, penso eu, é débil: baseia-se na semelhança de utilização do tempo e no uso da técnica do fluxo de consciência. Ambos os romances, Ulisses e Mrs. Dalloway fazem transcorrer suas narrativas no espaço comprimido de um dia e privilegiam a representação do pensamento descontínuo. Não obstante, Virginia não gostava do trabalho de Joyce, tendo se manifestado em seu Diário que  “cada vez gosto menos de Ulisses – isto é, cada vez o acho menos importante; e nem sequer me preocupei conscientemente em lhe perceber os sentidos. Graças a Deus que não tenho que escrever sobre o livro.”

Por último, para quem deseje um aprofundamento biográfico da autora, há bons livros, como A Medida da Vida, de Herbert Mader. Parece que a obra biográfica de referência é Virginia Woolf, de Hermione Lee, sem tradução em português.

sábado, 27 de maio de 2017

Resenha: Romancista Como Vocação, de Haruki Murakami

Resultado de imagem para livro romancista como vocaçãoTítulo original: Hokugyo Toshite No Shosetsuka
Título em português: Romancista Como Vocação
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Edição: s/n
Copyright: 2015
ISBN: 978-85-5652-038-8
Bibliografia (incompleta): Ouça a canção do vento, 1979; Pinball 1973, 1980; Caçando carneiros, 1982; Norwegian Wood, 1987; Kafka à beira-mar, 2002; Dance dance dance, 1988; O incolor Tsukuro Tazaki, 2013; 1Q84 (três volumes), 2009; Após o anoitecer, 2004; De que eu falo quando falo de corrida, 2008 ; Minha querida Sputnik, 1999. 

Tinha acabado de assistir à produção hispano-argentina “O Cidadão Ilustre”; ainda sob a impressão positiva do filme – um filme ótimo que cutuca o expectador o tempo todo sobre a grande questão de a que serve a literatura. Outro subtema pinçado, a questão do limite entre o que é realidade e ficção na obra de um autor. Entrei na livraria localizada no saguão do cinema, sem a mínima premeditação de comprar qualquer coisa. Mas lá estava, entre outros tantos livros, este “Romancista como vocação”, de Haruki Murakami, escritor japonês. Já tivera algumas referências dele na internet e desejava mesmo, algum dia, ler por exemplo, “Norwegian Wood”. Tomei o volume nas mãos, folheei-o, verifiquei o índice, li as orelhas e a quarta capa e o comprei. Vai funcionar como uma espécie de complementação do filme. Ali mesmo na cafeteria, perto da bilheteria e em frente à livraria, servindo-me de uma xícara de espresso e um bom pão-de-queijo, iniciei a leitura do volume. Hoje, terminada a leitura, passo a resenhá-la. Gostaria de dar um abraço caloroso no autor.

Haruki Murakami nasceu na cidade de Kyoto, em janeiro de 1949. Vive atualmente nas proximidades de Tóquio. Antes de se tornar escritor, em 1974, Haruki abriu um bar de jazz (ano em que ele terminara a faculdade de estudos teatrais). Aos vinte e nove anos, escreveu seu primeiro livro, tendo como escritório a cozinha – mais precisamente a mesa da cozinha –, utilizando-se de caderno e lápis. Nascia, assim, Ouça a canção do vento. O livro ganhou o prêmio de uma importante revista literária e foi publicado. Entretanto, a obra que o tornou conhecido efetivamente foi Norwegian Wood, cujo nome faz referência à canção dos Beatles de mesmo nome. Murakami já ganhou vários prêmios, como Norma Literary Prize (1982), Tanizaki (1985), Yomiuri Prize for Literature: Fiction (1995), Prêmio Franz Kafka (2006), só para citar alguns. Ele também é ardoroso praticante de esportes de resistência, como maratonas e triatlos. Conseguiu terminar sua primeira ultramaratona de cem quilômetros, ao redor do lago Saroma, Hokkaido, Japão.
Este Romancista como vocação tem um texto muito agradável de se ler. Se você, leitor deste blogue, é daqueles que adoram saber algo do autor, gostam de saber como ele pensa, a forma como trabalha e concebe suas obras, certamente vai gostar deste livro. Não é um manual técnico sobre a arte de escrever romances, mas é uma espécie de viagem intelectual do escritor. Os onze capítulos do livros são: I. O romancista é generoso?; II. Início da carreira de romancista; III. Sobre prêmios literários; IV. Sobre originalidade; V. E agora, o que devo escrever?; VI. Ter o tempo como aliado ao escrever romances; VII. Um ato infinitamente individual e físico; VIII. Sobre escolas; IX. Que tipo de personagens vou criar?; X. Para quem escrever?; XI. Ir para o exterior. Novas fronteiras.
Pelos títulos dos capítulos, você já percebeu que o volume não poderia mesmo ser concebido como um manual; não existe, por exemplo, ‘A construção do enredo’, ou ‘O uso do discurso indireto’.
Eis como Murakami inicia seu relato:
“Se eu começar falando sobre romances, vou me estender muito logo de início. Então, por ora, vou falar apenas sobre os romancistas. Acho que esse tema é mais concreto, tem mais visibilidade e é relativamente fácil de ser desenvolvido.
Para ser bem sincero, não podemos considerar os romancistas – pelo menos não todos – sempre íntegros e imparciais. A meu ver, muitos possuem algumas particularidades não muito louváveis, além de hábitos e comportamentos esquisitos (mas não posso dizer isso em voz alta). Porém, independentemente de falar isso ou não, a maioria dos romancistas (cerca de 92%, suponho), inclusive eu, pensa: “O que eu faço e escrevo está certo. Todos os outros escritores estão errados, em maior ou menor grau, exceto alguns casos especiais.” (página 7)
Discorrendo sobre originalidade, o autor nos dá três requisitos básicos:
  •    Possuir um estilo próprio que seja visivelmente diferente do de outros criadores (pode ser som, estilo de escrever, forma ou cor). Só de vê-lo (ouvi-lo) um pouco, deve ser reconhecido (quase que) instantaneamente que se trata de uma expressão sua.
  •     Conseguir renovar o seu estilo por conta própria. O estilo precisa se desenvolver com o tempo. Não pode se manter no mesmo lugar para sempre. E deve possuir uma força de reinvenção espontânea.
  •    Com o tempo esse estilo próprio precisa se tornar um padrão a ser absorvido pela mente das pessoas e deve ser incorporado como parte do critério de avaliação de valores. Ou precisa se tornar uma rica fonte de citação para os futuros artistas. (páginas 52/53)

Às páginas 77/78, Murakami faz uma comparação entre o romancista e o contista (ele também escreve contos):
“Faço mais o tipo corredor de longa distância e, para que várias coisas possam ganhar forma de modo abrangente, necessito de consideráveis quantidades de tempo e espaço.”
E:
“O conto é um veículo ágil e bastante manobrável que pode abarcar os detalhes que não conseguem ser tratados adequadamente nos romances. [...] escrever contos é um treinamento, um passo importante e necessário antes de escrever romances. Talvez eu seja um corredor  de longa distância que, apesar de obter resultados relativamente satisfatórios em corridas de cinco ou dez quilômetros, segue tendo a maratona como objetivo principal.”
Uma proposta de visão de mundo aparece na página 120:
“Se observarmos as coisas apenas do nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.”
Murakami emite um parecer a respeito da criação de personagens que já conhecia de outros autores, como o nosso Erico Verissimo:
“Naturalmente, quem cria os personagens é o autor, mas personagens com vida, no sentido literal da palavra, são aqueles que agem de forma autônoma a partir de determinado momento, tornando-se independentes do seu criador. Não sou o único a dizer isso; com frequência muitos escritores de ficção reconhecem isso. Se esse tipo de fenômeno não ocorresse, escrever ficção seria uma tarefa amarga, árdua e sofrida. Quando o romance começa a deslanchar, os personagens começam a se mover por conta própria, o enredo se desenvolve sozinho e, como resultado, tem início uma situação bastante feliz em que o autor simplesmente escreve o que está se passando na sua frente, diante dos seus olhos. E, em alguns casos, os personagens pegam na mão do autor e o guiam pra um lugar completamente inesperado, nunca imaginado antes.”
A minha paixão pela leitura é evidente, ou não teria criado este blogue para falar exclusivamente dos livros lidos por mim. Desejo realizar uma conspiração leitora e esta mídia é um dos bons caminhos disponíveis para mim. Não deixo, também, de comentar sobre livros com todas as pessoas que tenham um mínimo de sensibilidade aberta ao assunto.
Minha outra paixão é escrever. E posso dizer, portanto, ao criar meus contos, em várias ocasiões posso concordar com Murakami: meus personagens tomam de assalto minhas narrativas e conduzem o enredo a seu bel-prazer.
Haruki Murakami toca a questão abordada por Umberto Eco sobre o leitor-modelo, em sua famosíssima obra Lector in Fabula:
“Falei antes que eu escrevia tendo em mente o leitor imaginário, e acho que ele é sinônimo de leitores em geral. Quando penso no número geral, a imagem fica muito grande e tenho a impressão de que não cabe na minha cabeça; por isso a condenso em um leitor imaginário, no singular.” (página 146)
Todavia, enquanto Haruki pensa o leitor-modelo de modo generalista, Eco é mais pontual, pois seu conceito de leitor-modelo, vigente na cabeça de qualquer escritor, é aquele ser meio abstrato, mas dotado de alguma especificidade. Traduzido, se escrevo um romance de suspense erudito, que se passa na Idade Média, como O Nome da Rosa (ainda faço uma releitura dele e o resenho aqui neste blogue!), pressuponho um leitor com algum conhecimento da Idade Média, que goste de teorias de conspiração e seja fã de romances policiais/de suspense.
Foi muito gratificante ler Romancista como vocação. Recomendo-o fortemente, amigo leitor, mas aviso-o pela segunda vez: é obra para quem goste de contextualização ao redor de um autor.