Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Resenha: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Virginia Woolf (Vol. 10)Título original: Mrs. Dalloway
Título da edição em português: Mrs. Dalloway
Autora: Adeline Virginia Woolf
Tradução: Gabriela Maloucaze
Editora: Folha de São Paulo
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-7949-279-2

Bibliografia da autora (incompleta) – romances: A Viagem, 1915; Noite e Dia, 1919; O Quarto de Jacob, 1922; Mrs. Dalloway, 1925; Ao farol (Rumo ao Farol), 1920; Orlando, 1931; As Ondas, 1931; Os Anos, 1937; Entre os Atos, 1941. Contos: Kew Gardens, 1919; Monday or Tuesday, 1921; A Casa Assombrada, 1944; Mrs. Dalloway’s Party, 1973; The Complete Shorter Fiction, 1985; A Casa de Carlyle e Outros Esboços, 2003. Biografias: Flush: Uma Biografia, 19336; Roger Fry: A Biogrphy, 1940. Ensaios: Modern Fiction, 1919; O Leitor Comum, 1925; Um Teto Todo Seu, 1929; On Being III, 1930; The London Scene, 1931; The Common Reader: Second Series, 1932; Três Guinéus, 1938; The Death of The Moth and Other Essays, 1950; Granite and Writing, 1958; Books and Portraits, 1978; Women and Writing, 1979; Collected Essays (em quatro volumes). Teatro: Freshwater: A Comedy, 1976.

Adeline Virginia Woolf nasceu em Kensington, Middlesex, em 25/01/1882. Foi ensaísta, escritora, editora – uma das mais importantes figuras do modernismo britânico. Era membro do Grupo de Bloomsbury, claramente de oposição aos valores da Era Vitoriana. Virginia (nascida com o sobrenome Stephen, substituindo-o por Woolf ao se casar com Leonard Woolf, em 1912), tinha três irmãos: Vanessa, Thoby e Adrian Stephen, além de uma meio-irmã, filha do primeiro casamento de seu pai, Laura Makepeace Stephen, além de mais três meio-irmãos, filhos do primeiro casamento de sua mãe com Herbert Duckworth, a saber: George, Stella e Gerald Duckworth.
Virginia não frequentou a escola formal, tendo recebido uma educação esmerada do pai, Leslie Stephen. Em sua casa, ele mantinha uma biblioteca muito boa, o que criou o ambiente eletivo ao surgimento da escritora. Joseph Conrad, Jane Austen, o filósofo Montaigne, Joyce, Defoe, Sterne e os russos Dostoiévski e Tólstoi eram escritores lidos por ela. Junto com o marido, Leonard Woolf, fundou a editora Hogarth Press, tendo sido responsável pela publicação de autores como Katherine Mansfield e T. S. Eliot.
Cedo Virginia Woolf apresentou problemas psicológicos, com surtos de depressão e, mais tarde, sofrendo do que hoje seria diagnosticado como “transtorno bipolar”. Há suspeita de que, na infância, ela teria sofrido abusos sexuais incestuosos. Infelizmente, numa dessas crises de bipolaridade suicidou-se em Lewes, Sussex, em 28/03/1941, deixando, como se vê em sua bibliografia acima, uma obra literária consolidada e bastante produtiva.
Mrs. Dalloway é minha primeira incursão na obra da escritora inglesa. Seu primeiro trabalho, entretanto, é o romance A Viagem, de 1915 (Mrs. Dalloway fora publicado em 1925). É um livro extraordinário, escrito a partir de um enredo extremamente simples: numa quarta-feira de junho, Clarissa Dalloway dará uma festa à noite e passa o dia ocupada com o evento; pela manhã, visita várias lojas do centro de Londres, à procura de objetos, utensílios para a sua festa. Enquanto isso, fatos do passado e uma série de ilações psicológicas têm lugar enquanto ela prepara a recepção.
Sempre me impressionam estes enredos minimalistas; O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway é outro exemplo. Prova de que não é necessário ter um enredo cheio de voltas e reviravoltas para se obter uma obra-prima. É o como o autor/autora trabalha o material que tem em mãos.
Mas, retornando, o romance Mrs. Dalloway se inicia da seguinte forma:
“Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores. Sim, pois Lucy tinha trabalho o suficiente. As portas seriam tiradas das dobradiças, os homens de Rumpelmayer estavam vindo. E então, pensou Clarissa Dalloway: Que manhã! Fresca como se fosse presente para crianças na praia.” (página 5)
Virginia Woolf se notabilizou por ser uma escritora de vários recursos estilísticos; é constantemente apontada como uma das criadoras do chamado fluxo de consciência, isto é, a representação escrita da complexidade do pensamento humano, no qual o raciocínio lógico é entremeado por divagações momentâneas, exibindo um processo de associação de ideias:
“O saguão da casa estava frio como uma cripta. A Mrs. Dalloway levou a mão aos olhos e, quando a empregada fechou a porta, e ela ouviu silvo das saias de Lucy, sentiu-se como uma freira que deixou o mundo e sente dobrarem-se ao seu redor os véus familiares e a resposta a velhas devoções. A cozinheira assobiou na cozinha. Ela ouviu o teclar da máquina de escrever. Era sua vida, e curvando a cabeça sobre a mesa, ela se dobrou sob aquela influência, sentiu-se abençoada e purificada, dizendo a si mesma, ao pegar o bloco com o recado telefônico nele, como momentos como esse são brotos na árvore da vida, são flores da escuridão, ela pensou (como se alguma rosa adorável tivesse florescido somente para ela); nem por um momento ela acreditou em Deus. Mas mais ainda, ela pensou, pegando o bloco; deve-se retribuir na vida diária aos criados, sim, aos cachorros e canários, acima de tudo a Richard, seu marido, que era a base disso – dos sons alegres, das luzes verdes, da cozinheira assobiando, pois a Mrs. Walker era irlandesa e assobiava o dia inteiro –, deve-se retribuir esse depósito secreto de momentos sublimes, ela pensou, levantando o bloco, enquanto Lucy ficava ao seu lado, tentando explicar como “O Mr. Dalloway, madame” – Clarissa leu no bloco de recados, “Lady Bruton deseja saber se o Mr. Dalloway almoçará com ela hoje.” (página 30)
Aliás, é impressionante como nossa autora passa do discurso direto (diálogo, em que cada personagem fala a seu turno) para o diálogo indireto (alguém nos conta o que outros personagens falaram) e para o diálogo indireto livre (como no diálogo indireto simples, mas sem as indicações verbais como ‘disse ele’, ‘afirmou ela’).
São dois eixos narrativos. De um lado, temos Mrs. Dalloway com suas recordações do passado e suas percepções psicológicas do presente; de outro, o personagem Septimus Warren Smith, que vive mergulhado em dolorosas recordações da guerra, na qual perdera seu amigo Evans. E – mais um aditivo – surge Peter Walsh, que volta da Índia e que é apaixonado por Mrs. Dalloway.
O casamento da protagonista com Richard Dalloway é um casamento de conveniência, isto é, ela não o ama, mas ele pode lhe dar a segurança e a projeção social desejada por ela. Ao contrário, Peter Walsh jamais poderia lhe dar tais coisas. Mrs. Dalloway tem uma filha de dezessete anos, Elizabeth, que vive às turras com a empregada, Doris Kilman. Elizabeth sonha com a possibilidade de fazer escolhas pessoais, como ser médica, fazendeira, enfim, poderá escolher o que quiser. É a nova geração que chega, modificando aquela moral e costumes herdados da rígida Era Vitoriana.
O romance se constitui numa crítica ácida à sociedade da época, vista pela narradora como decadente (lembrem-se, estamos no período entre guerras, cheio de modificações e crises):
“Talvez fosse uma oferenda pela própria oferenda. De qualquer forma, era seu dom. ela não tinha mais nada da menor importância; não podia pensar, escrever, nem mesmo tocar piano. Ela confundia armênios e turcos; amava o êxito; detestava o desconforto; precisa que gostassem dela; falava oceanos de bobagens: e até hoje, se lhe perguntasse o que era o Equador, ela não saberia. De qualquer forma, um dia vinha depois do outro; ver o céu, andar no parque; encontrar Hugh Whitbread; e então de repente entrava Peter; então aquelas rosas; era suficiente. Depois disso, como era inacreditável a morte! – que tudo tivesse que terminar; e ninguém no mundo inteiro conseguiria saber como ela adora tudo; como a cada instante...” (página 118)
Este período entre guerras teve um fato importante: a quebra da bolsa de Nova York, a qual afetou o mundo todo. E nesta sociedade frívola, de mulheres fúteis, mas também de muita repressão, sobretudo a repressão sexual, surgem relações homoafetivas; não chegam a termo, é bem verdade, mas elas estão presentes no livro, trazendo infelicidade ao ponto de um dos personagens, em crise psíquica por este motivo,  consideravelmente aumentada por uma neurose de guerra, terminar por se suicidar.
Somente uma personagem parece gozar de maior liberdade, neste mar de fortes convenções e essa é exatamente Sally Seton, amiga de infância de Clarissa Dalloway:
“— Voltarei – ela disse, olhando seus velhos amigos, Sally e Peter, que estavam dando as mãos, e Sally, sem dúvida lembrando o passado, estava rindo. Mas de sua voz tinha sido tirada a velha riqueza arrebatadora; seus olhos não brilhavam como costumavam quando ela fumava os charutos, quando ela passava pelo corredor para buscar sua esponja sem sequer uma peça de roupa e Ellen Atkins perguntara: Mas e se os cavalheiros a vissem? Mas todos a perdoavam. Ela tinha roubado um frango da despensa porque estava com fome à noite; fumava charutos no quarto; tinha largado um livro inestimável no bote. Mas todos a adoravam (a não ser talvez o Papai). Era seu entusiasmo; sua vitalidade – ela pintava, escrevia.” (página 175)
Por todo o exposto, Virginia Woolf é, sem dúvida, uma grande escritora, atenta às condições de seu tempo. E Mrs. Dalloway é destas obras inesquecíveis, merecedoras de várias leituras. Com você viu, nossa escritora tem uma capacidade admirável de nos fornecer detalhes minuciosos, de modo a caracterizar bem a sociedade da época, que ela se propõe combater.
Há quem veja influência do irlandês James Joyce na escrita de Virginia Woolf – frequentemente, tal comparação tem sentido pejorativo. O motivo, penso eu, é débil: baseia-se na semelhança de utilização do tempo e no uso da técnica do fluxo de consciência. Ambos os romances, Ulisses e Mrs. Dalloway fazem transcorrer suas narrativas no espaço comprimido de um dia e privilegiam a representação do pensamento descontínuo. Não obstante, Virginia não gostava do trabalho de Joyce, tendo se manifestado em seu Diário que  “cada vez gosto menos de Ulisses – isto é, cada vez o acho menos importante; e nem sequer me preocupei conscientemente em lhe perceber os sentidos. Graças a Deus que não tenho que escrever sobre o livro.”

Por último, para quem deseje um aprofundamento biográfico da autora, há bons livros, como A Medida da Vida, de Herbert Mader. Parece que a obra biográfica de referência é Virginia Woolf, de Hermione Lee, sem tradução em português.

sábado, 27 de maio de 2017

Resenha: Romancista Como Vocação, de Haruki Murakami

Resultado de imagem para livro romancista como vocaçãoTítulo original: Hokugyo Toshite No Shosetsuka
Título em português: Romancista Como Vocação
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Edição: s/n
Copyright: 2015
ISBN: 978-85-5652-038-8
Bibliografia (incompleta): Ouça a canção do vento, 1979; Pinball 1973, 1980; Caçando carneiros, 1982; Norwegian Wood, 1987; Kafka à beira-mar, 2002; Dance dance dance, 1988; O incolor Tsukuro Tazaki, 2013; 1Q84 (três volumes), 2009; Após o anoitecer, 2004; De que eu falo quando falo de corrida, 2008 ; Minha querida Sputnik, 1999. 

Tinha acabado de assistir à produção hispano-argentina “O Cidadão Ilustre”; ainda sob a impressão positiva do filme – um filme ótimo que cutuca o expectador o tempo todo sobre a grande questão de a que serve a literatura. Outro subtema pinçado, a questão do limite entre o que é realidade e ficção na obra de um autor. Entrei na livraria localizada no saguão do cinema, sem a mínima premeditação de comprar qualquer coisa. Mas lá estava, entre outros tantos livros, este “Romancista como vocação”, de Haruki Murakami, escritor japonês. Já tivera algumas referências dele na internet e desejava mesmo, algum dia, ler por exemplo, “Norwegian Wood”. Tomei o volume nas mãos, folheei-o, verifiquei o índice, li as orelhas e a quarta capa e o comprei. Vai funcionar como uma espécie de complementação do filme. Ali mesmo na cafeteria, perto da bilheteria e em frente à livraria, servindo-me de uma xícara de espresso e um bom pão-de-queijo, iniciei a leitura do volume. Hoje, terminada a leitura, passo a resenhá-la. Gostaria de dar um abraço caloroso no autor.

Haruki Murakami nasceu na cidade de Kyoto, em janeiro de 1949. Vive atualmente nas proximidades de Tóquio. Antes de se tornar escritor, em 1974, Haruki abriu um bar de jazz (ano em que ele terminara a faculdade de estudos teatrais). Aos vinte e nove anos, escreveu seu primeiro livro, tendo como escritório a cozinha – mais precisamente a mesa da cozinha –, utilizando-se de caderno e lápis. Nascia, assim, Ouça a canção do vento. O livro ganhou o prêmio de uma importante revista literária e foi publicado. Entretanto, a obra que o tornou conhecido efetivamente foi Norwegian Wood, cujo nome faz referência à canção dos Beatles de mesmo nome. Murakami já ganhou vários prêmios, como Norma Literary Prize (1982), Tanizaki (1985), Yomiuri Prize for Literature: Fiction (1995), Prêmio Franz Kafka (2006), só para citar alguns. Ele também é ardoroso praticante de esportes de resistência, como maratonas e triatlos. Conseguiu terminar sua primeira ultramaratona de cem quilômetros, ao redor do lago Saroma, Hokkaido, Japão.
Este Romancista como vocação tem um texto muito agradável de se ler. Se você, leitor deste blogue, é daqueles que adoram saber algo do autor, gostam de saber como ele pensa, a forma como trabalha e concebe suas obras, certamente vai gostar deste livro. Não é um manual técnico sobre a arte de escrever romances, mas é uma espécie de viagem intelectual do escritor. Os onze capítulos do livros são: I. O romancista é generoso?; II. Início da carreira de romancista; III. Sobre prêmios literários; IV. Sobre originalidade; V. E agora, o que devo escrever?; VI. Ter o tempo como aliado ao escrever romances; VII. Um ato infinitamente individual e físico; VIII. Sobre escolas; IX. Que tipo de personagens vou criar?; X. Para quem escrever?; XI. Ir para o exterior. Novas fronteiras.
Pelos títulos dos capítulos, você já percebeu que o volume não poderia mesmo ser concebido como um manual; não existe, por exemplo, ‘A construção do enredo’, ou ‘O uso do discurso indireto’.
Eis como Murakami inicia seu relato:
“Se eu começar falando sobre romances, vou me estender muito logo de início. Então, por ora, vou falar apenas sobre os romancistas. Acho que esse tema é mais concreto, tem mais visibilidade e é relativamente fácil de ser desenvolvido.
Para ser bem sincero, não podemos considerar os romancistas – pelo menos não todos – sempre íntegros e imparciais. A meu ver, muitos possuem algumas particularidades não muito louváveis, além de hábitos e comportamentos esquisitos (mas não posso dizer isso em voz alta). Porém, independentemente de falar isso ou não, a maioria dos romancistas (cerca de 92%, suponho), inclusive eu, pensa: “O que eu faço e escrevo está certo. Todos os outros escritores estão errados, em maior ou menor grau, exceto alguns casos especiais.” (página 7)
Discorrendo sobre originalidade, o autor nos dá três requisitos básicos:
  •    Possuir um estilo próprio que seja visivelmente diferente do de outros criadores (pode ser som, estilo de escrever, forma ou cor). Só de vê-lo (ouvi-lo) um pouco, deve ser reconhecido (quase que) instantaneamente que se trata de uma expressão sua.
  •     Conseguir renovar o seu estilo por conta própria. O estilo precisa se desenvolver com o tempo. Não pode se manter no mesmo lugar para sempre. E deve possuir uma força de reinvenção espontânea.
  •    Com o tempo esse estilo próprio precisa se tornar um padrão a ser absorvido pela mente das pessoas e deve ser incorporado como parte do critério de avaliação de valores. Ou precisa se tornar uma rica fonte de citação para os futuros artistas. (páginas 52/53)

Às páginas 77/78, Murakami faz uma comparação entre o romancista e o contista (ele também escreve contos):
“Faço mais o tipo corredor de longa distância e, para que várias coisas possam ganhar forma de modo abrangente, necessito de consideráveis quantidades de tempo e espaço.”
E:
“O conto é um veículo ágil e bastante manobrável que pode abarcar os detalhes que não conseguem ser tratados adequadamente nos romances. [...] escrever contos é um treinamento, um passo importante e necessário antes de escrever romances. Talvez eu seja um corredor  de longa distância que, apesar de obter resultados relativamente satisfatórios em corridas de cinco ou dez quilômetros, segue tendo a maratona como objetivo principal.”
Uma proposta de visão de mundo aparece na página 120:
“Se observarmos as coisas apenas do nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.”
Murakami emite um parecer a respeito da criação de personagens que já conhecia de outros autores, como o nosso Erico Verissimo:
“Naturalmente, quem cria os personagens é o autor, mas personagens com vida, no sentido literal da palavra, são aqueles que agem de forma autônoma a partir de determinado momento, tornando-se independentes do seu criador. Não sou o único a dizer isso; com frequência muitos escritores de ficção reconhecem isso. Se esse tipo de fenômeno não ocorresse, escrever ficção seria uma tarefa amarga, árdua e sofrida. Quando o romance começa a deslanchar, os personagens começam a se mover por conta própria, o enredo se desenvolve sozinho e, como resultado, tem início uma situação bastante feliz em que o autor simplesmente escreve o que está se passando na sua frente, diante dos seus olhos. E, em alguns casos, os personagens pegam na mão do autor e o guiam pra um lugar completamente inesperado, nunca imaginado antes.”
A minha paixão pela leitura é evidente, ou não teria criado este blogue para falar exclusivamente dos livros lidos por mim. Desejo realizar uma conspiração leitora e esta mídia é um dos bons caminhos disponíveis para mim. Não deixo, também, de comentar sobre livros com todas as pessoas que tenham um mínimo de sensibilidade aberta ao assunto.
Minha outra paixão é escrever. E posso dizer, portanto, ao criar meus contos, em várias ocasiões posso concordar com Murakami: meus personagens tomam de assalto minhas narrativas e conduzem o enredo a seu bel-prazer.
Haruki Murakami toca a questão abordada por Umberto Eco sobre o leitor-modelo, em sua famosíssima obra Lector in Fabula:
“Falei antes que eu escrevia tendo em mente o leitor imaginário, e acho que ele é sinônimo de leitores em geral. Quando penso no número geral, a imagem fica muito grande e tenho a impressão de que não cabe na minha cabeça; por isso a condenso em um leitor imaginário, no singular.” (página 146)
Todavia, enquanto Haruki pensa o leitor-modelo de modo generalista, Eco é mais pontual, pois seu conceito de leitor-modelo, vigente na cabeça de qualquer escritor, é aquele ser meio abstrato, mas dotado de alguma especificidade. Traduzido, se escrevo um romance de suspense erudito, que se passa na Idade Média, como O Nome da Rosa (ainda faço uma releitura dele e o resenho aqui neste blogue!), pressuponho um leitor com algum conhecimento da Idade Média, que goste de teorias de conspiração e seja fã de romances policiais/de suspense.
Foi muito gratificante ler Romancista como vocação. Recomendo-o fortemente, amigo leitor, mas aviso-o pela segunda vez: é obra para quem goste de contextualização ao redor de um autor.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Resenha: O fio das missangas, de Mia Couto

Resultado de imagem para livro o fio das missangasTítulo original: O fio das missangas
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª ed., 12ª reimpressão
Copyright: 2004
ISBN: 978-85-359-1381-1
Gênero Literário: Contos
Origem: Moçambique
Número de páginas: 154
Bibliografia do autor: Contos – Vozes Anoitecidas, 1986; Cada Homem É Uma Raça, 1990; Estórias Abensonhadas, 1994; Contos do Nascer da Terra, 1997; Na Berma de Nenhuma Estrada, 2001; O Fio das Missangas, 2004. Romances – Terra Sonâmbula, 1992; A Varanda do Frangipani, 1996; Mar Me Quer, 2000; Vinte e Cinco, 1999; O Último Voo do Flamingo, 2000; O Gato e O Escuro, 2001 (literatura infantil); Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, 2002; A Chuva Pasmada, 2004; O Outro Pé da Sereia, 2006; O Beijo da Palavrinha, 2006; Venenos de Deus, Remédios do Diabo, 2008; Antes de Nascer O Mundo, 2009; Pensageiro Frequente, 2010; A Confissão da Leoa, 2012; Mulheres de Cinza (primeiro volume da trilogia As Areias do Imperador), 2015; A Espada e A Azagaia (segundo volume da trilogia As Areias do Imperador), 2016. Crônicas – Cronicando, 1988; O País do Queixa Andar, 2003; Pensatempos- Textos e Opinião, 2205; E Se Obama Fosse Africano? e Outras Interinvenções, 2009. Prêmios – Prémio Nacional de Ficção, 1995; Prémio Virgílio Ferreira, 1999; Prémio Mário António, 2001 (pelo livro O Último Voo do Flamingo); Prémio União Latina de Literaturas Românicas, 2007; Prémio Passo Fundo Zaffarini e Bourbon, 2007; Prémio Eduardo Lourenço, 2012; Prémio Camões, 2013; Neustadt International Prize for Literature, 2014.

António Emílio Leite Couto – o nosso Mia Couto – nasceu na cidade moçambicana de Beira, em 05/07/1955, onde também se escolarizou. Seu pseudônimo tem origem curiosa: ele gosta de gatos e aproveitou como o irmão pequeno pronunciava seu nome; ficou-lhe, então, Mia Couto. Iniciou a ser publicado já aos 14 anos de idade e três anos depois, mudou-se para a capital de Moçambique – à época Lourenço Marques –, hoje Maputo. Ele começou a cursar Medicina na faculdade, mas não terminou, indo até o terceiro ano. É considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique e seu romance, Terra Sonâmbula, é reconhecido como um dos dez melhores livros da literatura africana do século XX.
O fio das missangas contém 29 breves contos de alta carga poética, como se pode conferir no trecho abaixo, transcrito do conto Meia culpa, meia própria culpa:
“Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.” (página 39)
Esta mesma passagem de cima vai servir-nos para comentar outras coisas. Perceberam alguma semelhança de estilo com algum escritor brasileiro, leitores deste blogue? A influência de Guimarães Rosa é bastante nítida e confessada por Mia Couto. Mas não é simples cópia, apropriação indébita, plágio. O escritor moçambicano serve-se do português e o mistura com várias influências de dialetos e línguas nativas de Moçambique. Outro ponto de se notar no mesmo excerto é que o autor instaura uma voz eminentemente feminina a narrar suas histórias (ou estórias).
Couto justifica a escolha do título no introito do livro:
“A missanga, todos a vêem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo.”
Acompanhemos a poesia constante com que Mia Couto exerce sua escrita:
“Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai.  Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.” (página 53, A Despedideira)
Há nesses contos surpreendentes inversões de perspectivas, nas quais fatos corriqueiros são abordados de modo completamente inusitado, devidamente embrulhados com sarcasmo, como no seguinte destaque:
“Sou um qualquer da vulgar raça humana, sem comprovado pedigree, se tiver cabimento em jornal, será nas páginas de anúncios desclassificados. Já o meu cão, ao contrário, é de apurada raça, classe comprovada em certificado de nascença. O bicho é bastante congênito, cheio de hereditariedade. Retriever, filho de retriever, neto de bisneto. Na pura linha dos ancestrais, como os reis em descendência genealógica. Mais caricato é o nome, de tão humano, quase me humilha: Bonifácio. Nome de bicho? Vou ali e não venho.” (página 103, O dono do cão do homem)
Um dos processos de formação de palavras de que dispõe nossa língua portuguesa é o da aglutinação, como no caso, por exemplo, da palavra aguardente (água+ardente, com perda de um dos ‘aa’). Mia Couto utiliza este processo intensamente, criando novos termos como ‘saia almarrotada’ (alma+amarrotada), mulher eferográvida (esférica+grávida), etc. Também o nosso Guimarães Rosa se vale deste recurso, criando imagens complexas.
Em outras vezes, aparecem os jogos de palavras:
“As outras moças esperavam pelo domingo para florescer. Eu me guardava bordando, dobrando as costas para que meus seios não desabrochassem. Cresci assim, querendo que o meu peito mirrasse na sombra. As outras moças queriam viver muito diariamente. Eu envelhecendo, a ruga em briga com a gordura. As meninas saltavam idades e destinavam as ancas para as danças. O meu rabo nunca foi louvado por olhar de macho. Minhas nádegas enviuvavam de assento em assento, em acento circunflexo.” (destaque meu, página 31, A saia almarrotada)
Obviamente, não serão todos os leitores que vão se sentir motivados para a leitura deste O fio das missangas. Não por ser difícil, os textos não contam com palavras rebuscadas, o leitor médio não teria muito o trabalho de ir ao dicionário e desvendá-las. Entretanto, deverá estar disposto a apreender significados novos causados por deslocamentos de sentidos, o que torna a leitura invariavelmente mais reflexiva. Devo deixar claro aqui, não vai nenhuma crítica àqueles que prefiram narrativas de ação, de suspense, ou aquelas nas quais o enredo se destaca como o item mais importante a ser observado. Vejam, por exemplo, os romances policiais; ali, o enredo é tudo.
Inegavelmente, porém, o leitor de Mia Couto – como o de Guimarães Rosa – deverá investir tempo e percepção diante de novos modos de olhar fatos comuns do dia a dia. Por mim, não é todo dia que tenho disposição para literatura deste tipo; há de ser naqueles em que minha sensibilidade esteja receptiva, alinhada com tal proposta e eu esteja disponível para uma leitura mais acurada, mais minuciosa.
Por tudo isto, recomendo o livro. É uma obra extraordinária, de alto valor literário; a prosa poética é, na verdade, uma gênero literário híbrido: não se organiza em estrofes, mas em parágrafos; dos poemas, pode ter as rimas, a métrica, uma voz lírica, figuras de estilo e de pensamento.

Pretendo voltar a ler este O fio das missangas com o mesmo cuidado e aplicação com que o li agora.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Resenha: Perdido Em Marte, de Andy Weir

Resultado de imagem para livro perdido em marteTítulo original: The Martian
Título em Português: Perdido Em Marte
Autor: Andy Weir
Tradutor: Marcello Lino
Editora: Arqueiro
Edição: s/n
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-8041-335-9
Gênero literário: Romance (ficção científica)
Origem: EUA
Bibliografia: Conto – O Ovo (com tradução para o português e The Martian, 2011 – seu primeiro e até agora, único romance.

Andy Weir nasceu em 16/06/1972, na Califórnia, Estados Unidos. Seus poucos dados biográficos na internet dizem que este escritor sempre se interessou por ficção científica. Estudou ciência da computação na Universidade da Califórnia, em San Diego, não tendo, entretanto, se formado naquele curso. Aos 15 anos de idade iniciou-se no mundo do trabalho num laboratório e, desde então, atua como engenheiro de softwares.
Em 2011, autopublicou seu romance The Martian em formato digital pela gigante da área de livros, a Amazon Books (eles têm um programa de autopublicação digital, pela plataforma kindle). Os exemplares foram vendidos a 0,99 cents e logo bateram a casa dos 35 milhões vendidos. Direitos comprados pela Crown Publishing Group, o livro saiu no formato tradicional, em papel. Tornou-se um sucesso de vendas. Consta que, embalado pela enorme aceitação do seu trabalho pelo público, Andy está trabalhando no seu segundo romance.
Li as 335 páginas que compõem o texto deste Perdido em Marte em dois dias e meio, enquanto uma chuvinha persistentemente irritante caía lá fora, numa praia do Espírito Santo. Praia com chuva não dá, todo mundo sabe disso, e isso explica minha dedicação ao livro.
Mark Watney é um dos astronautas da missão Ares 3 que pretende colonizar o nosso vizinho planeta Marte. É um projeto para vários voos tripulados, rigorosamente planejado, com o envio primeiro de aparelhos que garantirão a sobrevivência do homem ali, com tanta segurança quanto possível. Não obstante, logo de cara acontece o primeiro grande problema: uma terrível tempestade de areia, que comumente varre a superfície do planeta, causa danos ao sistema de comunicação do acampamento e obriga o abortamento da missão. Mark sofre um acidente, seu traje é perfurado por uma vareta de metal, inutilizando a transmissão dos dados biológicos do seu traje espacial. Ainda de quebra, causa-lhe um ferimento no flanco. O grupo, sem contato com Mark, andando quase às cegas em meio a toda aquela areia suspensa no ar, acaba por dá-lo como morto e o deixa para trás, iniciando seu retorno à Terra.
Entretanto, Mark não morrera. O sangue que escorria da ferida em seu corpo coagula-se ao redor da vareta e veda a perda de oxigênio. O nosso astronauta, então, recupera pouco a pouco a consciência; examina o computador do seu traje, aquele que trasmite seus dados biológicos aos companheiros de jornada: está irremediavelmente quebrado. Experiente, sabe que sua única chance de sobrevivência imediata é retornar ao acampamento. Em segurança, dentro do alojamento, ele se aplica uma anestesia local, retira a vareta e dá os pontos necessários para a cicatrização. O tratamento incluirá repouso, alimentação e a ingestão de antibióticos.
A partir deste desastre inicial, o livro passa a narrar a história do ponto de vista de três núcleos: primeiro, o de Mark Watney e sua luta para sobreviver num planeta que “insiste em matá-lo”; segundo, o da nave Hermes, com o restante da tripulação de retorno à Terra; terceiro, a equipe da Nasa, que tudo monitora pelo sistema de comunicação e pelos satélites geoestacionários na órbita de Marte.
Perdido em Marte é dividido como um diário, com o tempo marcado não em anos (a duração do ano em Marte não é a mesma da Terra), mas em sóis; inicia-se em Sol 6:
“Estou ferrado.
Essa é a minha opinião abalizada.
Ferrado.
Seis dias após o início daqueles que deveriam ser os dois meses mais importantes da minha vida, tudo se tornou um pesadelo.
Nem sei quem vai ler isto. Acho que alguém vai acabar encontrando. Talvez daqui a cem anos.
Que fique registrado: não morri em Sol 6. O restante da tripulação certamente achou que eu tivesse morrido, e não posso culpá-los. Talvez decretem um dia de luto nacional em minha homenagem e minha página na Wikipédia vá dizer: “Mark Watney foi o único ser humano que morreu em Marte. ”
E, provavelmente, isso estará correto. Porque, sem dúvida, vou morrer aqui. Só que não em Sol 6, como todo mundo está achando. ” (página 9, capítulo 1)
São vários elogios rasgados a esse Perdido em Marte. Vários blogues, vários leitores, algumas análises em revistas como a Veja.
Lá fora a chuvinha chata e fina continuava. A leitura já estava bem adiantada, lá pelas páginas 80.
“Meu Deus, pensei com meus botões (expressão antiga essa, não? Hoje em dia usamos t-shirts que não têm botões), o que será que está acontecendo? ” Pouco a pouco, ia ficando convencido de que o livro em minhas mãos teria de ser lido à base de disciplina e do desejo ferrenho de ir até o fim. Queria, de fato, resenhá-lo, tinha assumido este prévio compromisso comigo mesmo. Além do mais, o livro é emprestado, já estou com ele há muito tempo e tenho o dever moral de devolvê-lo.
Já havia assistido ao filme do mesmo nome, com a direção de Ridley Scott. Dormi boa parte da sessão. Mas, é aquela história: filme é diferente de livro. Duas realizações culturais que requerem linguagens diferentes. Nem sempre um bom filme veio de um bom livro, ou vice-versa, etc., etc., etc.
Preferências livrescas não são mais que opiniões, e opiniões, cada um tem a sua. Não estava gostando do livro. E isso não tinha nada a ver com o gênero ficção científica. Aqui mesmo, resenhados no blogue, adorei o Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller, Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick...
Mark Watney é uma versão espacial, perdida em Marte, de McGyver. Isto equivale dizer que, do inverossímil, nosso herói consegue tirar soluções aparentemente tecnológicas (estão mais para “mágicas”), em sacadas geniais, impossíveis para os mortais comuns. E – é claro – os elementos a partir dos quais a mente privilegiada de Watney-McGyver enxerga a possibilidade de solução estão ali mesmo, na cena, convenientemente dispostos. Alguém lá em cima deve gostar muito, mas muito mesmo, de Mark Watney-McGyver.
Para sobreviver, nosso herói opta por plantar batatas. Elas são abundantes na ração dos astronautas, Mark é botânico. Resolve fácil o problema: pega um pouco de terra do planeta Terra (não tenho culpa se o nome do planeta é o mesmo do elemento que o compõe), mistura com a terra de Marte, adiciona escatologicamente bastante cocô. O próximo problema, o da irrigação do plantio, é uma das sacadas à McGyver:
"Cada molécula de hidrazina [o combustível dos motores] tem quatro átomos de hidrogênio. Portanto, cada litro de hidrazina contém hidrogênio suficiente para dois litros de água." (página 31)
Como se vê, a solução será conseguir a eletrólise de um combustível altamente explosivo como a hidrazina por meio de... uma descarga elétrica que poderá explodir tudo. Obviamente, Watney-McGyver tem pleno êxito na empreitada e consegue, afinal, a água necessária à irrigação dos tubérculos. 
“Preciso racionar as minhas AEVs [passeios lá fora, com o traje espacial], assim como estou fazendo com a comida. Não é possível limpar os filtros de CO². Uma vez saturados, não servem mais. A missão calculou uma AEV de quatro horas por tripulante por dia. Por sorte, os filtros de CO² são leves e pequenos, então a Nasa se deu ao luxo de mandar mais do que necessário. No total, tenho filtros de CO² para 1.500 horas de uso. Depois disso, qualquer AEV que eu fizer terá de ser administrada através da redução drástica do ar.” (página 18)
O livro tem inúmeros trechos assim, como o transcrito acima, altamente didáticos, mas eu não quero um livro didático no momento em que estou lendo Perdido em Marte. Descrição de reações químicas enxameiam o livro; tudo bem explicadinho. Eu posso entender a função de tais explicações: a necessidade de parecer sério, verdadeiro. Mas... isto produz um ritmo frouxo na narrativa. Ao texto falta uma respiração mais constante, mais adrenalínica. Esta inabilidade no controle da respiração do texto vai se tornar crítica na pressa com que o autor compõe as cenas finais do livro. Tudo acontece abruptamente agora, como se o autor quisesse se livrar logo da história.
Como disse, a narrativa é conduzida alternadamente pelos três núcleos dramáticos, o da Hermes, o de Watney em Marte e o da Nasa, na Terra. Todos personagens planos, sem conflitos internos. A maioria dos autores sabe dosar tais conflitos, normalmente reservando ao protagonista e ao antagonista uma maior intensidade psíquica. Portanto, me incomodou que todos – absolutamente todos – os personagens do livro sejam tão absolutamente planos. É intrigante que Mark Watney, após passar o diabo no adverso planeta Marte, psiquicamente seja o mesmo durante toda a história. Nada o modificou?! Nada lhe acrescentou nada?! Diante da morte certa, nenhum desespero?! Ascético demais para o meu gosto!
Andy Weir tenta tornar leve sua saga marciana com sarcasmo:
“Sim!” Eles disseram “sim”!
Não fico tão empolgado com um “sim” desde o baile de formatura!
Tudo bem, calma.
Tenho uma quantidade ilimitada de papel à disposição. Esses cartões eram para etiquetar lotes de amostras. Tenho cerca de cinquenta cartões. Posso usar os dois lados e, se necessário, posso reutilizá-los raspando a pergunta antiga.
A caneta vai durar muito mais que os cartões, portanto tinta não é um problema. Mas tenho que escrever sempre no Hab. Não sei de que porcaria alucinógena é feita essa tinta, mas tenho quase certeza de que evaporaria na atmosfera de Marte.” (página 112)
O problema é: levar esse sarcasmo a enésimo grau é terrivelmente estafante. Perde-se o efeito de imprevisto, que responde por boa parte da graça de um sarcasmo. Andy peca pelo excesso.
Estou em Sol 3, já não chove mais lá fora, mas o dia está nublado. Terminei de ler o livro por volta das duas horas da tarde. Pode ser, a minha intensa carga de leitura tenha tornado previsível o final previsível. Sem surpresas.
Perdido em Marte não é um livro horrível. Nem mesmo sofrível. Padece das mesmas coisas presentes em muitos Best-sellers. Muitas vezes, acontece o descuido do próprio autor, sabedor de que está produzindo para um público não desejoso de ater-se a detalhes de construção de enredo, de caracterização de personagens. É um livro bom se você ficar na complacente categorização de “entretenimento”.
Receio que o errado aqui seja eu. Não sou um profundo estudioso de literatura (atenção, estou assumindo que coisas como ficção científica, romance policial não sejam subgêneros, mas gêneros literários válidos), mas indiscutivelmente, minhas expectativas, meu gosto no tocante às leituras são fortemente influenciados pela experiência de vida, alguns conhecimentos mais técnicos, e uma forte carga de leitura.
Por fim, não resisto a um bom jeu de mot (jogo de palavra):  Mark Watney, “ao vencedor, as batatas! ”