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sábado, 27 de maio de 2017

Resenha: Romancista Como Vocação, de Haruki Murakami

Resultado de imagem para livro romancista como vocaçãoTítulo original: Hokugyo Toshite No Shosetsuka
Título em português: Romancista Como Vocação
Autor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Edição: s/n
Copyright: 2015
ISBN: 978-85-5652-038-8
Bibliografia (incompleta): Ouça a canção do vento, 1979; Pinball 1973, 1980; Caçando carneiros, 1982; Norwegian Wood, 1987; Kafka à beira-mar, 2002; Dance dance dance, 1988; O incolor Tsukuro Tazaki, 2013; 1Q84 (três volumes), 2009; Após o anoitecer, 2004; De que eu falo quando falo de corrida, 2008 ; Minha querida Sputnik, 1999. 

Tinha acabado de assistir à produção hispano-argentina “O Cidadão Ilustre”; ainda sob a impressão positiva do filme – um filme ótimo que cutuca o expectador o tempo todo sobre a grande questão de a que serve a literatura. Outro subtema pinçado, a questão do limite entre o que é realidade e ficção na obra de um autor. Entrei na livraria localizada no saguão do cinema, sem a mínima premeditação de comprar qualquer coisa. Mas lá estava, entre outros tantos livros, este “Romancista como vocação”, de Haruki Murakami, escritor japonês. Já tivera algumas referências dele na internet e desejava mesmo, algum dia, ler por exemplo, “Norwegian Wood”. Tomei o volume nas mãos, folheei-o, verifiquei o índice, li as orelhas e a quarta capa e o comprei. Vai funcionar como uma espécie de complementação do filme. Ali mesmo na cafeteria, perto da bilheteria e em frente à livraria, servindo-me de uma xícara de espresso e um bom pão-de-queijo, iniciei a leitura do volume. Hoje, terminada a leitura, passo a resenhá-la. Gostaria de dar um abraço caloroso no autor.

Haruki Murakami nasceu na cidade de Kyoto, em janeiro de 1949. Vive atualmente nas proximidades de Tóquio. Antes de se tornar escritor, em 1974, Haruki abriu um bar de jazz (ano em que ele terminara a faculdade de estudos teatrais). Aos vinte e nove anos, escreveu seu primeiro livro, tendo como escritório a cozinha – mais precisamente a mesa da cozinha –, utilizando-se de caderno e lápis. Nascia, assim, Ouça a canção do vento. O livro ganhou o prêmio de uma importante revista literária e foi publicado. Entretanto, a obra que o tornou conhecido efetivamente foi Norwegian Wood, cujo nome faz referência à canção dos Beatles de mesmo nome. Murakami já ganhou vários prêmios, como Norma Literary Prize (1982), Tanizaki (1985), Yomiuri Prize for Literature: Fiction (1995), Prêmio Franz Kafka (2006), só para citar alguns. Ele também é ardoroso praticante de esportes de resistência, como maratonas e triatlos. Conseguiu terminar sua primeira ultramaratona de cem quilômetros, ao redor do lago Saroma, Hokkaido, Japão.
Este Romancista como vocação tem um texto muito agradável de se ler. Se você, leitor deste blogue, é daqueles que adoram saber algo do autor, gostam de saber como ele pensa, a forma como trabalha e concebe suas obras, certamente vai gostar deste livro. Não é um manual técnico sobre a arte de escrever romances, mas é uma espécie de viagem intelectual do escritor. Os onze capítulos do livros são: I. O romancista é generoso?; II. Início da carreira de romancista; III. Sobre prêmios literários; IV. Sobre originalidade; V. E agora, o que devo escrever?; VI. Ter o tempo como aliado ao escrever romances; VII. Um ato infinitamente individual e físico; VIII. Sobre escolas; IX. Que tipo de personagens vou criar?; X. Para quem escrever?; XI. Ir para o exterior. Novas fronteiras.
Pelos títulos dos capítulos, você já percebeu que o volume não poderia mesmo ser concebido como um manual; não existe, por exemplo, ‘A construção do enredo’, ou ‘O uso do discurso indireto’.
Eis como Murakami inicia seu relato:
“Se eu começar falando sobre romances, vou me estender muito logo de início. Então, por ora, vou falar apenas sobre os romancistas. Acho que esse tema é mais concreto, tem mais visibilidade e é relativamente fácil de ser desenvolvido.
Para ser bem sincero, não podemos considerar os romancistas – pelo menos não todos – sempre íntegros e imparciais. A meu ver, muitos possuem algumas particularidades não muito louváveis, além de hábitos e comportamentos esquisitos (mas não posso dizer isso em voz alta). Porém, independentemente de falar isso ou não, a maioria dos romancistas (cerca de 92%, suponho), inclusive eu, pensa: “O que eu faço e escrevo está certo. Todos os outros escritores estão errados, em maior ou menor grau, exceto alguns casos especiais.” (página 7)
Discorrendo sobre originalidade, o autor nos dá três requisitos básicos:
  •    Possuir um estilo próprio que seja visivelmente diferente do de outros criadores (pode ser som, estilo de escrever, forma ou cor). Só de vê-lo (ouvi-lo) um pouco, deve ser reconhecido (quase que) instantaneamente que se trata de uma expressão sua.
  •     Conseguir renovar o seu estilo por conta própria. O estilo precisa se desenvolver com o tempo. Não pode se manter no mesmo lugar para sempre. E deve possuir uma força de reinvenção espontânea.
  •    Com o tempo esse estilo próprio precisa se tornar um padrão a ser absorvido pela mente das pessoas e deve ser incorporado como parte do critério de avaliação de valores. Ou precisa se tornar uma rica fonte de citação para os futuros artistas. (páginas 52/53)

Às páginas 77/78, Murakami faz uma comparação entre o romancista e o contista (ele também escreve contos):
“Faço mais o tipo corredor de longa distância e, para que várias coisas possam ganhar forma de modo abrangente, necessito de consideráveis quantidades de tempo e espaço.”
E:
“O conto é um veículo ágil e bastante manobrável que pode abarcar os detalhes que não conseguem ser tratados adequadamente nos romances. [...] escrever contos é um treinamento, um passo importante e necessário antes de escrever romances. Talvez eu seja um corredor  de longa distância que, apesar de obter resultados relativamente satisfatórios em corridas de cinco ou dez quilômetros, segue tendo a maratona como objetivo principal.”
Uma proposta de visão de mundo aparece na página 120:
“Se observarmos as coisas apenas do nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.”
Murakami emite um parecer a respeito da criação de personagens que já conhecia de outros autores, como o nosso Erico Verissimo:
“Naturalmente, quem cria os personagens é o autor, mas personagens com vida, no sentido literal da palavra, são aqueles que agem de forma autônoma a partir de determinado momento, tornando-se independentes do seu criador. Não sou o único a dizer isso; com frequência muitos escritores de ficção reconhecem isso. Se esse tipo de fenômeno não ocorresse, escrever ficção seria uma tarefa amarga, árdua e sofrida. Quando o romance começa a deslanchar, os personagens começam a se mover por conta própria, o enredo se desenvolve sozinho e, como resultado, tem início uma situação bastante feliz em que o autor simplesmente escreve o que está se passando na sua frente, diante dos seus olhos. E, em alguns casos, os personagens pegam na mão do autor e o guiam pra um lugar completamente inesperado, nunca imaginado antes.”
A minha paixão pela leitura é evidente, ou não teria criado este blogue para falar exclusivamente dos livros lidos por mim. Desejo realizar uma conspiração leitora e esta mídia é um dos bons caminhos disponíveis para mim. Não deixo, também, de comentar sobre livros com todas as pessoas que tenham um mínimo de sensibilidade aberta ao assunto.
Minha outra paixão é escrever. E posso dizer, portanto, ao criar meus contos, em várias ocasiões posso concordar com Murakami: meus personagens tomam de assalto minhas narrativas e conduzem o enredo a seu bel-prazer.
Haruki Murakami toca a questão abordada por Umberto Eco sobre o leitor-modelo, em sua famosíssima obra Lector in Fabula:
“Falei antes que eu escrevia tendo em mente o leitor imaginário, e acho que ele é sinônimo de leitores em geral. Quando penso no número geral, a imagem fica muito grande e tenho a impressão de que não cabe na minha cabeça; por isso a condenso em um leitor imaginário, no singular.” (página 146)
Todavia, enquanto Haruki pensa o leitor-modelo de modo generalista, Eco é mais pontual, pois seu conceito de leitor-modelo, vigente na cabeça de qualquer escritor, é aquele ser meio abstrato, mas dotado de alguma especificidade. Traduzido, se escrevo um romance de suspense erudito, que se passa na Idade Média, como O Nome da Rosa (ainda faço uma releitura dele e o resenho aqui neste blogue!), pressuponho um leitor com algum conhecimento da Idade Média, que goste de teorias de conspiração e seja fã de romances policiais/de suspense.
Foi muito gratificante ler Romancista como vocação. Recomendo-o fortemente, amigo leitor, mas aviso-o pela segunda vez: é obra para quem goste de contextualização ao redor de um autor.
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