Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Je Ne Parle Pas Français, de Katherine Mansfield

Resultado de imagem para livro je ne parle pas françaisTítulo Original: Je Ne Parle Pas Français
Autora: Katherine Mansfield
Tradutora: Juliana Cupertino
Editora: Revan
Edição: 2ª edição, 1ª reimpressão
Copyright: 1974
ISBN: 9788571060685
Gênero Literário: Contos
Origem: Literatura Inglesa
Bibliografia da autora: In a german pension (Numa pensão alemã), 1911; The garden party and other stories (A festa e outros contos), 1922; The dove’s nest and other stories Ninho de pomba e outros contos), 1923; Bliss and other stories (Felicidade e outros contos), 1923; Poems, 1923; Something childish, 1924; The journal of Katherine Mansfield, 1927; The letters of Katherine Mansfield (dois volumes), 1928/1929; The Aloe, 1930; Novels and novelists, 1930; The short stories of Katherine Mansfield, 1937; The scrapbook of Katherine Mansfield, 1939; The collected stories of Katherine Mansfield, 1945; Letters to John Middleton Murry, 1913-1922; The urewera  notebook, 1978; The critical writings of Katherine Mansfield, 1987; The collected letters of Katherine Mansfield, (4 volumes), 1984-1996.

Katherine Mansfield nasceu Kathleen Mansfield Beauchamp, em 14/10/1888, em Wellington, Nova Zelândia Britânica – hoje Nova Zelândia. Nascida em família colonial, era filha de um banqueiro e prima da autora Condessa Elizabeth von Armim. Em criança teve uma infância solitária e alienada. Seus primeiros escritos apareceram no High School Journal e na revista do Colégio para Garotas de Wellington, em 1898 e 1899. No ano de 1902, Katherine mudou-se para Londres, frequentando o Queen’s College. O curioso é que ela não mostrava interesse, inicialmente, pela literatura; era violoncelista de talento. Somente a partir de sua volta para a Nova Zelândia, em 1906, que se interessou pela arte de escrever contos. Enfastiada pela vida naquele lugar, Mansfield retorna a Londres em 1908. Aí participa do famoso Grupo de Bloomsbury – um grupo formado por vários artistas com uma proposta nitidamente antivitoriana, conhecida por ter valores sociais muito rígidos e formais. Entrega-se, como era muito usual ao grupo contestatório, a relações bissexuais e à vida boêmia.
Em um período de apenas três semanas, conheceu seu primeiro marido, George Bowden, casou-se e separou-se dele. A escritora ficou grávida de uma relação com o violonista profissional e seu amigo, Garnet Trowell. Katherine perde o bebê em 1909. Ao retornar à Inglaterra, publica seu primeiro trabalho, In a german pension (Numa pensão alemã), sob o nome modificado de Katherine Mansfield. Neste período, ela acaba por contrair gonorreia, o que a faz sofrer de uma artrite pelo resto de sua curta vida, além de ela passar a se considerar “uma mulher suja”. Katherine Mansfield morre a 09/01/1923, aos 34 anos de idade (com provavelmente tuberculose).
Demorei-me um pouco mais na biografia dessa autora exatamente por ela ser pouco conhecida no Brasil. Eu mesmo já tinha ouvido falar de Katherine Mansfield, em uma ou outra obra crítica, mas nunca havia lido nada dela antes. Na verdade, meu contato com nossa autora se deu quando resenhei, para este blogue o livro de Virginia Woolf, Mrs. Dalloway.  É que Mansfield e Woolf foram amigas, participantes do mesmo Grupo de Bloomsbury. Aliás, segundo consta, Virginia disse sentir inveja da qualidade da escrita da amiga.
É impressionante o silêncio em torno desta autora neozelandesa, no Brasil. Katherine Mansfield é uma contista – algo em torno de 88 contos formam sua bibliografia; talvez esteja aí o motivo pelo qual seja pouco conhecida entre nós: contos não fazem muito sucesso por terras brasileiras.
Je ne parle pas français e outros contos é o meu livro de entrada na literatura de Katherine. Compõem o volume: Na praia, A casa de bonecas, Cenas, Je ne parle pas français, O homem indiferente e A mosca. É impressionante a capacidade desta contista em, partindo de histórias com situações tão pequenas, do dia-a-dia, conseguir montar trabalhos tão bons. Utiliza algumas técnicas narrativas que serão, mais tarde, exploradas pela literatura modernista. Assim, temos o fluxo de consciência:
“De Lottie”, murmurou com brandura. “Pobre querida... tanto transtorno... pé esquerdo... Ela pensou... neurite... Doutor Blyth... pé chato... massagem... tantos pintarroxos este ano... criada muitíssimo satisfatória... coronel indiano... cada grão de arroz separado... tempestade de neve muito forte.” E seus grandes olhos iluminados ergueram-se da carta. “Neve, Robert! Imagine!” Ela tocou as violetinhas escuras e presas ao peito e voltou à carta.” (conto O homem indiferente, página 112)
Um bom exemplo de como Mansfield consegue extrair de uma situação corriqueira uma incrível carga dramática está no conto A mosca. Neste texto, um homem observa uma pequena mosca que caiu dentro do tinteiro que ele tem sobre a mesa. Resgata-a e a depõe sobre o mata-borrão e a observa:
“Ela é um demoniozinho corajoso, pensou o chefe. Sentia uma real admiração pela bravura da mosca. Aquele era o modo de atacar as coisas; aquele era o espírito correto. Jamais entregar os pontos; era tudo uma questão de... Mas a mosca havia novamente terminado sua laboriosa tarefa...” (conto A mosca, página 130)
Possivelmente, você, leitor pensou ao ler este trecho transcrito: peraí, já li alguma coisa neste mesmo tom... e, puxando pela memória, você terá um insight: já sei: Clarice Lispector! Brilhante argúcia, a sua, caro leitor! Clarice deixou seu depoimento por escrito:
“Com o primeiro dinheiro que ganhei, entrei, muito altiva, numa livraria para comprar um livro. Aí mexi em todos, e nenhum me dizia nada. De repente eu disse: ‘Ei, isso aí sou eu!’ Eu não sabia que Katherine Mansfield era famosa, descobri sozinha. Era o livro Felicidade.” (na apresentação Sofisticada Simplicidade, página 7)
A abertura do conto At the Bay (Na Praia) pode nos dar uma ideia do poder detalhista desta neozelandesa:
“De manhã bem cedo. O sol ainda não surgira, e Crescent Bay ocultava-se em meio à branca neblina que vinha do mar. As grandes colinas cobertas de arbustos, ao fundo, permaneciam enevoadas, e não se podia ver onde elas terminavam nem onde começavam as pastagens o os bangalôs. A estrada de areia desaparecera, assim como tudo o mais por trás dela, os pastos, as chácaras; mais além, não havia dunas brancas, cobertas de vegetação rasteira avermelhada. Nada que distinguisse o que era praia do que era mar. Um pesado orvalho havia caído. A grama estava azul. Grandes gotas a ponto de despencar pendiam dos ramos; o toi-toi prateado e peludo oscilava molemente em sua longa haste e, nos jardins das casas, a umidade curvava para o chão todos os malmequeres e cravos.” (conto Na Praia, página 13)
Habilmente, por meio da inserção de detalhes precisos e preciosos, Mansfield cria a tensão narrativa, seus personagens passam por verdadeiras epifanias (ou revelações), e conduz o interesse pela leitura até o desfecho. Nossa escritora tem vários dos seus contos incluídos entre as verdadeiras pérolas da literatura de todos os tempos. E como é difícil, leitor, escrever contos! Eles têm de ser uma narrativa equilibrada; nada de personagens demais, nada de underplots (sub-enredos que convergem para o plot). É quase sempre, pelo menos entre os mestres do assunto, um texto enxuto, com uma respiração própria que se acelera rapidamente para de novo relaxar-se ao final.
No Brasil, a editora Revan mantém cinco coletâneas de contos de Mansfield em constante disponibilidade: A Festa e Outros Contos, Aula de Canto e Outros Contos, Je Ne Parle Pas Français e Outros Contos, Numa Pensão Alemã e Outros Contos e Felicidade e Outros Contos. Além deles, em catálogo também o volume de Diário e Cartas da autora.
Existe também uma antologia de contos desta escritora, que saiu pela L&PM pocket, intitulada Os melhores contos de Katherine Mansfield e outra, lançada pela editora Record, 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield.

Kahterine Mansfield é uma contista de absurdo talento. Ter tido contato com este Je ne parle pas français foi uma experiência sensorial e intelectual muito prazerosa. Tanto assim que já adquiri o Aula de Canto e Outros Contos.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mil Rosas Roubadas, de Silviano Santiago

Resultado de imagem para livro mil rosas roubadasTítulo original: Mil Rosas Roubadas
Autor: Silviano Santiago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª edição
Copyright: 2014
Gênero Literário: Romance
ISBN: 978-85-359-2454-1
Origem: Brasil
Bibliografia do autor: Os Velhos, 1955; 4 Poetas, 1960; Duas Faces, 1961; Brasil: prosa e poesia (Antologia publicada em Nova York), 1969; Salto, 1970; O Olhar, 1974; Ariano Suassuna (Antologia comentada), 1975; Carlos Drummond de Andrade (ensaios), 1976; Crescendo durante a guerra numa província ultramarina, Uma literatura nos trópicos (ensaios), 1978; Em liberdade (romance), 1981; Vale quanto pesa (ensaios), 1982; Stella Manhattan, 1985; Brasilianische Literatur der Zeit der Militärherrschaft, 1988; Nas malhas da letra (ensaios), 1989; Uma história de família, Viagem ao México, 1993; Cheiro forte, 1995; Keith Jarret no Blue Note (contos), 1996; De cócoras, 1999; Intérpretes do Brasil, 2000; Heranças, 2008; Mil Rosas Roubadas, 2015; Machado (romance), 2016; Genealogia da ferocidade (análise da obra Grande Sertão: veredas).

Mil Rosas Roubadas. Silviano Santiago. O que dizer da obra e do autor? Leitura lenta, reflexiva, mas não sem prazer. Autor, primeiro contato um tanto tardio, já devia tê-lo conhecido antes. Mas nunca é tarde para conhecer um pouco da obra e autor.
Mineiro da cidade de Formiga, nascido em 29/09/1936. Passou por Belo Horizonte aos dez anos de idade; em 1959, laureou-se em Letras Neolatinas. Depois, foi-se embora para o Rio de Janeiro, especializou-se lá em literatura francesa, caminho que o levou ao doutorado pela Universidade de Paris (Sorbonne), com uma tese sobre a importante obra de André Gide, Os moedeiros falsos.
Professor universitário extremamente atuante, lecionou em várias instituições no estrangeiro, participante da conferência em Toronto, Canadá, sobre o projeto de História da Literatura Latino-americana.
Em 2013, recebeu o prêmio Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras e em 2015 o Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa.
Mil Rosas Roubadas não é um livro para leitor iniciante. Digo isto não com o intuito de desanimar ninguém, mas é uma obra madura de um escritor sofisticado, erudito mesmo. A obra não faz concessões à leitura instantânea, sem profundidade. Estruturada em dois níveis – um, macrocósmico, pulsante, das modificações culturais e sociais por que passa o Brasil destes últimos sessenta anos e outro, microcóspico, em que as experiências de certo Zeca e o narrador conduzem o enredo.
Livro de proposta complexa, de difícil classificação de gênero literário: misto de romance, memórias e ensaio. Um tom irônico, muitas vezes sarcástico perpassa estas recordações-ensaios-ficção, deitando ao passado um olhar de análise madura dos fatos e dos sentimentos.
Início:
“Perco meu biógrafo. Ninguém me conheceu melhor que ele.
Nascemos um para o outro aos dezesseis anos de idade, em Belo Horizonte, nos idos de 1952. Ele me distinguiu então com a transparência que fiz também minha e continuei a fazer minha em 2010, quando o vi pela última vez em vida. Estava deitado no leito do Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro. Deitado de costas e com os olhos fechados.
Tomado pelos muito e longos anos de vida e pelo recente tumor cerebral, apelidado carinhosamente por ele de Toninho, e pelas sequelas decorrentes no sistema nervoso, o corpo respira por recurso artificial. Está sendo martirizado pela parafernália de aparelhos computadorizados e luminosos, de onde saem mangueiras sifonadas cinza e azuis e sondas transparentes, energizadas por fios de eletricidade negros.” (página 7)
O doente é o Zeca, “um esfuziante e ferino jornalista cultural, crítico e letrista de música popular”. O narrador, um professor universitário já aposentado que decide escrever sua biografia, como um meio de resgate da profunda amizade entre os dois. Este o plano micro do livro.
Várias passagens de metaliteratura (a literatura usada para falar dela própria ou dos processos de escrita), como se segue:
“Volto atrás e me corrijo. Só assim me absolvo do deslize cometido e espero ganhar o perdão do leitor.
Apoio a mão direita no botão esquerdo do mouse e levo o cursor a caminhar de volta a páginas anteriores do texto. Ao mesmo tempo, procuro refrescar a memória obscurecida pelo correr dos muitos anos.” (páginas 69/70)
O plano macroscópico traça um panorama rico das mudanças socioculturais por que passa o Brasil e por que passa Belo Horizonte:
“Desde abril de 1946, quando o presidente general Dutra proíbe o jogo em território nacional, até aquela data, o majestoso prédio do Cassino estava entregue aos ratos e mendigos. Quando nascíamos e crescíamos para a vida cultural, convivemos todos com o cadáver – envenenado pelos caramujos que transmitem esquistossomose – do lago da Pampulha e com os edifícios às margens, corroídos pelo tempo e ainda belos. Com dia salvava-se apenas o Iate Clube. O cassino mofava, como a excomungada igreja São Francisco de Assis. Desenhada, como os demais prédios do lago, por Oscar Niemayer, a igreja abriga os murais e pinturas de Portinari e os baixos-relevos de Alfredo Ceschiatti. Tinham desparecido os jardins desenhados por Burle Marx.” (página 138)
O caráter ensaístico pode ser localizado, por exemplo, quando Silviano Santiago teoriza sobre as artes cênicas:
“Tenho por mim – e aplico a teoria a ele – que cada aspirante a ator traz consigo um espelho que, embora fique guardado lá dentro e seja demasiadamente humano, mostra imagem objetiva e intrigante da qualidade do seu desempenho como ator. Por trazer reflexo objetivo e intrigante da atuação em cena, o espelho é mais sentimental que cerebral. O forte do espelho interno e sentimental é a escaramuça que arma para o ator que, já em cena aberta e diante da plateia, quer se enxergar a si nele. Será que estou levando bem o trabalho de interpretação do papel? (...) Se em determinado momento da representação a moldura da cena teatral enquadrar a imagem de que o ator não gosta, ele tem de operar no centro do palco o milagre da transmutação. Procura transformar – água em vinho – a imagem de que não gosta em imagem de que gosta, e é só assim que consegue força para dar o máximo de si e atrair a atenção e o aplauso do público. Solto em cena, tem apenas um recurso.” (páginas 116/117)
As citações e confirmações vão permeando a obra. Por exemplo, são várias as referências aos Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes (não é demais lembrar aqui que Silviano traduziu um livro de Alain Robbe-Grillet, Por que amo Barthes.
Uma juventude inconsequente, hedonista, machista e sensual salta das páginas de Mil Rosas Roubadas, na década de 70, em Belo Horizonte:
“A vida íntima da mulher belo-horizontina era matéria de conversa segregada entre machos profissionais e maduros, e não ia além da descrição pormenorizada e capciosa dos dons de caridade sexual oferecidos em total submissão pela fêmea. Ela se entregava em decúbito dorsal ou montada que nem amazona em alazão fogoso. Coitada daquela que, mesmo se branca e pequeno-burguesa, se atrevesse a expor em público a deslealdade masculina, ou luta pela liberdade feminina junto à justiça civil. Algumas levavam tiros, e só seriam julgadas mártires nos distantes e libertários anos 1980.
Nos blues que escutávamos se falava de um cotidiano marcado pela prisão do culpado e pelo julgamento, pela presença decisiva do juiz e do escrivão, falava-se de modo de vida dominado pela vadiagem, pela bebida e pelas drogas assassinas.” (página 204)
Há, bem sei, quem desprestigie a literatura brasileira, relegando-a um produto cultural de segunda categoria. Poucos dias atrás, li o depoimento de um jovem dizendo que a literatura brasileira só fala de pobres, tem um longo caminho de realização pela frente. Algumas coisas aqui se impõem. Primeiro, de que literatura brasileira se está falando? Ela é tão vária, trata de tantos temas diferentes. Fico me perguntando a que obras este jovem teve acesso, para tal julgamento disparatado. Eu poderia dizer que não gosto de literatura africana sob a alegação de que ela só fala de guerras civis?
É óbvio que não. Pode ser este um assunto recorrente em vários autores, pois que tal assunto é importante para eles e, longe de limitar a literatura, concede-lhe um caráter de depoimento. Haverá outros assuntos, porém. Até lugar para prosas poéticas, como as de um Mia Couto, de quem gosto muito.
Mil Rosas Roubadas, pelo seu caráter de narrativa ousada, que não se deixa apreender em uma leitura superficial, é muito importante para a literatura nacional. Compõe a galeria das grandes obras referenciais, dignas de constantes leituras. Eu poderia ser levado a criticar os Best-sellers, mas considero esta atitude também um crasso equívoco. Os arrasa-quarteirões literários têm seu público certo e é importante que este público leia, pois é assim mesmo que a gente começa a gostar de ler: lendo o que se gosta de ler. Depois, se gostarmos de desafios mais amplos, livros mais maduros.
Foi dito que Mil Rosas Roubadas pisca um olho para Encontro Marcado, de Fernando Sabino; é que Silviano Santiago conseguiu imprimir em seu romance-ensaio-memória um tom de romance de geração – o mesmo da mais conhecida obra de Sabino.
Fiquei realmente com vontade de reler Encontro Marcado; vão-se anos e anos da minha única leitura da obra.